terça-feira, 5 de março de 2013

Hurricane: o Furacão

Ficha Técnica: The Hurricane, 1999.
Gênero: Biografia, Drama, Esporte.
Direção: Norman Jewison.
Elenco: Denzel Washington, Vicellous Reon Shannon, Liev Schreiber, Deborah Kara Unger, John Hannah, Dan Hedaya, Debbi Morgan, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Badja Djola, Harris Yulin, Vincent Pastore, Garland Whitt.
País: Estados Unidos.
Tempo: 146 min. 
Idioma: Inglês.

     Esta comovente história de injustiça nos traz Denzel Washington no papel de Rubin “Hurricane” Carter, o boxeador campeão mundial acusado injustamente de assassinato e condenado a prisão perpétua. Washington está muito bem no filme, mesmo que não possa contar com atuações do mesmo nível por parte dos coadjuvantes – as ponta de Steiger, Paymer e Djola são exceções.
       O filme retrata a luta pela liberdade e por justiça de Carter, e também para manter a sanidade dentro da prisão, visto que as perspectivas de sair de lá caiam a cada dia. O longa também retrata de forma acertada, ainda que pudesse enfatizar um pouco mais, a cara do sistema judiciário e prisional estadunidense da época – brancos preconceituosos julgando e trancando homens negros, após explorá-los e violentá-los de todas as formas fora da cadeia. Infelizmente, o retrato atual continua muito parecido com o da época mostrada no filme – principalmente com relação à população carcerária.
     O filme apenas resvala em temas que eu esperava serem mais centrais na história: o racismo e a condição da população afro-descendente nos EUA. Ao assistir ao filme, também me fez refletir sobre o sistema judiciário de forma geral, no poder conferido a juízes, promotores, investigadores e mesmo aos júris populares; e como constantemente na nossa história, tal sistema, pensado de forma a garantir a justiça e a segurança da população, tenha sido distorcido de maneiras tão absurdas e abusivas, tornando-se um instrumento de injustiça social. Mas reconheço que essa reflexão é mais pessoal do que intencionada pelo filme.
      A história de Hurricane Carter é digna de filme, ainda que este bom filme não tenha explorado todo seu potencial. Um homem que passou 30 anos, dos seus 50 vividos, encarcerado injustamente, por um sistema que o prendeu sistematicamente durante toda sua vida, merece o melhor dos filmes. Tivemos uma abordagem um pouco diferente, com a história paralela de Lesra, mostrando como a situação dele seguia um rumo semelhante ao de Hurricane, com um racismo ainda presente na sociedade e a falta de oportunidades que geram este ciclo de violência e pobreza. No entanto, Lesra e mais ainda seus amigos canadenses, tão fundamentais neste aspecto da história, foram pouco trabalhados. Esta escolha do diretor trouxe algumas perdas para a história, mas também muitos ganhos.






Nota 83/100

segunda-feira, 4 de março de 2013

As Sessões

Ficha Técnica: The Sessions, 2012.
Gênero: Comédia, Drama, Romance.
Direção: Ben Lewin.
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Jennifer Kumiyama.
País: Estados Unidos.
Tempo: 95 min. 
Idioma: Inglês.

    O filme nos mostra um tema polêmico e raramente debatido – a vida sexual das pessoas com alguma deficiência física. No entanto, aqui a situação é extrema, pois Mark (Hawkes) tem seu corpo paralisado do pescoço para baixo, em razão de uma poliomielite. Seus pulmões são fracos, então depende de uma imensa máquina da qual não pode ficar distante muito tempo. Além de toda essa complicada maneira de se viver, Mark ainda se culpa pela morte de sua irmã e sofre por não ter um relacionamento amoroso e ainda ser virgem, aos 38 anos de idade.
       Para resolver seu problema com relação ao sexo, ele procura a terapeuta Cheryl (Hunt), com a qual ele tem relações sexuais para que possa compreender como deve se portar com relação ao tema, principalmente tendo em vista sua condição física de movimentação limitada. O filme nos traz temas polêmicos, ainda que procure mais demonstrar a necessidade que pessoas na condição de Mark tenham um vida saudável e confortável – principalmente pelo fato de que necessidades básicas dele não são tão facilmente obtidas quanto para uma pessoa sem tais problemas. Mostra também o envolvimento pessoal de ambos, indo muito além do profissional. No entanto, o intuito não é gerar uma grande discussão sobre o tema.
      Outro ponto importante é a questão da religião com relação ao sexo – e o tabu aqui é trabalhado de maneira otimista, com um padre (Macy), amigo de Mark, muito progressista, que soube conciliar suas crenças e as de Mark (muito religioso) com o bem-estar do amigo. No entanto, infelizmente ele representa também uma minoria dentro da instituição religiosa, e o filme tampouco quer realmente levantar tal discussão. 
      Contamos com atuações sólidas de Hawkes, Hunt e Macy. As cenas que envolvem nudez e sexo não são exageradas ou apelativas, estando em sintonia com a sutileza do filme. Percebemos que partes das dificuldades, inseguranças e dúvidas enfrentadas por Mark não são uma peculiaridade sua, e sim do ser humano. Tal posição também é revelada nas conversas com que Mark tem com seus “ajudantes”, Bloodgood, Brown e Marks. Um bom filme, que mesmo lidando com um tema delicado, consegue nos divertir e nos fazer rir, além de contribuir para identificarmos como muitas vezes o preconceito com relação à pessoas em condições semelhantes as de Mark atrapalha sua socialização, mas assim que tal barreira é superada, a relação pode se desenvolver de maneira profunda e “normal” para todos.





Nota 80/100

domingo, 3 de março de 2013

Frankenweenie

Ficha Técnica: Frankenweenie, 2012.
Gênero: Animação, Comédia, Horror.
Direção: Tim Burton.
Elenco: Charlie Tahan, Martin Short, Catherine O'Hara, Winona Ryder, Martin Landau, Atticus Shaffer, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell.
País: Estados Unidos.
Tempo: 87 min. 
Idioma: Inglês.

    Tim Burton é muitas vezes um diretor superestimado; em tantas outras, subestimado. Ultimamente, não tem obtido muito sucesso com seus filmes – sucesso no que me refiro à qualidade. Sombras da Noite é terrível! Mas ao menos suas animações, escritas, dirigidas ou produzidas, vêm oscilando menos do que os demais filmes, em se tratando de qualidade. A estética utilizada por Burton nas animações é ótima, além de muito peculiar. A escolha do preto e branco para Frankenweenie é totalmente adequada.
     Esta nova animação é divertida e nos brinda com diversas referências a clássicos do horror e da ficção. Desde os mais óbvios como Frankenstein, A Noiva de Frankenstein, Drácula e Gremlins, até mesmo com Jurassic Park, King Kong, Lobisomen e Godzilla. E este talvez seja o aspecto mais interessante desta animação. No entanto, ao que não parece ser uma desenho voltado para criança, o final é meloso e decepcionante – talvez um reflexo (ou mesmo exigência) de sua parceria com a Disney; mas também pode ser o oposto, a parceria sendo apenas uma consequência desta nova fase de Burton.
     Ao iniciar o filme com o drama enfrentado por crianças ao enfrentar a morte pela primeira vez, ao se adequar à escola ou ser considerado um esquisito (quando toda escola é no mínimo tão estranha quanto o menino), temos um imenso potencial a ser desenvolvido no filme. No entanto, é inclusive preocupante o final, visto que realmente a criança não aceita a morte de seu animal de estimação – ainda que as consequências de não aceitá-las são mostradas de forma grave. O protagonista (além do cachorro) também é um personagem recorrente nos filmes do diretor – um esquisito introspectivo, mas bondoso e confuso.
    Um filme que vale o ingresso – e que acertadamente, Burton não o fez demasiadamente longo. As inúmeras referências aos filmes de horror são realmente ótimas; também contém cenas muito divertidas e personagens interessantes, ainda que os pais de Victor (Tahan) sejam mal trabalhados; ainda que não traga nada de original, é original por si só simplesmente por ser uma animação de Tim Burton, que geralmente difere muito do restante – e desta vez, com certa qualidade.





Nota 75/100

sábado, 2 de março de 2013

Lincoln

Ficha Técnica: Lincoln, 2012.
Gênero: Biografia, Drama, História.
Direção: Steven Spielberg.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Jared Harris, Joseph Cross, Bruce McGill, Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Glória Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, Boris McGiver, Walton Goggins.
País: Estados Unidos.
Tempo: 150 min. 
Idioma: Inglês.

     Lincoln é certamente umas das figuras políticas mais adoradas nos EUA. A seu favor contam inúmeros fatos, como ser o articular da 13ª Emenda à Constituição, que acabou com a escravidão no país, e infelizmente seu próprio assassinato, que o tornou um mártir. O fato de ele não estar mais presente na memória de seu povo, e somente nos livros de história, também contribui para tal adoração. Ainda que Spielberg tenha dito que um presidente que tinha seu rosto estampado na nota de cinco dólares não precisasse de mais enaltecimento, o filme contribuiu muito para isso – o que não precisa ser necessariamente algo negativo.
     A cena que abre o filme é uma batalha durante a Guerra da Secessão, o conflito que causou mais vítimas aos EUA, afinal, era uma guerra civil. Mas se o espectador espera uma cena de abertura meticulosamente trabalhada, como em O Resgate do Soldado Ryan ou Cavalo de Guerra, ele ficará desapontado – a cena é curta e ordinária, não sem do possível ter uma ideia de como foram as batalhas travadas neste conflito. O filme aborda apenas os quatro meses que precederam a morte de Abraham Lincoln, e mesmo assim, revela-se incompleto em determinados aspectos, enquanto com excessos em outros.
     Não faço ideia de como era a pessoa do 16° presidente dos EUA – o que nos é mostrado é um cara muito calmo, culto, inteligente, próximo do povo – somente qualidades. Até mesmo seus supostos defeitos (corrupção), são na verdade mostrados como astúcia. Suas inúmeras histórias chegam a cansar, mostrando um Lincoln com uma sabedoria digna de um Mestre Yoda ou o mago Gandalf – ainda que ele realmente tivesse uma excelente retórica, pois era advogado, letrado numa época em que poucos tinham tal privilégio, há certo exagero.
    O filme está visualmente perfeito – fotografia, figurino e maquiagem estão ótimas, a ponto de conseguirem muitas vezes mascarar alguns outros defeitos do filme. Daniel Day-Lewis faz novamente um papel fantástico – desde o trabalho de voz, trejeitos, aos diálogos. Incrível pensar que esse mesmo ator fez os violentos personagens de Gangues de Nova York ou Sangue Negro. Somente sua atuação já vale o tempo despendido para ver o filme. Jones está muito bem, variando um pouco de seus papéis habituais; Field faz um bom trabalho também, ainda que tanta badalação em torno de sua atuação na seja justificável. Strathairn também está excelente, ainda que tenha sido menos badalado. O elenco em si é muito bom, recheado de estrelas e bons atores (o que não significam a mesma coisa) – talvez uma demonstração de que Spielberg ainda conta com muito privilégio dentro de Hollywood. Cabe também destacar a personagem de Tommy Lee Jones - o deputado Thaddeus Stevens. Talvez não tenha sido a intenção do diretor ou do roteirista, mas a crítica ao esquerdismo radical está posta: o deputado teve uma atitude que seria muito criticado por seus grupos em qualquer momento da história - um traidor, se sujeito ao governo e ao sistema ao qual ele fazia oposição. Mas ele conseguiu aprovar a emenda que tanto desejava, um avanço na luta e no seu objetivo, e de maneira correta. E para findar qualquer dúvida sobre o caráter e o desejo de Stevens ver o fim da escravidão acima de tudo, nos brindam com um final muito interessante. 
    As acaloradas discussões no Câmara me deixaram inquieto – não tenho certeza se elas ocorriam da maneira posta com tanta frequência. Ironicamente, o aspecto mais fraco do filme é também seu ponto forte: ele mostra em partes, como foi a abolição da escravidão nos EUA – uma grande esquema de subornos, ameaças, compras de voto, etc., e não objeto de uma conscientização e nobre atitude humana de seus parlamentares. Não estou criticando as atitudes de Lincoln, aparentemente muito humano, e muito menos dizendo que todos parlamentares visavam apenas seus interesses. Apenas apontando que os estadunidenses devem se orgulhar mais da abolição em si do que do processo que levou ao tardio fim do sistema escravagista. Os argumentos absurdos que defendiam tal sistema podem nos mostrar um paralelo entre outros dilemas atuais, como casamento homossexual, machismo, racismo e xenofobia. E não vejo isso como propaganda barata, e sim uma virtude do filme.
      No entanto, o filme não desenvolve o aspecto da política democrática, capitalista, neoliberal e burguesa dominante no mundo (é claro que não podemos esperar isso de Spielberg, mas deve ser mencionado). A questão da governabilidade da democracia está posta em cheque, ainda que não seja essa a intenção do filme – afinal, se num tema crucial e absurdo como a escravidão, interesses egoístas dos representantes são colocados acima, o que ocorre com leis ordinárias? Ou teriam tais representantes mudado nos dia de hoje, realmente defendendo agora os interesses da população?
Tampouco é uma questão de “os fins justificam os meios”, como muitos estão afirmando. É o sistema que engessa avanços sociais para continuar obtendo o lucro e concentrando-o nas mãos de poucos. Afinal, a maneira que foi feita a escravidão, qual destino tiveram os negros no sul do país? A luta pelos direitos civis, Martin Luther King, Rosa Parks e Panteras Negras, somente para citar alguns, foram na década do 1960! Muito recente para uma terra que proclama a liberdade e igualdade desde o seu nascimento. Isso sem mencionar outros aspectos envolvidos na guerra de secessão – não era simplesmente uma luta do bem x mal, ainda que com relação à escravidão não podemos relativizar de modo algum. Havia outros pontos do conflito e das divergências entre Norte e Sul que foram sequer abordados.
Muita cena de políticos "fazendo política", de maneiras estereotipadas, foram mostradas; no entanto, pouco da verdadeira política e seu sistema estão presentes. Enfim, um filme razoável, e justifica sim ter sido um dos favoritos na corrida ao Oscar deste ano, afinal, a seleção de filmes é péssima. Até mesmo poderia ter recebido o prêmio de melhor direção para Spielberg, pois é evidentemente um trabalho superior ao de Ang Lee em As Aventuras de Pi. Mas não supera Argo, Django Livre e muito menos o melhor filme e a melhor direção da premiação, que infelizmente não foi reconhecido assim, Amor, de Michael Haneke.
Nota 87/100

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Ficha Técnica: Les Misérables, 2012.
Gênero: Musical, Romance, Drama.
Direção: Tom Hooper.
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Amanda Seyfried, Aaron Tveit, Samantha Barks, Daniel Huttlestone, Isabelle Allen.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 158 min. 
Idioma: Inglês.

     Ao adaptar um dos maiores clássicos da literatura para o cinema, deve-se ter muito cuidado. Também um dos maiores clássicos da Broadway – que talvez apesar do sucesso, também não aparenta ter tanta semelhança com livro. O diretor confessou não ter lido o livro, o que já é um fator muito negativo, e por isso, como adaptava o musical, decidiu por fazer um filme musical também.
    A escolha talvez fosse para aumentar a carga dramática da obra, mas acabou saindo de maneira péssima. Eu tampouco li o livro, mas não creio que a proporção mostrada entre os triângulos amorosos previsíveis e o sofrimento amoroso dos personagens, em contraste com a miséria e sofrimento material/humano que enfrentam esteja assim representada no livro. E aparentemente, Hooper tampouco leu muitos livros de história. Os trechos em que os atores cantam individualmente são cansativos, com closes exagerados, e em sua maior parte dispensáveis – tornando o filme excessivamente longo e cansativo. É repetitivo, todos sofrendo pelo amor não correspondido – e talvez o sucesso de Hathaway seja explicado por cantar lindamente exatamente o aspecto central do livro – a miséria e sofrimento humano. Já as cenas cantadas coletivamente foram todas excelentes, com destaque para a cena de abertura, realmente impressionante.
    No entanto, em razão do excesso de melodrama e sofrimento amoroso, o início da história ficou corrido – toda a transformação de Valjean (Jackman), o sofrimento de Fantine (Hathaway) – talvez a parte mais pesada do filme, em que ela vende seus cabelos, dentes e corpo por dinheiro – enfim, toda a miséria acaba sendo retratada, ainda que de forma intensa, em pouco tempo, para depois tornar-se um drama amoroso. Mesmo o levante de Paris de 1832 acaba perdendo seu sentido, pois aparenta ser apenas alguns insatisfeitos um pouco sem motivo, dando lugar aos triângulos amorosos. Confesso que estou curioso para saber qual o espaço dedicado por Victor Hugo em seu livro a cada assunto. O final, com Marius (Redmayne) sobrevivendo ao enfrentamento com a polícia, abandonando a luta e os companheiros mortos, retornando a casa do tio, casando-se com Cosette (Seyfried) e deixando para trás todo seu discurso revolucionário e social é realmente um soco no estômago – um final que vai agradar aos conservadores da classe média – e talvez por isso Hooper tenha sido escolhido, após ter filmado O Discurso do Rei (filme superior a este), mostrou-se adequado para tais padrões. A revolução popular e legítima atrapalhando as instituições de exploração burguesas.
    O papel da Igreja também é apresentado de forma dúbia – não sei até que ponto ela poderia apoiar uma revolução de caráter social no moldes socialistas – é sabido que de forma geral, sempre tenha sido uma grande opositora. Mas a preocupação do sofrimento humano e da redenção do homem não está descolada da instituição. A produção técnica do filme é excelente, ainda que um cinema ruim tenha prejudicado minha percepção, as cenas são muito bem feitas – desde maquiagem, figurino e som.
    A escolha dos atores foi acertada – muitos com experiência musical. Jackman vem da Broadway, estando muito bem e adaptado a tais papéis, sendo ideal para o protagonista. Hathaway estava excelente, embora ela devesse ter mais tempo em cena. Crowe não compromete, embora não atinja o nível de Jackman. Seyfried, Carter e Cohen já participaram de musicais antes, mantendo um bom nível, assim como Redmayne e Barks. Aliás, as personagens de Helena B. Carter e Sacha B. Cohen, ainda que sirvam para aliviar a tensão do filme (sou contra tais alívios desnecessários – a história deveria ser tensa como a realidade), são mostrados como dois pilantras picaretas, e não da forma real como deveriam – exploravam a pobre menina e sua mãe. A falta de seriedade de seus personagens ficou um pouco descolada, ao meu ver, destoando da temática. Os dois atores mirins - Allen e Huttlestone - estão fantásticos, principalmente o menino, um dos poucos pontos altos do filme.
     Enfim, um filme que assassina história, sociologia e provavelmente a literatura. A escolha por um formato cantado do começo ao fim não me agrada – os monólogos cantados estão presentes em exagero. Uma grande decepção, com valores conservadores e mesmo reacionários constantemente apresentados, transformando uma tragédia social em drama pessoal.



Nota 67/100

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Argo

Ficha Técnica: Argo, 2012.
Gênero: Suspense, História, Drama.
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Titus Welliver, Sheila Vand.
País: Estados Unidos.
Tempo: 120 min. 
Idioma: Inglês, Persa.

  O Irã é hoje visto como um grande perigo pelos EUA e sua população, com a ideia de o país ser atrasado e governado por um ditador louco. Por isso, para uma produção hollywoodiana tratar da Crise dos Reféns em 1979, deflagrada no Irã após a Revolução Iraniana, o risco de se cair na armadilha do ufanismo patriótico era muito grande, e Affleck procurou evitar este exagero, com parcial sucesso.
   A tentativa mais evidente foi o início, em que uma sequência de desenhos acompanhada por uma narração nos apresenta um breve resumo sobre a história do Irã e as intervenções dos EUA através do regime do Xá, contra a vontade da maioria da população. Mas pouco se fala após isso, com o foco mudando para a retirada dos reféns do país, revelando um certo desequilíbrio nesta relação – uma curta introdução mostra a ingerência dos EUA buscando seus interesses de forma egoísta, e depois apenas a revolta da população “bárbara, exótica”, que penduram pessoas nos postes e executam estadunidenses. Durante o decorrer do filme há tentativas de minimizar esse desequilíbrio – principalmente ao reconhecerem o Xá como um aliado assassino dos EUA no país, e que agora eles teriam que suportar as consequências de se apoiar um líder tão sanguinário e impopular, mesmo que tal consequência seja deixar seus cidadãos no cativeiro iraniano. Também é comentado constantemente como os iranianos são muito mais inteligentes e preparados do que os estadunidenses julgam, além de momentos com papéis femininos de liderança na revolução. A realidade mostra que nenhum país pode interferir de maneira tão unilateral e egoísta pelo mundo.
   No entanto, diferente do filme de Bigelow, A Hora Mais Escura, neste longa de Affleck um lado mais “bonzinho” e menos bruto da CIA é mostrado. Independente da posição de Bigelow com relação a utilização da tortura, podemos observar pontos de vista totalmente opostos sobre a organização. Toda brutalidade do governo do Xá não é atribuída também às artimanhas da agência de inteligência dos EUA. Um momento sutil mas que me agradou muito no filme foi a saída da empregada (Vand) do embaixador canadense (Garber) em direção ao Iraque – outro país que sofre com as atuações dos EUA dentro de seu território, e que viria a ter desdobramentos ainda piores do que no Irã – ou seja, ela não terá paz por muito tempo, tendo que enfrentar os mesmos tipos de problemas causados pelos mesmos agentes. Ele nos mostra uma atuação brilhante da CIA, sem o uso da violência, e faz uma propaganda tardia (ou homenagem) para o presidente democrata Carter, que não pode nem ao menos se “vangloriar” de tal ação durante as eleições.
   A direção de Affleck é boa, tornando intrigante e criando um bom suspense mesmo para aqueles que já conhecem o final, visto que se baseia em fatos reais. Talvez um pouco de exagero na perseguição final no aeroporto – tenho minhas dúvidas se algo ao menos parecido ocorreu – mas serviu para mostrar como foi delicada a retirada dos reféns. Outro aspecto interessante que podemos notar é o fato de como em pouco tempo, a tecnologia transformou muita coisa – o plano seria inconcebível nos dias de hoje, principalmente se fosse descoberto, a rapidez que tal informação chegaria ao controle do aeroporto seria incomparável.
   O diretor-ator se saiu melhor na primeira função; ao atuar, conseguiu se encaixar num papel que lhe fosse ao menos confortável, e sua atuação contida não prejudicou o filme. Os coadjuvantes fazem excelentes pontas, com destaque para Arkin, Cranston e principalmente Goodman. A suposta aparição de Jack Nicholson foi interessante também, para os mais atentos.  Há uma crítica à Hollywood e seu circo, mídia e componentes, não tão sutil mas interessante. O que me incomodou foi a comparação entre Hollywood e política – ainda que em certa medida inteligente, também foi superficial e perigosa. Por mais que existam semelhanças (muitas vezes em excesso) entre os dois, a política é algo muito sério e de impacto gigante na vida de todos; e tampouco o cinema deve ser encarado de maneira ingênua ou subestimado.


Nota 90/100

sábado, 9 de fevereiro de 2013

As Aventuras de Pi

Ficha Técnica: Life of Pi, 2012.
Gênero: Drama, Aventura.
Direção: Ang Lee
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussein, Tabu, Vibish Sikavu, Ayush Tandon, Rafe Spall, Gérard Depardieu, Shravanthi, Sainath, James Saito, Jun Naito.
País: Estados Unidos, Taiwan.
Tempo: 127 min. 
Idioma: Inglês, Tamil, Francês.

    Ang Lee é um diretor que produz diversos tipos de filmes, e de forma muito inconstante. Chega a ser estranho pensar que a mesma pessoa que dirigiu o excelente O Segredo de Brockeback Mountain também dirigiu o terrível Hulk ou o superestimado O Tigre e o Dragão. Mas se tratando de As Aventuras de Pi, o filme pode ser encaixado em uma categoria mediana.
    Esteticamente, o longa beira a perfeição. Imagens maravilhosas, efeitos especiais fantásticos, fotografia excelente. Pensar que o tigre foi criado por computador é assustador, pois ele está muito real. A cena do naufrágio é excelente; a da baleia, linda; e a da ilha, surpreendente. Os atores estão bem no filme – não comprometem, ainda que ao meu ver uma atuação melhor poderia fortalecer o filme.
   No entanto, o filme revela-se muito longo, cansando em determinados momentos. O apelo para o espiritual e religioso é muito grande do filme, ainda que a mistura entre diferentes elementos de diversas religiões seja interessante, fica clara a posição favorável às religiões em geral que ele toma, como por exemplo a salvação. Mas o diretor consegue levar alguns bons momentos de tensão ao filme e nos envolve de certa maneira. O final, com a separação entre o tigre e Pi, foi muito decepcionante. Após desenvolver a relação entre os dois principais personagens, a despedida foi fraca.
     O filme termina também com a história alternativa, deixando no ar se tudo que foi mostrado anteriormente realmente aconteceu – uma história muito improvável, ainda que não possível. Aliás, tal história revela duplamente a dificuldade de se estar sozinho para o ser humano, principalmente em momentos difíceis – ou ele aceita um tigre como companheiro de bote, correndo o risco de ser devorado; ou ele cria toda uma história para superar as dificuldades momentâneas e também os terríveis acontecimentos que o levaram para aquele situação. Além da boa metáfora, mas trabalhada de maneira fraca, ao comprar humanos e animais.

Nota 67/100

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

Ficha Técnica: Zero Dark Thirty, 2012.
Gênero: Drama, Suspense, História.
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clark, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Reda Kateb, Harold Perrineau, Jeremy Strong, J.J. Kandel, Scott Adkins, David Menkin, Fares Fares, Frederic Lehne, Mark Strong, Daniel Lapaine, Mark Duplass, James Gandolfini, Stephen Dillane, Joel Edgerton, Jeff Mash, John Barrowman, Frank Grillo.
País: Estados Unidos.
Tempo: 157 min. 
Idioma: Inglês.

     O mais novo filme de Kathryn Bigelow está novamente muito badalado. Talvez mais polêmico que o anterior, que lhe valeu o Oscar de melhor diretora (primeira mulher a vencer na categoria) e de melhor filme, o péssimo Guerra ao Terror. Ainda não consegui entender aquele Oscar – tudo bem, não queriam premiar Avatar, tínhamos Bastardos Inglórios, Up – Altas Aventuras, ou mesmo Amor sem Escalas ou Educação. E tampouco consigo compreender o motivo para tanta euforia em torno deste novo longa.
      A história da “maior caçada humana na história”, a busca por Osama Bin Laden, é retratada desde os ataques terroristas ao World Trade Center, até sua captura e morte – que aliás não era parte da história, sendo responsável por uma grande mudança no roteiro de Boal, que iria retratar apenas os esforços e recursos despendidos em vão nesta busca.
       Jessica Chastain está muito bem no filme, ainda que já tenhamos visto atuações melhores (Histórias Cruzadas) dela. Mas carrega muito bem o filme, sendo a única personagem que leva a história do começo ao fim com destaque. O restante do elenco de apoio faz um bom trabalho. A personagem de Chastain – Maya – também recebe ainda mais destaque por se destacar num meio predominantemente masculino (para não dizer inteiramente), assim como a diretora do filme. No entanto, não considero que comandar torturas seja uma conquista da qual as mulheres possam se orgulhar. Maya traz um toque pessoal ao filme, de que foi apenas graças ao seu sacrifício pessoal e esforço que levou a captura do homem mais procurado do mundo. 
       A tortura é mostrada de forma clara e chocante no filme. Não sei até que ponto podemos considerar as cenas verídicas, mas é correto presumir que a CIA realmente utilizou-se de torturas em suas investigações. Uma organização que coordenou locais como a prisão de Abu Ghraib, e coordena ou coordenou golpes e governos ditatoriais e assassinos em diversas localidades do mundo (nós latino americanos infelizmente sabemos muito bem) ainda deve utilizar-se de métodos absurdos como a tortura para obter informação. A grande dúvida que fica no filme é que se, sem a tortura, os EUA teriam encontrado Bin Laden. E é isso que vai levar pessoas a afirmarem que Bigelow é pró-tortura, ainda que tal afirmação não esteja clara. Espero que ela tenha esta intenção – pois podemos observar muito bem a barbaridade que é torturar um ser humano. Observando também a quantidade de erros que a CIA comete, a tortura ainda torna-se mais absurda – não que torturar culpados seja justificável de qualquer forma.
            Outro pecado gigantesco do filme, mas ao meu uma constante da dulpa Bigelow-Boal, é a crítica rasa. Assim como em Guerra ao Terror, em momento algum há uma mínima visão dos paquistaneses, afegãos, sauditas, muçulmanos. O motivo pelo aparente ódio que eles têm dos americanos (ainda que para os mais atentos, a tortura, invasões militares e bombardeios possam ser algum indicativo), ou mesmo a brutalidade de suas forças armadas no Iraque e Afeganistão, não é abordado. Além do excesso de atentados mostrados durante o filme, buscando sempre justificar a caçada a Bin Laden, como se ele fosse o único responsável por todo o mal (a tentativa do atentado em Times Square foi além da conta).
            O filme é longo e cansativo em determinados momentos. Seu tom documental, característico de Bigelow, é interessante. No aspecto da tortura, fica a dúvida, ainda que uma dúvida em tal quesito não deveria existir. Mas um pouco de reflexão sobre a crueldade de tais técnicas já deveriam ser o suficiente para nos causar repugnância. Maya no início se mostra desconfortável com a situação; mas o espectador não deve seguir o mesmo caminho da protagonista, pois esta mostrou-se habituada ao procedimento no decorrer do filme, inclusive culpando o interrogado pelo sofrimento dele e comandando torturas. O sofrimento pelo qual passam os estadunidenses que estão envolvidos nestas operações também acaba por se equiparar pelo sofrimento causado nas populações atacadas por eles, o que beira o absurdo.



Nota 72/100

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dogville

Ficha Técnica: Dogville, 2003.
Gênero: Drama.
Direção: Lars von Trier.
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Stellan Skarsgard, Patricia Clarkson, Chloë Sevigny, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon, John Hurt, Lauren Bacall, Harriet Anderson, James Caan, Zeljko Ivanek, Bem Gazzara, Blair Brown, Cleo King, Bill Raymond, Miles Purinton.
País: Dinamarca, Suécia, Finlândia, Itália, França, Alemanha, Noruega, Reino Unido, Holanda.
Tempo: 178 min. 
Idioma: Inglês.

       Lars von Trier é um diretor polêmico e impactante – e sua polêmica vai além de seus filmes e mesmo de sua postura política. Ele se utiliza das suas polêmicas como marketing, atraindo mais atenção para seus filmes. Independentemente de aprovar ou não essa sua atitude (deixando claro que defendo e acho ótimo o envolvimento dele com questões políticas e sociais de forma geral), seu filme deve ser analisado para além disso. Provocante, certamente não conseguirei ser breve ao falar sobre ele.
      E Dogville é um excelente filme! As quase três horas de filme passam quase que sem perceber; é difícil argumentar que ele poderia ser muito mais curto. O filme é infinitamente melhor do que o bom Melancolia. Mas ao mesmo tempo, se não fosse pelo fato de estarmos vendo tudo que acontece através de uma câmera, que também produz cortes de cenas e imagens, poderíamos muito bem classificar Dogville como uma peça de teatro. Mas diferentemente de Carnage, que foi baseado em uma peça de teatro, o roteiro deste longa foi escrito diretamente para o cinema. Ainda que assim como o mencionado filme de Polanski, o cenário seja um só, naquele a sala de estar continha de fato as paredes e portas, era completo; em Dogville, o cenário consiste apenas em alguns objetos, e as paredes e portas são riscos no chão.
Essa atitude ousada deixa o filme ainda melhor, apesar de algumas críticas, e me chama a atenção por dois motivos. Além de ser algo muito bem feito, e os personagens agem como se todas as portas, janelas e paredes estivesse ali, inclusive com o barulho das portas e chaves; mas também há um outro detalhe: demonstra a falta de privacidade de uma vila tão pequena, em que todos sabem da vida de todos, evidenciado para o espectador também através da ausência de paredes. Podemos observar tudo que acontece na cidade com o mesmo plano de visão. Um paradoxo com a sociedade atual, cada vez mais individualista e ao mesmo tempo, com menor privacidade – talvez uma semelhança muito maior com o passado do que gostaríamos de acreditar. O jogo de luz para diferenciar dias e noites, momentos tensos ou alegres e estações do ano também foi utilizado de maneira inteligente. 
O elenco, reconhecidamente de peso, também é brilhante. A ausência destes efeitos especiais e cenários variados, mesmo paredes, acaba por exigir muito dos atores, sendo juntamente com o roteiro forte, o que sustenta o filme. Nicole Kidman está muito bem no papel. Paul Bettany, um ator ao meu ver subestimado, tendo em vista seu grande potencial, está excelente. E podemos contar com grandes nomes que fornecem atuações fortes como Lauren Bacall, Philip Baker Hall, Stellan Skarsgård, Jeremy Davies, Ben Gazzara e Patricia Clarkson. Além da poderosa narração de John Hurt. Talvez muitos considerem que parte deste grande elenco coadjuvante foi subaproveitado, com exceção de Bettany, Skarsgård e Clarkson, principalmente tendo em vista as quase três horas de filme. Mas há um equilíbrio razoável entre todos o destaque de todos, e o fato de a história não se fragmentar em várias tramas menores e paralelas dá ainda mais força e profundidade ao centro da história – a relação de Grace (Kidman) com a cidade de maneira geral.
O diretor e roteirista nos apresenta uma crítica à sociedade dos EUA, que fica um pouco explícita ao final do filme, com a música que toca juntamente com as impactantes fotos – o individualismo na sociedade estadunidense é evidentemente atacado. No entanto, este longa é muito mais uma crítica social geral do que a um país ou comunidade específico. Podemos observar claramente a visão negativa e pessimista do ser humano, e também a tentativa de desromantizar a visão do passado, de cidades pequenas e inocentes, em que a vida era melhor, sem violência ou mesmo a inocente visão de que era pura e sem maldade. Há muito mais semelhanças do que diferenças, em termos sociais, e também o forte argumento de que pouco evoluímos ou regredimos em relação ao passado. A humanidade de cada um é demonstrada através da desumanidade.
Ao final do filme, após Grace ter sido humilhada, injustiçada, escravizada e abusada de todas as formas possíveis e imagináveis pela cidade, surge um dilema moral e de consciência para a protagonista. Ela não perdoa o pai (Caan), uma das grandes revelações do filme, por agir da forma que age comandando um grupo gangster. No entanto, está aceitando todas as maldades e fraquezas daquela população, a qual ela apenas ajudou e que sabe da inocência dela. A discussão sobre o contexto e as condições que ela tem com o pai é excelente, mostrando realmente como é difícil estipular que somos todos apenas um produto do nosso meio. Mas talvez essa mudança de opinião de Grace, seja o ponto mais fraco do filme. A mudança é muito súbita, tendo em vista tudo que nos foi apresentado, mas é válida – e ela nos mostra o “rebaixamento” de Grace ao nível dos habitantes da cidade, julgando-os e exterminando-os como animais que são e supostamente merecem tal destino – uma poderosa metáfora do nome do filme, que também dá nome a cidade. Mas ao meu entender, em nenhum momento o filme defende o lado de Grace (somente alguém que não compreendeu a história pode acreditar que o diretor defenda aquele extermínio).
A presença de crianças e deficientes torna a carnificina ainda mais impactante, pois seriam supostamente mais inocentes e do que qualquer outro habitante. O envolvimento dela com Tom (Bettany) e seu aparentemente verdadeiro amor que eles sentem um pelo outro torna seu final ainda mais trágico. Sua incapacidade de manter seus princípios e honestidade com Grace quando a cidade começa a pressioná-lo, ele acaba por traí-la mais de uma vez (no caso do dinheiro, e depois no telefonema) tornam sua morte talvez a mais justificada para o espectador, ainda que ele tenha sido o único que genuinamente gostou dela e procurou ajudá-la. E em razão disso, esse seu voluntarismo verdadeiro começa a ser posto em xeque, visto apenas como uma forma de confirmar suas teorias e ter mais alguém sob sua influência intelectual.
Também percebemos que, na lógica do filme de uma visão negativa sobre o ser humano, os indivíduos evitam-se colocar em situações que possam prejudicá-los, ainda que por uma causa correta e contra algo que sabem estar totalmente errado. Há sempre uma balança que vai pesar as vantagens e riscos de todas as atitudes. E para manter esta linha de raciocínio, toda hipocrisia, formas de submissão e barbaridade pode não ser o suficiente.


Nota 99/100