segunda-feira, 29 de abril de 2013

12 Homens e uma Sentença

Ficha Técnica: 12 Angry Men, 1957.
Gênero: Drama.
Direção: Sidney Lumet.
Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Joseph Sweeney, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber.
País: Estados Unidos.
Tempo: 96 min. 
Idioma: Inglês.
            
      Sidney Lumet tem uma estréia fantástica no cinema. Logo em seu primeiro filme ele nos brinda com uma obra prima da sétima arte. Em 12 Homens e uma Sentença o diretor filma em preto e branco, quase inteiramente em um único cenário e praticamente sem qualquer trilha sonora. E todos esses elementos, que poderiam levar a um filme tedioso, dão mais tensão e profundidade ao roteiro, que já é excelente.

       Após um julgamento, os 12 jurados se reúnem nesta sala pequena, apertada e quente para decidirem se o rapaz acusado de matar o pai a facadas é culpado ou inocente. Caso seja considerado culpado, será sentenciado a morte. Dos 12, 11 o consideraram culpado; apenas o jurado #8 (Henry Fonda) questiona se o julgamento realmente provou de forma irrefutável que o rapaz é o assassino, ainda que não afirme que ele seja inocente.
      Partindo deste cenário, surgem inúmeras discussões que envolvem preconceito, inocência, dever cívico, dentre outros aspectos abordados. Diversos argumentos da sociedade em relação ao tema que envolve um tribunal do júri são apresentados, como a presunção da inocência, ônus da prova, dentre outros. Arquétipos de indivíduos são apresentados em cada jurado, mas sem exagerar ou caricaturizar cada um.
       A direção é fantástica – as tomadas de câmeras são ótimas, em diversos momentos no nível do rosto dos personagens, nos trazendo para dentro da sala. A ausência de trilha sonora também contribui para a imersão no assunto. As atuações estão ótimas, cada um tendo o devido tempo de tela para se posicionar; o próprio figurino ajudou a nos envolver na história – conforme eles tiravam o paletó e se envolviam, parece que sentimos o mesmo. O preto e branco também serviu para não distrair o telespectador do que realmente importava – o diálogo e as discussões.
     Outro ponto forte do filme é não termos acesso ao julgamento, nem mesmo com flashbacks. Apenas as impressões e relatos dos jurados, que vão construindo a história nas nossas mentes e nos auxiliam a formar as opiniões. Fonda também tem uma excelente atuação, equilibrando seu protagonismo, além da excelente interação com Cobb. Realmente, uma obra prima do cinema. 





Nota 97/100

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Questão de Honra

Ficha TécnicaA Few Good Men, 1992.
Gênero: Crime, Drama.
Direção: Rob Reiner.
Elenco: Tom Cruise, Demi Moore, Jack Nicholson, Kevin Pollack, Kevin Bacon, James Marshall, Wolfgang Bodison, J.T. Walsh, Kiefer Sutherland, J.A. Preston, .
País: Estados Unidos.
Tempo: 138 min. 
Idioma: Inglês.

     Nos EUA, a questão da dedicação dos militares é muito forte, e a propaganda envolvida para o apoio ao “trabalho” deles é muito grande. Basta lembrar que o exército deles é formando inteiramente por pessoas que escolhem esta carreira livremente, sem haver recrutamento. Este filme nos mostra um pouco alguns aspectos deste exército, e talvez o mais respeitado e fanático deles – os fuzileiros navais.
     Eles vivem sob alguns códigos, como o mencionado “Unit, Corps, God, country” – toda a dedicação deles é mostrada, e como são ótimos soldados que cumprem ordens. Há também um questionamento sobre esta extrema rigidez da corporação, se ela é realmente necessária, se o excesso de violência pode levar a casos como a morte de William Santiago. No entanto, quando se referem à base naval de Guantánamo e aos soldados que a guardam – estes são heróis! Cubanos estão treinados para matá-los, e eles devem proteger o muro, e por aí vai. Estes mesmos militares que mataram seu próprio integrante, mas certamente devem respeitar os cubanos que habitam o território que os EUA imoral e ilegalmente ocupam na ilha caribenha.     
     Procura-se questionar, em partes, a ideologia por trás do exército estadunidense. Na verdade, não tanto a ideologia e o patriotismo deles, apenas suas distorções – que acabam por prejudicar alguns homens de honra. E esta é uma contradição do filme: poucos homens de honra – então a base é uma instituição corrompida. Mas ela é também formada por heróis que realmente a fazem imprescindível?

     O filme conta com excelentes atuações – Cruise, Moore, Sutherland, Walsh, Pollak, Bacon. Todos estão muito bem no longa, ainda que o destaque seja Jack Nicholson, mesmo com pouco tempo em tela. Tom Cruise faz uma boa atuação, fazendo ótimo contraponto com a atuação mais “robótica” de Demi Moore. Apenas os dois réus nos trazem uma atuação mais discreta e de menos destaque. O julgamento realmente é muito interessante, ainda que se tenha em mente todas as críticas feitas acima. Ele é envolvente e bem dirigido, com excelentes momentos e que certamente enchem os olhos (e iludem) daqueles que pensam em estudar direito. 
     O fato de o julgamento também incluir uma certa investigação deixa o procedimento mais interessante. Entretanto também há um aspecto negativo no caso do tribunal – toda a preparação envolvida que nos é mostrada acaba por tirar qualquer surpresa. Eles buscam explicar, didaticamente inclusive, todos os passos que vão tomar, reduzindo o impacto de muitos momentos. O que demonstra grande habilidade de ainda envolver o espectador sem o fator surpresa. Enfim, um filme interessante, mas prejudicado pelo alto teor patriótico fanático.

Nota 79/100

sábado, 6 de abril de 2013

A Origem dos Guardiões

Ficha Técnica: Rise of the Guardians, 2012.
Gênero: Animação, Aventura, Fantasia.
Direção: Peter Ramsey.
Elenco: Chris Pine, Alec Baldwin, Hugh Jackman, Isla Fisher, Jude Law, Dakota Goyo.
País: Estados Unidos.
Tempo: 97 min. 
Idioma: Inglês.

      A ideia de reunir os principais personagens das mitologias infantis num filme de animação é ótima. A caracterização moderna atribuída aos personagens – Coelhinho da Páscoa (Hugh Jackman), Papai Noel (Alec Baldwin), Fada dos Dentes (Isla Fisher), Sandman, Jack Frost (Chris Pine) e Bixo-Papão (Jude Law) – foi muito interessante e divertida. Os efeitos especiais estão ótimos, os personagens estão engraçados e a história cheia de ação – perfeito para entreter a família.
     No entanto, ao invés de resgatar algo importante da infância e valores que teoricamente originaram estes personagens, como a praticar boas ações, a preocupação e respeito para com o outro, tais valores também foram “modernizados”. O foco nos presentes, ovos e dinheiro é muito grande – e a recompensa torna-se fruto de apenas acreditar e enfrentar os pesadelos. Há um mérito em resgatar o fato da “inocência” perdida muito cedo por parte das crianças, mas o fato do foco ser este produto capitalista gera uma contradição muito grande que enfraquece este argumento.
     Um filme direcionado para família que ocupa o final do ano com o espírito natalino – aquele das compras e do consumismo – que dificilmente passará despercebido pelas crianças, e ainda possa influenciar os pais. Ao mesmo tempo, há personagens divertidos e também algum argumento que se possa aproveitar, apesar do clichê – toda construção e transformação de Jack Frost é rápida e carregada de clichês, mas não tão danosa quanto o argumento geral.
     Os efeitos estão realmente fantásticos, com destaque para as animações e poderes de Frost, Sandman e Beau (Law). Também detalhes como as tatuagens do Papai Noel, seu trenó, duendes e ietes foram divertidíssimos. Sandman, apesar de pouco conhecido aqui no Brasil, é carismático e conquista rapidamente seus espectadores; e a personalidade do Coelho, apesar de clichê, lhe caiu muito bem. Formam um ótimo grupo - muitos consideraram um filme infantil de Os Vingadores, o que para a maioria pode ser um elogio, é na realidade lamentável, apesar de fazer muito sentido. 






Nota 67/100

segunda-feira, 25 de março de 2013

Chinatown

Ficha TécnicaChinatown, 1974.
Gênero: Drama, Crime, Suspense.
Direção: Roman Polanski.
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hillerman, Roy Jenson, Diane Ladd, Darrell Zwerling, Joe Mantell, Bruce Glover, Burt Young, Belinda Palmer.
País: Estados Unidos.
Tempo: 130 min. 
Idioma: Inglês.

    Eu li muito mais do que realmente assisti filmes considerados noir; aprendi sobre sua estética, roteiros, dentre outras características. Todos os filmes que se enquadram em tal classificação ou que foram influenciados por este estilo que eu assisti não foram do período áureo do cinema noir, as décadas de 1940 e 1950, e sim mais recentes, como Los Angeles – Cidade Proibida. Chinatown é dito um clássico do cinema noir, ao revisitá-lo já na década de 1970, que conta com uma única mudança evidente – as cores ao invés do tradicional preto e branco.
    Chinatown conta com boas atuações – Dunaway está sólida e faz um bom trabalho; Huston realmente engrandece as cenas em que está presente; e Nicholson realmente faz uma ótima atuação, responsável por conduzir o filme de maneira brilhante. O roteiro é centrado na investigação de seu personagem, Gittes, um detetive particular que ganha a vida investigando casos extra-conjugais; ao ser contratado para investigar o chefe do departamento de água de Los Angeles, percebe que entrou numa trama complexa e que tanto ele, quanto nós, não sabemos realmente o que está acontecendo.
      O filme nos traz as reviravoltas e dúvidas clássicas do cinema noir, sempre nos deixando incertos sobre o que realmente está acontecendo e qual a real intenção dos personagens a cada momento. Também traz a complexa rede de corrupção na cidade, a disputa pelos recursos naturais (água) e a politicagem da cidade. Apesar de Chinatown (o bairro) pouco aparecer, há uma comparação excelente entre a Los Angeles e o bairro chinês, com uma ótima metáfora sobre a ausência de lei e ordem no bairro e na cidade como um todo.
   O longa também apresenta aspectos chocantes, e nos surpreende a cada virada, com um final inesperado e angustiante. Além do choque com o trágico final de Evelyn Mulwray (Dunaway), é impossível não pensar no futuro Katherine, sua filha (Palmer). Nos traz também a sensação de impotência, que provavelmente é compartilhada por Gittes ao final, diante deste poderoso esquema de corrupção e este turbilhão que envolveu todas estas pessoas que buscaram enfrentá-lo ou ao menos deixá-lo. Apesar de clichê mencionar isso, realmente nem tudo é o que parece, e o filme ainda conta com uma ótima direção de Polanski, com cenas interessantíssimas como a do beijo entre os protagonistas, que envolve também um nariz cortado e sujo de sangue no meio.


Nota 93/100

domingo, 24 de março de 2013

A Feiticeira da Guerra

Ficha Técnica: Rebelle, 2012.
Gênero: Drama, Guerra.
Direção: Kim Nguyen.
Elenco: Rachel Mwanza, Serge Kanyinda, Mizinga Mwinga, Alain Lino Mic Eli Bastien, Ralph Prosper, Alex Herabo, Starlette Mathata, Sephora Françoise.
País: Canadá.
Tempo: 90 min. 
Idioma: Francês, Lingala.

    Este filme canadense nos mostra a história de uma menina, que vivia numa miserável e pequena tribo africana, e após a invasão da tribo por rebeldes que lutam contra o governo do país, é obrigada a assassinar seus pais (para poupá-los de uma morte mais dolorosa) e a se juntar aos rebeldes como uma criança-soldado. Podemos observar gravíssimos problemas de diversos países africanos – guerra civil, crianças incorporadas aos exércitos rebeldes, miséria, violência.
    O filme não busca trabalhar as questões maiores que levaram esse país a tal destino; nem ao menos nos mostra o motivo “oficial” do conflito (se é que há alguma razão), ou mesmo a atuação do governo que enfrenta estes rebeldes. No entanto, qualquer pessoa com um conhecimento mínimo da história africana pode compreender alguns aspectos – e o colonialismo, imperialismo e disputas das grandes potências, se aliando e armando chefes tribais e governantes de Estados marionetes no continente africano são razões que todos poderão observar se analisarem criticamente o passado.
    A Feiticeira da Guerra prefere não se envolver neste vespeiro, evitar tocar em tais feridas europeias. O longa “apenas” nos mostra a dureza, barbaridade e violência destes conflitos, mas temos uma clara ideia do que levou a ele. Mas do mesmo jeito que não sabemos o motivo da guerra, tampouco os soldados, crianças ou não, aparentam saber o porquê de estarem lutando. A menina Komona (Mwanza) tem sua infância roubada prematuramente, aos doze anos; adquire o status de feiticeira, bruxa, mas que tampouco pode lhe garantir muita segurança. É obrigada a matar até mesmo seus entes queridos, mas também desconhecidos; assiste também a morte daqueles que ama, dentro de um exército de crianças.
     Ela se apaixona pelo Mágico (Kanyinda), outro soldado-criança, que a protege e a pede em casamento, após terem fugido do exército rebelde. Percebemos que estas crianças, que apesar de terem perdido sua infância há muito tempo, continuam crianças, e procuram viver felizes – o que momentaneamente conseguem. O romance entre eles é algo que pode provocar inúmeras discussões – afinal, ela tem apenas 13 ou 14 anos, e casou-se com outra criança; ao mesmo tempo, eles se amam e se protegem. Entretanto, independente de podermos formar uma opinião sobre tal situação, a guerra novamente os atinge, mostrando o quão difícil é fugir destas barbaridades.
      Ela volta para a guerra após ficar viúva – é arrastada de volta para o exército rebelde. Fica grávida do comandante, que a obrigou a casar com ele; e este ao meu ver é o único grande defeito do filme – a gravidez dela, que desde o início temos uma suspeita como se deu, pois ela narra a história para o filho que ainda não nasceu. Após o nascimento do bebê, pouco se trabalhou esta relação, ainda que tenha criado muitas expectativas sobre. Como o filme tem apenas 90 minutos, poderia se estender um pouco mais, para também elaborar este aspecto.
      A fotografia do filme é excelente, sendo acertada a decisão de filmar no RD Congo. Os atores fazem um excelente trabalho – o fato de serem amadores, mas nativos daquele mesmo país, certamente contribuiu para as ótimas atuações, principalmente de Mwanza, que alterna os momentos de sofrimento e alegria muito bem, mas sempre com a aura de alguém que está em constante sofrimento, tendo em vista sua história. Kanyinda também faz um excelente trabalho. A trilha sonora também se encaixa muito bem em todos os momentos.

Nota 89/100


sábado, 23 de março de 2013

O Voo

Ficha TécnicaFlight, 2012.
Gênero: Drama.
Direção: Robert Zemeckis.
Elenco: Denzel Washington, Kelly Reilly, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Brian Geraghty, John Goodman, Tamara Tunie, Nadine Velazquez, Adam Tomei, Tommy Kane, E. Roger Mitchell, Boni Yanagisawa, Peter Gerety, Garcelle Beauvais, Justin Martin, Melissa Leo, James Badge Dale.
País: Estados Unidos.
Tempo: 138 min. 
Idioma: Inglês.

    Robert Zemeckis retorna ao cinema de live-action após um longo período, e também traz um tema maduro e uma abordagem adulta, que não é muito sua praia – Forrest Gump, ainda que seja um bom filme, tem uma certa abordagem infantil. E talvez exatamente por estes traços do diretor, o longa não ousa e acaba caindo no moralismo e no final feliz.
    Temos ótimos exemplos de filmes que tratam questões de vícios – que necessariamente são “pesados”, mostram o quão perigoso e prejudicial é este mundo, geralmente longe de um final feliz, assim com a realidade. Requiem para um Sonho nos mostra a dura realidade, de maneira intensa e trágica; Trainspotting também traz essa perspectiva, com finais trágicos, a dificuldade e sofrimento dos que passam por tais problemas, mas também equilibrando com alguma perspectiva de vencer tal vício. Aqui, a moralidade acaba por determinar o tom final do filme, a lição de moral e superação do indivíduo, tão clichê do cinema hollywoodiano.
    Washington, que está em excelente forma, é o alcoólatra e corriqueiro usuário de drogas capitão Whitaker, piloto de aviões comerciais. Enquanto comandava um voo com mais de 100 pessoas a bordo, o avião sofre uma pane e após uma manobra ousada, única e quase impossível, o capitão consegue pousar o avião num campo aberto; ele salvou a vida de 96 pessoas, com a infeliz morte de apenas seis pessoas, além de ter evitado uma área densamente povoada. Whitaker, que demonstrou incrível presença de espírito e tranquilidade neste momento crítico, estava bêbado durante todo o incidente.
      No hospital, o capitão conhece Nicole (Reilly – muito bem no papel), uma viciada que se recupera de uma overdose. Destaque para o diálogo entre eles e um paciente que trata de um câncer (Kane), muito interessante. O filme mostra as vidas dos dois destruídas em razão dos vícios, ainda que o centro da história seja Whitaker. Ao final, ao confessar seu vício, não considerei seu arrependimento moralista – ele estava sim envolvido com a jovem comissária que levaria a fama de alcoólatra, que morreu ao salvar um menino no avião. Esta talvez tenha sido a gota d’água.
       No entanto, toda forma que foi trabalhado o acidente revelou-se superficial. Ele era sim um viciado, não deveria ter pilotado aquele avião. No entanto, somente suas habilidades o foram capazes de salvar as vidas daquelas pessoas. Qualquer outro piloto teria caído com o avião, e culpa seria exclusivamente da máquina e da falta de manutenção, como de fato foi. Isso foi provado pela perícia. E o filme sequer colocou esta discussão em pauta, ainda que tal dilema não tenha saído da minha cabeça: ao invés de ser congratulado por salvar 96 vidas, ele foi condenado por quatro homicídios. Não sei se ele realmente não deveria ser preso, mas o fato de isso não ter sido debatido acabou com o filme.
    Os demais atores estão muito bem nos papéis – Goodman está, como sempre, inusitado; Cheadle e Greenwood, apesar de contidos, fazem um trabalho decente. Este foi um filme que optou por focar na superação do indivíduo, dentro dos padrões morais, deixando sua angústia e desvios morais em segundo plano, pois afinal, seriam resolvidos quando ele se arrependesse. Mas a cena inicial, com o acidente logo no início, serve nos deixa tensos e serve para nos prender o filme inteiro, ainda que se revele excessivamente longo. A trilha sonora, ainda que seja uma ótima escolha de músicas – muito associadas ao uso de álcool e drogas – talvez revele-se para muitos inapropriada, em razão da temática abordada.


Nota 82/100

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ratatouille

Ficha Técnica: Ratatouille, 2007.
Gênero: Animação, Comédia.
Direção: Brad Bird, Jan Pinkava.
Elenco: Patton Oswalt, Lou Romano, Ian Holm, Janeane Garofalo, Peter Sohn, Peter O'Toole, Brad Garrett, Will Arnett, Brian Dennehy.
País: Estados Unidos.
Tempo: 111 min. 
Idioma: Inglês, Francês.

     Atualmente, não podemos mais considerar apenas o público infantil ao se tratar de animações, ainda que este público seja o principal deste gênero. E exatamente por este aspecto, Ratatouille falha com os dois lados – o público infantil e o adulto. Com o adulto, simplesmente pelo fato do filme ser extremamente infantil.
      Com o público infantil, ele vem carregado de lições de morais, algumas delas apresentadas de forma questionáveis. A primeira é não roubar: tudo bem, sabemos que o roubo não é algo positivo, mas mesmo Aladdin, um filme muito mais antigo, da época final do "conto de fadas", trabalha melhor a questão do roubo pela sobrevivência, a fome ou outro motivo. Ou seja, o filme é totalmente maniqueísta neste aspecto, tornando-o infantil e ao mesmo tempo prejudicial para as crianças; outra lição é a de que basta querer, e conseguiremos o que comer – basta olhar para o mundo e reparar no absurdo desta frase. Até mesmo uma criança pode notar. E ele fica martelando outros clichês sobre família, amigos e tudo mais – que são importantes, mas sozinhos não fazem um filme nem ao menos bom. Outro aspecto em que o filme falha é a comédia: não são tantos momentos de riso e divertimento que o filme nos proporciona - apenas alguns esporádicos e isolados.
       A divisão maniqueísta dos personagens está presente – vilões e mocinhos, ainda que um dos malvados, o mais interessante, o crítico Anton Ego (nome sugestivo, voz de Peter O’Toole) seja mais elaborado. Este personagem também é utilizado, ironicamente, para dar uma “cutucada” nos críticos – o que poderia amenizar minha crítica. Mas são duas coisas diferentes, a crítica a uma refeição, comida ou prato, e outra a um filme. Coisas totalmente distintas, ainda que a observação seja muito válida e nos faça pensar sobre a relação entre o crítico e aquele que realmente produz alguma coisa.
      Os demais personagens são interessantes, mas nada de muito novo ou diferente. Aliás, ratos e humanos não é algo tão novo no mundo das animações. No início do filme, achei positivo como eles eram mostrados – as pessoas de fato tinham nojo e medo deles. Com razão! São animais associados à sujeira e responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. Mas no final, me senti assistindo ao filme da Cinderella – A Gata Borralheira, pois ratos e algumas pessoas se relacionam muito bem. Além de tudo, estes animais na cozinha, aí está algo que nos causa no mínimo grande desconforto, ainda que seja um desenho. Ao menos o filme é visualmente muito bom.





Nota 61/100

quinta-feira, 21 de março de 2013

Intocáveis

Ficha TécnicaIntouchables, 2011.
Gênero: Comédia, Drama.
Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano.
Elenco: Omar Sy, François Cluzet, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Cyril Mendy, Alba Gaia Bellugi, Thomas Solivéres, Absa Diatou Toure.
País: França.
Tempo: 112 min. 
Idioma: Francês.

   Recentemente tenho visto filmes com temáticas semelhantes – a relação entre pessoas que necessitam de cuidados com aqueles que são responsáveis por tais cuidados: Amor, O Escafandro e a Borboleta e As Sessões estão entre eles, ainda que sejam muito diferentes entre si, tanto em qualidade como em abordagem ou gênero. Intocáveis também vai lidar com esse assunto, e também de forma diferente.
     A comédia foi o gênero escolhido pelos diretores para mostrar a relação de Philippe (Cluzet), um milionário tetraplégico, e Driss (Sy), um imigrante ex-presidiário que é contratado para cuidar do milionário – ainda que não tenha experiência alguma no assunto. O filme em momento algum questiona a questão migratória da França, a qualidade de vida de uma pessoa com necessidades especiais e sua interação com a sociedade (aliás, o fato de ele ser milionário possibilita amenizar a situação) ou as desigualdades sociais, que são gritantes entre os dois. Não há qualquer engajamento social por parte do filme; não que seja uma obrigatoriedade do cinema, mas no meu conceito, quando há, engrandece o filme.
         A história é recheada de clichês, principalmente o desenrolar dos protagonistas. No entanto, também é engraçada, conseguindo nos divertir quase a todo momento, mas também carregando um leve tom dramático. Foge do pastelão, mas também do humor negro – acredito que encontra um bom equilíbrio no que concerne às piadas. Os dois personagens são trabalhados de maneira extensiva, para que possamos nos envolver bem com eles, ainda que de maneira superficial e um tanto estereotipada – isso pode ser inclusive uma vantagem do filme, visto que não faz grandes indagações.
Os dois atores principais fazem um excelente trabalho, mas a alma do longa é Sy – talvez por ter inclusive um personagem que possibilite tal destaque, contrastando com Cluzet. A química entre os dois é ótima. Um filme que nos diverte e também difere do tradicional cinema francês, talvez revelando uma influência das comédias estadunidenses – no ritmo do desenvolvimento da história, e não no estilo, que para nossa sorte, está longe do pastelão.




Nota 78/100

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Mestre

Ficha Técnica: The Master, 2012.
Gênero: Drama.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Jesse Plemons, Ambyr Childers, Rami Malek, W. Earl Brown, Amy Ferguson, Lena Endre, Madisen Beaty, Laura Dern, Jennifer Neala Page, Patty McCormack, Christopher Evan Welch, Kevin J. O'Connor.
País: Estados Unidos.
Tempo: 144 min. 
Idioma: Inglês.

    O novo filme de Paul Thomas Anderson não modificou minha opinião sobre o diretor: superestimado, com filmes sempre confusos, que não conseguem se afirmar ao longo da história, muito menos propor qualquer reflexão. Ao menos seus filmes conseguem extrair boas atuações de seu elenco. Em Magnolia tivemos Tom Cruise e John C. Reilly excelentes; Sangue Negro nos trouxe uma fantástica atuação de Daniel Day-Lewis; com O Mestre continuamos tendo estes exemplos, de Hoffman, Adams e principalmente Phoenix.
      O longa nos traz Quell (Phoenix), que saindo da IIGM após lutar contra os japoneses, não consegue se readaptar e enfrenta problemas com álcool, violência e sexo – até que encontra Lancaster Dodd (Hoffman), guru de uma nova seita – intencional e clara alusão à Cientologia. No entanto, apesar de tangenciar temas grandes como veteranos de guerra e seus traumas, religiões e novas seitas, o filme não foca no macro, e sim na vida pessoal dos dois, e também na mulher de Dodd, Peggy (Adams).
    Este foco único no pessoal talvez seja onde o filme perde muito do seu potencial. Há uma grande confusão, cenas desconexas e os momentos e ideias teoricamente mais profundas, sobre o questionamento da seita e sua credibilidade, passam de maneira desimportante. Ao meu ver, muitas cenas estão jogadas, sendo difícil para o espectador extrair totalmente os argumentos e reflexões do filme – que está longe de ser um entretenimento. Essa distância do aspecto do entretenimento, que é positiva, acaba também revelando a incapacidade do filme de atingir um objetivo maior (pois aparentemente é esta a intenção, ir além do convencional).
 



Nota 77/100

terça-feira, 5 de março de 2013

Hurricane: o Furacão

Ficha Técnica: The Hurricane, 1999.
Gênero: Biografia, Drama, Esporte.
Direção: Norman Jewison.
Elenco: Denzel Washington, Vicellous Reon Shannon, Liev Schreiber, Deborah Kara Unger, John Hannah, Dan Hedaya, Debbi Morgan, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Badja Djola, Harris Yulin, Vincent Pastore, Garland Whitt.
País: Estados Unidos.
Tempo: 146 min. 
Idioma: Inglês.

     Esta comovente história de injustiça nos traz Denzel Washington no papel de Rubin “Hurricane” Carter, o boxeador campeão mundial acusado injustamente de assassinato e condenado a prisão perpétua. Washington está muito bem no filme, mesmo que não possa contar com atuações do mesmo nível por parte dos coadjuvantes – as ponta de Steiger, Paymer e Djola são exceções.
       O filme retrata a luta pela liberdade e por justiça de Carter, e também para manter a sanidade dentro da prisão, visto que as perspectivas de sair de lá caiam a cada dia. O longa também retrata de forma acertada, ainda que pudesse enfatizar um pouco mais, a cara do sistema judiciário e prisional estadunidense da época – brancos preconceituosos julgando e trancando homens negros, após explorá-los e violentá-los de todas as formas fora da cadeia. Infelizmente, o retrato atual continua muito parecido com o da época mostrada no filme – principalmente com relação à população carcerária.
     O filme apenas resvala em temas que eu esperava serem mais centrais na história: o racismo e a condição da população afro-descendente nos EUA. Ao assistir ao filme, também me fez refletir sobre o sistema judiciário de forma geral, no poder conferido a juízes, promotores, investigadores e mesmo aos júris populares; e como constantemente na nossa história, tal sistema, pensado de forma a garantir a justiça e a segurança da população, tenha sido distorcido de maneiras tão absurdas e abusivas, tornando-se um instrumento de injustiça social. Mas reconheço que essa reflexão é mais pessoal do que intencionada pelo filme.
      A história de Hurricane Carter é digna de filme, ainda que este bom filme não tenha explorado todo seu potencial. Um homem que passou 30 anos, dos seus 50 vividos, encarcerado injustamente, por um sistema que o prendeu sistematicamente durante toda sua vida, merece o melhor dos filmes. Tivemos uma abordagem um pouco diferente, com a história paralela de Lesra, mostrando como a situação dele seguia um rumo semelhante ao de Hurricane, com um racismo ainda presente na sociedade e a falta de oportunidades que geram este ciclo de violência e pobreza. No entanto, Lesra e mais ainda seus amigos canadenses, tão fundamentais neste aspecto da história, foram pouco trabalhados. Esta escolha do diretor trouxe algumas perdas para a história, mas também muitos ganhos.






Nota 83/100