Gênero: Drama.
Direção: Lars von Trier.
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Stellan Skarsgard, Patricia Clarkson, Chloë Sevigny, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon, John Hurt, Lauren Bacall, Harriet Anderson, James Caan, Zeljko Ivanek, Bem Gazzara, Blair Brown, Cleo King, Bill Raymond, Miles Purinton.
País: Dinamarca, Suécia, Finlândia, Itália, França, Alemanha, Noruega, Reino Unido, Holanda.
Tempo: 178 min.
Idioma: Inglês.
Lars von Trier é um diretor polêmico e impactante – e sua polêmica vai além de seus filmes e mesmo de sua postura política. Ele se utiliza das suas polêmicas como marketing, atraindo mais atenção para seus filmes. Independentemente de aprovar ou não essa sua atitude (deixando claro que defendo e acho ótimo o envolvimento dele com questões políticas e sociais de forma geral), seu filme deve ser analisado para além disso. Provocante, certamente não conseguirei ser breve ao falar sobre ele.
E Dogville é um excelente filme! As quase
três horas de filme passam quase que sem perceber; é difícil argumentar que ele
poderia ser muito mais curto. O filme é infinitamente melhor do que o bom Melancolia. Mas ao mesmo tempo, se não
fosse pelo fato de estarmos vendo tudo que acontece através de uma câmera, que
também produz cortes de cenas e imagens, poderíamos muito bem classificar Dogville como uma peça de teatro. Mas
diferentemente de Carnage, que foi
baseado em uma peça de teatro, o roteiro deste longa foi escrito diretamente
para o cinema. Ainda que assim como o mencionado filme de Polanski, o cenário
seja um só, naquele a sala de estar continha de fato as paredes e portas, era
completo; em Dogville, o cenário
consiste apenas em alguns objetos, e as paredes e portas são riscos no chão.
Essa atitude ousada deixa o filme ainda melhor,
apesar de algumas críticas, e me chama a atenção por dois motivos. Além de ser
algo muito bem feito, e os personagens agem como se todas as portas, janelas e
paredes estivesse ali, inclusive com o barulho das portas e chaves; mas também
há um outro detalhe: demonstra a falta de privacidade de uma vila tão pequena,
em que todos sabem da vida de todos, evidenciado para o espectador também
através da ausência de paredes. Podemos observar tudo que acontece na cidade
com o mesmo plano de visão. Um paradoxo com a sociedade atual, cada vez mais
individualista e ao mesmo tempo, com menor privacidade – talvez uma semelhança
muito maior com o passado do que gostaríamos de acreditar. O jogo de luz para
diferenciar dias e noites, momentos tensos ou alegres e estações do ano também
foi utilizado de maneira inteligente.
O elenco, reconhecidamente de peso, também é
brilhante. A ausência destes efeitos especiais e cenários variados, mesmo
paredes, acaba por exigir muito dos atores, sendo juntamente com o roteiro
forte, o que sustenta o filme. Nicole Kidman está muito bem no papel. Paul
Bettany, um ator ao meu ver subestimado, tendo em vista seu grande potencial,
está excelente. E podemos contar com grandes nomes que fornecem atuações fortes
como Lauren Bacall, Philip Baker Hall, Stellan Skarsgård, Jeremy Davies, Ben
Gazzara e Patricia Clarkson. Além da poderosa narração de John Hurt. Talvez
muitos considerem que parte deste grande elenco coadjuvante foi subaproveitado,
com exceção de Bettany, Skarsgård e Clarkson, principalmente tendo em vista as
quase três horas de filme. Mas há um equilíbrio razoável entre todos o destaque
de todos, e o fato de a história não se fragmentar em várias tramas menores e
paralelas dá ainda mais força e profundidade ao centro da história – a relação
de Grace (Kidman) com a cidade de maneira geral.
O diretor e roteirista nos apresenta uma crítica à
sociedade dos EUA, que fica um pouco explícita ao final do filme, com a música
que toca juntamente com as impactantes fotos – o individualismo na sociedade
estadunidense é evidentemente atacado. No entanto, este longa é muito mais uma
crítica social geral do que a um país ou comunidade específico. Podemos
observar claramente a visão negativa e pessimista do ser humano, e também a
tentativa de desromantizar a visão do passado, de cidades pequenas e inocentes,
em que a vida era melhor, sem violência ou mesmo a inocente visão de que era
pura e sem maldade. Há muito mais semelhanças do que diferenças, em termos
sociais, e também o forte argumento de que pouco evoluímos ou regredimos em
relação ao passado. A humanidade de cada um é demonstrada através da
desumanidade.
Ao final do filme, após Grace ter sido humilhada,
injustiçada, escravizada e abusada de todas as formas possíveis e imagináveis
pela cidade, surge um dilema moral e de consciência para a protagonista. Ela
não perdoa o pai (Caan), uma das grandes revelações do filme, por agir da forma
que age comandando um grupo gangster. No entanto, está aceitando todas as
maldades e fraquezas daquela população, a qual ela apenas ajudou e que sabe da
inocência dela. A discussão sobre o contexto e as condições que ela tem com o
pai é excelente, mostrando realmente como é difícil estipular que somos todos
apenas um produto do nosso meio. Mas talvez essa mudança de opinião de Grace,
seja o ponto mais fraco do filme. A mudança é muito súbita, tendo em vista tudo
que nos foi apresentado, mas é válida – e ela nos mostra o “rebaixamento” de
Grace ao nível dos habitantes da cidade, julgando-os e exterminando-os como
animais que são e supostamente merecem tal destino – uma poderosa metáfora do
nome do filme, que também dá nome a cidade. Mas ao meu entender, em nenhum
momento o filme defende o lado de Grace (somente alguém que não compreendeu a
história pode acreditar que o diretor defenda aquele extermínio).
A presença
de crianças e deficientes torna a carnificina ainda mais impactante, pois
seriam supostamente mais inocentes e do que qualquer outro habitante. O
envolvimento dela com Tom (Bettany) e seu aparentemente verdadeiro amor que
eles sentem um pelo outro torna seu final ainda mais trágico. Sua incapacidade
de manter seus princípios e honestidade com Grace quando a cidade começa a
pressioná-lo, ele acaba por traí-la mais de uma vez (no caso do dinheiro, e
depois no telefonema) tornam sua morte talvez a mais justificada para o
espectador, ainda que ele tenha sido o único que genuinamente gostou dela e
procurou ajudá-la. E em razão disso, esse seu voluntarismo verdadeiro começa a
ser posto em xeque, visto apenas como uma forma de confirmar suas teorias e ter
mais alguém sob sua influência intelectual.
Também percebemos que, na lógica do filme de uma visão
negativa sobre o ser humano, os indivíduos evitam-se colocar em situações que possam
prejudicá-los, ainda que por uma causa correta e contra algo que sabem estar
totalmente errado. Há sempre uma balança que vai pesar as vantagens e riscos de
todas as atitudes. E para manter esta linha de raciocínio, toda hipocrisia,
formas de submissão e barbaridade pode não ser o suficiente.
Nota
99/100
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