quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Gomorra

Ficha técnica: Gomorra, 2008
Gênero: Crime, Drama.
Direção: Matteo Garrone. 
Elenco: Salvatore Abruzzese, Salvatore Cantalupo, Gianfelice Imparato, Toni Servillo, Vincenzo Altamura, Maria Nazionale, Ciro Petrone, Marco Macor, Carmine Paternoster. 
País: Itália.
Tempo: 137 min.
Idioma: Napolitano, Italiano.

      Este filme teve a infelicidade de, ao menos no Brasil (não sei ao redor do mundo), ser considerado o Cidade de Deus italiano. Sim, há certa semelhança entre os dois filmes, mas no quesito qualidade, o brasileiro é muito superior. Gomorra foi classificado como um retrato frio, violento e real da máfia italiana na região de Nápoles. Estes elementos estão presentes no filme, evidentemente, mas tanto no quesito violência e talvez no realidade, não são tão próximos como o filme de Meirelles, muito mais violento e por isso, real.
Talvez Garrone (diretor) tenha tido um compreensível receio por sua vida ao filmar Gomorra, algo que Roberto Saviano, autor do livro homônimo no qual o filme se baseia, não teve, tendo em vista que após o sucesso de seu filme, foi jurado de morte pela máfia italiana ali retratada, Camorra.
O filme nos traz cinco diferente histórias, nas quais todas as personagens têm suas vidas afetadas e envolvidas pela Camorra, e nos mostra o quanto esta organização criminosa pode determinar os rumos de todos que ali residem, quer eles queiram ou não se envolver com a organização. Não há qualquer glamour dos filmes hollywoodianos sobre máfias e mafiosos – a maneira que as pessoas se vestem, de se relacionar, as disputas entre as máfias – o cenário é de uma Itália decadente, pobre e violenta, muito bem retratado pelos locais em que se passam as histórias. Este cenário chega a ser uma surpresa para aqueles que vêem a Itália como um dos centros da Europa e do mundo civilizado, local da alta costura, cultura romana e um dos principais centros turísticos do mundo.
Os atores fazem um excelente trabalho, com destaque para o menino Totó (Abruzzese) e para o alfaiate Pasquale (Cantalupo). As histórias todas mostram se relacionadas de certa maneira, e o elo entre elas é a Comorra – e ao final, todos deverão prestar contas aos mafiosos, de alguma maneira.
No entanto, o filme demora a engrenar – as histórias são confusas, e este elo, apesar de perceptível, não nos ajuda a compreender o que se passa. Tampouco há um trabalho para que nos aproximemos das personagens – o menino Totó e os dois jovens que ambicionam chefiar a máfia seriam ótimas oportunidades, mas isso não ocorre. Para aqueles que viram Cidade de Deus, não há cenas tão chocantes, nem mesmo grandes viradas nas vidas das pessoas, em seus princípios ou personalidades. A inevitabilidade do destino de crime e violentos está ali, mas não parece ser tão viril como no caso do longa brasileiro – exceção com a cena final de Totó e Maria.
Enfim, um bom filme, corajoso e excelente por seu formato e roteiro, mas talvez suas histórias poderiam ser mais claros em determinados momentos – ao ficar sem entender o que se passa por um longo período, o espectador pode perder o interesse. Os personagens também mereciam ter seu lado psicossocial melhor trabalhado, principalmente com os excelentes atores ali disponíveis.
Nota 87/100
 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Ficha técnica: The Dark Knight Rises, 2012
Gênero: Drama, Ação, Aventura.
Direção: Christopher Nolan. 
Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Anne Hathaway, Tom Hardy, Marion Cotillard, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Morgan Freeman, Matthew Modine, Ben Mendelson. 
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 164 min.
Idioma: Inglês.

O muito aguardado filme que encerra a trilogia que Nolan produziu sobre o personagem da DC Comics pode dividir opiniões. O segundo filme da franquia foi a melhor adaptação de super heróis já feita para o cinema, criando uma imensa expectativa em todos os fãs da série.
Neste, Nolan traz diversos novos personagens, o que nas mãos de um diretor mediano poderia acabar com o filme, mas não é o que acontece aqui. Ele conduz com maestria estes novos personagens, e as boas atuações (destaque para Levitt-Gordon) incorporam rapidamente os personagens à série.
 Os efeitos e a trilha sonora (Zimmer, excelente como sempre) estão afinados, acrescentando muito ao filme, mas sem roubar qualquer atenção desnecessária, pois há muito conteúdo na história. O silêncio durante a cena de luta entre Batman e Bane é ótimo, tornando a cena ainda mais brutal e real. O mesmo se aplica à última cena entre Bruce Wayne e Alfred, com um show de atuação e dramatização de Michael Caine. A cena do enterro, no final do filme, também é ótima, em que temos Alfred (Caine) devastado, em razão de ter abandonado Wayne no momento em que este mais precisava dele – um erro que o mordomo admite, e nos mostra os erros que mesmo os melhores homens cometem por se envolverem emocionalmente em diversas situações.
O excesso de vilões, apesar de ser um dos grandes (dos inúmeros) defeitos de O Homem-Aranha 3, não pode ser considerado neste aqui, pois a personagem de Cotillard (Miranda Tate) só se revela uma vilão ao final (Talia Al Ghul), sendo uma grande virada e surpresa na história, para aqueles que não conhecem a HQ. E mesmo aos que conheciam, em razão de a revelação ter sido feita no final do filme, talvez nem a esperassem mais. Cotillard que está um pouco decepcionante, aquém de seu potencial.
Outro personagem esperado no filme era Robin, e ele de certa forma aparece. Com o a mesma intenção inicial de manter o filme mais próximo da realidade (um dos pontos fortes da trilogia), este Robin não é um ex-artista de circo e tampouco possui o estigma de moleque – ele é um policial, órfão, que descobre a verdadeira identidade do Batman, mas o admira. O único ponto negativo aqui foi a maneira como a identidade do homem-morcego foi descoberta, ao meu ver um tanto forçada.
Bane realmente foi a escolha certa, acabando com a péssima imagem do vilão deixada pelo filme de Joel Schumacher. Hardy está ótimo, trazendo excelentes questões para o filme, da mesma forma que o Curinga havia feito no filme anterior. Acredito que o trabalho em cima de sua voz tenha atingido o efeito desejado, pois realmente torna o personagem ainda melhor. Ao ler o discurso de Gordon (Gary Oldman) e bater de frente com a Lei Dent, o choque das ideias defendidas no filme é ótimo, mas há uma tendência para um dos lados. O filme pode nos fazer refletir sobre um tema muito atual nas sociedades – privação de liberdades para se obter segurança e a questão carcerária.
A tendência que menciono é o fato de o vilão Bane se apresentar como revolucionário do povo – e de fato, enfrenta os poderosos da cidade, atacando a Bolsa de Valores (e talvez o 1%). No entanto, a tomada do poder por Bane é mostrada como vingativa, banhada no sangue, com base na violência, podendo ser encarada como uma crítica do filme aos movimentos populares, pois não há um desenvolvimento sobre como esse poder está sendo organizado pelo povo durante os meses que se passam.
Hathaway como a Mulher-Gato não decepcionou, esteve muito bem nas cenas de ações. No entanto, seu final romântico não me agradou nem um pouco – acabou tornando-se um dos clichês de filmes de heróis, para satisfazer a todos que gostam de um final feliz comum. O mesmo se aplica ao final de Bruce Wayne – após um filme inteiro em que o personagem esteve perturbado, em grande desvantagem, com inimigos tão forte e inteligentes como ele, seu final feliz acabou buscando consolar os fãs, algo que não aconteceu nos dois filmes anteriores.
Muito se discutiu sobre se a cena final, em que Alfred (Caine) viu Wayne e Selina no café foi uma imaginação ou real. Ao meu ver, não houve uma tentativa de Nolan em criar dúvidas – a cena real, pois Bruce havia consertado o piloto automático, e deu os números do GPS a Blake, para que este encontrasse a Batcaverna, e assim criando uma infinidade de possibilidades para se continuar a história, se assim alguém desejar.
A trilogia em si se firmou como a melhor adaptação de qualquer heroi dos quadrinhos para o cinema. Algumas críticas em razão de os três filmes serem muito interligados e dependentes não procedem, pois ao meu ver, esta é uma de suas qualidades – as ideias, personagens e situações se desenvolvem ao longo da trilogia, tornando-a a melhor trilogia do milênio até o momento. O fato de a Liga das Sombras continuar a ser o “grande inimigo” de o Batman é ótimo, trazendo mais consistência para história, tanto no roteiro, como nos argumentos e liderança dos personagens. 
Fica aqui a crítica à posição do diretor com relação a caracterização final de Bane, como um líder violento e sanguinário, com julgamentos sumários, havendo uma separação maniqueísta entre ele e Batman, que acaba perdendo parte de sua característica de anti-heroi. O homem-morcego vem para salvar e restabelecer a ordem, defendida também por Dent e Gordon – a lei e ordem, pura e simplesmente. A frase de Selina Kyle para Bruce – “como acharam que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto” – foi ótima, uma pena esta questão não ter sido mais trabalhada ao longo do filme, pois a sensação fica de que a ordem buscada pelos "herois" dos filmes (Bruce, Gordon, Dent, Alfred, Fox e até Selina em sua fraca transformação de caráter) é aquela do 1% sobre os 99%, a lógica libral estadunidense.
Nota 87/100

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Encouraçado Potemkin

Ficha técnica: Bronenosets Potyomkin, 1925
Gênero: Drama, História, Guerra.
Direção: Sergei Eisenstein. 
Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov. 
País: União Soviética.
Tempo: 75 min.
Idioma: Russo (Legendas).
  
    Eisenstein é reconhecidamente um dos grandes mestres do cinema, e quando assistimos a uma de suas obras-primas, O Encouraçado Potemkin, compreendemos a razão de sua grandeza.
     O filme nos traz inúmeras inovações para o cinema, com roteiro e principalmente tomadas inovadoras que seriam seguidas por todos os cineastas no futuro. As grandes cenas, filmadas com muitas pessoas, são magistrais – cabe um destaque para a forte e famosa cena da escadaria. A trilha sonora é envolvente, bem como a atuação do elenco.
    As metáforas e alusões à Revolução Russa são inúmeras, bem como a crítica ao regime czarista, que ainda hoje parece atual em diversas sociedades. As fortes cenas são em alguns aspectos chocantes, e uma das grandes mudanças no roteiro com a morte do principal personagem até o momento é inovadora.
     A revolta dos marinheiros no encouraçado nos mostra também outro aspecto de muitas revoluções: elas começam em razão de algo muito concreto, que afeta diretamente a vida dos envolvidos, e não de um grande projeto político-ideológico. Este projeto seria “elaborado e organizado” ao longo dos acontecimentos no caso russo, assim como em muitas situações semelhantes. As tradições, os heróis e a grandeza das revoltas são criadas e estabelecidas após seus acontecimentos.
            Dentre outros aspectos, no contexto em que se apresenta, é um filme fantástico, demonstrando a forte posição política e ideológica do diretor, que não tem medo de externá-la, apesar de defender a separação entre estes aspectos e a sétima arte. O diretor também demonstra, simultaneamente, uma grande habilidade com a câmera, e sua forma até então inédita de dirgir, que iria ditar a moda futura.



Nota 100/100