quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Magnólia

Ficha Técnica: Magnolia, 1999 
Gênero: Drama.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Julianne Moore, Tom Cruise, John C. Reilly, William H. Macy, Jason Robards, Philip Seymour Hoffman, Melora Walters, Jeremy Blackman, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, April Grace, Luis Guzmán, Ricky Jay, Alfred Molina.
País: Estados Unidos.
Tempo: 188 min.
Idioma: Inglês. 
  
          Magnólia é um filme muito cultuado e elogiado, por seu brilhantismo, excelentes atuações, roteiro envolvente e profundo. Em partes, estes elogios são merecidos; em outras, são um exagero, ou ainda totalmente descabidos. E talvez muitos considerem que não interpretei o filme corretamente, não entendi o filme ou outra tentativa de desqualificar minha opinião. E talvez eles tenham razão, e um dia eu possa mudar minha opinião.
        As atuações estão realmente ótimas. Cruise faz um dos melhores papéis de sua vida; Julianne Moore, Seymour Hoffman, Hall, Robards e Macy estão todos bens. Mas o destaque (além de Cruise) fica para John C. Reilly e principalmente Melora Walters, que está ótima no filme. Até Alfred Molina, com uma pequena participação, faz uma ótima ponta.
       O filme se desenvolve bem, embora vá se desgastando em razão das três horas de duração, ao meu ver desnecessárias. Mas o roteiro está longe de ser chato – a minha crítica é sobre a mensagem do filme, ou reflexão, objetivo, qualquer um desses elementos necessários para se formar um grande filme. Após três horas, a única reflexão é sobre os arrependimentos da vida? Sério, arrependimentos sobre temas clichês e como isso nos afeta? Sobre traição, abandono de lar e família, vícios e qualquer outro clichê que possa ser condenado moralmente pela sociedade? Não há sequer (ou ao menos não identifiquei) algum questionamento desses padrões morais.
      O cartaz realmente é uma parte interessante do filme, e a ideia da magnólia, como todos ligados por este frágil elo das pétalas da flor que dá nome ao filme. O detalhe do sapo realmente é interessante. As metáforas estão pouco ligadas e não fazem sentido ao filme, mas revelam um julgamento moral-cristão das ações, como a traição, as chuvas de sapo, a esperança e os sentimentos paternos. Enfim, mais um filme de Paul Thomas Anderson muito elogiado que me decepcionou (Sangue Negro é o outro). Ao menos ele consegue boas atuações dos atores.
 
Nota 66/100

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Xeque-Mate

Ficha Técnica: Lucky Number Slevin, 2006
Gênero: Crime, Drama, Mistério;
Direção: Paul McGuigan.
Elenco: Josh Hartnett, Bruce Willis, Morgan Freeman, Lucy Liu, Ben Kingsley, Stanley Tucci, Michael Rubenfeld, Peter Outerbridge, Scott Gibson, Sam Jaeger.
País: Estados Unidos, Alemanha.
Tempo: 110 min.
Idioma: Inglês.

    O filme conta com grandes atores (Morgan Freeman e Ben Kingsley são reconhecidamente excelentes atores) – tanto no aspecto de atuações como de vendas de filme em si e status de estrela (Liu, Willis). No entanto, apenas esta união não basta, e foi o que ocorreu com Xeque-Mate.
         O início do filme é excelente. A primeira história apresentada, que dá o tom do filme, é mostrada de maneira ótima, envolvendo todos os espectadores. O que se segue no presente da história do filme, de início parece muito bom. Uma mistura de Tarantino (diálogos aparentemente despropositais e corriqueiros ao lado de uma violência crua) e Irmãos Coen (comédia de erros com finais trágicos, humor negro) me fez aumentar minhas expectativas para o que viria a seguir.
       No entanto, o longa prefere seguir o caminho dos clichês e da previsibilidade. Um espectador mais atento consegue decifrar toda trama que supostamente possui inúmeras reviravoltas depois da primeira hora do filme; mesmo outro mais desatento, após a morte do filho do Rabino, conecta todas as histórias do filme.
     As atuações em si, não foram nada especiais. Willis está muito bem, dentro da sua zona de conforto, já tendo interpretado papeis como esse anteriormente, de maneira melhor; Freeman e Kingsley não acrescentam nada ao filme, embora ambos tenham bom desempenho como chefes gangsteres – Freeman talvez com um pouco mais de qualidade, variando entre ameaças e bom humor, todos com classe. 
         Hartnett faz uma atuação que não demonstra muitas emoções (o que inclusive tenta ser explicado pelo filme, e assim, não podemos culpá-lo pois não cabia a ele decidir), mas apesar de nos propiciar momentos interessantes, não serviu bem ao filme como um todo. Incrivelmente, Liu talvez seja a que mais se destacou, com uma atuação mais espontânea; a surpresa talvez pelo fato de ela não estar envolvida em nenhuma cena de ação deste filme.
        Um filme bom como entretenimento, que pode nos prender a atenção, mas pouco irá acrescentar ao espectador. Se você não tiver visto este pôster em que Hartnett segura uma arma na pose de "homem mau", talvez a surpresa seja um pouco maior, mas não vai melhorar muita coisa. A crítica fica para o criador do pôster também, afinal um spoiler desses não deve acontecer! Não crie grandes expectativas, e talvez você possa se divertir um pouco mais.


Nota 68/100

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Dia em que eu Não Nasci

Ficha técnica: Das Lied in mir, 2010
Gênero: Drama;
Direção: Florian Micoud Cossen. 
Elenco: Jessica Schwarz, Michael Gwisdek, Rafael Ferro, Beatriz Spelzini, Alfredo Castellani, Marcela Ferrari, Carlos Portaluppi. 
País: Alemanha, Argentina.
Tempo: 94 min.
Idioma: Alemão, Espanhol.

    Esse filme meu surpreendeu imensamente, de maneira muito positiva. Ele começa simples, inclusive com alguns clichês, e segue numa crescente de emoções e reviravoltas que nos envolve profundamente.
      Pouco se fala nas ditaduras militares que ocorreram na América Latina durante a segunda metade do século XX – muitas delas apoiadas pelos EUA e Ocidente como um todo, e tantas outras ainda não devidamente investigadas e julgadas pelos próprios países. Ela trouxe consequências tanto em questões de nível macroestrutural e social, quando no micro, individual, para cada família e pessoa. Este filme tem como foco o universo individual, a influência da ditadura argentina (talvez a co maior número de mortos e desaparecidos) na vida das pessoas, mas perpassando as questões do nível macrossocial também.
     A história nos apresenta Maria, interpretada pela excelente Jessica Schwarz, que após viver na Alemanha durante toda sua juventude, descobre na verdade ter sido adotada, e que seus verdadeiros pais desapareceram durante o regime militar argentino, enquanto ela ainda tinha três anos de idade.
      No início, o longa aparenta ser apenas um drama sobre questões como adoção, busca por pais biológicos e sua história, e dilemas enfrentados por essas pessoas – contar ou não a verdade sobre a adoção, buscar ou não os verdadeiros pais, dentre outros dilemas, abordados de maneira excelente. O pai de Maria está relutante em ajudá-la, mas tudo indica ser apenas um medo natural de perdê-la.
       No entanto, a grande reviravolta começa quando Maria, com extrema facilidade, encontra a família de sua mãe – dois tios, uma avó e muitos outros parentes. Ela começa a questionar seu pai sobre o fato de ele nunca ter procurado sua família, visto que foi tão fácil encontrá-los tantos anos depois. Na medida que a história vai se revelando, o filme consegue transmitir muito bem a angústia das personagens para o espectador, tanto a família dos desaparecidos, quanto de Maria e seu pai – que na verdade, havia roubado ela da família de sua mãe biológica.
      A esse sentimento conflituoso se somam outros aspectos do filme – a dificuldade de comunicação de Maria com sua família biológica (ela não fala nada em espanhol, enquanto a família mal consegue falar o inglês) geram cenas muitas vezes cômicas, outras tantas ainda mais dramáticas, em razão da dificuldade em se  expressar. Essa dificuldade traz para dentro da família o policial Alejandro, com o qual Maria tem um caso e que fala alemão fluente, fazendo o papel de intérprete.
      Outro aspecto da ditadura ali sutilmente apresentado é a questão da polícia, uma herança do regime militar, odiada por muitos no país em razão das brutalidades que cometeram – e ele mesmo acrescenta também sobre se a própria Maria deveria fazer tantas perguntas, que podem levar ao conflito final tão doloroso.
      O elenco todo está muito bem no filme, fazendo tudo parecer muito natural. As tomadas de câmera do diretor são excelentes, muitas vezes focando no ponto de vista do personagem, outras em ângulos que nos deixam minimamente intrigados. Um ótimo filme, que ao final apenas desejamos que saber mais sobre a história tão envolvente.


Nota 95/100

sábado, 15 de setembro de 2012

Branca de Neve e o Caçador

Ficha técnica: Snow White and the Huntsman, 2012
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia, Drama;
Direção: Rupert Sanders. 
Elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Sam Claflin, Sam Spruell, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Toby Jones, Brian Gleeson, Vincent Regan, Noah Huntley. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 127 min.
Idioma: Inglês.

   Considero muito interessante a ideia de adaptar histórias infantis consagradas no cinema através de animações para filmes live-action e um roteiro mais maduro. Mas o interessante acaba na ideia inicial, no caso do filme Branca de Neve e o Caçador.
Apesar dos lindos cenários e bons efeitos especiais, a história não nos envolve, nos comove, nos faz rir ou nos provoca qualquer outro sentimento minimamente mais forte. Além dos efeitos especiais e cenário, as cenas com os anões também foram muito bem montadas.
Mas o roteiro é carregado de clichês, como um triângulo amoroso de adolescentes, que parece ser uma constante nos filmes atuais direcionados ao grande público. Não se deixe enganar, pois não há   qualquer drama real ou inovações em termos de relacionamentos neste triângulo.
O filme também serviu para consagrar Kirsten Stewart como uma das piores atriz de sua geração – continua com a mesma falta de expressão que a marcou na saga dos filmes de vampiros (Crepúsculo), que coincidentemente, também nos apresenta um triângulo amoroso. Ao menos Stewart tem demonstrado uma constante – sua atuação é sempre a mesma. Há momentos constrangedores em que ela tenta invocar as massas, como um líder – e talvez o fato de o roteiro ser fraco tenha contribuído ainda mais para estes embaraços.
Charlize Theron está muito abaixo de seu potencial, mas tendo em vista todo contexto que a cerca no filme, não podemos exigir muito mais do que sua modesta atuação nos apresentou. Ao menos foi talvez o destaque do filme em termos de atuações. Hemsworth tampouco fez algo de novo – é o mesmo Thor, que ao invés de utilizar um martelo, usa um machado.
Enfim, um filme que poderia ter sido melhor elaborado, com uma ideia interessante, mas que decepciona com divisões maniqueístas entre o bem e o mal, sem propósito algum, de maneira talvez mais inocente do que na própria animação. Um aspecto menos negativo é a fidelidade à história em alguns detalhes, que podem trazer boas lembranças para aqueles que já viram o clássico da Disney.

   Nota 42/100

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lanterna Verde

Ficha técnica: Green Lantern, 2011
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia;
Direção: Martin Campbell . 
Elenco: Ryan Reynolds, Blake Lively, Peter Sarsgaard, Tim Robbins, Mark Strong, Jay O. Sanders, Taika Waititi, Angela Bassett, Temuera Morrison, Geoffrey Rush, Michael Clarke Duncan. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 114 min.
Idioma: Inglês. 

     Após dois excelentes filmes do Batman, fui ingênuo ao criar uma expectativa razoável com relação a este filme, visto que também é um super-heroi da DC Comics. Uma combinação entre péssimas atuações, direção e roteiro nos leva a este desastre que é o filme. 
     O filme ficou no meio termo entre as ações cômicas de heróis (quase todos da Marvel), evitando muitas cenas que busquem provocar risos, e algo um pouco mais sério, não como Batman, mas talvez uma tentativa de se aproximar da franquia dos X-Men.
Enfim, foi um total fracasso. Reynolds está péssimo, bem como todo o elenco. Ao menos filmes do Homem de Ferro e Os Vingadores nos provocam mais risos, apesar de terem um roteiro mais infantil e fraco. Não há uma atmosfera de empatia com o heroi, não há um romance, não há um grande vilão nem cenas cômicas, tampouco grandes cenas de ação – o objetivo do filme não está claro, além de vender mais uma franquia de super-herois para o público.
Um filme totalmente dispensável, que provavelmente deixou os fãs dos Quadrinhos decepcionados, a não ser que a HQ seja tão ruim quanto sua adaptação para o cinema.
 

Nota 45/100

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Albert Nobbs

Ficha técnica: Albert Nobbs, 2011
Gênero: Drama.
Direção: Rodrigo García
Elenco: Glenn Cose, Mia Wasikowska, Janet McTeer, Aaron Johnson, Pauline Collins, Brendan Gleesson, Bronagh Gallagher.
Tempo: 113 min.
País: Reino Unido, EUA, Irlanda e França.
Idioma: Inglês. 

      O filme nos traz a história de uma mulher que por mais de 30 anos vive travestida como um homem, fazendo isso para fugir de seus problemas, muitos deles com origem no machismo da sociedade irlandesa no século XIX.
     Apesar do potencial da história, ela não foi tão bem trabalhada. Ainda que Glenn Close como a personagem título e Janet McTeer com outra mulher travestida de homem estão ótimas nos papeis, mas não conseguem salvar o filme.

       Muitos personagens simplesmente não se encaixam na trama, e o filme não se afirma em nenhum dos argumentos que ali estão. Temos a diferença entre as duas mulheres travestidas, uma feliz no seu casamento homossexual, outra que apenas buscou fugir do problema criando um personagem para tal, mas perdeu seu foco. A questão do machismo, feminismo, todos esses argumentos pode ser percebidos no longa, mas não são desenvolvidos em algo profundo ou questionador. Nem mesmo os personagens adquirem a profundidade e complexidade que se espera de um filme como esse.
      O filme tem seus aspectos positivos além das atuações – é uma história impressionante, nos mostra muitas das consequências causadas pela repressão moral, tanto no nível social quanto individual. Entretanto, deixa muito a desejar em inúmeros aspectos, principalmente no fato de que não há nada além de ser uma história que mereça ser contada – os produtores pegaram esta vantagem e não trabalharam nada muito além disso.
Nota 70/100 

sábado, 8 de setembro de 2012

Amadeus

Ficha técnica: Amadeus, 1984
Gênero: Drama, Biografia.
Direção: Milos Forman. 
Elenco: Tom Hulce, F. Murray Abraham, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Jeffrey Jones, Roy Dotrice. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 160 min.
Idioma: Inglês, Italiano, Alemão.
  
    Milos Forman é um dos melhores diretores que o cinema já viu. Seus dramas atingem um nível de intensidade muito grande, além de grande habilidade ao lidar com personalidades polêmicas. Amadeus é um excelente filme, ainda que tudo que se passa no filme pode não ter sido inteiramente verdade, muito da vida deste gênio e da história em si me parecem críveis. 
     A virtude mais evidente do filme é sua trilha sonora – obviamente, todas as grandes obras de Mozart estão presente, e o diretor soube explorá-las de diversas maneiras magníficas – quando se lê uma partitura, ou mesmo quando o gênio está compondo. Outro ponto positivo é o título do filme. O nome do meio de Mozart significa “amado de Deus”, e é esta a definição dada pelo italiano Salieri ao compositor austríaco.

     Muitos afirmaram que Salieri não tinha essa relação de inveja com Mozart, mas será que alguém pode realmente afirmar isto? Ainda que a relação não tenha sido tão destrutiva como a apresentada no filme, é plausível crer que não somente Salieri, mas todos os compositores da época invejam Wolfgang Amadeus Mozart.
     O filme nos mostra a força que o ódio e a inveja de uma pessoa sobre outrem, e como esse sentimento pode realmente atrapalhar, prejudicar ou mesmo arruinar a vida de alguém. A morte de Mozart nos é mostrada da mesma forma que a história – uma leve suspeita de assassinato, afinal o compositor morreu muito jovem de fato, ainda que a tendência seja que todos acreditem que ele tenha realmente adoecido.
   Forman nos deixa dúvida sobre dois aspectos marcantes da personalidade de Mozart: sua genialidade, que realmente transborda através de sua música; e sua personalidade irreverente, com um lado um tanto alucinado, e que demonstrava a intensidade e paixão com que ele encarava não somente a música e seus relacionamentos pessoais, mas a vida como um todo. Esse desequilíbrio pode ainda ser visto até mesmo como consequência de sua genialidade, tendo em vista a mente brilhante do compositor.
  As atuações dos dois protagonistas estão ótimas, ainda que eu considere Abraham um tanto superestimado neste filme. Os cenários, figurinos e maquiagem contribuem imensamente para o filme, mas realmente, a música é talvez o grande destaque, como não poderia deixar de ser.
Nota 96/100

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Valsa com Bashir

Ficha Técnica: Vals Im Bashir, 2008
Gênero: Animação, Drama, Biografia;
Direção: Ari Folman. 
Elenco: Ari Folman, Ori Sivan, Ronny Dayag, Shmuel Frenkel. 
País: Israel, Alemanha, Austrália, França, Finlândia, EUA, Suíça, Bélgica.
Tempo: 90 min.
Idioma: Hebreu.

     Esteticamente, esse filme pode nos trazer inúmeras sensações. Uma animação, num formato de documentário/drama, sobre um tema tão pesado como uma guerra e seus efeitos nos soldados não é uma combinação comum. Ao meu ver, o recurso da animação serviu para atenuar alguns aspectos e salientar outros, não tornando o filme necessariamente mais leve (a cena inicial com os cães torna essa contradição muito clara).
   A história tem um excelente conteúdo, e os efeitos causados pela guerra nos soldados são muito bem abordados, com algumas similaridades aos clássicos do tema, como Apocalypse Now e Nascido para matar, ainda que não possa ser comparado com estes em termos de qualidade.
    O fato de um filme que critique a postura bélica tomada contra os palestinos, ainda mais vindo de Israel, é louvável. No final do filme, ao passar a mostrar cenas reais da guerra de 1982, as imagens são fortes e chocantes, e deixam clara a postura do filme e sua crítica ao episódio. Outro momento forte é a comparação entre o que ocorreu durante esta guerra com os campos de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial – uma contradição sórdida e sem fim para judeus e israelenses.
    No entanto, o grande “vilão” do episódio são as milícias falangistas, responsabilizados pelo massacre de palestinos que ocorreu no Líbano durante a invasão – os israelenses teriam apenas assistido. Tendo em vista o histórico do confronto Israel x Árabes, principalmente com os palestinos, essa tentativa de inocentar o povo israelense não me convenceu.
     Não há um profundo questionamento sobre os palestinos deslocados e refugiados, que tiveram suas terras roubadas pelos israelenses; a maneira como são mostrados os “erros de cálculo” (ao meu ver uma negligência conveniente) durante a guerra, que destroem construções civis e matam inocentes, não deixa clara a barbaridade do ato – perceptível apenas para os espectadores mais atentos. A II Guerra Mundial é mencionada, mas o fato de ela ter sido o pretexto para se criar o estado de Israel, um país militarizado que sempre combateu seus inimigos com força desproporcional e total desrespeito à vida e aos direitos fundamentais do homem.
O filme inclusive nos mostra, talvez inocentemente, como o fato de a guerra ser tão constante no cotidiano deles, que a população já se acostumou aos conflitos – a vida segue normalmente, ainda que estejam em constante guerra com os vizinhos. Enfim, um bom filme, que critica alguns pontos, mas muito longe de ser algo contestador.

Nota 80/100

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Outra História Americana

Ficha técnica: American History X, 1998
Gênero: Drama, Crime.
Direção: Tony Kaye. 
Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Avery Brooks, Jennifer Lien, Ethan Suplee, Elliott Gould, Fairuza Balk, Stacy Keach, William Russ. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 119 min.
Idioma: Inglês. 
    
       O filme trata de temas muito delicados, que no cinema geralmente acabam criando obras carregadas de estereótipos e senso-comum, muitas vezes com cenas impressionantes, mas sem sentido algum. O filme de Tony Kaye contraria todas essas tendências. 
       Tendo em vista a história americana da luta pelos direitos civis e a tardia consolidação deles para as “imensas minorias” no país, podemos observar um paradoxo na democracia mais antiga do mundo, em que o neonazismo encontra um terreno fértil para florescer, ainda que os próprios estadunidenses tenham sido um dos responsáveis pela derrota do nazismo durante a IIGM.
      O filme traz uma violência chocante para muitos espectadores, mas ao mesmo tempo condizente com as teorias ali apresentadas, e talvez isso o torne ainda mais chocante. Apesar de constantemente ser afirmado pelas personagens que a ideologia neonazista é estúpida e idiota (um dos poucos momentos de senso-comum e banalização), muitos espectadores chegam à conclusão de que há argumentos corretos no que se fala, mas as ações destes grupos são sempre excessivamente extremas. Esse sentimento e a força de muitos argumentos deixam os espectadores mais atentos incomodados com o que ouvem, pois já tivemos inúmeros exemplos de ideologias que conseguem milhões de seguidores e no futuro foram simplesmente classificadas como estúpidas, sem a compreensão e análise de todo o contexto.
      Os diálogos, assim como as cenas em si, são fortes, muito bem escritos, e as excelentes atuações dos atores somada aos closes nos rostos deles feitos pelo diretor tornam as cenas de discussão e relatos (que constituem a maior parte do filme) tão fortes quanto às pesadas cenas de violência. As cenas em preto e branco, quando retratam o passado, também foram uma excelente escolha do diretor.
     Uma das melhores discussões é a cena do jantar na família Vinyard, em que um professor judeu (Gould), Doris (D’Angelo), Davina (Lien), Derek (Norton) e sua namorada (Balk) discutem acaloradamente, até que Derek perde o controle de suas próprias ações e torna-se violento, como é o destino daqueles que seguem ideologias que se baseiam no ódio ao outro. Muitos podem considerar que por um motivo “bobo” (temas sociais; política não se discute), uma discussão de grandes proporções acabou com a família, mas este é um ponto forte do filme: a importância das posições políticas, sociais e ideológicas das pessoas certamente irão definir e serem definidas pelo caráter e conduta destes mesmos indivíduos, há uma relação dialética e inseparável.
            O filme não cai no erro de simplesmente justificar as atitudes de Derek e Danny (Furlong) como mera consequência da morte do pai, numa dura revelação ao mostrar que esta ideologia já estava presente muito antes. Derek nos traz uma fala importante, ao mencionar que Lincoln libertou os negros da escravidão há 150 anos, e mesmo assim eles ainda continuam com a desculpa de “desigualdades sociais, racismo, etc.” Indo além deste argumento, fica evidente para os mais atentos que apenas o fim da escravidão não bastou para superar séculos de opressão. Opressão esta que ainda perdura nos dias de hoje, como o próprio Derek percebeu na prisão conversando com seu colega de trabalho – o preconceito do sistema judiciário, já mencionado pela sua família anteriormente.
Edward Norton está excelente no papel, certamente uma das melhores atuações deste excelente ator. Furlong também está muito bem, assim como todo o elenco. Danny, que a princípio não concordava com os excessos de seu irmão, e se assustou quando ele matou os negros que quebraram seu carro, acaba por abraçar toda a ideologia, talvez para justificar as atitudes do próprio irmão. Ao longo de todo filme, temos sinais de que Danny não concorda plenamente com o que segue, e por isso, ao “mudar de lado” novamente, com a saída do irmão da prisão, não há incoerência alguma.
As personagens são muito bem trabalhadas psicologicamente, a história é densa, violenta e um tanto surpreendente por ser uma incisiva e forte auto-crítica da sociedade estadunidense, algo não muito comum no cinema deles, ao menos nesta intensidade.


Nota 98/100

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gato de Botas

Ficha técnica: Puss in Boots, 2011
Gênero: Animação, Aventura, Comédia.
Direção: Chris Miller. 
Elenco: Antonio Banderas, Salma Hayek, Zach Galifianakis, Billy Bob Thornton, Amy Sedaris, Constance Marie, Guillermo del Toro. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 90 min.
Idioma: Inglês.

         Pelo fato da personagem principal ter se originado na franquia de Shrek, o filme O Gato de Botas procura seguir a mesma linha que fez um imenso sucesso com o ogro. Apesar de não atingir o excelente nível dos dois primeiros filmes de Shrek, este spin-off tampouco se mostra tão repetitivo e decepcionante quanto os dois últimos filmes da quadrilogia (principalmente o quarto, muito inferior), que já não traziam tantas inovações e risadas. Acredito que isso se deva em partes ao fato de todos as personagens serem novas, com exceção do protagonista.
        O filme em si, mescla as paródias dos contos de fadas e de clássicos do cinema com um estilo western, com muitas aventuras. As cenas de ação certamente valorizam os efeitos 3D do filme. Os coadjuvantes do filme são razoáveis, não tão carismáticos como os de Shrek, e talvez por isso o filme perca alguns pontos.
Humpty Dumpty e Kitty, que co-protagonizam o filme ao lado do gato não trazem nada de extraordinário, e nem mesmo um grande carisma. Além disso, tanto o ovo como Jack & Jill não são tão conhecidos fora dos EUA como eram Branca de Neve, os três porquinhos e o lobo mau ou o Pinóquio, dentre outros, e por isso não devem despertar o interesse de muitas pessoas fora dos EUA.
O filme é previsível, do começo ao fim, mas ao menos ao acrescentar a fábula do gato com João e o Pé de Feijão o torna um pouco mais interessante e conhecido por diferentes espectadores. A trama não traz nada muito inovador ou minimamente profundo, ainda que por ser um tema infantil possa ser elogiado por valorizar a amizade e as pessoas acima do dinheiro.
Um bom entretenimento para as crianças e adultos, mas que espero não ser responsável por iniciar uma nova franquia, pois não possui um grande potencial a ser explorado, ao contrário do que ocorreu com o primeiro Shrek. 

Nota 65/100