domingo, 20 de maio de 2012

Cidade de Deus

Ficha técnica: Cidade de Deus, 2002
Gênero: Drama, Crime;
Direção: Fernando Meirelles. 
Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Alice Braga, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Michel de Souza, Roberta Rodrigues, Luiz Otávio, Darlan Cunha, Renato de Souza, Gero Camilo, Charles Paraventi. 
País: Brasil, França.
Tempo: 130 min.
Idioma: Português.

      É um filme de grande motivo de orgulho e decepção para nosso país. Orgulho para nosso cinema nacional, pois é um filme excelente, e muito próximo da realidade; a decepção também é pela história retratada ser tão próxima da realidade.
   Este é o melhor longa de Meirelles, e também o que o lançou ao cinema mundial como um dos melhores diretores da atualidade. Cidade de Deus nos mostra uma realidade muito violenta, e apesar das fortes cenas, elas não são de conteúdo apelativo, e há um enredo e contexto que envolvem essa violência retratada no filme.
  O início do filme, que marca também o “surgimento” do crime na Cidade de Deus, um bairro distante dos principais cartões postais do Rio de Janeiro, feito para a uma classe baixa, que revela uma certa ausência do Estado, com exceção de sua face violenta.
   O filme nos lembra em partes as produções norte-americanas sobre a máfia italiana, em razão da violência e das disputas entre as gangues. Com diversas cenas pesadas e chocantes, não somente pelos crimes ali apresentados, mas também em razão do fato de os criminosos não terem mais de 25 anos, sendo muitos deles ainda crianças. Esse fato se deve, em grande parte, ao nível da violência sobre o qual todos ali vivem, ou na verdade sobrevivem, que lhes dá uma baixíssima expectativa de vida.
   No entanto, este filme vai mais além da grande parte dos filmes de máfia. Ele nos mostra a origem de muitos dos problemas ali apontados, o descaso com que comunidades como a CDD são tratadas, desde os diversos problemas de infraestrutura (asfalto, eletricidade, escolas, desemprego) até a perversidade do sistema, preconceito e a falta de opções, não somente para as crianças.
   O ciclo de violência que marginaliza as crianças e as introduz ao mundo do crime é apresentado de maneira crua, brutal e muito real, mas também podemos observar a dificuldade enfrentada por aqueles que não desejam ser parte desse mundo, mas acabam arrastados para dentro ele (Mané Galinha) ou são afetados por ele (família de Buscapé). O desprezo com o qual a vida humana é tratada também é chocante.
As dificuldades enfrentadas pelo protagonista deixam patente a questão da desigualdade e perversidade do sistema em que vivemos; devemos pensar sim nele como um exemplo, mas ele é apenas a exceção que confirma a regra. Não vivemos numa sociedade em que as oportunidades estão postas de maneira igual para todos, nem mesmo semelhantes. Somos em grande parte, conseqüências dos contextos em que nascemos, com um reduzido número de escolhas, e por isso, somos todos responsáveis por seus diversos aspectos.
Os atores escolhidos para o filme estão excelentes. Selecionados por um projeto criado para o filme, são em sua grande maioria amadores e moradores das comunidades em que o longa foi filmado, e talvez por isso tenham dado tanta naturalidade e força aos personagens. Os poucos profissionais estão muito bem também – Nachtergaele, Braga, Seu Jorge.
A trilha sonora do filme é impecável – não somente pelas músicas escolhidas (Tim Maia Racional, Seu Jorge, Cartola, Raul Seixas, Simonal) mas também pelo fato de muitas delas terem origem e retratarem as comunidades carentes da cidade. Enfim, uma grande produção, brilhantemente dirigida e conduzida, que todos os brasileiros deveriam ter a obrigação de assistir, talvez o nosso melhor filme nacional.
Nota 100/100

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