domingo, 11 de novembro de 2012

As Neves do Kilimanjaro

Ficha Técnica: Les Neiges du Kilimandjaro, 2011
Gênero: Drama.
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Jean-Pierre Darroussin, Ariane Ascaride, Gérard Meylan, Marilyne Canto, Grégoire Leprince-Ringuet, Anais Demoustier, Adrien Jolivet, Karole Rocher, Robinson Stévenin, Yann Loubatière, Jean-Baptiste Fonck, Emilie Piponnier, Raphael Hidrot, Pierre Niney.
País: França. 
Tempo: 107 min.
Idioma: Francês. 
   
     Este é um filme que acredito ser impossível de ser feito nos EUA, sob os mesmos moldes. Ao menos no grande cinema. O mais próximo que conheço dele seria Sindicato de Ladrões, mas mesmo este tem um final decepcionante e que ao meu ver, acaba por contribuir para alienação do trabalhador. 
        O filme se passa na cidade portuária de Marselha, na França. Ele começa com um homem, Michel (Darroussin), sorteando 20 nomes de funcionários da empresa portuária que seriam demitidos, para “salvar” a classe durante a crise europeia, que é um dos planos de fundo do filme. Mesmo sem precisar, Michel coloca seu nome no pote, e acaba sendo um dos sorteados. Alguns críticos acusaram o longa de panfletário, mas a crítica não procede. O filme tem obviamente um viés marxista claro, até pelo personagem de Michel, um líder sindical. No entanto, o filme apresenta o choque de valores e gerações na França atual, mas ao invés de fazer julgamentos, ele toma partido de um dos lados (o marxista, com ressalvas), mas não de forma panfletária – é melhor que se escolha um lado do que a pretensa neutralidade.
      Michel é casado com Marie-Claire (Ascaride), uma faxineira, que partilha dos mesmos ideias do marido e entende sua posição de não se colocar fora do sorteio, como queria seu amigo de longa data e concunhado Raoul (Meylan), também funcionário da empresa mas que não estava entre os possíveis demitidos por ser líder sindical, casado com a irmã de Marie-Claire, Denise (Canto).
       Michel e Marie-Claire são um casal de classe média baixa na França (obviamente esta classificação não pode ser aplicada da mesma forma ao Brasil, pois o estado de bem-estar social prevalece, ainda que muito decadente e com diversos cortes de direitos, no país). Após uma festa de bodas de pérola, os dois ganham de presente uma viagem ao Kilimanjaro de todos os convidados, com uma bonita cena em que os filhos e netos entregam o presente. Logo depois, o casal de amigos (parentes) são assaltados, e todo o dinheiro, as passagens, os cartões com as senhas e o HQ do Homem-Aranha são levados pelos assaltantes, que machucam o ombro de Michel e deixam sequelas psicológicas em Denise, além de baterem em Marie.
     Uma sequência de fatos inusitados e improváveis, mas que apesar disso, não afetam o filme, Michel descobre que um dos assaltantes era Christophe (Ringuet), um funcionário demitido junto com ele. Após a descoberta, a polícia prende o rapaz, que aos 22 anos cuidava de seus dois irmãos menores, que não conheciam o pai e a mãe (Rocher) era ausente. A partir daí, o casal protagonista começa a se não estariam eles afastados de seus valores e ideais, se não teriam tornado-se burgueses. Ao interrogar o jovem, Michel perde o controle e o acaba por agredi-lo, mostrando também uma nova contradição sua, entre aquilo que acredita e no que realmente faz (outra importante foi a questão do Homem-Aranha, pois considera o inglês um idioma de colonizadores, mas seu ídolo era o super-herói). Contradições estas inerentes aos seres humanos, e apresentadas ao longo do filme, e Michel tenta justificar para si mesmo o uso da violência através da violência e humilhação que os assaltantes usaram contra ele e sua família – vingança que ele mesmo tanto reprova. Outro aspecto interessante, de maneira sutilmente mostrada, é a conduta do policial – que desrespeita regras e deixa a vítima interrogar e agredir o acusado – mostrando a hipocrisia da França como alta civilização e antro dos direitos humanos do mundo ocidental.
    O filme desenrola-se de maneira a mostrar também a confrontação de valores entre ideologias e gerações, principalmente com os filhos, que não aceitam as posições dos pais – um claro confronto de valores socialistas e burgueses na França atual, que coincide muitas vezes com o confronto entre valores destas gerações diferentes. Além disso, temos um fato muito comum em que filhos desejam ditar a vida dos pais quando mais velhos.
      Outro aspecto interessante é que, ao final, é difícil definir os personagens de forma maniqueísta, entre bem e mal, um ponto muito positivo do filme, semelhante ao iraniano A Separação; a mãe de Christophe, o próprio Christophe, os casais Michel e Marie, Raoul e Denise, e mesmo os filhos deles, são todos colocados dentro do contexto em que vivem se que se façam pré-julgamentos; questionamentos sobre os valores da esquerda também são feitos, como o sorteio promovido para escolher os demitidos, a posição social dos líderes sindicais e a corrupção destes valores pela globalização e pelo desmantelamento do estado de bem-estar social francês.
     Os atores fazem um excelente trabalho no filme, todos muito bem. A fotografia e direção são interessantes, com a cidade de Marselha sempre ao fundo, principalmente seu porto. A trilha sonora peca em utilizar uma música pop de língua inglesa, ao se tratar de um tema tão francês, questionando sua esquerda peculiar, com base em um poema de Victor Hugo – desnecessário. A utilização das crianças para convencer o espectador sobre os argumentos e valores socialistas frente aos liberais e burgueses também foi apelativa, buscando mexer no emocional dos que estão assistindo. Fora isso, um ótimo filme, que ainda no século XXI nos mostra que temas como luta de classes estão tão atuais, apesar de muitos dizerem o contrário.

Nota 97/100
 

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