domingo, 31 de agosto de 2014

Os Falsários

Ficha Técnica: Die Fälscher2007.
Gênero: Drama, Guerra.
Direção: Stefan Ruzowitzky.
Elenco: Karl Markovics, August Diehl, Devid Striesow, Martin Brambach, August Zirner, Veit Stübner, Sebastian Urzendowsky, Andreas Schmidt, Tilo Prückner, Lenn Kurdjawizki.
País: Áustria, Alemanha.
Tempo: 98 min. 
Idioma: Alemão, Russo, Inglês, Hebraico.

    A temática da Segunda Guerra e do Holocausto aparecem novamente no cinema, mas desta vez não em Hollywood, e sim na Alemanha. Mas claro que agradou à academia estadunidense, que lhe atribuíram o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ainda que seja um bom filme. Podemos dizer que a Academia Estadunidense de Cinema, talvez por conta de sua composição, tem uma certa queda por estes filmes, principalmente se falam do holocausto judeu.
            Há certa semelhança com o clássico de Spielberg, A Lista de Schindler, visto que apesar de se tratar de um campo de concentração, parte da história gira em torno daqueles que mesmo sendo contrários ao nazismo, acabaram por trabalhar em seu favor. Mas diferentemente de Schindler, neste caso estamos falando dos próprios judeus nos campos de concentração.
     O filme nos traz a história do artista que ganha a vida através da falsificação de dinheiro, o judeu Sorowitsch “Solly”, interpretado muito bem por Karl Markovics. Ao ser pego pela SS, é enviado a um campo de concentração. Seus dotes artísticos lhe garantem sua sobrevivência e inclusive um tratamento mais diferenciado, pois pintava retratos dos oficiais nazistas. Contudo, com a derrota alemã se aproximando, Solly é enviado para Sachsenhausen, um novo campo de concentração, onde irá coordenar uma equipe de judeus na falsificação de passaportes e de notas de libra e dólar para a Alemanha Nazista.
            Seu trabalho é comandado por Herzog, o mesmo oficial que o prendeu no passado, e por conta disso, havia sido promovido. Ele trata Solly e os demais especialistas judeus de forma distinta de como os demais prisioneiros (sobre o comando de outros oficiais) são tratados. Possuem aposentos e comida melhores, descanso e até mesmo lazer, além de não serem torturados fisicamente. O trabalho deles passa a ser cada vez mais importante para o Regime Nazista, visto que a Alemanha estava à beira da falência, perdendo a guerra, e ainda tinha o plano de quebrar a economia britânica e estadunidense através da falsificação, enchendo os mercados financeiros destes países de moedas falsas.
           Após o sucesso com a libra, a SS solicita a falsificação do dólar. No entanto, neste momento passam a surgir as divergências e questões morais e éticas entre os prisioneiros. Eles sabem que o trabalho dele está apoiando o regime alemão, que destrói o seu povo, e principalmente um deles, Burger (excelente atuação de August Diehl), começa a sabotar a fabricação dos dólares. Além disso, mesmo dentro do campo de concentração, eles eram os únicos judeus a serem tratados de forma diferenciada. Isto passa a gerar o dilema ético entre os prisioneiros e a aumentar as tensões entre eles. Ao mesmo tempo, passam a ser pressionados por Herzog (os demais guardas não compartilhavam da filosofia do comandante) e sofrem a ameaça final de serem executados. Muitos queriam entregar Burger aos nazistas, mas Solly os proíbe e falsifica sozinho o dólar, salvando a vida dos companheiros, a contragosto do próprio Burger, que diferentemente de Solly, preferia morrer.
            A tortura psicológica está presente o tempo inteiro – apoiar o nazismo, fingir que nada acontece enquanto ao lado seu povo é executado diariamente, não saber se aquela boa-vontade dos oficiais pode mudar de uma hora para a outra, etc. Mas somente Burger quer lutar e se rebelar. Solly gostava da vida boa, e quer apenas sobreviver, enquanto os demais ou pensam igual, ou apenas têm medo. A grande questão colocada por Burger, que o nazismo somente funcionava porque os prisioneiros cooperavam, tem sim seu fundo de verdade – da mesma forma que na escravidão, se os negros e índios se recusassem a trabalhar, seriam mortos, mas não produziriam nada. No entanto, estes sistemas funcionaram enquanto possível, mesmo com momentos de rebeliões e revoltas. É realmente justo exigir o heroísmo de um indivíduo? É correto condená-lo por apenas querer sobreviver? Eles não estavam assassinando ninguém, nem mesmo a mando de superiores (diferentemente de Herzog, que como muitos oficiais nazistas, afirmaram somente terem cumprido ordens). Apenas fabricavam o que lhe era solicitado.
     Esta foi a maior operação de falsificação da história, conhecida como “Operação Bernard”. Talvez o ponto mais fraco do filme seja tentar ser muito didático. Ao colocar a mesa de ping pong para seus prisioneiros, Herzog explica exatamente a razão (motivação, etc.). Melhor seria deixar a dúvida no ar sobre suas intenções, como no caso do banho (a suspeita de serem assassinados por gás era forte) ou do suicídio de um colega no final (talvez por não ter suportado ver a situação dos outros prisioneiros, quando tomaram o controle do campo). O excessivo didatismo realmente atrapalha um pouco, bem como a já quase exaurida temática do holocausto judeu – no entanto, com relação a isso, há sim inovações. O lado dos judeus que, obrigados ou não, cooperaram com o nazismo; o terror psicológico, de uma forma mais refinada do que geralmente se mostra. E a própria questão da falsificação, algo novo ao menos para mim.

Nota 83/100

sábado, 30 de agosto de 2014

O Lobo de Wall Street

Ficha Técnica: The Wolf of Wall Street2013.
Gênero: Biografia, Comédia, Crime.
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robie, Rob Reiner, Kyle Chandler, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Katarina Cas, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Matthew McConaughey, Brian Sacca, Henry Zebrowski, Jake Hoffman, Shea Whigham.
País: Estados Unidos.
Tempo: 180 min. 
Idioma: Inglês, Francês.

   Este novo filme do gênio Martin Scorsese nos traz um estilo de vida carregado de excessos, e o objetivo é mostrar, de forma excessiva, todos eles no cinema. Certamente, é um longa que constrange a muitos, mesmo aos mais “liberais”. As cenas de sexo e drogas, além de um humor negro em determinados momentos, são fortes. Mas o único excesso que me incomodou foi a duração do filme, demasiado longo e repetitivo, ainda que tenha sido baseado em dois livros que somados possuem mais de mil páginas.
      Este talvez seja o maior defeito do filme, pois em determinado momento o torna muito cansativo. Mas não deixa de ser realmente engraçado, ao menos para aqueles que não o consideram amoral. Houve momentos em que metade do cinema gargalhava, enquanto a outra metade se revoltava por dentro. A direção e a trilha sonora permitem que desfrutemos do aspecto cômico do filme, ainda que também seja feito para chocar a plateia.
            Entretanto, talvez ele acabe apenas por resvalar em qualquer crítica ao estilo de vida de Wall Street, com seus excessos e levando diversas vezes o mundo a crises econômicas – ainda que não se importem com isso. Para os mais críticos, podem perceber que este estilo de vida, através destes meios utilizados para alcançá-lo, talvez não devesse ser tão endeusado. Mas acredito que apenas se o espectador já apresentasse uma tendência em fazer esta análise, é que poderia ser percebido. Uma escolha legítima do diretor e do roteirista, mas uma posição mais contundente neste sentido me agradaria mais. E deixa claro também que este “Lobo” de Wall Street não é, na realidade, nem mesmo realmente parte do sério problema que representam as bolsas de valores e a especulação na economia capitalista internacional.
    As atuações são realmente muito boas. DiCaprio realmente está em seu auge, conseguindo agora circular entre estilos de filmes tão diferentes – dramas, comédias, romances – e entre personagens tão distintos. Hill realmente completa muito bem a dupla, colocando-se como uma das melhores revelações de Hollywood recentemente. Robie faz bem seu papel, Dujardin está excelente e roubando as cenas em que aparece; e cabe destacar também a ponta de McConaughey, que apesar de pequena, foi marcante.
            Apesar de longo, realmente um filme que vale muito ser visto. Possivelmente, se estivesse sido realizado por outro diretor, a crítica não seria tão forte. Mas de Scorsese devemos exigir sempre o melhor – e mesmo quando não obtemos, ainda assim podemos encontrar um bom filme.






Nota 85/100

domingo, 24 de agosto de 2014

Gênio Indomável

Ficha Técnica: Good Will Hunting, 1997.
Gênero: Drama.
Direção: Gus Van Sant.
Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgad, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser, John Mighton.
País: Estados Unidos.
Tempo: 126 min. 
Idioma: Inglês.

    Gênio Indomável é um dos clássicos dos anos 1990. Filme que colocou Matt Damon e Ben Affleck em Hollywood, além de render aos dois um Oscar por melhor roteiro original. Realmente, é um filme com uma história tocante e comovente, ainda que não tenha muita originalidade e continue com seu estilo sendo repetido até hoje. O jovem brilhante, porém rebelde, de infância difícil e tudo mais. É uma história comum, talvez não muito no mundo da matemática, mas temos também no esporte, música, etc. Mas é válido destacar as grandes atuações, a ótima direção e a excelente mensagem que transmite.
      A começar pela produção e direção, o filme consegue transmitir sua carga dramática e envolver o espectador de forma adequada, sem exageros, além de contar com ótimas cenas de humor para alternar com o drama. A trilha sonora é muito boa, além de uma ótima direção. As tomadas de câmera são excelentes, principalmente durante os encontros entre Will Hunting (Damon) e Sean (Williams).
           A atuação de Damon é realmente muito impressionante, dado que estava iniciando sua carreira. Ainda que não tenha sido nada de excepcional, realmente conseguiu fazer as diversas cenas cômicas e dramáticas de forma consistente. Affleck, que se revelou um melhor diretor (Argo) e ator, teve uma atuação adequada, bem como Skarsgard, que se encaixaou bem no papel. Minnie Driver, na pele da namorada Skylar, também faz um ótimo trabalho, conseguindo atuar nas diversas situações. Ela seria o grande destaque dentre os coadjuvantes, se não fosse o excelente trabalho de Robin Williams, no papel do psicanalista Sean. Realmente, uma pena que o falecimento do ator, que tinha um imenso potencial para filmes como este, e que ao meu ver são muito superiores às comédias clássicas. Todos os papeis dele em que é necessária uma pitada (ou mesmo muito) humor, mas sempre aliado a um fundo dramático, foi onde realizou seus melhores trabalhos.
        Com relação à mensagem, ao meu ver é o aspecto mais forte do filme. Não o aspecto do gênio (que é tão improvável que beira à insignificância em termos de uma identificação do espectador), e tampouco a questão da superação. O interessante realmente foi o aspecto do estilo de vida que todos querem: há um que está posto para todos nós (estudar, ganhar dinheiro, reconhecimento, etc.), e sem ele, não saberíamos o que seguir. Também temos o que valorizar: o conhecimento e a inteligência não são obtidos e aprimorados apenas através de livros e estudos – as experiência que temos, estas sim, refletem inclusive em como utilizaremos o que estudamos e aprendemos. A escolha e valor dos amigos e demais pessoas com as quais nos relacionamos também é algo considerado, além do próprio autoconhecimento, algo demonstrado pelas sessões de psicanálise.
       Um filme interessante, que tornou-se um clássico, talvez não pelos mesmos motivos pelos quais podemos considerar um ótimo filme, mas obrigatório para todos que gostam de cinema e apreciam seu aspecto artístico e de entretenimento.


Nota 93/100