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sábado, 28 de dezembro de 2013

A Vida de Brian

Ficha TécnicaLife of Brian, 1979.
Gênero: Comédia.
Direção: Terry Jones.
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Terence Bayler, Carol Cleveland.
País: Reino Unido.
Tempo: 94 min. 
Idioma: Inglês, Latim.

     Geralmente sou muito crítico de comédias – e elas tendem a não me agradar muito. Contudo, este filme supera a estrutura de seu gênero. Melhor do que isso, ele a utiliza para fazer algo realmente muito inteligente. A Vida de Brian, além de nos fazer rir, nos apresenta forte críticas e análises sobre temas como religião, política, sociedade e costumes.
      O grupo Monty Python foi inteligente na forma de se realizar o filme. Ao invés de satirizar a vida de Jesus Cristo, optou-se por satirizar alguns as aspectos conservadores não somente da religião, mas da sociedade como um todo. As formas de representações religiosas e políticas, as tradições inventadas – todos estes são temas que se fazem presentes nesta brilhante comédia. A intenção não é ofender os crentes, e sim as instituições que manipulam a fé das pessoas, em qualquer coisa, e não apenas a fé religiosa.
     O filme é muito bem produzido e dirigido, com um roteiro fora de série. As sequências e diálogos são ótimos, que podem arrancar risos da platéia desde o primeiro minuto até seu final. O único aspecto que fica abaixo da qualidade do próprio filme, ao meu ver, são as atuações – ainda que tenham revolucionado o humor de forma fantástica, as atuações enquadram-se no caricaturesco e pastelão – o que não condiz com o roteiro. Talvez a intenção tenha sido deixar claro que era uma sátira (também à Hollywood). Se foi este objetivo, foi bem alcançado, mas não acredito que engrandeça o filme, ainda que possa ter sido necessário.






Nota 93/100

domingo, 10 de novembro de 2013

Um Dia de Cão

Ficha TécnicaDog Day Afternoon, 1975.
Gênero: Drama, Crime.
Direção: Sidney Lumet.
Elenco: Al Pacino, John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, Charles Durning, James Broderick, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Susan Peretz, Chris Sarandon, Judith Malina.
País: Estados Unidos.
Tempo: 125 min. 
Idioma: Inglês.

   Sidney Lumet fez uma das maiores estréias no cinema na cadeira de diretor com 12 Homens e uma Sentença. Quase 20 anos depois, ele demonstra que continua afiado, ao nos entregar Um Dia de Cão, filme baseado em fatos reais, contando a história de um assalto a banco e seus dois assaltantes.
    Como o filme é baseado em fatos reais, não podemos exigir que a história seria melhor se fosse alterada em seus acontecimentos. Lumet utiliza tal história para fazer diversas críticas à sociedade, por meio do protagonista Sonny Wortzik, interpretado de forma brilhante por Al Pacino. John Cazale também está excelente como o parceiro de Sonny no assalto, contrabalanceando o perfil expansivo e explosivo do amigo com seu tom introspectivo, tímido e ao mesmo tempo pouco menos preocupado com o bem-estar dos reféns.
   Dois aspectos do filme são mais claros, em termos de críticas: à mídia e à polícia. A televisão transforma este assalto em um reality show da vida real, enquanto que neste mesmo reality show, Wortzik critica a violência do Estado perante os cidadãos comuns, sob o preceito de garantir a lei e a ordem, combatendo o crime. Observamos também a busca por fama de muitos personagens que tentam aparecer, enquanto que a televisão julga e joga na tela toda a intimidade do assaltante, com revelações importantes como a questão do dinheiro para a mudança de sexo do namorado de Sonny.
   Podemos perceber também o despreparo dos dois perante toda a situação – desde a falta de sincronia (Sal – Cazale – é surpreendido tanto quanto qualquer outro com relação ao namorado de Sonny, o que o deixa ainda mais instável e inseguro). Algumas sutilezas também são utilizadas para criticar outros aspectos – como a declaração dos assaltantes de que eram veteranos do Vietnã e por isso matariam qualquer um sem problemas.
    Outro aspecto sutil é o valor do dinheiro e da propriedade mesmo perante a vida humana, e como a polícia, mesmo debaixo de uma chuva de críticas, mantém sua posição truculenta de criminalizar ao máximo os assaltantes, para se possível executá-los sem maiores problemas.
    O longa é muito bem dirigido e escrito, amarrado em todos os aspectos possíveis, além de nos manter atentos e sem definir de forma maniqueísta os personagens. Ainda que Wortzik esteja colocando a vida de muitos em risco, também podemos compreender seu lado, e inclusive torcemos para que ele e Sal resolvam da melhor maneira possível a situação que acabam por se meter.

Nota 91/100

segunda-feira, 25 de março de 2013

Chinatown

Ficha TécnicaChinatown, 1974.
Gênero: Drama, Crime, Suspense.
Direção: Roman Polanski.
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hillerman, Roy Jenson, Diane Ladd, Darrell Zwerling, Joe Mantell, Bruce Glover, Burt Young, Belinda Palmer.
País: Estados Unidos.
Tempo: 130 min. 
Idioma: Inglês.

    Eu li muito mais do que realmente assisti filmes considerados noir; aprendi sobre sua estética, roteiros, dentre outras características. Todos os filmes que se enquadram em tal classificação ou que foram influenciados por este estilo que eu assisti não foram do período áureo do cinema noir, as décadas de 1940 e 1950, e sim mais recentes, como Los Angeles – Cidade Proibida. Chinatown é dito um clássico do cinema noir, ao revisitá-lo já na década de 1970, que conta com uma única mudança evidente – as cores ao invés do tradicional preto e branco.
    Chinatown conta com boas atuações – Dunaway está sólida e faz um bom trabalho; Huston realmente engrandece as cenas em que está presente; e Nicholson realmente faz uma ótima atuação, responsável por conduzir o filme de maneira brilhante. O roteiro é centrado na investigação de seu personagem, Gittes, um detetive particular que ganha a vida investigando casos extra-conjugais; ao ser contratado para investigar o chefe do departamento de água de Los Angeles, percebe que entrou numa trama complexa e que tanto ele, quanto nós, não sabemos realmente o que está acontecendo.
      O filme nos traz as reviravoltas e dúvidas clássicas do cinema noir, sempre nos deixando incertos sobre o que realmente está acontecendo e qual a real intenção dos personagens a cada momento. Também traz a complexa rede de corrupção na cidade, a disputa pelos recursos naturais (água) e a politicagem da cidade. Apesar de Chinatown (o bairro) pouco aparecer, há uma comparação excelente entre a Los Angeles e o bairro chinês, com uma ótima metáfora sobre a ausência de lei e ordem no bairro e na cidade como um todo.
   O longa também apresenta aspectos chocantes, e nos surpreende a cada virada, com um final inesperado e angustiante. Além do choque com o trágico final de Evelyn Mulwray (Dunaway), é impossível não pensar no futuro Katherine, sua filha (Palmer). Nos traz também a sensação de impotência, que provavelmente é compartilhada por Gittes ao final, diante deste poderoso esquema de corrupção e este turbilhão que envolveu todas estas pessoas que buscaram enfrentá-lo ou ao menos deixá-lo. Apesar de clichê mencionar isso, realmente nem tudo é o que parece, e o filme ainda conta com uma ótima direção de Polanski, com cenas interessantíssimas como a do beijo entre os protagonistas, que envolve também um nariz cortado e sujo de sangue no meio.


Nota 93/100

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um Estranho no Ninho

Ficha Técnica: One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975.
Gênero: Drama.
Direção: Milos Forman
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Danny de Vito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, Philip Roth, Vincent Schiavelli, William Redfield, Scatman Crothers, William Duell, Nathan George, Sydeny Lassick, Mews Small, Delos V. Smith Jr.
País: Estados Unidos. 
Tempo: 133 min. 
Idioma: Inglês. 

Este filme é uma obra-prima do cinema. Se não podemos considerá-lo perfeito, ele ao menos beira a perfeição em todos os aspectos. Uma espetacular direção, elenco esplêndido, ótima trilha sonora, roteiro fenomenal. O filme, apesar de ser um intenso drama, também nos faz rir e apresenta críticas à ordem social.
A grande crítica dele é às instituições disciplinares – neste caso, o exemplo é o manicômio, mas podemos estender este conceito às demais, como escolas, prisões e centros de reabilitação. Outro importante aspecto crítico é o fato de muitas vezes “criarmos” nossos próprios loucos ou criminosos – isso é mostrado de maneira sutil, mas muitas vezes nos questionamos sobre se alguns dos que estão internados no manicômio são realmente loucos, se deveriam estar ali e até mesmo se o local apenas agrava o quadro deles. A ideia de prisão psicológica que o lugar exerce também é muito interessante, criando um sistema que oprime mesmo os que estão ali por livre espontânea vontade. 
          O elenco do filme está realmente impressionante. Forman dá a oportunidade de todos apareceram de maneira excelente. Todos os coadjuvantes são ótimos – Sampson está muito bem; de Vito e Lloyd também compõem personagens importantes de forma brilhante, e o maior destaque fica para Dourif, que faz um papel forte de forma brilhante, tanto nos momentos de gagueira e submissão quanto os de raiva explosiva. Aliás, todos fazem muito bem esse papel: momentos de loucura, sanidade, raiva, alegria – todos de forma não caricata e muito bem retratados, tornando o filme magnífico. 
         Os protagonistas roubam a cena. Nicholson faz o papel de sua vida, cheio de energia na medida certa, um perfeito anti-herói. Apesar de estar tentando fugir do trabalho e da prisão, é impossível não nos afeiçoarmos a ele. É um ótimo trabalho apresentá-lo de forma tão humana, capaz de encher de alegria e reivindicações justas um lugar em que o que governa é a exceção e o totalitarismo. Fletcher também encontrou o tom certo de seu personagem, pois apesar de ser impossível não odiá-la (sua voz calma nos irrita ainda mais), ela também demonstra seu lado bom ao querer cuidar de Mac (Nicholson), considerando que está fazendo o melhor para ele e para todos os pacientes. Vale ressaltar que ela também é fruto deste sistema, pois está inserida nesta lógica e deve ter sido moldada pela instituição. 
       Realmente a presença de Mac no manicômio muda tudo – um ex-prisioneiro vem defender seus direitos e de seus colegas, além de demonstrar valores como amizade, fidelidade e companheirismo. As tomadas de Forman também dão um excelente toque, principalmente em seus closes, como no caso da discussão final entre Billy e a enfermeira chefe. A sequência final, com o suicídio, o colapso do protagonista e a fuga magistral do "chefe" realmente torna-se o ápice do filme, além de ser uma louvável ousadia, polêmico e brilhante. Um dos melhores filmes de todos os tempos, em todos os aspectos, que certamente vai agradar a todos que apreciam a sétima arte. 

Nota 100/100
 

sábado, 14 de abril de 2012

Patton - Rebelde ou Herói?

Ficha técnica: Patton, 1970
Gênero: Guerra, Biografia, Drama;
Direção: Franklin J. Schaffner
Elenco: George C. Scott, Karl Malden.
País: Estados Unidos.
Tempo: 172 min.
Idioma: Inglês, Francês, Alemão.

       O aclamado filme sobre o controverso general George Patton Jr. me agradou muito e me fez refletir sobre alguns aspectos das guerras e suas hipocrisias e absurdos. O general em questão é tratado como louco ou insano, mas considerado um dos melhores militares dos EUA durante o conflito. Ao mesmo tempo, ele tenta se afastar da política, numa ingenuidade que acima dos generais, as guerras são feitas pelos políticos.
      O filme nos mostra algum dos horrores da guerra (desrespeito pela vida humana acima de tudo, neste caso), como não poderia deixar de mostrar, apesar de não ser este o foco. Os holofotes estão sobre Patton, suas declarações e atitudes polêmicas, e as controvérsias com os demais militares.
       Se as falas e situações mostradas são reais ou não, será impossível termos certeza acerca de tudo. Entretanto, ele é uma pessoa que comporta infinitas idiossincrasias, assim como a guerra. Ao mesmo tempo que os generais o punem por tratar mal um soldado, os mesmos generais tratam seus soldados como número durante todas as guerras.
A desculpa utilizada para não se glorificar Patton é sua irreverência e atitudes polêmicas, mas o filme as traz como, apesar de algum egocentrismo por parte dele, muito objetivas e bem estruturadas. A história nos faz criar uma simpatia pelo personagem, talvez inclusive com uma visão romântica de um comandante patriota e de reputação ilibada, encarando toda a situação de suas controversas atitudes de maneira ingênua, apenas como um incompreendido – não há nenhum questionamento mais sério sobre seus altos e baixos dentro do exército; mas tampouco há qualquer tomada de posição questionando a mesma atitude do exército. Um filme patriota ao extremo, inclusive com uma certa arrogância até mesmo com relação aos países aliados e à Inglaterra, e que fica em cima do muro nas questões internas.
         Outro ponto em que o filme deixou a desejar é o fato de não mostrarem a história de Patton antes da Segunda Guerra, em que ele realmente fazia o que pregava: ser duro nas batalhas - isso não era algo da boca pra fora, visto que durante a Primeira Guerra lutou até desmaiar por perder sangue durante uma batalha. Não estou defendendo sua postura, mas a construção e contextualização do personagem é essencial para que ele realmente não pareça um louco. 
A atuação de Scott é excelente, ajudada pela semelhança física dele com o verdadeiro Patton. A trilha sonora e efeitos do filme é excelente, e as cenas de batalhas muito bem trabalhadas, fazendo um bom retrato da guerra.
Nota 88/100