sábado, 12 de janeiro de 2013

Amor

Ficha Técnica: Amour, 2012.
Gênero: Drama, Romance.
Direção: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignat, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell.
País: Áustria, França, Alemanha.
Tempo: 127 min. 
Idioma: Francês. 

      Após o pesado A Fita Branca, Haneke novamente nos apresenta um filme denso. Para os desavisados, o título do filme pode não corresponder às expectativas, pois não teremos aqueles romances melosos. Este é um filme conceitual, e o conceito trabalho é o título: o amor. 
      O longa nos traz um casal de idosos, com mais de 80 anos, músicos aposentados, que aparentemente levam uma vida tranquila morando apenas na companhia um do outro. Contudo, após Anne sofrer um derrame, a situação torna-se complicada, e é este o ponto central do filme. O marido Georges passa a cuidar da esposa. 
      Não há grandes declarações de amor melosas dos filmes blockbusters. Mas podemos ver o amor entre eles, nas pequenas coisas, ações, discussões e pedidos de desculpas. O diretor torna tudo muito real e cotidiano. Além disso, a ausência de uma trilha sonora constante e as cenas longas (algumas talvez excessivamente), nos fazem refletir muito sobre a situação e o que vemos. 
        Apesar de todos os esforços de Georges, o inevitável acontece – Anne piora a cada dia, exigindo cada vez mais da paciência, do esforço e acima de tudo, do amor de Georges. A cada momento que passa, ficamos mais inquietos com a situação, ainda que saibamos em partes o final do filme. Mesmo assim, o diretor não nos deixa de surpreender e chocar, com um final que demonstra o ápice da prova de amor entre os dois, e ao mesmo tempo, uma brutalidade muito chocante. Mas não teremos um único espectador que vai duvidar do amor que Georges sentia por ela, ainda que o fato de tê-la libertado da situação deplorável em que Anne se encontrava levante questões morais talvez insolúveis. 
      Mas o amor está presente em cada cena do filme, e o diretor deixa claro o conceito de amor que ele define – aquele capaz de se manifestar nas horas mais difíceis. Os dois protagonistas fazem um trabalho perfeito. Tanto os olhares e a fala dificultada de Anne (Riva) quanto toda a ação de Georges (Trintignat) estão ótimos e a química entre eles é invejável. Huppert também faz um excelente trabalho no papel da filha dos dois, que ainda distante, se preocupa e ama seus pais. Ótimo filme, que nos faz refletir muito sobre a velhice e como lidar com estas questões – deixando claro que o amor é essencial nestas horas.


Nota 94/100
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Escolha de Sofia

Ficha Técnica: Sophie's Choice, 1982.
Gênero: Drama, Romance.
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Peter MacNicol, Kevin Kline, Greta Turken, Rita Karin, Stephen D. Newman, Gunther Maria Halmer.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 150 min. 
Idioma: Inglês, Polonês, Alemão. 

     Um filme que por tratar de holocausto, nazismo, IIGM e campos de concentração poderia ser repetitivo. Um tema tão recorrente em Hollywood, mas que é abordado de forma muito interessante, e bem audacioso, ainda mais se considerarmos que surgiu no início dos anos 1980. Pakula nos mostra grande habilidade para dirigir diversos gêneros – após o excelente Todos os Homens do Presidente, temos uma grande mudança, e ouso dizer ainda uma melhora, em A Escolha de Sofia.
O filme também conta com grandes atuações. Meryl Streep está excelente, como é de conhecimento até do mundo mineral. Esta é sua mais aclamada atuação, justamente. Além do sotaque e mudanças físicas, cada expressão dela nos brinda com o seu melhor. Todo alvoroço em torno de seu trabalho acabou por ofuscar o primoroso trabalho de Kline como Nathan. Um personagem que está sempre com os nervos à flor da pele, vivendo numa montanha russa emocional. Após a revelação de sua doença (uma das grandes surpresas do filme, ainda que em partes esperada), tudo faz sentido. Mas esse é exatamente o primor da atuação dele – não vemos um louco estereotipado, e sim “um louco normal” – em nenhum momento ele se apresenta caricato, e sim traz ainda mais intensidade para o drama.
MacNicol como o escritor Stingo vai muito bem, ainda que não mereça tanto destaque quanto seus dois companheiros. O filme, apesar de seus 150 minutos, passa muito rápido. O fato de ele ser longo e totalmente centrado em apenas três personagens dá uma profundidade invejável aos protagonistas, que é potencializado pelo sublime trabalho dos atores.
 A história nos mostra o holocausto e principalmente as consequências na vida cotidiana daqueles que sobreviveram a este horror. Outro ponto positivo é ir além dos judeus – neste caso, o foco principal são os poloneses, algo não tão comum no cinema estadunidense. A cena da escolha final que dá título ao filme talvez seja uma das mais emocionantes do cinema – 55 segundos, menos de um minuto, para escolher entre um dos filhos. E apesar de ela ter mencionado que a menina tinha morrido, não sabíamos que era ela quem definira o destino das crianças. Na realidade, nem podíamos esperar que a menina tivesse realmente morrido logo na chegada à Auschwitz, pois Sofia contara tantas mentiras ao longo da trama que essa pudesse ser apenas mais uma.
No entanto, apesar desta impactante escolha final, Sofia faz escolhas difíceis ao longo de toda sua vida – roubar ou não o rádio; entre o pai nazista (e polonês, contradição da época e ainda presente na própria Polônia, apresentada de maneira muito sutil e inteligente) e um conceito minimamente civilizado de justiça e humanidade; entre Nathan, seu namorado problemático, e seu mais novo e melhor amigo/confidente Stingo; contar ou não a verdade sobre seu passado. Muitas destas escolhas eram impossíveis de serem feitas, e tampouco tinham uma resposta correta – na verdade, a perversidade é que em muitos casos, as duas opções eram simplesmente erradas e absurdas.
Toda esta carga emocional é carregada pela personagem, que perde muito do ânimo em viver. Apesar de aparentar ser o porto seguro da relação com Nathan, talvez ela também se apóie nele e na necessidade que tinha de sua companhia, de dar esse suporte a ele. E ao receber a proposta de Stingo para morar junto, casar e ter filhos, talvez tenha sido o momento que confirmou o que sempre suspeitou: sua vida nunca mais poderia voltar à mínima normalidade, tamanho foi seu sofrimento em tão curto período de vida.
 
Nota 97/100

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Ficha Técnica: The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012.
Gênero: Aventura, Fantasia.
Direção: Peter Jackson
Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O'Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Ian Holm, Elijah Wood, Hugo Weaving, Cate Blanchett, Christopher Lee, Andy Serkis, Sylvester McCoy, Jeffrey Thomas, Manu Bennett.
País: Estados Unidos, Nova Zelândia.
Tempo: 169 min. 
Idioma: Inglês. 

     Jackson retoma a trilogia que o consagrou em grande estilo. Uma nova superprodução, com qualidade ainda mais assombrosa. Como não li os livros de Tolkien, os comentários que faço são apenas sobre o que li em reportagens e artigos sobre o filme e as impressões que tirei deles – podendo apresentar um imenso engano de minha parte. 
Vamos primeiramente aos aspectos técnicos do filme, que dentro da minha mínima e amadora percepção, aparenta ser perfeito. As imagens são realmente poderosas e impactantes. A nova tecnologia dos 48 quadros por segundo certamente contribuiu para este impacto. As paisagens estão exuberantes. Ouso dizer que é visivelmente melhor e mais arrojado do que o último filme da trilogia do Senhor dos Anéis, talvez por Jackson estar agora mais confiante, ter mais liberdade e sofrer menos pressão do estúdio no aspecto da produção.
    A trilha sonora é muito interessante, as cenas das batalhas são magistralmente realizadas, ainda que ocorram em excesso; mas é sempre bom ver tais cenas inúmeras vezes e poder observar a perfeição com que foram feitas. O 3D também é muito bom, impulsionado pelos 48 quadros, fazendo nos sentir dentro das cenas em diversos momentos. 
     O roteiro foi adaptado do conto infantil de JRR Tolkien “O Hobbit”, que deu origem ao livro do Senhor dos Anéis e sua trilogia no cinema. Pelo fato de ser um conto infantil, e muito mais curto do que o livro posterior, o filme pode se dar ao luxo de apresentar praticamente cada detalhe do livro, algo que não ocorreu (e nem poderia) com a trilogia anterior. Isso, ao meu ver, enriquece o filme, além de poder manter um elevado nível de fidelidade. 
       Também pelo fato de ser infantil, é mais leve do que a obra seguinte – e o diretor traz essa leveza para a tela, reproduzindo inclusive as piadas e momentos de descontração. Sou grande crítico das piadas constantes nos filmes atuais (vide Os Vingadores), mas neste caso elas não tornam a história boba ou mesmo os personagens (talvez com a exceção do mago marrom, interpretado por Sylvester McCoy, um tanto estereotipado, mas sem prejudicar o filme). Além disso, Jackson ainda acrescente cenas tensas, desenvolve mais alguns aspectos do livro que nos ajudam a compreender a história, todos pontos positivos do longa. 
      O filme está centrado em Freeman e McKellen. Nosso jovem Bilbo Baggins (Martin Freeman) está muito bem, com o tom cômico certo e o equilíbrio necessário para os momentos de tensão e luta. Sobre Gandalf (McKellen) não há muito que dizer: continua brilhante. Apesar de não estarem presentes no livro, personagens da antiga trilogia são trazidos para pequenas pontas, fazendo ótimas conexões com a trilogia já existente, uma grande sacada do diretor. Dentre os anões, apenas Armitage realmente precisa fazer um trabalho mais profundo. Os outros, apesar de muito bem, pouco tiveram espaço. 
Aliás, este é outro aspecto importante e positivo do filme: a noção de que ele está realmente conectado com a história que se passa 60 anos depois. O filme é um tanto extenso, mas o excesso de ação nos prende muito bem para que não percamos o interesse. As cenas de ação é que tornam o filme um pouco mais extenso do que o necessário, mas nada que o prejudique, além de agradar aos fãs destes momentos.
Há uma certa dose de semelhança entre este o primeiro filme da trilogia – talvez algo intencional – se considerarmos os rumos e a maneira que a história se desenvolve, e criticar ou elogiar tal aspecto talvez seja mais uma questão de gosto do que qualidade. Acredito que vá agradar, de modo geral, tanto aos fãs da trilogia do cinema quanto àqueles que também leram os livros.

Nota 83/100
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

O Curioso Caso de Benjamin Button

Ficha Técnica: The Curious Case of Benjamin Button, 2008.
Gênero: Drama, Fantasia.
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Julia Ormond, Jason Flemyng, Jared Harris, Elle Fanning, Mahershala Ali, Danny Vinson.
País: Estados Unidos.
Tempo: 166 min. 
Idioma: Inglês. 

     David Fincher é um dos melhores diretores de Hollywood e adora inovar – e inovações podem ser um tremendo sucesso ou fracasso. Este não está entre o melhores filmes do diretor, mas é melhor, por exemplo, do que Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres. 
     O filme trata de um tema comumente abordado pelo cinema – sentimentos humanos ao longo da vida, envelhecimento, morte. Um clássico drama, mas que é contado de uma forma inteiramente nova. A história de um bebê que nasce num corpo já velho, mas que ao invés de continuar a envelhecer a cada dia, como qualquer ser humano, ele rejuvenesce. No entanto, apesar da estranheza, ele também se aproxima da morte a cada dia, como todo ser humano. 
     O filme traz atuações ótimas de Pitt e Blanchett, que demonstram excelente química entre eles, e conseguem dar o tom certo aos personagens ao longo de praticamente uma vida inteira, desde muito jovens até a velhice. Todo o elenco de coadjuvantes também está ótimo, Swinton, Flemyn e Harris acrescentam muito à trama, e o grande destaque vai para Henson. 
      A maquiagem do filme também o coloca em outro patamar, deixando-os velhos, mas sem que percam as características físicas de cada um. Fotografia e efeitos especiais também merecem elogios. O roteiro é muito bom, a forma de narrativa está excelente, ainda que haja muita semelhança com Forrest Gump, tendo em vista que é o mesmo roteirista (Eric Roth). Esta semelhança não é um defeito, mas perde um pouco o caráter de originalidade. 
      O que torna o filme além do ordinário é a maneira que os conflitos pessoais enfrentados pelos seres humanos ao longo da vida nos é mostrada. A questão de como se encarar a morte de pessoas queridas, religião, sentimentos maternos e paternos, envelhecimento, beleza, amor, companheirismo, preconceitos – todos estes elementos estão presentes de forma suave e inusitada, deixando o filme muito forte. 
     Contudo, o protagonista principal é o tempo. A pequena história contada no início do filme é excelente, uma bela metáfora para o que está por vir. E como podemos encarar a passagem do tempo de formas diferentes, com valores diferentes. A cena do acidente de Daisy é ótima, mostrando como a sucessão de simples acontecimentos corriqueiros no espaço-tempo acabam por resultar em algo tão impactante em nossas vidas. O longa também tem a virtude de não tentar explicar a situação de Benjamin de forma alguma, o que se tornaria um absurdo. E que realmente, envelhecer nem sempre pode nos tornar melhores pessoas – continuamos a cometer erros e, acima de tudo, a nunca ter certeza de ter feito a escolha correta em diversas situações.
  Nota 88/100

sábado, 29 de dezembro de 2012

Espelho, Espelho Meu

Ficha Técnica: Mirror Mirror, 2012.
Gênero: Comédia, Fantasia, Aventura.
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sebastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clark, Robert Emms, Mare Winningham, Sean Bean.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 106 min. 
Idioma: Inglês. 

     Foram duas adaptações da história da Branca de Neve e os Sete Anões para o cinema no mesmo ano. O épico de batalha de Branca de Neve e o Caçador e este com um viés mais cômico e infantil. Aquele estrelado por Kirsten Stewart foi terrível; este superou minhas expectativas. Ao menos é melhor que o outro. 
      A história deste foi mais modificada do que no filme dirigido por Rupert Sanders, e na realidade, sem algum propósito. Não a torna mais interessante, mas tampouco a deixa pior. Pode apenas decepcionar aqueles que desejam maior fidelidade à história dos irmãos Grimm. No entanto, o filme cumpre melhor seu objetivo inicial. 
     A tentativa de tornar a talvez mais famosa animação de Walt Disney um épico foi um fracasso, conforme mencionei no post específico do filme. Este ao menos não tentou fazer isso, se mantendo uma comédia (ainda que a maior parte das piadas sejam previsíveis e não muito engraçadas) direcionada ao público infantil, mas que pode agradar aos adultos também. 
    A mudança para dos anões, de mineiros a ladrões, pode ser considerada positiva. Todos trabalharam bem, além de incluírem cenas de ações diferentes em que eles participam. Ainda que depois surja a tentativa de torná-los os novas versões de Robin Hood. O aspecto do preconceito poderia ter sido trabalhado melhor, com a expulsão deles da vila por serem anões e feios. Obviamente, um filme para crianças não poderia tratar Branca de Neve de forma séria, e por isso questões como a pobreza do povo justaposta à riqueza da realeza, monarquia e fixação pela aparência física não estão presentes. No entanto, considero que ao menos algumas lições de moral poderiam ser colocadas, principalmente por ser um filme direcionado às crianças. 
     No futuro, talvez um diretor mais ousado adapte estas histórias de forma mais complexa. O grande destaque deste filme é Julia Roberts. Sua versão da Rainha é realmente excelente. Está sarcástica, irônica e má na medida certa. As melhores cenas são com ela presente, principalmente quando dialoga com o espelho. Na segunda metade do filme, quando Lily Collins assume as rédeas do longa, ele realmente cai em qualidade. Ela está muito apagada e não faz um bom trabalho. Hammer faz uma boa versão do príncipe, que combina com a versão menos machista da história – outro aspecto interessante. O caçador ficou ausente, e com isso qualquer traço de violência da história da Disney desaparece. 
   Um filme que apesar de não ser grandioso – com exceção da produção, com ótimos figurinos e principalmente cenários – atende às expectativas, se elas não forem as de um grande filme. Cumpre com seu objetivo, entreter e contar uma versão um pouco diferente e infantil desta história, que faz uma singela homenagem aos irmãos Grimm.
 
Nota 55/100

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Corvo

Ficha Técnica: The Raven, 2012.
Gênero: Crime, Suspense.
Direção: James McTeigue
Elenco: John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Sam Hazeldine.
País: Estados Unidos, Hungria, Espanha. 
Tempo: 110 min. 
Idioma: Inglês. 

   Impossível não notar a semelhança entre O Corvo e a nova franquia de Sherlock Holmes. Não considero o filme de Holmes excelente, mas ainda assim é melhor do que esta tentativa de cópia. O grande potencial para um excelente filme sobre Poe e seus contos foi jogado fora com essa tentativa. 
     O filme é morno, o grande mistério sobre os crimes é tedioso, além do inusitado e complicado vocabulário escolhido. A revelação do serial killer é desanimadora e clichê ao mesmo tempo. Personagens estão postos aleatoriamente na tela, sem qualquer profundidade. O mesmo se aplica aos crimes – superficialmente analisados. 
     O elenco faz um trabalho razoável. Cusack não compromete, mas poderia acrescentar mais ao filme, visto que tem o papel principal. Gleesson é subaproveitado, a donzela em perigo não é carismática e o detetive é uma versão fraca do Dr. Watson de Jude Law. O Filme está longe do excelente V de Vingança, do mesmo diretor. 
     O filme tenta criar uma atmosfera sombria, em consonância com os contos. Tecnicamente, esta atmosfera está posta, mas o enredo falha miseravelmente em acompanhar este aspecto. É mais um filme de investigação policial do que sobre a história de vida de Edgar Allan Poe, pois não vemos o gênio que foi nem sua conturbada vida pelas perdas pessoais e alcoolismo. Ao menos, o filme pode nos instigar a ler Poe e conhecer seus contos, muitos deles mencionados, além de um deles que serve de base para a história em si. 

Nota 54/100   

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Compramos um Zoológico

Ficha Técnica: We Bought a Zoo, 2011.
Gênero: Drama, Família.
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Matt Damon, Scarlett Johansson, Thomas Haden Church, Colin Ford, Maggie Elizabeth Jones, Angus Macfacdyen, Elle Fanning, John Michael Higgins, Carla Gallo, J.B. Smoove, Stephanie Szostak.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 124 min. 
Idioma: Inglês. 

    Um filme para se ver com a família, cheio de sentimentalismo e algumas cenas cômicas. Esta é uma maneira de sintetizar o mais novo filme de Cameron Crowe – e acredito que tenha sido este o propósito do filme. 
     Com boas atuações de Damon e Johansson e uma menininha que encanta (Jones), o filme busca emocionar a todos, divertir, além de ser carregado pela ideologia do trabalho duro e acreditar nos sonhos. Assim como em outros filmes do diretor, ele começa com um tiro no escuro, uma aposta arriscada de uma pessoa em um novo negócio e é baseado em uma história real. 
     Benjamin Mee é o pai da adorável Rosie (Jones) e do adolescente rebelde Dylan (Ford), que perderam a mãe recentemente. Todos a amavam e sentem muita falta dela. Mee arrisca tudo, gastando todas as suas economias e o dinheiro do seguro da mulher, que ele amava demais, neste zoológico, ainda que seu irmão (Church – ótimo no papel) o aconselhe a não o fazer. É um filme que todos já sabem o final – quem vai se apaixonar por quem, como vai acabar e tudo mais. E o final feliz é para que todos saiam contentes do cinema, acreditando nos sonhos. 
      Há certa dose de drama familiar, mas o diretor prefere não se aprofundar nesse aspecto dos conflitos, da dor de perder uma pessoa amada – o que tornaria o filme muito melhor, a meu ver, mas também não próprio para crianças. Tampouco é abordado o fato de um pai gastar todas as economias da família de forma irresponsável, sendo um grande risco. Os demais personagens estão em diferentes níveis – funcionários do zoológico com grandes e lamentáveis atuações, além do destaque para Church, que nos traz as falas mais engraçadas. 
     Um filme que infelizmente acaba deixando a maior parte dos personagens superficiais, que resolve fortes conflitos de forma natural e rápida, mas no qual podemos ver boas atuações de Damon (mais humano, sem atirar em ninguém, frágil) e Johansson (não apelaram para sua beleza). Se não procura grandes reflexões, apenas relaxar e se divertir, com toda a família, este é o filme ideal.
 

Nota 62/100

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Os Infiltrados

Ficha Técnica: The Departed, 2006.
Gênero: Suspense, Crime.
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Vera Farmiga, Alec Baldwin, Ray Winstone, Anthony Anderson, James Badge Dale, Mark Rolston, David O'Hara.
País: Estados Unidos, Hong Kong. 
Tempo: 151 min. 
Idioma: Inglês. 

      Scorsese no seu melhor! Esse é o maior elogio que se pode fazer ao filme que rendeu a Martin Scorsese, um dos maiores (senão o maior) diretores em atividade, seu primeiro Oscar, um tanto tardio e mais do que merecido. Aqui ele retorna aos filmes que retratam a violência urbana, gênero que o lançou ao sucesso com Taxi Driver e sob o qual ele produziu excelentes obras, como Bons Companheiros. 
       O longa trata sobre dois policiais infiltrados – Billy Costigan (DiCaprio), trabalhando como infiltrado numa organização criminosa para a polícia de Boston; e Colin Sullivan (Damon), um detetive que na realidade está infiltrado na polícia a serviço do líder desta máfia irlandesa, Frank Costello (Nicholson). 
        O enredo é empolgante, causando suspense e mistério na medida certa, com a tradicional violência do diretor, mas que não é desproposital em nenhum momento. Na realidade, torna o filme mais real. A sensação de insegurança e medo que sentimos nas inúmeras delicadas e perigosas situações pelas quais os personagens principais passam são ótimas. E ainda que haja uma diferença de caráter entre bem e mal entre os dois, não podemos fazer muitos julgamentos, pois Sullivan foi desde criança influenciado e criado pelo mafioso, sendo um produto do ambiente criado por ele, conforme o mesmo afirma no início do filme. 
      A história, adaptada de um filme japonês, é repleta de reviravoltas e surpresas, dirigido de maneira sublime. Temos talvez o melhor headshot do cinema nos últimos tempos (ou no mínimo empatado com o de Brad Pitt em Queime depois de ler). Sem dúvida, a melhor sequência deles. Ironias estão presente o tempo inteiro na história, bem como a ação. 
       A trilha sonora é magistral, com músicas dos Stones, Pink Floyd, Lennon e a excelente música tema da banda Dropkick Murphys – Shipping up to Boston. As atuações são espetaculares. Nicholson está excelente e rouba todas as cenas. Seu personagem exala a violência, e percebemos o quão desconfortável é estar ao seu redor. Damon e DiCaprio estão interessantemente parecidos fisicamente (grande sacada), mas ao mesmo tempo não poderiam ser tão diferentes, fazendo o mesmo trabalho (espiões) de forma excelente e tão divergente. Os coadjuvantes estão todos ótimos – Baldwin, Sheen e Winstone fazem ótimo trabalho, e o destaque entre eles vai para Farmiga e principalmente Wahlberg. 
     A forma como o filme nos faz criar expectativas e as destrói sobre seu final é fantástico. Nos proporciona um final não convencional e inesperado, mesmo que estivéssemos preparados para algum grande twist ou uma grande surpresa – muito em razão da forma que o filme se desenvolve. O jogo de câmeras, os flashbacks e as cenas simultâneas em lugares diferentes trabalham numa harmonia fora de série. 
       Além disso, o sarcasmo e as falas de Costello estão entre as melhores do filme. Outro ponto forte são as conversas entre Costigan e a psiquiatra (Farmiga), que nos apresenta uma sutil mas importante crítica ao sistema policial e seus membros. Aliás, esse triângulo amoroso formado pelos protagonistas e ela é excelente, que ao invés de apenas acrescentar algo dramático ou romântico à trama, nos brinda com mais ironias, tensões e um mistério final que não acaba sendo resolvido, para o nosso bem.            
      Também nos serve de excelente exemplo sobre como lidar com as aparências, que realmente podem nos enganar muito além do que imaginamos. Um dos melhores filmes de Scorsese – ainda que não seja algo extremamente profundo, deveria servir de manual em como se fazer um bom filme, com todos os seus elementos harmonizados de forma magistral.

Nota 97/100
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um Estranho no Ninho

Ficha Técnica: One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975.
Gênero: Drama.
Direção: Milos Forman
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Danny de Vito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, Philip Roth, Vincent Schiavelli, William Redfield, Scatman Crothers, William Duell, Nathan George, Sydeny Lassick, Mews Small, Delos V. Smith Jr.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 133 min. 
Idioma: Inglês. 

Este filme é uma obra-prima do cinema. Se não podemos considerá-lo perfeito, ele ao menos beira a perfeição em todos os aspectos. Uma espetacular direção, elenco esplêndido, ótima trilha sonora, roteiro fenomenal. O filme, apesar de ser um intenso drama, também nos faz rir e apresenta críticas à ordem social.
A grande crítica dele é às instituições disciplinares – neste caso, o exemplo é o manicômio, mas podemos estender este conceito às demais, como escolas, prisões e centros de reabilitação. Outro importante aspecto crítico é o fato de muitas vezes “criarmos” nossos próprios loucos ou criminosos – isso é mostrado de maneira sutil, mas muitas vezes nos questionamos sobre se alguns dos que estão internados no manicômio são realmente loucos, se deveriam estar ali e até mesmo se o local apenas agrava o quadro deles. A ideia de prisão psicológica que o lugar exerce também é muito interessante, criando um sistema que oprime mesmo os que estão ali por livre espontânea vontade. 
          O elenco do filme está realmente impressionante. Forman dá a oportunidade de todos apareceram de maneira excelente. Todos os coadjuvantes são ótimos – Sampson está muito bem; de Vito e Lloyd também compõem personagens importantes de forma brilhante, e o maior destaque fica para Dourif, que faz um papel forte de forma brilhante, tanto nos momentos de gagueira e submissão quanto os de raiva explosiva. Aliás, todos fazem muito bem esse papel: momentos de loucura, sanidade, raiva, alegria – todos de forma não caricata e muito bem retratados, tornando o filme magnífico. 
         Os protagonistas roubam a cena. Nicholson faz o papel de sua vida, cheio de energia na medida certa, um perfeito anti-herói. Apesar de estar tentando fugir do trabalho e da prisão, é impossível não nos afeiçoarmos a ele. É um ótimo trabalho apresentá-lo de forma tão humana, capaz de encher de alegria e reivindicações justas um lugar em que o que governa é a exceção e o totalitarismo. Fletcher também encontrou o tom certo de seu personagem, pois apesar de ser impossível não odiá-la (sua voz calma nos irrita ainda mais), ela também demonstra seu lado bom ao querer cuidar de Mac (Nicholson), considerando que está fazendo o melhor para ele e para todos os pacientes. Vale ressaltar que ela também é fruto deste sistema, pois está inserida nesta lógica e deve ter sido moldada pela instituição. 
       Realmente a presença de Mac no manicômio muda tudo – um ex-prisioneiro vem defender seus direitos e de seus colegas, além de demonstrar valores como amizade, fidelidade e companheirismo. As tomadas de Forman também dão um excelente toque, principalmente em seus closes, como no caso da discussão final entre Billy e a enfermeira chefe. A sequência final, com o suicídio, o colapso do protagonista e a fuga magistral do "chefe" realmente torna-se o ápice do filme, além de ser uma louvável ousadia, polêmico e brilhante. Um dos melhores filmes de todos os tempos, em todos os aspectos, que certamente vai agradar a todos que apreciam a sétima arte. 

Nota 100/100
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

Ficha Técnica: Sherlock Holmes: A Game of Shadows, 2011.
Gênero: Ação, Aventura, Crime.
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Jarde Harris, Rachel McAdams, Stephen Fry, Paul Anderson, Kelly Reilly, Geraldine James, Jack Laskey, Eddie Marsan.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 129 min. 
Idioma: Inglês. 

    No segundo filme da franquia do famoso detetive Sherlock Holmes podemos observar uma grande evolução em relação ao primeiro filme. No entanto, apesar de ser um filme melhor, o fato de ser o segundo acaba por prejudicá-lo, afinal, a primeira impressão, apesar de não “ficar”, estragou qualquer surpresa que a franquia poderia trazer em seu primeiro título. 
     Downey Jr. está novamente muito bem, assim como Jude Law, e a química entre os dois parceiros é excelente. No entanto, o impacto da atuação dos dois não nos afeta mais, ao menos para aqueles que já assistiram ao primeiro. Os novos atores acrescentados ao filme fazem ótimos papéis, como Fry, Rapace e Harris. Hans Zimmer novamente assinando a trilha sonora, também faz seu costumeiro excelente trabalho. 
      Outro ponto positivo do filme foi a escolha do vilão – Professor Moriarty, além de ser o principal inimigo de Holmes, é alguém que está no mesmo patamar do detetive, podendo desafiá-lo física e intelectualmente. Muitas das cenas foram muito bem trabalhadas, e tive a impressão que a ação foi reduzida de forma produtiva para o filme, ainda que não tenha realmente conseguido nos estimular com relação aos mistérios que Holmes e Watson desejam resolver. 
       E por fim, o ponto forte do longa é, ironicamente, ao meu ver, também seu ponto fraco: ao trazer o filme mais próximo da realidade, nos mostrando os interesses envolvendo as guerras, ainda no século XIX, que estavam muito além de uma simples questão imperialista e expansão territorial – a ganância dos vendedores de armas, que desejam expandir seu mercados ilimitadamente, dentre outros burgueses que lucraram e ainda lucram com as guerras. Neste aspecto, o filme acerta em cheio, e erra também, ao não elaborar e desenvolver com mais profundidade e seriedade o assunto, tornando-se uma algo como bem vs. mal.

 





Nota 65/100