quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ficha técnica: , 1963
Gênero: Drama;
Direção: Federico Fellini. 
Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale, Rosella Falk, Sandra Milo, Guido Alberti, Bruno Agostini, Mario Pisu, Mario Conocchia, Barbara Steele, Eddra Gale. 
País: Itália, França.
Tempo: 138 min.
Idioma: Italiano, Francês, Inglês, Alemão.

  O que mais me impressionou neste que é considerado um dos melhores filmes de Fellini foi sua contemporaneidade, mesmo tendo sido filmado no início dos anos 1960. Em parte autobiográfico, o longa nos traz um diretor consagrado – Guido (Mastroianni,excelente no papel) que vem encontrando dificuldades para criar sua próxima grande produção.
   As pressões que Guido sofre são inúmeras: problemas com a mulher, com a amante, os produtores pressionando-o para acelerar o filme (muito em razão do retorno financeiro), os atores que buscam papeis no filme, os demais roteiristas que criticam seu trabalho de diferentes formas, e a maior pressão de todas – a falta de grandes ideias.
    Esse aspecto abordado pelo filme já nos mostra, ainda na década de 1960, o quão difícil é fazer uma obra-de-arte dentro da indústria cinematográfica – o termo indústria é exato, pois o cinema, e talvez todas as demais artes, começa a perder parte de suas peculiaridades que o caracterizaram com a sétima arte. É uma excelente crítica.
   Outro aspecto do filme que nos chama atenção é a mistura entre realidade e fantasia, e que em determinados momentos é difícil identificar se o que está sendo ali representado é a realidade ou não. Apesar de dificultar o entendimento, essa característica condiz com o momento pelo qual Guido passa, em que uma grande confusão em sua mente, entre memórias antigas, nostalgia e questionamentos sobre aspectos da sociedade no passado e presente perpassam pela sua cabeça.
     O elenco de apoio está ótimo, mas o grande destaque aqui é Mastroianni, que fez um excelente trabalho, revelando certa semelhança com a personalidade do diretor deste filme, mas ainda sim de forma única e original. A trilha sonora é um espetáculo a parte, realmente muito bem trabalhada com relação às imagens.
    Enfim, uma grande obra de um dos maiores diretores de todos os tempos, que nos mostra as dificuldades enfrentadas por ele e talvez muitos dos diretores ao se criar um filme realmente de qualidade, que nos acrescente e traga o mínimo de reflexão para os espectadores – e este tema também é muito atual, pois estes tipos de filmes estão cada vez mais raros com os blockbusters dos dias de hoje.
Nota 87/100

domingo, 10 de junho de 2012

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Ficha técnica: The Girl with the Dragon Tattoo, 2011
Gênero: Crime, Suspense, Drama;
Direção: David Fincher. 
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Steven Berkoff, Robin Wright, Geraldine James, Goran Visnjic. 
País: Estados Unidos, Suécia, Noruega.
Tempo: 158 min.
Idioma: Inglês.

     Primeiramente, vale ressaltar que não assisti à versão sueca do filme, e tampouco li a obra de Stieg Larsson, original do qual Millenium foi adaptado para o cinema. A escolha do diretor foi excelente – Fincher é um dos melhores diretores de Hollywood, e ele imprime sua marca desde os créditos de abertura, com o líquido negro tomando diversas formas, com uma versão de Immigrant Song, da banda Led Zeppelin, tocando ao fundo.
    O filme é envolvente, bem dirigido no que diz respeito em nos manter atentos a todo o momento. Daniel Craig está bem no filme, mas nada fora de série – um James Bond mais intelectualizado, dentro de suas limitações, não compromete o filme. No entanto, tampouco o torna minimamente melhor. Já Rooney Mara realmente rouba a cena: desde sua aparência, passando pelas fortes cenas em que ela trabalha, aos momentos em que sequer diz alguma coisa. Ela é quem torna o filme digno de ser visto, e o salva de um tremendo fracasso – sem ela, Millenium seria mais um filme policial comum.
      Talvez um pouco por culpa da complexidade que imagino que o livro tenha, o filme não conseguiu trazer uma história realmente impactante e lógica para o cinema. Em razão da investigação complexa, os personagens são pouco trabalhados – mesmo Salander (Mara), com toda sua complexidade – simplesmente não faz sentido, por exemplo, a mudança de comportamento dela para com Blomkvist (Craig). Os coadjuvantes do filme são pouquíssimos trabalhados – a família Vanger, a questão do nazismo, paternalismo, as grandes empresas suecas – todos esses aspectos da sociedade sueca não foram captados por David Fincher.
       A questão do tempo pode ser uma justificativa, e não sei se a versão sueca lida melhor com essas questões, que ao meu ver, deveriam ser priorizadas. Ao final, em razão de pouco aparecerem, os membros da família Vanger continuaram sendo uma incógnita. Um filme que apesar de toda aclamação da crítica, me decepcionou, pois vai pouco além de uma boa história de investigação criminal, com um final um tanto quanto óbvio.

Nota 69/100

sábado, 9 de junho de 2012

Watchmen - O Filme

Ficha técnica: Watchmen, 2009
Gênero: Ação, Ficção-Científica;
Direção: Zack Snyder. 
Elenco: Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie, Laura Mennell. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 162 min.
Idioma: Inglês.

    Ao fazer uma análise deste filme de Snyder, é difícil não compará-lo aos quadrinhos de Alan Moore, mas devemos tentar. Logicamente, é impossível trazer Watchmen para as telas com a mesma qualidade que podemos observar nos quadrinhos, que são excelentes. Mas não é impossível realizar um bom filme com base num livro ou quadrinhos, pois já observamos isso em diferentes épocas: O Poderoso Chefão e O Cavaleiro das Trevas. Independente da obra original, ambos são excelentes filmes.
   Snyder nos traz um filme que tecnicamente é uma obra de arte. O cenário em parte sombrio, mas ao mesmo tempo com cores fortes, além de uma grande semelhança com os quadrinhos, se encaixaram perfeitamente no cinema. A trilha sonora teve seus altos e baixos – Bob Dylan se encaixou perfeitamente na abertura, bem como o funeral de Blake com Sound of Silence; já a cena de sexo entre Dan e Laurie com Aleluia foi deprimente. A violência e fortes cenas do filme são essenciais, pois buscam nos chocar, da mesma forma que Alan Moore o faz nos quadrinhos.
    Já os atores, apesar de agradáveis surpresas e fortes interpretações de Haley e Crudrup, os demais atores deixaram a desejar, com interpretações apagadas – a maior decepção ficou por conta de Morgan, que fez o papel do Comediante, talvez o personagem mais interessante da história, que também foi pouco explorado pelo diretor. Goode como Veidt e Wilson como Dreiberg estão lamentáveis.
    A história em si nos traz alguns questionamentos, obviamente não está próximo a tudo que o quadrinho nos apresenta, mas são válidos. Um filme de mais de duas horas e meia, mas não foram o suficiente para nos apresentar a história toda. Obviamente, as escolhas do que tirar ou dar importância são do diretor, mas ao meu ver, a investigação de Rorscharch (Haley) sobre a morte do Comediante e a revelação do pai de Laurie (Akerman) foram superficiais e sem a devida emoção. O foco na história de amor entre Laurie e Dreiberg é desnecessário, e não está presente no original.
     Uma tentativa louvável de trazer para o cinema o melhor quadrinhos de todos os tempos; apesar de o fato de que o filme poderia ser muito melhor, não foi um desastre total. Vale o ingresso, algumas das falas são citações literais do gibi, bem como as cenas. Os questionamentos apontados pelo Comediante, Veidt e Dr. Manhattan sobre nossa sociedade e pessoas talvez merecessem um maior destaque, mas ao menos a essência da ideia de Moore está presente. 

Nota 84/100

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro

Gênero: Crime, Suspense, Drama;
Direção: José Padilha. 
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortez, Maria Ribeiro, Seu Jorge, Sandro Rocha, Tainá Muller, André Mattos, Pedro Van-Held, Adriano Garib, Julio Adrião, Emílio Orciollo Neto, Rodrigo Candelot. 
País: Brasil.
Tempo: 115 min.
Idioma: Português.

    Um blockbuster do cinema nacional, o segundo Tropa de Elite continua polêmico, violento e contanto com ótima produção. As cenas de ação, apesar de aparecerem em menor quantidade, continuam contando com ótima direção e montagem. Ainda assim, o primeiro filme contou com uma produção mais hollywoodiana, com mais sequências de ação, mas também com argumentos mais frágeis.
     Os atores que retornaram do primeiro filme trabalham bem, mas agora dividem a tela por mais tempo com novos personagens. Acredito apenas que o personagem Diogo Fraga (Santos) merecia uma interpretação melhor – não saberia dizer se em razão de uma atuação aquém do esperado ou de uma excessiva caricaturização do personagem.
     O roteiro do filme nos traz alguns novos bordões que agradam ao público, mas os questionamentos e problemas apresentados são mais sérios e profundos do que o primeiro. Ao invés de simplesmente culpar o consumidor final pelo tráfico e violência, da maneira rasa com foi feita anteriormente, aqui Padilha ataca diretamente o nosso sistema político-eleitoral, resvalando ainda em outros grandes interesses.
     Outra mudança com relação ao primeiro é perspectiva de Nascimento (Moura). Talvez em razão das acusações de uma posição reacionária no primeiro filme, o diretor busca equilibrar um pouco as posições entre aquela classe média da “direita” que pensa “bandido bom é bandido morto”, e a “esquerda” dos direitos humanos. Eu apresento essa ultrapassada dicotomia “direita e esquerda” em razão do filme trazer esses assuntos ainda estereotipados – a diferença é que nesse há um equilíbrio maior entre os estereótipos. Mas infelizmente, a divisão maniqueísta entre bem e mal ainda está presente no filme.
     Apesar da maneira mais complexa que o tráfico e a corrupção policial são tratados, essa discussão ainda é superficial. O ponto positivo é a caracterização da mídia apresentada pelo filme – acentuada por uma ótima atuação de André Mattos. A mídia (pequena e grande) também tem seus interesses, e será inescrupulosa ao buscá-los. Já a questão das milícias, ao meu ver uma comparação com as UPP’s implantadas pelo governo do Rio de Janeiro, a visão é muito fechada e única. Os efeitos para a população não são tão claros e essas ocupações da polícia são criticadas por um único motivo, aparentando ser o único problema: a corrupção e os votos.
    Assim, a lógica seria um próximo questionamento que não é trazido pelo filme: nossa sistema político – a democracia e as leis eleitorais. Mas o fato do filme ser lançado próximo das eleições, ser apresentado pela Globo Filmes, e do governador do RJ (Sérgio Cabral) apoiar a candidatura de Dilma Rousseff já nos levam a outros questionamentos.
    Enfim, um bom filme, que apesar de não trazer profundas análises (me pergunto se teria inclusive condições), deixa um pouco mais clara a questão do tráfico de drogas, traz uma crítica interna sobre a violência das polícias militares, e apresenta um problema de dimensão muito maior – com uma visão talvez de que ele esteja muito além de nossas possibilidades de resolvê-lo.
Nota 84/100

terça-feira, 5 de junho de 2012

Syriana - A Indústria do Petróleo

Ficha técnica: Syriana, 2005
Gênero: Drama, Suspense;
Direção: Stephen Gaghan. 
Elenco: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Alexander Siddig, Amanda Peet, Christopher Plummer, Chris Cooper, Kavyan Novak, Amr Waked, Nicky Henson, Robert Foxworth, William Hurt, Akbar Kurtha, Tim Blake Nelson, Robert Foxworth, Mark Strong. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 128 min.
Idioma: Inglês, Persa, Árabe, Urdu.

    O longa tenta nos apresentar o que há de mais sujo na indústria petroleira, e isso não é pouco. Eu digo tenta, não por incompetência do filme, mas pelo fato de que esse meio é tão absurdo e inescrupuloso, que talvez seja inclusive retratá-lo totalmente – o que não tira o brilhantismo do filme.
      Quem assina o roteiro e dirige é Stephen Gaghan, o mesmo roteirista do excelente Traffic, e por isso, comparações são inevitáveis. Ambos possuem diferentes histórias entrelaçadas, sobre temas polêmicos e abordados de maneira crítica não-usual pelo cinema estadunidense, principalmente o hollywoodiano. Apesar desse recurso de histórias entrelaçadas não ser mais original, tanto em Traffic quando em Syriana, eles se adéquam muito bem ao tema: assuntos de importância global, sobre os quais 99% da população global não têm o menor controle, mas que afetam de maneiras diversas as vidas de quase todos.
     Em razão da crítica, ousadia, complexidade, relevância, dentre outros aspectos do roteiro, ele é excelente. No entanto, a direção de Gaghan ficou aquém do desejado, o que talvez impossibilite em classificá-lo como evidentemente melhor do que Traffic, dirigido por Soderbergh (muitos inclusive o classificam como inferior, muito em razão desta diferença na direção). O filme busca ser didático em diversos momentos sobre o assunto, e ao mesmo tempo, consegue ser confuso. Falas rápidas e eventos conectados sem que possamos digerir tudo que acontece. São 70 personagens com falas, que ao invés de esclarecer o que se passa, acabaram por confundir o espectador. 
       O elenco está muito bem no filme. Clooney (que engordou 15kg e deixou a barba crescer), Damon, Wright e Siddig carregam o filme de maneira excelente. Plummer, Cooper, Hurt, Peet, Novak, dentre outros fazem ótimas pontas, muitos deles com frases fortes e cruciais para a trama.
A história em si nos mostra de maneira crua a força da indústria do petróleo e sua rede de envolvimentos (CIA, Oriente Médio, Casa Branca, terrorismo), fazendo uma crítica ferrenha à perversidade da situação. Como os interesses das diferentes populações são deixados de lados, sob a máscara da democracia liberal-estadunidense para atender aos interesses dessas grandes corporações.
Mostra a manipulação de investigações, sabotagens de governos, golpes de estado e estímulos para o caos e o conflito no Oriente Médio, em razão dos interesses ocidentais. O longa nos traz também alguma visão sob o surgimento do terrorismo, além de uma mensagem que eu ousaria dizer de cunho marxista, sobre a situação cíclica das elites e exploração dos trabalhadores.
A falta de escrúpulos dos EUA e suas empresas interessadas no petróleo são escancaradas. Além da crítica implícita sobre as guerras travadas pelo império ianque, podemos também perceber que a presença dos EUA no Oriente Médio em nada vai contribuir para a paz na região ou mesmo para a garantia da segurança e dos interesses da população que ali reside. Um excelente filme, que requer muita atenção do espectador, mas que não pode deixar de ser visto.
Nota 93/100