segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Pagador de Promessas

Ficha TécnicaO Pagador de Promessas, 1962.
Gênero: Drama.
Direção: Anselmo Duarte.
Elenco: Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Vieira, Geraldo Del Rey, Norma Bengell, Othon Bastos, Roberto Ferreira, Antonio Pitanga, Gilberto Marques.
País: Brasil.
Tempo: 98 min.
Idioma: Português.

    Eis um dos melhores filmes do cinema brasileiro. Vencedor da Palma de Ouro, nunca foi devidamente valorizado no Brasil. Em meio ao surgimento do cinema novo, Anselmo Duarte e Dias Gomes nos trazem algo mais tradicional que iria marcar para sempre a sétima arte no país, tanto pela sua qualidade quanto pelo reconhecimento que o filme recebeu com diversos prêmios.
   O longa continua incrivelmente atual ao tratar de temas como religião, autoritarismo, imprensa, adultério, moral e política. Ao relatar a história de Zé do Burro, um agricultor humilde que carrega uma cruz igual à de Jesus até a igreja de Santa Bárbara para pagar a promessa feita em troca da salvação de seu burro Nicolau.
   A questão da religião é apresentada de forma que possa repercutir de forma internacional (como de fato o fez), pois o autoritarismo da igreja e do padre, bem como a interpretação única da verdade dogmática, em que não se aceita qualquer visão alternativa, além do desrespeito em relação aos fiéis. Todos estes aspectos se fazem presentes, acompanhados de grande interpretação de Dionísio Azevedo como o padre Olavo. Além disso, consegue trazer um elemento nacional – a mistura de religiões – ao abordar a questão da santa e da mãe de santo, da igreja e do terreiro, aspectos das religiões brasileiras que se misturam se apropriam uma das outras, em razão da grande miscigenação cultural.
  O autoritarismo está presente não somente na questão da igreja, com o padre e o conselho episcopal, que se reúne para discutir o assunto, avaliando questões políticas sem olhar o mérito da situação. Também o percebemos na polícia, que já demonstra sua costumeira truculência ao lidar com a população em situação mais vulnerável.
   Faz ainda uma ótima demonstração da imprensa, que da mesma forma que as religiões e outras instituições buscam criar seus mitos (demonstrado no filme), também está sempre procurando inventar notícias através de um sensacionalismo barato e muito prejudicial para indivíduos e sociedade como um todo.
  As questões morais e de adultério estão associadas, mas estas não são as únicas questões morais colocadas no filme. Temos a esposa Rosa (Glória Menezes) que acaba traindo o marido com Bonitão (Del Rey) só que sente-se muito culpada. Já o marido encara isso, dentre outras dificuldades que surgem, como mais uma prova imposta pela santa, e não entende a recusa do padre em deixá-lo entrar na igreja com a cruz.
   O filme consegue mostrar as situações absurdas de forma séria mas sem cair nos estereótipos tão clichês, além de nos apresentar uma crítica quase que completa das inúmeras instituições sociais que influenciam as nossas vidas. As atuações são muito boas, ainda que alguns deles estejam um pouco caricatos demais (Del Rey principalmente), mas o grande destaque vai para o protagonista Leonardo Villar, que está realmente muito bem no filme.
    A direção de Anselmo Duarte também é primorosa, com cenas belíssimas. Toda a disputa na escadaria é muito boa, a revelação durante o filme de que o amigo salvo pela promessa é um burro também vem em hora certa (ponto para Dias Gomes, roteirista). E a última cena realmente é muito poderosa e de forte apelo popular. Um filme brilhante que merece todo o reconhecimento possível no país.

Nota 98/100

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