Gênero: Biografia, Drama, História.
Direção: Steven Spielberg.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Jared Harris, Joseph Cross, Bruce McGill, Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Glória Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, Boris McGiver, Walton Goggins.
País: Estados Unidos.
Tempo: 150 min.
Idioma: Inglês.
Lincoln é certamente umas das figuras políticas mais adoradas nos EUA. A seu favor contam inúmeros fatos, como ser o articular da 13ª Emenda à Constituição, que acabou com a escravidão no país, e infelizmente seu próprio assassinato, que o tornou um mártir. O fato de ele não estar mais presente na memória de seu povo, e somente nos livros de história, também contribui para tal adoração. Ainda que Spielberg tenha dito que um presidente que tinha seu rosto estampado na nota de cinco dólares não precisasse de mais enaltecimento, o filme contribuiu muito para isso – o que não precisa ser necessariamente algo negativo.
Não faço ideia de
como era a pessoa do 16° presidente dos EUA – o que nos é mostrado é um cara
muito calmo, culto, inteligente, próximo do povo – somente qualidades. Até mesmo
seus supostos defeitos (corrupção), são na verdade mostrados como astúcia. Suas
inúmeras histórias chegam a cansar, mostrando um Lincoln com uma sabedoria
digna de um Mestre Yoda ou o mago Gandalf – ainda que ele realmente tivesse uma
excelente retórica, pois era advogado, letrado numa época em que poucos tinham tal
privilégio, há certo exagero.
Lincoln é certamente umas das figuras políticas mais adoradas nos EUA. A seu favor contam inúmeros fatos, como ser o articular da 13ª Emenda à Constituição, que acabou com a escravidão no país, e infelizmente seu próprio assassinato, que o tornou um mártir. O fato de ele não estar mais presente na memória de seu povo, e somente nos livros de história, também contribui para tal adoração. Ainda que Spielberg tenha dito que um presidente que tinha seu rosto estampado na nota de cinco dólares não precisasse de mais enaltecimento, o filme contribuiu muito para isso – o que não precisa ser necessariamente algo negativo.
A cena que abre o
filme é uma batalha durante a Guerra da Secessão, o conflito que causou mais
vítimas aos EUA, afinal, era uma guerra civil. Mas se o espectador espera uma
cena de abertura meticulosamente trabalhada, como em O Resgate do Soldado Ryan ou Cavalo de Guerra, ele ficará desapontado – a cena é curta e ordinária, não sem do possível
ter uma ideia de como foram as batalhas travadas neste conflito. O filme aborda
apenas os quatro meses que precederam a morte de Abraham Lincoln, e mesmo
assim, revela-se incompleto em determinados aspectos, enquanto com excessos em
outros.

O filme está visualmente
perfeito – fotografia, figurino e maquiagem estão ótimas, a ponto de
conseguirem muitas vezes mascarar alguns outros defeitos do filme. Daniel
Day-Lewis faz novamente um papel fantástico – desde o trabalho de voz,
trejeitos, aos diálogos. Incrível pensar que esse mesmo ator fez os violentos
personagens de Gangues de Nova York ou
Sangue Negro. Somente sua atuação já vale
o tempo despendido para ver o filme. Jones está muito bem, variando um pouco de
seus papéis habituais; Field faz um bom trabalho também, ainda que tanta badalação
em torno de sua atuação na seja justificável. Strathairn também está excelente, ainda que tenha sido menos badalado. O elenco em si é muito bom,
recheado de estrelas e bons atores (o que não significam a mesma coisa) – talvez uma demonstração de que Spielberg ainda conta com
muito privilégio dentro de Hollywood. Cabe também destacar a personagem de Tommy Lee Jones - o deputado Thaddeus Stevens. Talvez não tenha sido a intenção do diretor ou do roteirista, mas a crítica ao esquerdismo radical está posta: o deputado teve uma atitude que seria muito criticado por seus grupos em qualquer momento da história - um traidor, se sujeito ao governo e ao sistema ao qual ele fazia oposição. Mas ele conseguiu aprovar a emenda que tanto desejava, um avanço na luta e no seu objetivo, e de maneira correta. E para findar qualquer dúvida sobre o caráter e o desejo de Stevens ver o fim da escravidão acima de tudo, nos brindam com um final muito interessante.
As acaloradas discussões
no Câmara me deixaram inquieto – não tenho certeza se elas ocorriam da maneira
posta com tanta frequência. Ironicamente, o aspecto mais fraco do filme é também
seu ponto forte: ele mostra em partes, como foi a abolição da escravidão nos EUA
– uma grande esquema de subornos, ameaças, compras de voto, etc., e não objeto de
uma conscientização e nobre atitude humana de seus parlamentares. Não estou
criticando as atitudes de Lincoln, aparentemente muito humano, e muito menos
dizendo que todos parlamentares visavam apenas seus interesses. Apenas apontando
que os estadunidenses devem se orgulhar mais da abolição em si do que do
processo que levou ao tardio fim do sistema escravagista. Os argumentos absurdos
que defendiam tal sistema podem nos mostrar um paralelo entre outros dilemas
atuais, como casamento homossexual, machismo, racismo e xenofobia. E não vejo
isso como propaganda barata, e sim uma virtude do filme.
No entanto, o filme não
desenvolve o aspecto da política democrática, capitalista, neoliberal e burguesa
dominante no mundo (é claro que não podemos esperar isso de Spielberg, mas deve
ser mencionado). A questão da governabilidade da democracia está posta em
cheque, ainda que não seja essa a intenção do filme – afinal, se num tema crucial
e absurdo como a escravidão, interesses egoístas dos representantes são colocados
acima, o que ocorre com leis ordinárias? Ou teriam tais representantes mudado
nos dia de hoje, realmente defendendo agora os interesses da população?
Tampouco é uma questão de “os fins justificam os
meios”, como muitos estão afirmando. É o sistema que engessa avanços sociais
para continuar obtendo o lucro e concentrando-o nas mãos de poucos. Afinal, a
maneira que foi feita a escravidão, qual destino tiveram os negros no sul do
país? A luta pelos direitos civis, Martin Luther King, Rosa Parks e Panteras
Negras, somente para citar alguns, foram na década do 1960! Muito recente para
uma terra que proclama a liberdade e igualdade desde o seu nascimento. Isso sem
mencionar outros aspectos envolvidos na guerra de secessão – não era
simplesmente uma luta do bem x mal, ainda que com relação à escravidão não podemos
relativizar de modo algum. Havia outros pontos do conflito e das divergências entre
Norte e Sul que foram sequer abordados.
Muita cena de políticos "fazendo política", de maneiras estereotipadas, foram mostradas; no entanto, pouco da verdadeira política e seu sistema estão presentes. Enfim, um filme razoável, e justifica sim ter sido
um dos favoritos na corrida ao Oscar deste ano, afinal, a seleção de filmes é péssima.
Até mesmo poderia ter recebido o prêmio de melhor direção para Spielberg, pois
é evidentemente um trabalho superior ao de Ang Lee em As Aventuras de Pi. Mas não supera Argo, Django Livre e muito
menos o melhor filme e a melhor direção da premiação, que infelizmente não foi
reconhecido assim, Amor, de Michael
Haneke.
Nota 87/100
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