Gênero: Drama.
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Jean-Pierre Darroussin, Ariane Ascaride, Gérard Meylan, Marilyne Canto, Grégoire Leprince-Ringuet, Anais Demoustier, Adrien Jolivet, Karole Rocher, Robinson Stévenin, Yann Loubatière, Jean-Baptiste Fonck, Emilie Piponnier, Raphael Hidrot, Pierre Niney.
País: França.
Tempo: 107 min.
Idioma: Francês.
Este é um filme que acredito ser impossível de ser feito nos EUA, sob
os mesmos moldes. Ao menos no grande cinema. O mais próximo que conheço dele
seria Sindicato de Ladrões, mas mesmo
este tem um final decepcionante e que ao meu ver, acaba por contribuir para
alienação do trabalhador.
O filme se passa na cidade portuária de Marselha, na França. Ele começa
com um homem, Michel (Darroussin), sorteando 20 nomes de funcionários da
empresa portuária que seriam demitidos, para “salvar” a classe durante a crise
europeia, que é um dos planos de fundo do filme. Mesmo sem precisar, Michel
coloca seu nome no pote, e acaba sendo um dos sorteados. Alguns críticos
acusaram o longa de panfletário, mas a crítica não procede. O filme tem
obviamente um viés marxista claro, até pelo personagem de Michel, um líder sindical.
No entanto, o filme apresenta o choque de valores e gerações na França atual, mas
ao invés de fazer julgamentos, ele toma partido de um dos lados (o marxista,
com ressalvas), mas não de forma panfletária – é melhor que se escolha um lado
do que a pretensa neutralidade.
Michel é casado com
Marie-Claire (Ascaride), uma faxineira, que partilha dos mesmos ideias do
marido e entende sua posição de não se colocar fora do sorteio, como queria seu
amigo de longa data e concunhado Raoul (Meylan), também funcionário da empresa
mas que não estava entre os possíveis demitidos por ser líder sindical, casado
com a irmã de Marie-Claire, Denise (Canto).
Michel e Marie-Claire
são um casal de classe média baixa na França (obviamente esta classificação não
pode ser aplicada da mesma forma ao Brasil, pois o estado de bem-estar social prevalece,
ainda que muito decadente e com diversos cortes de direitos, no país). Após uma
festa de bodas de pérola, os dois ganham de presente uma viagem ao Kilimanjaro
de todos os convidados, com uma bonita cena em que os filhos e netos entregam o
presente. Logo depois, o casal de amigos (parentes) são assaltados, e todo o
dinheiro, as passagens, os cartões com as senhas e o HQ do Homem-Aranha são levados
pelos assaltantes, que machucam o ombro de Michel e deixam sequelas psicológicas
em Denise, além de baterem em Marie.
Uma sequência de fatos
inusitados e improváveis, mas que apesar disso, não afetam o filme, Michel
descobre que um dos assaltantes era Christophe (Ringuet), um funcionário demitido
junto com ele. Após a descoberta, a polícia prende o rapaz, que aos 22 anos
cuidava de seus dois irmãos menores, que não conheciam o pai e a mãe (Rocher) era
ausente. A partir daí, o casal protagonista começa a se não estariam eles
afastados de seus valores e ideais, se não teriam tornado-se burgueses. Ao interrogar
o jovem, Michel perde o controle e o acaba por agredi-lo, mostrando também uma
nova contradição sua, entre aquilo que acredita e no que realmente faz (outra
importante foi a questão do Homem-Aranha, pois considera o inglês um idioma de
colonizadores, mas seu ídolo era o super-herói). Contradições estas inerentes
aos seres humanos, e apresentadas ao longo do filme, e Michel tenta justificar
para si mesmo o uso da violência através da violência e humilhação que os
assaltantes usaram contra ele e sua família – vingança que ele mesmo tanto
reprova. Outro aspecto interessante, de maneira sutilmente mostrada, é a
conduta do policial – que desrespeita regras e deixa a vítima interrogar e
agredir o acusado – mostrando a hipocrisia da França como alta civilização e
antro dos direitos humanos do mundo ocidental.

Outro aspecto
interessante é que, ao final, é difícil definir os personagens de forma maniqueísta,
entre bem e mal, um ponto muito positivo do filme, semelhante ao iraniano A Separação; a mãe de Christophe, o próprio Christophe, os casais Michel e Marie,
Raoul e Denise, e mesmo os filhos deles, são todos colocados dentro do contexto
em que vivem se que se façam pré-julgamentos; questionamentos sobre os
valores da esquerda também são feitos, como o sorteio promovido para escolher
os demitidos, a posição social dos líderes sindicais e a corrupção destes
valores pela globalização e pelo desmantelamento do estado de bem-estar social francês.

Nota 97/100
Nenhum comentário:
Postar um comentário