quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Outra História Americana

Ficha técnica: American History X, 1998
Gênero: Drama, Crime.
Direção: Tony Kaye. 
Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Avery Brooks, Jennifer Lien, Ethan Suplee, Elliott Gould, Fairuza Balk, Stacy Keach, William Russ. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 119 min.
Idioma: Inglês. 
    
       O filme trata de temas muito delicados, que no cinema geralmente acabam criando obras carregadas de estereótipos e senso-comum, muitas vezes com cenas impressionantes, mas sem sentido algum. O filme de Tony Kaye contraria todas essas tendências. 
       Tendo em vista a história americana da luta pelos direitos civis e a tardia consolidação deles para as “imensas minorias” no país, podemos observar um paradoxo na democracia mais antiga do mundo, em que o neonazismo encontra um terreno fértil para florescer, ainda que os próprios estadunidenses tenham sido um dos responsáveis pela derrota do nazismo durante a IIGM.
      O filme traz uma violência chocante para muitos espectadores, mas ao mesmo tempo condizente com as teorias ali apresentadas, e talvez isso o torne ainda mais chocante. Apesar de constantemente ser afirmado pelas personagens que a ideologia neonazista é estúpida e idiota (um dos poucos momentos de senso-comum e banalização), muitos espectadores chegam à conclusão de que há argumentos corretos no que se fala, mas as ações destes grupos são sempre excessivamente extremas. Esse sentimento e a força de muitos argumentos deixam os espectadores mais atentos incomodados com o que ouvem, pois já tivemos inúmeros exemplos de ideologias que conseguem milhões de seguidores e no futuro foram simplesmente classificadas como estúpidas, sem a compreensão e análise de todo o contexto.
      Os diálogos, assim como as cenas em si, são fortes, muito bem escritos, e as excelentes atuações dos atores somada aos closes nos rostos deles feitos pelo diretor tornam as cenas de discussão e relatos (que constituem a maior parte do filme) tão fortes quanto às pesadas cenas de violência. As cenas em preto e branco, quando retratam o passado, também foram uma excelente escolha do diretor.
     Uma das melhores discussões é a cena do jantar na família Vinyard, em que um professor judeu (Gould), Doris (D’Angelo), Davina (Lien), Derek (Norton) e sua namorada (Balk) discutem acaloradamente, até que Derek perde o controle de suas próprias ações e torna-se violento, como é o destino daqueles que seguem ideologias que se baseiam no ódio ao outro. Muitos podem considerar que por um motivo “bobo” (temas sociais; política não se discute), uma discussão de grandes proporções acabou com a família, mas este é um ponto forte do filme: a importância das posições políticas, sociais e ideológicas das pessoas certamente irão definir e serem definidas pelo caráter e conduta destes mesmos indivíduos, há uma relação dialética e inseparável.
            O filme não cai no erro de simplesmente justificar as atitudes de Derek e Danny (Furlong) como mera consequência da morte do pai, numa dura revelação ao mostrar que esta ideologia já estava presente muito antes. Derek nos traz uma fala importante, ao mencionar que Lincoln libertou os negros da escravidão há 150 anos, e mesmo assim eles ainda continuam com a desculpa de “desigualdades sociais, racismo, etc.” Indo além deste argumento, fica evidente para os mais atentos que apenas o fim da escravidão não bastou para superar séculos de opressão. Opressão esta que ainda perdura nos dias de hoje, como o próprio Derek percebeu na prisão conversando com seu colega de trabalho – o preconceito do sistema judiciário, já mencionado pela sua família anteriormente.
Edward Norton está excelente no papel, certamente uma das melhores atuações deste excelente ator. Furlong também está muito bem, assim como todo o elenco. Danny, que a princípio não concordava com os excessos de seu irmão, e se assustou quando ele matou os negros que quebraram seu carro, acaba por abraçar toda a ideologia, talvez para justificar as atitudes do próprio irmão. Ao longo de todo filme, temos sinais de que Danny não concorda plenamente com o que segue, e por isso, ao “mudar de lado” novamente, com a saída do irmão da prisão, não há incoerência alguma.
As personagens são muito bem trabalhadas psicologicamente, a história é densa, violenta e um tanto surpreendente por ser uma incisiva e forte auto-crítica da sociedade estadunidense, algo não muito comum no cinema deles, ao menos nesta intensidade.


Nota 98/100

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