sábado, 9 de novembro de 2013

Flores Raras

Ficha Técnica: Flores Raras, 2013.
Gênero: Biografia, Drama, Romance.
Direção: Bruno Barreto.
Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Marcio Ehrlich, Treat Williams.
País: Brasil.
Tempo: 118 min. 
Idioma: Inglês, Português.

     Somente o fato de o cinema retratar um triângulo amoroso lésbico de forma séria já representa um grande avanço e muita ousadia por parte de todos os envolvidos no projeto. E o fato de ele vir do cinema brasileiro me deixa ainda mais contente. Bruno Barreto faz um bom trabalho, e espero pelo fato de trazer atores estrangeiros para a produção, talvez ganhe ainda mais visibilidade, dentro e fora do Brasil.
      O filme que nos traz uma história de amor entre a arquiteta e paisagista Lota Soares (Glória Pires) e a poetisa estadunidense Elizabeth Bishop (Miranda Otto). As duas atrizes fazem excelentes interpretações e acrescentam muito à trama. Vale destacar também a atuação de Tracy Middendorf no papel de Mary, a companheira de Lota e amiga de Elizabeth, que é quem apresenta as duas e acaba sendo traída por ambas. Apesar do pouco espaço que ela tem no filme, nota-se que é importante história da vida de ambas, tomando parte deste relacionamento complicado que se desenha entre as três. Digna de nota também a semelhança entre o ator Marcello Airoldi e o ex-governador Carlos Lacerda. Foi interessante perceber somente após algumas aparições que era Lacerda um dos melhores amigos do casal.
       O longa tem a virtude de se utilizar de poucos clichês e não estereotipar muito as personagens. A forma superficial como é tratado o triângulo amoroso, como se o “término” do relacionamento entre Mary e Lota tivesse ocorrido de forma tão rápida e o início da história de amor com Elizabeth talvez esteja até amenizado, tendo em vista que deve ter sido muito pesado. E mesmo nos dois relacionamentos de Lota, podemos observar como uma opressão (que é muito semelhante à de gênero) está presente, geralmente tendo Lota como a opressora em quase todo o momento.
       O filme também não romantiza as personagens – mostra a dificuldade de Elizabeth em lidar com crianças (além da evidente traição da amizade com Mary, que buscava ajudá-la quando a convidou para vir ao Brasil); mostra como Lota apoiou o golpe militar no início (ainda que seja uma contradição tendo em vista sua orientação sexual) e ainda o fato de ter simplesmente comprado uma criança para manter Mary ao seu lado mesmo após o início do romance com Elizabeth. É também angustiante ver quanto Mary sofreu, vendo e convivendo com Lota e Elizabeth. Constrangimentos não faltaram.
       Com relação à questão política do filme, este talvez seja o seu maior defeito. A única crítica feita à Ditadura Militar e seu início foi a de Elizabeth no que tange à liberdade. Ou seja, uma estadunidense, cujo país foi o maior apoiador e entusiasta do golpe, veio dar uma lição de moral aos brasileiros com relação às liberdades. Um filme de posições tão vanguardistas em alguns aspectos acabou por ter uma posição conservadora neste caso.
      Apesar destes pontos fracos, é um bom filme, que possibilita ao público conhecer um pouco mais a história de ambas as personagens, que nos traz algumas reviravoltas de personalidade das protagonistas muito interessantes, mostrando uma intensidade constante por parte da arquiteta e muitas vezes alguma melancolia que era externalizada por meio da indiferença por parte da poetisa.



Nota 90/100

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