segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Pagador de Promessas

Ficha TécnicaO Pagador de Promessas, 1962.
Gênero: Drama.
Direção: Anselmo Duarte.
Elenco: Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Vieira, Geraldo Del Rey, Norma Bengell, Othon Bastos, Roberto Ferreira, Antonio Pitanga, Gilberto Marques.
País: Brasil.
Tempo: 98 min.
Idioma: Português.

    Eis um dos melhores filmes do cinema brasileiro. Vencedor da Palma de Ouro, nunca foi devidamente valorizado no Brasil. Em meio ao surgimento do cinema novo, Anselmo Duarte e Dias Gomes nos trazem algo mais tradicional que iria marcar para sempre a sétima arte no país, tanto pela sua qualidade quanto pelo reconhecimento que o filme recebeu com diversos prêmios.
   O longa continua incrivelmente atual ao tratar de temas como religião, autoritarismo, imprensa, adultério, moral e política. Ao relatar a história de Zé do Burro, um agricultor humilde que carrega uma cruz igual à de Jesus até a igreja de Santa Bárbara para pagar a promessa feita em troca da salvação de seu burro Nicolau.
   A questão da religião é apresentada de forma que possa repercutir de forma internacional (como de fato o fez), pois o autoritarismo da igreja e do padre, bem como a interpretação única da verdade dogmática, em que não se aceita qualquer visão alternativa, além do desrespeito em relação aos fiéis. Todos estes aspectos se fazem presentes, acompanhados de grande interpretação de Dionísio Azevedo como o padre Olavo. Além disso, consegue trazer um elemento nacional – a mistura de religiões – ao abordar a questão da santa e da mãe de santo, da igreja e do terreiro, aspectos das religiões brasileiras que se misturam se apropriam uma das outras, em razão da grande miscigenação cultural.
  O autoritarismo está presente não somente na questão da igreja, com o padre e o conselho episcopal, que se reúne para discutir o assunto, avaliando questões políticas sem olhar o mérito da situação. Também o percebemos na polícia, que já demonstra sua costumeira truculência ao lidar com a população em situação mais vulnerável.
   Faz ainda uma ótima demonstração da imprensa, que da mesma forma que as religiões e outras instituições buscam criar seus mitos (demonstrado no filme), também está sempre procurando inventar notícias através de um sensacionalismo barato e muito prejudicial para indivíduos e sociedade como um todo.
  As questões morais e de adultério estão associadas, mas estas não são as únicas questões morais colocadas no filme. Temos a esposa Rosa (Glória Menezes) que acaba traindo o marido com Bonitão (Del Rey) só que sente-se muito culpada. Já o marido encara isso, dentre outras dificuldades que surgem, como mais uma prova imposta pela santa, e não entende a recusa do padre em deixá-lo entrar na igreja com a cruz.
   O filme consegue mostrar as situações absurdas de forma séria mas sem cair nos estereótipos tão clichês, além de nos apresentar uma crítica quase que completa das inúmeras instituições sociais que influenciam as nossas vidas. As atuações são muito boas, ainda que alguns deles estejam um pouco caricatos demais (Del Rey principalmente), mas o grande destaque vai para o protagonista Leonardo Villar, que está realmente muito bem no filme.
    A direção de Anselmo Duarte também é primorosa, com cenas belíssimas. Toda a disputa na escadaria é muito boa, a revelação durante o filme de que o amigo salvo pela promessa é um burro também vem em hora certa (ponto para Dias Gomes, roteirista). E a última cena realmente é muito poderosa e de forte apelo popular. Um filme brilhante que merece todo o reconhecimento possível no país.

Nota 98/100

domingo, 29 de dezembro de 2013

Além da Escuridão: Star Trek

Ficha Técnica: Star Trek Into Darkness, 2013.
Gênero: Ficção Científica, Ação.
Direção: J.J. Abrams.
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Benedict Cumberbatch, Anton Yelchin, Bruce Greenwood, Peter Weller, Alice Eve.
País: Estados Unidos.
Tempo: 132 min. 
Idioma: Inglês.

   O resgate de Jornada nas Estrelas foi uma grata surpresa para todos os fãs da série e também para aqueles que não a apenas tinham ouvido falar do seriado. J.J. Abrams fez um excelente trabalho no primeiro trabalho ao apresentar personagens clássicos como Spock (Quinto), Kirk (Pine), Bones (Urban), dentre outros.
     A escolha dos atores foi realmente muito boa – com destaque para Quinto, que realmente incorporou o vulcaniano de forma marcante. No caso deste filme, o destaque também vai para o personagem Khan, interpretado muito bem por Cumberbatch. O longa também é muito bem realizado, com efeitos especiais fantásticos, ótimas sequências e uma fotografia espetacular, além da primorosa trilha sonora.
    A história nos traz a oposição sempre interessante entre a “racionalidade” de Spock e a “paixão” de Kirk, conflito sempre muito interessante e que, se bem explorado, pode engrandecer muito o filme, apesar de ser um clichê. Outros aspectos interessantes, que já se faziam presente na antiga série, é a comparação e metáforas da nossa sociedade colocadas nos alienígenas. E mais uma vez podemos perceber que isto se repete no início, com a discussão sobre invasão preventiva. Uma pena que no decorrer do longa isto se perca.
    Outro aspecto importante é a relevância dos personagens coadjuvantes – que possuem um potencial imenso a ser explorado – o próprio Dr. Bones é mero coadjuvante, quando deveria protagonizar juntamente com Kirk e Spock. E o mais triste é que há um bom ator para tal tarefa. E neste filme, acrescentam-se novos personagens – Carol (Alice Eve), sem que esteja claro o porquê. Praticamente todas suas passagens poderiam ser realizadas por Uhura (Saldana), Sulu (Cho) ou Chekov (Yelchin), que tornaria mais interessante e acrescentaria em profundidade no roteiro.
    Além de inúmeros furos do roteiro, com soluções malucas sendo que a resposta era bem mais simples (como a questão do sangue de Khan), há uma banalização de algumas questões centrais e super impactantes como ressurreição ou teletransporte. Ao priorizar cenas de ação e os efeitos sem muito conteúdo, o filme acaba por se tornar superficial demais.
     Continua sendo um ótimo entretenimento – e se fosse algo como a sequência de Transformers, que em nenhum momento se propõe sério, minha crítica seria outra. Mas como percebemos um potencial muito grande para tornar este um filme de ficção um pouco mais digno e relevante dentro do bom cinema, fica a decepção em ver um vingança de um indivíduo que ainda passa a ser justificada.
Nota 70/100

sábado, 28 de dezembro de 2013

A Vida de Brian

Ficha TécnicaLife of Brian, 1979.
Gênero: Comédia.
Direção: Terry Jones.
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Terence Bayler, Carol Cleveland.
País: Reino Unido.
Tempo: 94 min. 
Idioma: Inglês, Latim.

     Geralmente sou muito crítico de comédias – e elas tendem a não me agradar muito. Contudo, este filme supera a estrutura de seu gênero. Melhor do que isso, ele a utiliza para fazer algo realmente muito inteligente. A Vida de Brian, além de nos fazer rir, nos apresenta forte críticas e análises sobre temas como religião, política, sociedade e costumes.
      O grupo Monty Python foi inteligente na forma de se realizar o filme. Ao invés de satirizar a vida de Jesus Cristo, optou-se por satirizar alguns as aspectos conservadores não somente da religião, mas da sociedade como um todo. As formas de representações religiosas e políticas, as tradições inventadas – todos estes são temas que se fazem presentes nesta brilhante comédia. A intenção não é ofender os crentes, e sim as instituições que manipulam a fé das pessoas, em qualquer coisa, e não apenas a fé religiosa.
     O filme é muito bem produzido e dirigido, com um roteiro fora de série. As sequências e diálogos são ótimos, que podem arrancar risos da platéia desde o primeiro minuto até seu final. O único aspecto que fica abaixo da qualidade do próprio filme, ao meu ver, são as atuações – ainda que tenham revolucionado o humor de forma fantástica, as atuações enquadram-se no caricaturesco e pastelão – o que não condiz com o roteiro. Talvez a intenção tenha sido deixar claro que era uma sátira (também à Hollywood). Se foi este objetivo, foi bem alcançado, mas não acredito que engrandeça o filme, ainda que possa ter sido necessário.






Nota 93/100

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Retrato de Dorian Gray

Ficha TécnicaDorian Gray, 2009.
Gênero: Drama, Fantasia, Suspense.
Direção: Oliver Parker.
Elenco: Ben Barnes, Colin Firth, Ben Chaplin, Rebecca Hall, Rachel Hurd-Wood, Emilia Fox, Fiona Shaw, Caroline Goodall, Johnny Harris, Max Irons.
País: Reino Unido.
Tempo: 112 min.
Idioma: Inglês.

    Ainda não li este clássico da literatura mundial, de Oscar Wilde. Contudo, exatamente por ser um clássico, sua abordagem é conhecida mundialmente, mesmo para os que não o leram. E nada do que se esperava estava presente no filme.
   Ao que me parece, o panorama do livro é a questão das aparências e beleza em conflito com a moral, e a supervalorização destes aspectos na sociedade. Contudo, o filme fica preso à questão do suspense, da ação, sem colocar qualquer profundidade. A transformação do personagem principal (Barnes) é dada como natural, passando de um ‘bom moço’ para um homicida egocêntrico em pouco tempo.
     Colin Firth vai bem em seu papel, mas o arquétipo do malandro e malvado que influencia o bom menino no começo acaba minando qualquer possibilidade de desenvolver o personagem. O mesmo se aplica ao trabalho de Basil (Chaplin), que tem sua atração por Gray totalmente descontextualizada. Barnes não compromete com sua atuação, mas tampouco aprimora a trama.
   A produção do filme está razoável, com destaque para a maquiagem utilizada. A direção se perde, junto com o roteiro – de um início empolgante e que atrai a atenção do espectador, acaba desviando do caminho, tornando-se cansativo e fazendo com que percamos o interesse. Enfim, um filme dispensável, que apenas não se revelou ainda pior em razão de contar com uma boa história – o livro.
Nota 54/100

domingo, 22 de dezembro de 2013

Duelo de Titãs

Ficha TécnicaRemember the Titans, 2000.
Gênero: Biografia, Drama, Esporte.
Direção: Boaz Yakin.
Elenco: Denzel Washington, Will Patton, Wood Harris, Ryan Hurst, Donald Faison, Craig Kirkwood, Ethan Suplee, Kip Pardue, Hayden Panettiere, Ryan Gosling, Earl Poitier, Kate Bosworth, Burgess Jenkins, Nicole Ari Parker.
País: Estados Unidos.
Tempo: 100 min. 
Idioma: Inglês.

    O esporte é um tema muito recorrente no cinema hollywoodiano. Também é comum a utilização de contextos sociais e de superação (dentro e fora do esporte) aliados a esta categoria de cinema. Como grande fã de esportes e também desta contextualização, talvez não consiga ter o mesmo tipo de objetividade como em outras análises. Mas é ótimo poder contar também com a questão da transformação social causada pela prática esportiva, através da valorização do coletivo. 
    Neste longa temos uma história real de um treinador negro que assume a equipe de futebol americano de uma escola do colegial em seu primeiro ano de integração racial. A animosidade surge desde que o técnico, ainda que reconhecidamente competente, toma o lugar do antigo treinador, que apesar das divergências, assume o cargo da coordenação defensiva.
     Apesar dos clichês de superação, última bola, melhores atletas “inimigos” que se tornam amigos, dentre outros, o filme cumpre bem o papel de ambientar o telespectador no ambiente de preconceito racial nos EUA na época. Faz também um bom trabalho ao apontar outros preconceitos, como de gordos ou homossexuais, além de evitar o estereótipo do “branco malvado”. Temos as cenas de racismo forte, que nos causam (ou deveriam) náuseas, mas também a dificuldade em se adaptar de todos a este novo “modelo” de sociedade.
     As atuações dos técnicos (Washington e Patton) são excelentes, e o destaque para Panettiere, ainda criança – sendo o lado cômico do filme, que conta com pesados momentos dramáticos. O elenco dos jovens atletas é bom e, apesar de não termos nenhuma grande atuação de destaque, o trabalho conjunto deles contribui para a produção. O filme conta com ótima trilha sonora, enquanto que as cenas do futebol são boas, apesar de não serem o forte do longa. Um filme ótimo para o entretenimento, com cunho social importante e fundamental, principalmente dentro da sociedade estadunidense, ainda que não seja muito profundo, além de ser ótimo entretenimento.

Nota 80/100

sábado, 21 de dezembro de 2013

A Garota da Capa Vermelha

Ficha TécnicaRed Riding Hood, 2011.
Gênero: Fantasia, Horror, Suspense.
Direção: Catherine Hardwicke.
Elenco: Amanda Seyfried, Shiloh Fernandez, Max Irons, Gary Oldman, Billy Burke, Virginia Madsen, Lukas Haas, Julie Christie, Shauna Kain, Michael Hogan, Adrian Holmes, Cole Heppell, Michael Shanks.
País: Estados Unidos, Canadá.
Tempo: 100 min. 
Idioma: Inglês.

     Ao se escolher a diretora da Saga Crepúsculo para dirigir um filme com um lobo gigante e um triângulo amoroso, não podíamos esperar muito mais do que uma péssima continuação da sofrível quadrilogia do referido best-seller. Não uma continuação da história, e sim em termos de (falta) qualidade, estilo, direção, elenco, etc.
   A história que supostamente seria mais uma versão mais sombria de uma fábula infantil (primeiro clichê do cinema), revela-se um romance adolescente (segundo clichê), em formato de triângulo amoroso (terceiro clichê) em que a mocinha se vê obrigada a casar com o bom menino rico, mas ama o amigo pobre e trabalhador da vila (quarto clichê). A este drama todo, surge também a questão sobre quem é o lobo, em que todos da cidade são suspeitos (quinto clichê) e, por fim, o final feliz que se pretende diferente, mas não o é.
     Já a produção do filme, nada de inovador, além de cenas bizarras, como o diálogo ridículo com o lobo. O objetivo de obter um filme autorizado para todas as idades acabou por tornar muito menos sombrio do que se esperava e também menos adulto. Inclusive as cenas que envolveriam qualquer conotação sexual ou de violência foram amenizadas. Os estereótipos estão por toda parte do filme, muito mal trabalhados.
   O elenco é fraco, com atuações caricaturescas decepcionante. Amanda Seyfried faz um trabalho razoável, mas é cercada de inépcias e mediocridade. Os dois pretendentes são terríveis, passíveis de vergonha alheia. Burke faz o mesmo papel de pai que fez na saga Crepúsculo, mas agora ele é também o lobisomem, que além de previsível em determinado momento, torna ainda pior. Christie e Oldman estão caricaturescos demais, não lembrando nem de longe os bons atores que são. Não se salva ninguém.
   Um longa decepcionante para muitos, que duvido que tenha obtido sucesso mesmo junto ao público adolescente, além de ser totalmente dispensável na história do cinema. Esperava-se algo com mais suspense, mas revelou-se cômico, não por intenção, mas pela mediocridade – o que o torna péssimo.


Nota 38/100

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Invictus

Ficha Técnica: Invictus, 2009.
Gênero: Drama, História, Biografia.
Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Adjoa Andoh, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Julian Lewis Jones, Marguerite Wheatley, Leleti Khumalo, Patrick Lyster, Shakes Myeko, Robert Hobbs, McNeil Hendricks.
País: Estados Unidos.
Tempo: 134 min. 
Idioma: Inglês.

     Como sou um grande fã de esportes (e seus filmes), minha análise desse longa de Clint Eastwood pode revelar-se distorcida por meu grande apreço pelo esporte. Fato que pode ser agravado por envolver a figura de um dos maiores líderes de toda a história, Nelson Mandela. Sua história de vida tão intensa, suas polêmicas posturas antes, durante e depois do deplorável regime do apartheid poderiam render inúmeros filmes. Contudo, a escolha de Clint Eastwood para o filme foi a relação entre o primeiro presidente negro sul-africano com o time de rúgbi da África do Sul, os Springboks, e a inesperada vitória do time na Copa do Mundo de 1995, em casa, tornando-se referência em histórias de superação e trabalho coletivo.
   O longa conta com cenas dirigidas de forma belíssima, principalmente as que envolveram as partidas de rúgbi, mas não restrita somente a elas (os treinos nos rincões do país e a visita á prisão da Ilha Robben). A atuação de Freeman como Mandela é muito boa, trazendo a serenidade que o presidente aparente nos passar, mas ao mesmo tempo seu pragmatismo e visão de longo prazo. Damon faz também excelente trabalho como o capitão da equipe, Pienaar. O restante do elenco está muito bem, ainda que não tenham tanto espaço.
    Ao nos trazer o envolvimento de Nelson Mandela com a equipe nacional de rúgbi durante a surpreendente campanha de 1995, Clint Eastwood nos mostra, ainda que de forma superficial e tangencial, o panorama político e social que a África do Sul vivia após o regime do apartheid. Podemos ver a tensão racial a flor da pele, e um pouco das dificuldades econômicas e políticas que o presidente Mandela teve que enfrentar, e como utilizou o rúgbi para amenizar alguns aspectos.
  O filme nos mostra o grande líder que Mandela foi, tanto antes como durante o seu governo, mostrando um homem que não temia tomar as decisões que considerasse corretas, ainda que fossem impopulares. Também deixa claro que em muitos aspectos, não era apenas para evitar algum revanchismo ou vingança, mas uma escolha tática e pragmática que se revelaria acertada posteriormente, ao menos de acordo com o filme. Contudo, apesar desta excelente análise de conjuntura, o presidente também tinha seus defeitos, e podemos ver como a relação com sua família era complicada e difícil (como tende a ser para todos grandes líderes e militantes) – e como ele encarou como mais uma missão que deveria cumprir em nome de seu povo.
  Também podemos perceber, ainda que de forma leve, mas clara, o racismo ainda persistente nesta sociedade – o que não seria novidade, visto que um regime de segregação racial institucionalizado vigorava até pouco tempo atrás. Desta forma, o próprio Mandela, que passou mais de 20 anos preso, teve que dar o exemplo para evitar que um conflito civil se instalasse no país.
     Portanto, dentre muitos aspectos que formaram a trajetória deste símbolo na luta contra o racismo e pela igualdade, talvez o filme atribua um papel maior aos Springboks e ao rúgbi como um todo, ainda que somente a história da superação da equipe, por si só, já seria digna de nota. Não conheço o quanto de atenção Mandela deu aos bastidores do campeonato, ou o quanto ele pensou sobre o assunto, mas certamente teve um papel importante, e desta vez, o esporte foi utilizado para unir um país tão dividido e destruído.

Nota 85/100

domingo, 1 de dezembro de 2013

Quero Ser John Malkovich

Ficha TécnicaBeing John Malkovich, 1999.
Gênero: Comédia, Fantasia, Drama.
Direção: Spike Jonze.
Elenco: John Malkovich, John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener, Orson Bean, Mary Kay Place, Charlie Sheen, Octavia Spencer.
País: Estados Unidos.
Tempo: 112 min. 
Idioma: Inglês.

   A princípio um filme sem pé nem cabeça, este longa acabou revelando-se de grande originalidade. Um roteiro totalmente novo, com ângulos inovadores, o filme nos traz ainda um ator representando a si mesmo, o que proporciona cenas muito divertidas.
    Em Quero Ser John Malkovich, além do próprio ator que dá nome á trama, temos boas atuações de John Cusack e Catherine Keener, além de uma irreconhecível e ótima Cameron Diaz – ainda que não sejam atuações primorosas, vão um pouco além de apenas não comprometer o longa. Além disso, há uma tentativa por parte do diretor em nos transmitir as mesmas sensações daqueles que entram na mente de Malkovich por apenas 15 minutos, como se nós mesmos estivéssemos neste lugar.
    O filme não busca dar muitas explicações, e algumas partes realmente não se tornam muito claras, ainda que o objetivo não fosse esse. Realmente, é uma comédia interessante e engraçada, principalmente por seu caráter inovador. Além de trabalhar um pouco a questão da identidade do indivíduo, que se satisfaz dentro de outras pessoas, mas nunca com a sua própria realidade. Outro ponto interessantíssimo e hilário foi quando o próprio Malkovich entra em sua mente.
   Outros elementos inovadores são as questões do titeriteiro, realmente bem diferentes e adequadas ao tema, e algo inesperado – o meio andar. A aparente total desconexão dessa estrutura torna as coisas ainda mais divertidas, principalmente com o fato de todos terem internalizado o assunto, passando a ser algo normal. Um filme que nos traz diferentes sensações, e vale pelo seu caráter inédito.






Nota 71/100

sábado, 30 de novembro de 2013

Bruna Surfistinha

Ficha TécnicaBruna Surfistinha, 2011.
Gênero: Biografia, Drama.
Direção: Henry Selick.
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Cristina Lago, Guta Ruiz, Fabiula Nascimento.
País: Brasil.
Tempo: 131 min. 
Idioma: Português.

     Um filme sobre uma menina que deixa a casa dos pais e sua vida de garota de classe média para entrar no mundo da prostituição, independentemente do livro em que se baseia, tem potencial para um bom filme. Uma pena que tenha ficado apenas no potencial, com pouca coisa interessante sendo incorporada.
      Contudo, o longa fica na “saga do indivíduo martirizado”, sem apontar questões estruturais e sociais que nos levam a tal caminho. Faz bem em, algum momento, principalmente no início, desconstruir aquela ideia romântica que muitos tem em relação à prostituição, mas no decorrer do filme, talvez isso não tenha ficado claro em razão de uma mudança de curso e postura da história, que pode inclusive prejudicar um dos poucos aspectos positivos deste trabalho.
    A atuação de Deborah Secco é mediana, sem nada de extraordinário – o que decepciona, tendo em vista que é a protagonista com cenas muito fortes. Drica Moraes faz um excelente trabalho, ainda que com pouco espaço. Os demais coadjuvantes não comprometem, ainda que não agreguem nada de novo.
   O filme explora bastante as cenas que envolvem sexo e drogas, mas ao tratar apenas como uma rebeldia de adolescente e depois consequências da “fama” e de uma vida de excessos, novamente fica raso. No entanto, não podemos afirmar que é decepcionante, tendo em vista que as intenções de realização do filme estavam claras, não criando grande expectativas neste sentido.

Nota 55/100

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Lado Bom da Vida

Ficha Técnica: Silver Linings Playbook, 2012.
Gênero: Comédia, Romance, Drama.
Direção: David O. Russell.
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles, Dash Mihok, Brea Bee, Paul Herman.
País: Estados Unidos.
Tempo: 122 min. 
Idioma: Inglês.


    Posso ter uma tendência em criticar essas comédias-românticas dramáticas, principalmente quando fazem tanto sucesso como este O Lado Bom da Vida. Apesar da minha amargura, o filme é bom, vai nos fazer rir – conta realmente com momentos hilários. Contudo, mantenho a posição de que as comédias, na forma com são feitas atualmente, em sua grande maioria, possuem uma limitação estrutural (de forma, conteúdo, polêmicas, público-alvo etc.) que dificilmente pode elevar tal filme a um outro patamar. Mas é possível, como mostrou o grande Kubrick em Dr. Fantástico.
Este filme foi um sucesso de público e nas cerimônias de premiação. Ainda que não tenha levado muitos prêmios, suas inúmeras indicações acabaram por contribuir ainda mais para seu sucesso nas bilheterias, e mesmo nas críticas realizadas, ninguém se atrevia a falar mal deste filme. Não que ele mereça tantas críticas, mas houve muito exagero. A constante nas premiações era Jennifer Lawrence, que no papel de Tiffany levou seu primeiro Oscar – e esta é a primeira prova de como o longa está superestimado. Ganhou de Emanuelle Riva (Amor), que teve de longe a melhor interpretação de todas as concorrentes. Talvez o fato de ser francesa tenha pesado contra.
As atuações são realmente muito boas – inclusive a de Lawrence, que está muito bem no papel. Mas não a ponto de ganhar tantos prêmios. Não foi algo soberbo, como vimos na própria Emanuelle Riva ou em sua conterrânea Marion Cotillard, por Piaf. Ganhou o Globo de Ouro de Meryl Streep, ainda que não seja um trabalho como A Escolha de Sofia ou A Dama de Ferro. Foi sim um trabalho excelente, que poderia ter sido utilizado para reparar algumas injustiças ou como reconhecimento de uma carreira sólida (o que ocorreu com Kate Winslet, ao vencer por O Leitor, que não está nem próximo de seus melhores trabalhos ou filmes). Mas uma atriz tão jovem, que tem uma boa atuação, é exagero. Melhor seria se tivesse ganho então por O Inverno da Alma – não que tenha sido uma atuação melhor do que a de Portman por O Cisne Negro.
Bradley Cooper realmente me surpreende, com excelente atuação. Jacki Weaver sólida novamente, bem como Robert De Niro. O quarteto dá grande força ao filme, sendo responsável em partes pelo grande alarde e atenção que recebe. A direção de David O. Russell está sólida novamente, mantendo o mesmo estilo que o tornou conhecido do grande público em O Vencedor. Trilha sonora sempre muito bem escolhida (Led Zeppelin sempre presente, ainda bem), mas ainda que tenha extraído novamente grandes atuações, em alguns momentos a troca de cenas e acontecimentos foi acelerada demais. Contudo, o fato de não ser um filme tão profundo acaba por não ser prejudicado por este tipo de situação.
Já o roteiro em si, é recheado de clichês, como toda comédia-romântica. Todos esperavam por um final feliz, que realmente ocorre, sem nenhuma grande surpresa. E ele consegue nos transmitir um pouco da dificuldade em lidar com doenças relacionadas a vícios, dependências e transtornos comportamentais. Logicamente, pelo fato de ser uma comédia, nem ao menos flerta com a realidade desta situação de fato, tratando tudo com muita leveza. Não é um erro ou defeito, apenas uma opção legítima dos produtores e diretores, mas que me conduz ao meu argumento original – estruturalmente, este gênero, neste formato pasteurizado hollywoodiano, acaba sendo limitado.
Apesar destas amargas críticas de minha parte, um filme que me divertiu muito, com uma das melhores cenas sendo a que surge a grande aposta final, em que Tiffany, perante a família, deixa de ser a louca viúva vadia que atrapalha a recuperação de Pat para se tornar a solução para todos os problemas, com base em “sólidos” argumentos sem lógica alguma. Algumas outras cenas, que em um drama tradicional seriam extremamente pesadas, também tornam-se hilárias, como o episódio do livro de Hemingway, as perseguições de Tiffany enquanto Pat tenta correr e os ensaios e danças de ambos, com participação especial de Tucker. O próprio Pat, ao falar constantemente e de forma quase doentia de sua esposa Nikki – uma das responsáveis pelo seu surto, juntamente com a preocupada porém perturbada família, ajuda a criar este clima cômico, visto que seus planos são cada vez mais mirabolantes.

Nota 81/100