domingo, 30 de dezembro de 2012

O Curioso Caso de Benjamin Button

Ficha Técnica: The Curious Case of Benjamin Button, 2008.
Gênero: Drama, Fantasia.
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Julia Ormond, Jason Flemyng, Jared Harris, Elle Fanning, Mahershala Ali, Danny Vinson.
País: Estados Unidos.
Tempo: 166 min. 
Idioma: Inglês. 

     David Fincher é um dos melhores diretores de Hollywood e adora inovar – e inovações podem ser um tremendo sucesso ou fracasso. Este não está entre o melhores filmes do diretor, mas é melhor, por exemplo, do que Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres. 
     O filme trata de um tema comumente abordado pelo cinema – sentimentos humanos ao longo da vida, envelhecimento, morte. Um clássico drama, mas que é contado de uma forma inteiramente nova. A história de um bebê que nasce num corpo já velho, mas que ao invés de continuar a envelhecer a cada dia, como qualquer ser humano, ele rejuvenesce. No entanto, apesar da estranheza, ele também se aproxima da morte a cada dia, como todo ser humano. 
     O filme traz atuações ótimas de Pitt e Blanchett, que demonstram excelente química entre eles, e conseguem dar o tom certo aos personagens ao longo de praticamente uma vida inteira, desde muito jovens até a velhice. Todo o elenco de coadjuvantes também está ótimo, Swinton, Flemyn e Harris acrescentam muito à trama, e o grande destaque vai para Henson. 
      A maquiagem do filme também o coloca em outro patamar, deixando-os velhos, mas sem que percam as características físicas de cada um. Fotografia e efeitos especiais também merecem elogios. O roteiro é muito bom, a forma de narrativa está excelente, ainda que haja muita semelhança com Forrest Gump, tendo em vista que é o mesmo roteirista (Eric Roth). Esta semelhança não é um defeito, mas perde um pouco o caráter de originalidade. 
      O que torna o filme além do ordinário é a maneira que os conflitos pessoais enfrentados pelos seres humanos ao longo da vida nos é mostrada. A questão de como se encarar a morte de pessoas queridas, religião, sentimentos maternos e paternos, envelhecimento, beleza, amor, companheirismo, preconceitos – todos estes elementos estão presentes de forma suave e inusitada, deixando o filme muito forte. 
     Contudo, o protagonista principal é o tempo. A pequena história contada no início do filme é excelente, uma bela metáfora para o que está por vir. E como podemos encarar a passagem do tempo de formas diferentes, com valores diferentes. A cena do acidente de Daisy é ótima, mostrando como a sucessão de simples acontecimentos corriqueiros no espaço-tempo acabam por resultar em algo tão impactante em nossas vidas. O longa também tem a virtude de não tentar explicar a situação de Benjamin de forma alguma, o que se tornaria um absurdo. E que realmente, envelhecer nem sempre pode nos tornar melhores pessoas – continuamos a cometer erros e, acima de tudo, a nunca ter certeza de ter feito a escolha correta em diversas situações.
  Nota 88/100

sábado, 29 de dezembro de 2012

Espelho, Espelho Meu

Ficha Técnica: Mirror Mirror, 2012.
Gênero: Comédia, Fantasia, Aventura.
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sebastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clark, Robert Emms, Mare Winningham, Sean Bean.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 106 min. 
Idioma: Inglês. 

     Foram duas adaptações da história da Branca de Neve e os Sete Anões para o cinema no mesmo ano. O épico de batalha de Branca de Neve e o Caçador e este com um viés mais cômico e infantil. Aquele estrelado por Kirsten Stewart foi terrível; este superou minhas expectativas. Ao menos é melhor que o outro. 
      A história deste foi mais modificada do que no filme dirigido por Rupert Sanders, e na realidade, sem algum propósito. Não a torna mais interessante, mas tampouco a deixa pior. Pode apenas decepcionar aqueles que desejam maior fidelidade à história dos irmãos Grimm. No entanto, o filme cumpre melhor seu objetivo inicial. 
     A tentativa de tornar a talvez mais famosa animação de Walt Disney um épico foi um fracasso, conforme mencionei no post específico do filme. Este ao menos não tentou fazer isso, se mantendo uma comédia (ainda que a maior parte das piadas sejam previsíveis e não muito engraçadas) direcionada ao público infantil, mas que pode agradar aos adultos também. 
    A mudança para dos anões, de mineiros a ladrões, pode ser considerada positiva. Todos trabalharam bem, além de incluírem cenas de ações diferentes em que eles participam. Ainda que depois surja a tentativa de torná-los os novas versões de Robin Hood. O aspecto do preconceito poderia ter sido trabalhado melhor, com a expulsão deles da vila por serem anões e feios. Obviamente, um filme para crianças não poderia tratar Branca de Neve de forma séria, e por isso questões como a pobreza do povo justaposta à riqueza da realeza, monarquia e fixação pela aparência física não estão presentes. No entanto, considero que ao menos algumas lições de moral poderiam ser colocadas, principalmente por ser um filme direcionado às crianças. 
     No futuro, talvez um diretor mais ousado adapte estas histórias de forma mais complexa. O grande destaque deste filme é Julia Roberts. Sua versão da Rainha é realmente excelente. Está sarcástica, irônica e má na medida certa. As melhores cenas são com ela presente, principalmente quando dialoga com o espelho. Na segunda metade do filme, quando Lily Collins assume as rédeas do longa, ele realmente cai em qualidade. Ela está muito apagada e não faz um bom trabalho. Hammer faz uma boa versão do príncipe, que combina com a versão menos machista da história – outro aspecto interessante. O caçador ficou ausente, e com isso qualquer traço de violência da história da Disney desaparece. 
   Um filme que apesar de não ser grandioso – com exceção da produção, com ótimos figurinos e principalmente cenários – atende às expectativas, se elas não forem as de um grande filme. Cumpre com seu objetivo, entreter e contar uma versão um pouco diferente e infantil desta história, que faz uma singela homenagem aos irmãos Grimm.
 
Nota 55/100

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Corvo

Ficha Técnica: The Raven, 2012.
Gênero: Crime, Suspense.
Direção: James McTeigue
Elenco: John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Sam Hazeldine.
País: Estados Unidos, Hungria, Espanha. 
Tempo: 110 min. 
Idioma: Inglês. 

   Impossível não notar a semelhança entre O Corvo e a nova franquia de Sherlock Holmes. Não considero o filme de Holmes excelente, mas ainda assim é melhor do que esta tentativa de cópia. O grande potencial para um excelente filme sobre Poe e seus contos foi jogado fora com essa tentativa. 
     O filme é morno, o grande mistério sobre os crimes é tedioso, além do inusitado e complicado vocabulário escolhido. A revelação do serial killer é desanimadora e clichê ao mesmo tempo. Personagens estão postos aleatoriamente na tela, sem qualquer profundidade. O mesmo se aplica aos crimes – superficialmente analisados. 
     O elenco faz um trabalho razoável. Cusack não compromete, mas poderia acrescentar mais ao filme, visto que tem o papel principal. Gleesson é subaproveitado, a donzela em perigo não é carismática e o detetive é uma versão fraca do Dr. Watson de Jude Law. O Filme está longe do excelente V de Vingança, do mesmo diretor. 
     O filme tenta criar uma atmosfera sombria, em consonância com os contos. Tecnicamente, esta atmosfera está posta, mas o enredo falha miseravelmente em acompanhar este aspecto. É mais um filme de investigação policial do que sobre a história de vida de Edgar Allan Poe, pois não vemos o gênio que foi nem sua conturbada vida pelas perdas pessoais e alcoolismo. Ao menos, o filme pode nos instigar a ler Poe e conhecer seus contos, muitos deles mencionados, além de um deles que serve de base para a história em si. 

Nota 54/100   

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Compramos um Zoológico

Ficha Técnica: We Bought a Zoo, 2011.
Gênero: Drama, Família.
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Matt Damon, Scarlett Johansson, Thomas Haden Church, Colin Ford, Maggie Elizabeth Jones, Angus Macfacdyen, Elle Fanning, John Michael Higgins, Carla Gallo, J.B. Smoove, Stephanie Szostak.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 124 min. 
Idioma: Inglês. 

    Um filme para se ver com a família, cheio de sentimentalismo e algumas cenas cômicas. Esta é uma maneira de sintetizar o mais novo filme de Cameron Crowe – e acredito que tenha sido este o propósito do filme. 
     Com boas atuações de Damon e Johansson e uma menininha que encanta (Jones), o filme busca emocionar a todos, divertir, além de ser carregado pela ideologia do trabalho duro e acreditar nos sonhos. Assim como em outros filmes do diretor, ele começa com um tiro no escuro, uma aposta arriscada de uma pessoa em um novo negócio e é baseado em uma história real. 
     Benjamin Mee é o pai da adorável Rosie (Jones) e do adolescente rebelde Dylan (Ford), que perderam a mãe recentemente. Todos a amavam e sentem muita falta dela. Mee arrisca tudo, gastando todas as suas economias e o dinheiro do seguro da mulher, que ele amava demais, neste zoológico, ainda que seu irmão (Church – ótimo no papel) o aconselhe a não o fazer. É um filme que todos já sabem o final – quem vai se apaixonar por quem, como vai acabar e tudo mais. E o final feliz é para que todos saiam contentes do cinema, acreditando nos sonhos. 
      Há certa dose de drama familiar, mas o diretor prefere não se aprofundar nesse aspecto dos conflitos, da dor de perder uma pessoa amada – o que tornaria o filme muito melhor, a meu ver, mas também não próprio para crianças. Tampouco é abordado o fato de um pai gastar todas as economias da família de forma irresponsável, sendo um grande risco. Os demais personagens estão em diferentes níveis – funcionários do zoológico com grandes e lamentáveis atuações, além do destaque para Church, que nos traz as falas mais engraçadas. 
     Um filme que infelizmente acaba deixando a maior parte dos personagens superficiais, que resolve fortes conflitos de forma natural e rápida, mas no qual podemos ver boas atuações de Damon (mais humano, sem atirar em ninguém, frágil) e Johansson (não apelaram para sua beleza). Se não procura grandes reflexões, apenas relaxar e se divertir, com toda a família, este é o filme ideal.
 

Nota 62/100

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Os Infiltrados

Ficha Técnica: The Departed, 2006.
Gênero: Suspense, Crime.
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Vera Farmiga, Alec Baldwin, Ray Winstone, Anthony Anderson, James Badge Dale, Mark Rolston, David O'Hara.
País: Estados Unidos, Hong Kong. 
Tempo: 151 min. 
Idioma: Inglês. 

      Scorsese no seu melhor! Esse é o maior elogio que se pode fazer ao filme que rendeu a Martin Scorsese, um dos maiores (senão o maior) diretores em atividade, seu primeiro Oscar, um tanto tardio e mais do que merecido. Aqui ele retorna aos filmes que retratam a violência urbana, gênero que o lançou ao sucesso com Taxi Driver e sob o qual ele produziu excelentes obras, como Bons Companheiros. 
       O longa trata sobre dois policiais infiltrados – Billy Costigan (DiCaprio), trabalhando como infiltrado numa organização criminosa para a polícia de Boston; e Colin Sullivan (Damon), um detetive que na realidade está infiltrado na polícia a serviço do líder desta máfia irlandesa, Frank Costello (Nicholson). 
        O enredo é empolgante, causando suspense e mistério na medida certa, com a tradicional violência do diretor, mas que não é desproposital em nenhum momento. Na realidade, torna o filme mais real. A sensação de insegurança e medo que sentimos nas inúmeras delicadas e perigosas situações pelas quais os personagens principais passam são ótimas. E ainda que haja uma diferença de caráter entre bem e mal entre os dois, não podemos fazer muitos julgamentos, pois Sullivan foi desde criança influenciado e criado pelo mafioso, sendo um produto do ambiente criado por ele, conforme o mesmo afirma no início do filme. 
      A história, adaptada de um filme japonês, é repleta de reviravoltas e surpresas, dirigido de maneira sublime. Temos talvez o melhor headshot do cinema nos últimos tempos (ou no mínimo empatado com o de Brad Pitt em Queime depois de ler). Sem dúvida, a melhor sequência deles. Ironias estão presente o tempo inteiro na história, bem como a ação. 
       A trilha sonora é magistral, com músicas dos Stones, Pink Floyd, Lennon e a excelente música tema da banda Dropkick Murphys – Shipping up to Boston. As atuações são espetaculares. Nicholson está excelente e rouba todas as cenas. Seu personagem exala a violência, e percebemos o quão desconfortável é estar ao seu redor. Damon e DiCaprio estão interessantemente parecidos fisicamente (grande sacada), mas ao mesmo tempo não poderiam ser tão diferentes, fazendo o mesmo trabalho (espiões) de forma excelente e tão divergente. Os coadjuvantes estão todos ótimos – Baldwin, Sheen e Winstone fazem ótimo trabalho, e o destaque entre eles vai para Farmiga e principalmente Wahlberg. 
     A forma como o filme nos faz criar expectativas e as destrói sobre seu final é fantástico. Nos proporciona um final não convencional e inesperado, mesmo que estivéssemos preparados para algum grande twist ou uma grande surpresa – muito em razão da forma que o filme se desenvolve. O jogo de câmeras, os flashbacks e as cenas simultâneas em lugares diferentes trabalham numa harmonia fora de série. 
       Além disso, o sarcasmo e as falas de Costello estão entre as melhores do filme. Outro ponto forte são as conversas entre Costigan e a psiquiatra (Farmiga), que nos apresenta uma sutil mas importante crítica ao sistema policial e seus membros. Aliás, esse triângulo amoroso formado pelos protagonistas e ela é excelente, que ao invés de apenas acrescentar algo dramático ou romântico à trama, nos brinda com mais ironias, tensões e um mistério final que não acaba sendo resolvido, para o nosso bem.            
      Também nos serve de excelente exemplo sobre como lidar com as aparências, que realmente podem nos enganar muito além do que imaginamos. Um dos melhores filmes de Scorsese – ainda que não seja algo extremamente profundo, deveria servir de manual em como se fazer um bom filme, com todos os seus elementos harmonizados de forma magistral.

Nota 97/100
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um Estranho no Ninho

Ficha Técnica: One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975.
Gênero: Drama.
Direção: Milos Forman
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Danny de Vito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, Philip Roth, Vincent Schiavelli, William Redfield, Scatman Crothers, William Duell, Nathan George, Sydeny Lassick, Mews Small, Delos V. Smith Jr.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 133 min. 
Idioma: Inglês. 

Este filme é uma obra-prima do cinema. Se não podemos considerá-lo perfeito, ele ao menos beira a perfeição em todos os aspectos. Uma espetacular direção, elenco esplêndido, ótima trilha sonora, roteiro fenomenal. O filme, apesar de ser um intenso drama, também nos faz rir e apresenta críticas à ordem social.
A grande crítica dele é às instituições disciplinares – neste caso, o exemplo é o manicômio, mas podemos estender este conceito às demais, como escolas, prisões e centros de reabilitação. Outro importante aspecto crítico é o fato de muitas vezes “criarmos” nossos próprios loucos ou criminosos – isso é mostrado de maneira sutil, mas muitas vezes nos questionamos sobre se alguns dos que estão internados no manicômio são realmente loucos, se deveriam estar ali e até mesmo se o local apenas agrava o quadro deles. A ideia de prisão psicológica que o lugar exerce também é muito interessante, criando um sistema que oprime mesmo os que estão ali por livre espontânea vontade. 
          O elenco do filme está realmente impressionante. Forman dá a oportunidade de todos apareceram de maneira excelente. Todos os coadjuvantes são ótimos – Sampson está muito bem; de Vito e Lloyd também compõem personagens importantes de forma brilhante, e o maior destaque fica para Dourif, que faz um papel forte de forma brilhante, tanto nos momentos de gagueira e submissão quanto os de raiva explosiva. Aliás, todos fazem muito bem esse papel: momentos de loucura, sanidade, raiva, alegria – todos de forma não caricata e muito bem retratados, tornando o filme magnífico. 
         Os protagonistas roubam a cena. Nicholson faz o papel de sua vida, cheio de energia na medida certa, um perfeito anti-herói. Apesar de estar tentando fugir do trabalho e da prisão, é impossível não nos afeiçoarmos a ele. É um ótimo trabalho apresentá-lo de forma tão humana, capaz de encher de alegria e reivindicações justas um lugar em que o que governa é a exceção e o totalitarismo. Fletcher também encontrou o tom certo de seu personagem, pois apesar de ser impossível não odiá-la (sua voz calma nos irrita ainda mais), ela também demonstra seu lado bom ao querer cuidar de Mac (Nicholson), considerando que está fazendo o melhor para ele e para todos os pacientes. Vale ressaltar que ela também é fruto deste sistema, pois está inserida nesta lógica e deve ter sido moldada pela instituição. 
       Realmente a presença de Mac no manicômio muda tudo – um ex-prisioneiro vem defender seus direitos e de seus colegas, além de demonstrar valores como amizade, fidelidade e companheirismo. As tomadas de Forman também dão um excelente toque, principalmente em seus closes, como no caso da discussão final entre Billy e a enfermeira chefe. A sequência final, com o suicídio, o colapso do protagonista e a fuga magistral do "chefe" realmente torna-se o ápice do filme, além de ser uma louvável ousadia, polêmico e brilhante. Um dos melhores filmes de todos os tempos, em todos os aspectos, que certamente vai agradar a todos que apreciam a sétima arte. 

Nota 100/100
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

Ficha Técnica: Sherlock Holmes: A Game of Shadows, 2011.
Gênero: Ação, Aventura, Crime.
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Jarde Harris, Rachel McAdams, Stephen Fry, Paul Anderson, Kelly Reilly, Geraldine James, Jack Laskey, Eddie Marsan.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 129 min. 
Idioma: Inglês. 

    No segundo filme da franquia do famoso detetive Sherlock Holmes podemos observar uma grande evolução em relação ao primeiro filme. No entanto, apesar de ser um filme melhor, o fato de ser o segundo acaba por prejudicá-lo, afinal, a primeira impressão, apesar de não “ficar”, estragou qualquer surpresa que a franquia poderia trazer em seu primeiro título. 
     Downey Jr. está novamente muito bem, assim como Jude Law, e a química entre os dois parceiros é excelente. No entanto, o impacto da atuação dos dois não nos afeta mais, ao menos para aqueles que já assistiram ao primeiro. Os novos atores acrescentados ao filme fazem ótimos papéis, como Fry, Rapace e Harris. Hans Zimmer novamente assinando a trilha sonora, também faz seu costumeiro excelente trabalho. 
      Outro ponto positivo do filme foi a escolha do vilão – Professor Moriarty, além de ser o principal inimigo de Holmes, é alguém que está no mesmo patamar do detetive, podendo desafiá-lo física e intelectualmente. Muitas das cenas foram muito bem trabalhadas, e tive a impressão que a ação foi reduzida de forma produtiva para o filme, ainda que não tenha realmente conseguido nos estimular com relação aos mistérios que Holmes e Watson desejam resolver. 
       E por fim, o ponto forte do longa é, ironicamente, ao meu ver, também seu ponto fraco: ao trazer o filme mais próximo da realidade, nos mostrando os interesses envolvendo as guerras, ainda no século XIX, que estavam muito além de uma simples questão imperialista e expansão territorial – a ganância dos vendedores de armas, que desejam expandir seu mercados ilimitadamente, dentre outros burgueses que lucraram e ainda lucram com as guerras. Neste aspecto, o filme acerta em cheio, e erra também, ao não elaborar e desenvolver com mais profundidade e seriedade o assunto, tornando-se uma algo como bem vs. mal.

 





Nota 65/100
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Deus só Atende aos Domingos

Ficha Técnica: Des nouvelles du bon Dieu, 1996.
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Didier Le Pêcheur
Elenco: Marie Trintignat, Christian Charmetant, Maria de Medeiros, Michel Vuillermoz, Isabelle Candelier, Artus de Penguern, Jean Yanne .
País: França. 
Tempo: 97 min.
Idioma: Francês. 

    Um filme francês que discute a existência de Deus e a forma como Ele rege nossas ações em nossas vidas. Todos os componentes para um ótimo filme, mas que fracassa miseravelmente. E ao meu ver, o erro começa na escolha do gênero do filme – não teve tato para tratar de uma assunto profundo, polêmico e complexo como este, escolhendo piadas erradas em péssimos momentos. 
      Os atores são razoáveis, mas a forma caricaturesca que retratam seus personagens não me agradou. A história beira ao absurdo em determinados momentos. Não há um começo lógico, apenas personagens jogados que surgem aleatoriamente e têm ideias aleatórias sobre Deus. Ainda que possua muito potencial, o fato de tratar de maneira cômica muitas coisas não contribuiu nada para o filme. 
     Mesmo a conversa com Deus, ao meu ver, nada interessante. Apresentá-los como um escritor, caíram no argumento comum de que temos um destino traçado para nossas vidas, e assim temos filmes que dizem o mesmo de maneira muito melhor. 
    Propõe-se grandioso, e busca quebrar tabus e criticar a Igreja, mas ao tratar o assunto todo de forma cômica (e ainda sem graça), perde qualquer credibilidade que caberia. Total desperdício de potencial.

Nota 58/100
 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

007 - Operação Skyfall

Ficha Técnica: Skyfall, 2012
Gênero: Ação, Aventura.
Direção: Sam Mendes
Elenco: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw, Rory Kinnear, Ola Rapace.
País: Reino Unido, Estados Unidos. 
Tempo: 143 min.
Idioma: Inglês. 

    Pela primeira vez, assisti um filme da franquia de James Bond por inteiro. Além de tudo, fui ao cinema. E a primeira impressão que fiquei foi que não perdi nada em nunca ter visto qualquer outro filme do 007 antes. Mas comecemos pelos pontos positivos.
   A abertura do filme, uma sequência de imagens com Adele cantando a música tema, me agradou muito - belo trabalho artístico. Melhor do que a sequência de ação anterior, que abre o filme. E Javier Bardem fez ótima atuação, dentro da limitação que o filme impõe. A primeira parte, em que seu personagem Silva se encontra com Bond (Craig) é muito interessante. Depois, ao se tornar um louco terrorista, que acaba por desconstruir todo frágil argumento inicial de que muitos terroristas são criados pelas próprias agências de inteligência (mesmo que supostamente contra a vontade delas), sua atuação cai no ordinário. 
    Os demais atores estão bem. Dench é excelente, Craig talvez não seja tão bom quanto, mas tem potencial e é muito melhor do que Brosnan, o último Bond. A “Bond girl” do filme, apesar de linda, esteve com fraquíssima atuação e pouco destaque. No entanto, mesmo sob direção de Sam Mendes, o filme continua sendo uma sequência de explosões, ações improváveis em que sabemos quem será o vencedor, o discurso patriótico exagerado (estes sim muito mais fanáticos do que os terroristas) e a paranoia de segurança que envolve as agências de espionagem – no depoimento de M (Dench) para os ministros, confirmada pela sequência de atentados que se segue. 
     O filme busca colocar momentos cômicos (uma nova moda do cinema mainstream de ação) que dessa vez encontraram o tom certo. E o final para M também ao menos foi diferente, ainda que a partir de certo momento, passa a ser esperado. Um filme comum de ação, que pra quem gosta de grandes sequências aleatórias de explosões e de super-heróis, sairá satisfeito.

Nota 57/100
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Guerreiro

Ficha Técnica: Warrior, 2011
Gênero: Drama, Esporte.
Direção: Gavin O'Connor
Elenco: Tom Hardy, Joel Edgerton, Nick Nolte, Jennifer Morrison, Frank Grillo, Kevin Dunn, Maximiliano Hernández, Vanessa Martinez, Kurt Angle, Erik Apple, Gavin O'Connor.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 140 min.
Idioma: Inglês. 

     Talvez este filme lance uma nova moda no cinema: filmes de MMA, substituindo os filmes de boxe ou dividindo com eles o sucesso. Afinal, MMA e UFC aparentam ser o esporte do momento, com grande investimento em marketing e tentando espalhar sua marca globalmente. 
     O filme tem muita influência dos filmes de boxe, contando com inúmeros de seus clichês como azarões, russos/soviéticos malvados, superações, famílias destruídas e esposas aflitas. Talvez o ponto alto do filme esteja em seus atores. Hardy e Edgerton estão muito bem nos papéis, conduzindo o filme de forma excelente. Morrison, Grillo e Dunn também fazem ótimas aparições. Mas o grande destaque é realmente o veterano Nick Nolte, pais dos dois lutadores – ele realmente transforma o filme, além de permitir um excelente trabalho dos protagonistas enquanto contracena com qualquer um deles (vale ressaltar que os três não aparecem juntos em nenhuma cena). 
     Já o filme em si, além de contar com sequências de acontecimentos improváveis e forçadas (característico destes filmes de lutadores que superam adversidades), divide o enredo em dois: um drama familiar excelente, que poderia ser melhor trabalhado; e as lutas de MMA, que são é sim o outro foco principal do filme. 
         O diretor faz um ótimo trabalho na primeira metade do filme, demonstrando como pais podem afetar profundamente a vida de seus filhos, não somente quando crianças. Na realidade, ainda demonstra que eles podem destruir inclusive uma relação de irmãos, que acabam tomando decisões drásticas e que exigem uma maturidade que ainda não têm, e vai assombrá-los pelo resto de suas vidas. Também nos mostra o arrependimento do pai, ou mesmo a dor que sente, mas que simplesmente não se curam com a idade. Certas feridas acabam durando pra sempre. Ainda temos a crise econômica nos EUA sutilmente mostrada. 
      No entanto, apesar de não se utilizar de flashbacks (ponto positivo) para contar a história de vida de ambos, ele opta por, na segunda metade do longa (as lutas), um final previsível da competição, e não fornece um desfecho para o drama familiar, deixando muitas coisas no ar. Não que isso seja necessário, é uma estratégia legítima e muito boa. Eu apenas esperava um desfecho por ser o melhor aspecto da história contada, que não é retomada em nenhum momento da segunda metade, quando começam as lutas. Um filme normal, que apesar das boas atuações e de um certo potencial, deixa muito a desejar – acabou tornando-se mais do mesmo, apenas com uma nova roupagem.

Nota 69/100
 

domingo, 11 de novembro de 2012

As Neves do Kilimanjaro

Ficha Técnica: Les Neiges du Kilimandjaro, 2011
Gênero: Drama.
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Jean-Pierre Darroussin, Ariane Ascaride, Gérard Meylan, Marilyne Canto, Grégoire Leprince-Ringuet, Anais Demoustier, Adrien Jolivet, Karole Rocher, Robinson Stévenin, Yann Loubatière, Jean-Baptiste Fonck, Emilie Piponnier, Raphael Hidrot, Pierre Niney.
País: França. 
Tempo: 107 min.
Idioma: Francês. 
   
     Este é um filme que acredito ser impossível de ser feito nos EUA, sob os mesmos moldes. Ao menos no grande cinema. O mais próximo que conheço dele seria Sindicato de Ladrões, mas mesmo este tem um final decepcionante e que ao meu ver, acaba por contribuir para alienação do trabalhador. 
        O filme se passa na cidade portuária de Marselha, na França. Ele começa com um homem, Michel (Darroussin), sorteando 20 nomes de funcionários da empresa portuária que seriam demitidos, para “salvar” a classe durante a crise europeia, que é um dos planos de fundo do filme. Mesmo sem precisar, Michel coloca seu nome no pote, e acaba sendo um dos sorteados. Alguns críticos acusaram o longa de panfletário, mas a crítica não procede. O filme tem obviamente um viés marxista claro, até pelo personagem de Michel, um líder sindical. No entanto, o filme apresenta o choque de valores e gerações na França atual, mas ao invés de fazer julgamentos, ele toma partido de um dos lados (o marxista, com ressalvas), mas não de forma panfletária – é melhor que se escolha um lado do que a pretensa neutralidade.
      Michel é casado com Marie-Claire (Ascaride), uma faxineira, que partilha dos mesmos ideias do marido e entende sua posição de não se colocar fora do sorteio, como queria seu amigo de longa data e concunhado Raoul (Meylan), também funcionário da empresa mas que não estava entre os possíveis demitidos por ser líder sindical, casado com a irmã de Marie-Claire, Denise (Canto).
       Michel e Marie-Claire são um casal de classe média baixa na França (obviamente esta classificação não pode ser aplicada da mesma forma ao Brasil, pois o estado de bem-estar social prevalece, ainda que muito decadente e com diversos cortes de direitos, no país). Após uma festa de bodas de pérola, os dois ganham de presente uma viagem ao Kilimanjaro de todos os convidados, com uma bonita cena em que os filhos e netos entregam o presente. Logo depois, o casal de amigos (parentes) são assaltados, e todo o dinheiro, as passagens, os cartões com as senhas e o HQ do Homem-Aranha são levados pelos assaltantes, que machucam o ombro de Michel e deixam sequelas psicológicas em Denise, além de baterem em Marie.
     Uma sequência de fatos inusitados e improváveis, mas que apesar disso, não afetam o filme, Michel descobre que um dos assaltantes era Christophe (Ringuet), um funcionário demitido junto com ele. Após a descoberta, a polícia prende o rapaz, que aos 22 anos cuidava de seus dois irmãos menores, que não conheciam o pai e a mãe (Rocher) era ausente. A partir daí, o casal protagonista começa a se não estariam eles afastados de seus valores e ideais, se não teriam tornado-se burgueses. Ao interrogar o jovem, Michel perde o controle e o acaba por agredi-lo, mostrando também uma nova contradição sua, entre aquilo que acredita e no que realmente faz (outra importante foi a questão do Homem-Aranha, pois considera o inglês um idioma de colonizadores, mas seu ídolo era o super-herói). Contradições estas inerentes aos seres humanos, e apresentadas ao longo do filme, e Michel tenta justificar para si mesmo o uso da violência através da violência e humilhação que os assaltantes usaram contra ele e sua família – vingança que ele mesmo tanto reprova. Outro aspecto interessante, de maneira sutilmente mostrada, é a conduta do policial – que desrespeita regras e deixa a vítima interrogar e agredir o acusado – mostrando a hipocrisia da França como alta civilização e antro dos direitos humanos do mundo ocidental.
    O filme desenrola-se de maneira a mostrar também a confrontação de valores entre ideologias e gerações, principalmente com os filhos, que não aceitam as posições dos pais – um claro confronto de valores socialistas e burgueses na França atual, que coincide muitas vezes com o confronto entre valores destas gerações diferentes. Além disso, temos um fato muito comum em que filhos desejam ditar a vida dos pais quando mais velhos.
      Outro aspecto interessante é que, ao final, é difícil definir os personagens de forma maniqueísta, entre bem e mal, um ponto muito positivo do filme, semelhante ao iraniano A Separação; a mãe de Christophe, o próprio Christophe, os casais Michel e Marie, Raoul e Denise, e mesmo os filhos deles, são todos colocados dentro do contexto em que vivem se que se façam pré-julgamentos; questionamentos sobre os valores da esquerda também são feitos, como o sorteio promovido para escolher os demitidos, a posição social dos líderes sindicais e a corrupção destes valores pela globalização e pelo desmantelamento do estado de bem-estar social francês.
     Os atores fazem um excelente trabalho no filme, todos muito bem. A fotografia e direção são interessantes, com a cidade de Marselha sempre ao fundo, principalmente seu porto. A trilha sonora peca em utilizar uma música pop de língua inglesa, ao se tratar de um tema tão francês, questionando sua esquerda peculiar, com base em um poema de Victor Hugo – desnecessário. A utilização das crianças para convencer o espectador sobre os argumentos e valores socialistas frente aos liberais e burgueses também foi apelativa, buscando mexer no emocional dos que estão assistindo. Fora isso, um ótimo filme, que ainda no século XXI nos mostra que temas como luta de classes estão tão atuais, apesar de muitos dizerem o contrário.

Nota 97/100