segunda-feira, 25 de março de 2013

Chinatown

Ficha TécnicaChinatown, 1974.
Gênero: Drama, Crime, Suspense.
Direção: Roman Polanski.
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hillerman, Roy Jenson, Diane Ladd, Darrell Zwerling, Joe Mantell, Bruce Glover, Burt Young, Belinda Palmer.
País: Estados Unidos.
Tempo: 130 min. 
Idioma: Inglês.

    Eu li muito mais do que realmente assisti filmes considerados noir; aprendi sobre sua estética, roteiros, dentre outras características. Todos os filmes que se enquadram em tal classificação ou que foram influenciados por este estilo que eu assisti não foram do período áureo do cinema noir, as décadas de 1940 e 1950, e sim mais recentes, como Los Angeles – Cidade Proibida. Chinatown é dito um clássico do cinema noir, ao revisitá-lo já na década de 1970, que conta com uma única mudança evidente – as cores ao invés do tradicional preto e branco.
    Chinatown conta com boas atuações – Dunaway está sólida e faz um bom trabalho; Huston realmente engrandece as cenas em que está presente; e Nicholson realmente faz uma ótima atuação, responsável por conduzir o filme de maneira brilhante. O roteiro é centrado na investigação de seu personagem, Gittes, um detetive particular que ganha a vida investigando casos extra-conjugais; ao ser contratado para investigar o chefe do departamento de água de Los Angeles, percebe que entrou numa trama complexa e que tanto ele, quanto nós, não sabemos realmente o que está acontecendo.
      O filme nos traz as reviravoltas e dúvidas clássicas do cinema noir, sempre nos deixando incertos sobre o que realmente está acontecendo e qual a real intenção dos personagens a cada momento. Também traz a complexa rede de corrupção na cidade, a disputa pelos recursos naturais (água) e a politicagem da cidade. Apesar de Chinatown (o bairro) pouco aparecer, há uma comparação excelente entre a Los Angeles e o bairro chinês, com uma ótima metáfora sobre a ausência de lei e ordem no bairro e na cidade como um todo.
   O longa também apresenta aspectos chocantes, e nos surpreende a cada virada, com um final inesperado e angustiante. Além do choque com o trágico final de Evelyn Mulwray (Dunaway), é impossível não pensar no futuro Katherine, sua filha (Palmer). Nos traz também a sensação de impotência, que provavelmente é compartilhada por Gittes ao final, diante deste poderoso esquema de corrupção e este turbilhão que envolveu todas estas pessoas que buscaram enfrentá-lo ou ao menos deixá-lo. Apesar de clichê mencionar isso, realmente nem tudo é o que parece, e o filme ainda conta com uma ótima direção de Polanski, com cenas interessantíssimas como a do beijo entre os protagonistas, que envolve também um nariz cortado e sujo de sangue no meio.


Nota 93/100

domingo, 24 de março de 2013

A Feiticeira da Guerra

Ficha Técnica: Rebelle, 2012.
Gênero: Drama, Guerra.
Direção: Kim Nguyen.
Elenco: Rachel Mwanza, Serge Kanyinda, Mizinga Mwinga, Alain Lino Mic Eli Bastien, Ralph Prosper, Alex Herabo, Starlette Mathata, Sephora Françoise.
País: Canadá.
Tempo: 90 min. 
Idioma: Francês, Lingala.

    Este filme canadense nos mostra a história de uma menina, que vivia numa miserável e pequena tribo africana, e após a invasão da tribo por rebeldes que lutam contra o governo do país, é obrigada a assassinar seus pais (para poupá-los de uma morte mais dolorosa) e a se juntar aos rebeldes como uma criança-soldado. Podemos observar gravíssimos problemas de diversos países africanos – guerra civil, crianças incorporadas aos exércitos rebeldes, miséria, violência.
    O filme não busca trabalhar as questões maiores que levaram esse país a tal destino; nem ao menos nos mostra o motivo “oficial” do conflito (se é que há alguma razão), ou mesmo a atuação do governo que enfrenta estes rebeldes. No entanto, qualquer pessoa com um conhecimento mínimo da história africana pode compreender alguns aspectos – e o colonialismo, imperialismo e disputas das grandes potências, se aliando e armando chefes tribais e governantes de Estados marionetes no continente africano são razões que todos poderão observar se analisarem criticamente o passado.
    A Feiticeira da Guerra prefere não se envolver neste vespeiro, evitar tocar em tais feridas europeias. O longa “apenas” nos mostra a dureza, barbaridade e violência destes conflitos, mas temos uma clara ideia do que levou a ele. Mas do mesmo jeito que não sabemos o motivo da guerra, tampouco os soldados, crianças ou não, aparentam saber o porquê de estarem lutando. A menina Komona (Mwanza) tem sua infância roubada prematuramente, aos doze anos; adquire o status de feiticeira, bruxa, mas que tampouco pode lhe garantir muita segurança. É obrigada a matar até mesmo seus entes queridos, mas também desconhecidos; assiste também a morte daqueles que ama, dentro de um exército de crianças.
     Ela se apaixona pelo Mágico (Kanyinda), outro soldado-criança, que a protege e a pede em casamento, após terem fugido do exército rebelde. Percebemos que estas crianças, que apesar de terem perdido sua infância há muito tempo, continuam crianças, e procuram viver felizes – o que momentaneamente conseguem. O romance entre eles é algo que pode provocar inúmeras discussões – afinal, ela tem apenas 13 ou 14 anos, e casou-se com outra criança; ao mesmo tempo, eles se amam e se protegem. Entretanto, independente de podermos formar uma opinião sobre tal situação, a guerra novamente os atinge, mostrando o quão difícil é fugir destas barbaridades.
      Ela volta para a guerra após ficar viúva – é arrastada de volta para o exército rebelde. Fica grávida do comandante, que a obrigou a casar com ele; e este ao meu ver é o único grande defeito do filme – a gravidez dela, que desde o início temos uma suspeita como se deu, pois ela narra a história para o filho que ainda não nasceu. Após o nascimento do bebê, pouco se trabalhou esta relação, ainda que tenha criado muitas expectativas sobre. Como o filme tem apenas 90 minutos, poderia se estender um pouco mais, para também elaborar este aspecto.
      A fotografia do filme é excelente, sendo acertada a decisão de filmar no RD Congo. Os atores fazem um excelente trabalho – o fato de serem amadores, mas nativos daquele mesmo país, certamente contribuiu para as ótimas atuações, principalmente de Mwanza, que alterna os momentos de sofrimento e alegria muito bem, mas sempre com a aura de alguém que está em constante sofrimento, tendo em vista sua história. Kanyinda também faz um excelente trabalho. A trilha sonora também se encaixa muito bem em todos os momentos.

Nota 89/100


sábado, 23 de março de 2013

O Voo

Ficha TécnicaFlight, 2012.
Gênero: Drama.
Direção: Robert Zemeckis.
Elenco: Denzel Washington, Kelly Reilly, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Brian Geraghty, John Goodman, Tamara Tunie, Nadine Velazquez, Adam Tomei, Tommy Kane, E. Roger Mitchell, Boni Yanagisawa, Peter Gerety, Garcelle Beauvais, Justin Martin, Melissa Leo, James Badge Dale.
País: Estados Unidos.
Tempo: 138 min. 
Idioma: Inglês.

    Robert Zemeckis retorna ao cinema de live-action após um longo período, e também traz um tema maduro e uma abordagem adulta, que não é muito sua praia – Forrest Gump, ainda que seja um bom filme, tem uma certa abordagem infantil. E talvez exatamente por estes traços do diretor, o longa não ousa e acaba caindo no moralismo e no final feliz.
    Temos ótimos exemplos de filmes que tratam questões de vícios – que necessariamente são “pesados”, mostram o quão perigoso e prejudicial é este mundo, geralmente longe de um final feliz, assim com a realidade. Requiem para um Sonho nos mostra a dura realidade, de maneira intensa e trágica; Trainspotting também traz essa perspectiva, com finais trágicos, a dificuldade e sofrimento dos que passam por tais problemas, mas também equilibrando com alguma perspectiva de vencer tal vício. Aqui, a moralidade acaba por determinar o tom final do filme, a lição de moral e superação do indivíduo, tão clichê do cinema hollywoodiano.
    Washington, que está em excelente forma, é o alcoólatra e corriqueiro usuário de drogas capitão Whitaker, piloto de aviões comerciais. Enquanto comandava um voo com mais de 100 pessoas a bordo, o avião sofre uma pane e após uma manobra ousada, única e quase impossível, o capitão consegue pousar o avião num campo aberto; ele salvou a vida de 96 pessoas, com a infeliz morte de apenas seis pessoas, além de ter evitado uma área densamente povoada. Whitaker, que demonstrou incrível presença de espírito e tranquilidade neste momento crítico, estava bêbado durante todo o incidente.
      No hospital, o capitão conhece Nicole (Reilly – muito bem no papel), uma viciada que se recupera de uma overdose. Destaque para o diálogo entre eles e um paciente que trata de um câncer (Kane), muito interessante. O filme mostra as vidas dos dois destruídas em razão dos vícios, ainda que o centro da história seja Whitaker. Ao final, ao confessar seu vício, não considerei seu arrependimento moralista – ele estava sim envolvido com a jovem comissária que levaria a fama de alcoólatra, que morreu ao salvar um menino no avião. Esta talvez tenha sido a gota d’água.
       No entanto, toda forma que foi trabalhado o acidente revelou-se superficial. Ele era sim um viciado, não deveria ter pilotado aquele avião. No entanto, somente suas habilidades o foram capazes de salvar as vidas daquelas pessoas. Qualquer outro piloto teria caído com o avião, e culpa seria exclusivamente da máquina e da falta de manutenção, como de fato foi. Isso foi provado pela perícia. E o filme sequer colocou esta discussão em pauta, ainda que tal dilema não tenha saído da minha cabeça: ao invés de ser congratulado por salvar 96 vidas, ele foi condenado por quatro homicídios. Não sei se ele realmente não deveria ser preso, mas o fato de isso não ter sido debatido acabou com o filme.
    Os demais atores estão muito bem nos papéis – Goodman está, como sempre, inusitado; Cheadle e Greenwood, apesar de contidos, fazem um trabalho decente. Este foi um filme que optou por focar na superação do indivíduo, dentro dos padrões morais, deixando sua angústia e desvios morais em segundo plano, pois afinal, seriam resolvidos quando ele se arrependesse. Mas a cena inicial, com o acidente logo no início, serve nos deixa tensos e serve para nos prender o filme inteiro, ainda que se revele excessivamente longo. A trilha sonora, ainda que seja uma ótima escolha de músicas – muito associadas ao uso de álcool e drogas – talvez revele-se para muitos inapropriada, em razão da temática abordada.


Nota 82/100

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ratatouille

Ficha Técnica: Ratatouille, 2007.
Gênero: Animação, Comédia.
Direção: Brad Bird, Jan Pinkava.
Elenco: Patton Oswalt, Lou Romano, Ian Holm, Janeane Garofalo, Peter Sohn, Peter O'Toole, Brad Garrett, Will Arnett, Brian Dennehy.
País: Estados Unidos.
Tempo: 111 min. 
Idioma: Inglês, Francês.

     Atualmente, não podemos mais considerar apenas o público infantil ao se tratar de animações, ainda que este público seja o principal deste gênero. E exatamente por este aspecto, Ratatouille falha com os dois lados – o público infantil e o adulto. Com o adulto, simplesmente pelo fato do filme ser extremamente infantil.
      Com o público infantil, ele vem carregado de lições de morais, algumas delas apresentadas de forma questionáveis. A primeira é não roubar: tudo bem, sabemos que o roubo não é algo positivo, mas mesmo Aladdin, um filme muito mais antigo, da época final do "conto de fadas", trabalha melhor a questão do roubo pela sobrevivência, a fome ou outro motivo. Ou seja, o filme é totalmente maniqueísta neste aspecto, tornando-o infantil e ao mesmo tempo prejudicial para as crianças; outra lição é a de que basta querer, e conseguiremos o que comer – basta olhar para o mundo e reparar no absurdo desta frase. Até mesmo uma criança pode notar. E ele fica martelando outros clichês sobre família, amigos e tudo mais – que são importantes, mas sozinhos não fazem um filme nem ao menos bom. Outro aspecto em que o filme falha é a comédia: não são tantos momentos de riso e divertimento que o filme nos proporciona - apenas alguns esporádicos e isolados.
       A divisão maniqueísta dos personagens está presente – vilões e mocinhos, ainda que um dos malvados, o mais interessante, o crítico Anton Ego (nome sugestivo, voz de Peter O’Toole) seja mais elaborado. Este personagem também é utilizado, ironicamente, para dar uma “cutucada” nos críticos – o que poderia amenizar minha crítica. Mas são duas coisas diferentes, a crítica a uma refeição, comida ou prato, e outra a um filme. Coisas totalmente distintas, ainda que a observação seja muito válida e nos faça pensar sobre a relação entre o crítico e aquele que realmente produz alguma coisa.
      Os demais personagens são interessantes, mas nada de muito novo ou diferente. Aliás, ratos e humanos não é algo tão novo no mundo das animações. No início do filme, achei positivo como eles eram mostrados – as pessoas de fato tinham nojo e medo deles. Com razão! São animais associados à sujeira e responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. Mas no final, me senti assistindo ao filme da Cinderella – A Gata Borralheira, pois ratos e algumas pessoas se relacionam muito bem. Além de tudo, estes animais na cozinha, aí está algo que nos causa no mínimo grande desconforto, ainda que seja um desenho. Ao menos o filme é visualmente muito bom.





Nota 61/100

quinta-feira, 21 de março de 2013

Intocáveis

Ficha TécnicaIntouchables, 2011.
Gênero: Comédia, Drama.
Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano.
Elenco: Omar Sy, François Cluzet, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Cyril Mendy, Alba Gaia Bellugi, Thomas Solivéres, Absa Diatou Toure.
País: França.
Tempo: 112 min. 
Idioma: Francês.

   Recentemente tenho visto filmes com temáticas semelhantes – a relação entre pessoas que necessitam de cuidados com aqueles que são responsáveis por tais cuidados: Amor, O Escafandro e a Borboleta e As Sessões estão entre eles, ainda que sejam muito diferentes entre si, tanto em qualidade como em abordagem ou gênero. Intocáveis também vai lidar com esse assunto, e também de forma diferente.
     A comédia foi o gênero escolhido pelos diretores para mostrar a relação de Philippe (Cluzet), um milionário tetraplégico, e Driss (Sy), um imigrante ex-presidiário que é contratado para cuidar do milionário – ainda que não tenha experiência alguma no assunto. O filme em momento algum questiona a questão migratória da França, a qualidade de vida de uma pessoa com necessidades especiais e sua interação com a sociedade (aliás, o fato de ele ser milionário possibilita amenizar a situação) ou as desigualdades sociais, que são gritantes entre os dois. Não há qualquer engajamento social por parte do filme; não que seja uma obrigatoriedade do cinema, mas no meu conceito, quando há, engrandece o filme.
         A história é recheada de clichês, principalmente o desenrolar dos protagonistas. No entanto, também é engraçada, conseguindo nos divertir quase a todo momento, mas também carregando um leve tom dramático. Foge do pastelão, mas também do humor negro – acredito que encontra um bom equilíbrio no que concerne às piadas. Os dois personagens são trabalhados de maneira extensiva, para que possamos nos envolver bem com eles, ainda que de maneira superficial e um tanto estereotipada – isso pode ser inclusive uma vantagem do filme, visto que não faz grandes indagações.
Os dois atores principais fazem um excelente trabalho, mas a alma do longa é Sy – talvez por ter inclusive um personagem que possibilite tal destaque, contrastando com Cluzet. A química entre os dois é ótima. Um filme que nos diverte e também difere do tradicional cinema francês, talvez revelando uma influência das comédias estadunidenses – no ritmo do desenvolvimento da história, e não no estilo, que para nossa sorte, está longe do pastelão.




Nota 78/100

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Mestre

Ficha Técnica: The Master, 2012.
Gênero: Drama.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Jesse Plemons, Ambyr Childers, Rami Malek, W. Earl Brown, Amy Ferguson, Lena Endre, Madisen Beaty, Laura Dern, Jennifer Neala Page, Patty McCormack, Christopher Evan Welch, Kevin J. O'Connor.
País: Estados Unidos.
Tempo: 144 min. 
Idioma: Inglês.

    O novo filme de Paul Thomas Anderson não modificou minha opinião sobre o diretor: superestimado, com filmes sempre confusos, que não conseguem se afirmar ao longo da história, muito menos propor qualquer reflexão. Ao menos seus filmes conseguem extrair boas atuações de seu elenco. Em Magnolia tivemos Tom Cruise e John C. Reilly excelentes; Sangue Negro nos trouxe uma fantástica atuação de Daniel Day-Lewis; com O Mestre continuamos tendo estes exemplos, de Hoffman, Adams e principalmente Phoenix.
      O longa nos traz Quell (Phoenix), que saindo da IIGM após lutar contra os japoneses, não consegue se readaptar e enfrenta problemas com álcool, violência e sexo – até que encontra Lancaster Dodd (Hoffman), guru de uma nova seita – intencional e clara alusão à Cientologia. No entanto, apesar de tangenciar temas grandes como veteranos de guerra e seus traumas, religiões e novas seitas, o filme não foca no macro, e sim na vida pessoal dos dois, e também na mulher de Dodd, Peggy (Adams).
    Este foco único no pessoal talvez seja onde o filme perde muito do seu potencial. Há uma grande confusão, cenas desconexas e os momentos e ideias teoricamente mais profundas, sobre o questionamento da seita e sua credibilidade, passam de maneira desimportante. Ao meu ver, muitas cenas estão jogadas, sendo difícil para o espectador extrair totalmente os argumentos e reflexões do filme – que está longe de ser um entretenimento. Essa distância do aspecto do entretenimento, que é positiva, acaba também revelando a incapacidade do filme de atingir um objetivo maior (pois aparentemente é esta a intenção, ir além do convencional).
 



Nota 77/100

terça-feira, 5 de março de 2013

Hurricane: o Furacão

Ficha Técnica: The Hurricane, 1999.
Gênero: Biografia, Drama, Esporte.
Direção: Norman Jewison.
Elenco: Denzel Washington, Vicellous Reon Shannon, Liev Schreiber, Deborah Kara Unger, John Hannah, Dan Hedaya, Debbi Morgan, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Badja Djola, Harris Yulin, Vincent Pastore, Garland Whitt.
País: Estados Unidos.
Tempo: 146 min. 
Idioma: Inglês.

     Esta comovente história de injustiça nos traz Denzel Washington no papel de Rubin “Hurricane” Carter, o boxeador campeão mundial acusado injustamente de assassinato e condenado a prisão perpétua. Washington está muito bem no filme, mesmo que não possa contar com atuações do mesmo nível por parte dos coadjuvantes – as ponta de Steiger, Paymer e Djola são exceções.
       O filme retrata a luta pela liberdade e por justiça de Carter, e também para manter a sanidade dentro da prisão, visto que as perspectivas de sair de lá caiam a cada dia. O longa também retrata de forma acertada, ainda que pudesse enfatizar um pouco mais, a cara do sistema judiciário e prisional estadunidense da época – brancos preconceituosos julgando e trancando homens negros, após explorá-los e violentá-los de todas as formas fora da cadeia. Infelizmente, o retrato atual continua muito parecido com o da época mostrada no filme – principalmente com relação à população carcerária.
     O filme apenas resvala em temas que eu esperava serem mais centrais na história: o racismo e a condição da população afro-descendente nos EUA. Ao assistir ao filme, também me fez refletir sobre o sistema judiciário de forma geral, no poder conferido a juízes, promotores, investigadores e mesmo aos júris populares; e como constantemente na nossa história, tal sistema, pensado de forma a garantir a justiça e a segurança da população, tenha sido distorcido de maneiras tão absurdas e abusivas, tornando-se um instrumento de injustiça social. Mas reconheço que essa reflexão é mais pessoal do que intencionada pelo filme.
      A história de Hurricane Carter é digna de filme, ainda que este bom filme não tenha explorado todo seu potencial. Um homem que passou 30 anos, dos seus 50 vividos, encarcerado injustamente, por um sistema que o prendeu sistematicamente durante toda sua vida, merece o melhor dos filmes. Tivemos uma abordagem um pouco diferente, com a história paralela de Lesra, mostrando como a situação dele seguia um rumo semelhante ao de Hurricane, com um racismo ainda presente na sociedade e a falta de oportunidades que geram este ciclo de violência e pobreza. No entanto, Lesra e mais ainda seus amigos canadenses, tão fundamentais neste aspecto da história, foram pouco trabalhados. Esta escolha do diretor trouxe algumas perdas para a história, mas também muitos ganhos.






Nota 83/100

segunda-feira, 4 de março de 2013

As Sessões

Ficha Técnica: The Sessions, 2012.
Gênero: Comédia, Drama, Romance.
Direção: Ben Lewin.
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Jennifer Kumiyama.
País: Estados Unidos.
Tempo: 95 min. 
Idioma: Inglês.

    O filme nos mostra um tema polêmico e raramente debatido – a vida sexual das pessoas com alguma deficiência física. No entanto, aqui a situação é extrema, pois Mark (Hawkes) tem seu corpo paralisado do pescoço para baixo, em razão de uma poliomielite. Seus pulmões são fracos, então depende de uma imensa máquina da qual não pode ficar distante muito tempo. Além de toda essa complicada maneira de se viver, Mark ainda se culpa pela morte de sua irmã e sofre por não ter um relacionamento amoroso e ainda ser virgem, aos 38 anos de idade.
       Para resolver seu problema com relação ao sexo, ele procura a terapeuta Cheryl (Hunt), com a qual ele tem relações sexuais para que possa compreender como deve se portar com relação ao tema, principalmente tendo em vista sua condição física de movimentação limitada. O filme nos traz temas polêmicos, ainda que procure mais demonstrar a necessidade que pessoas na condição de Mark tenham um vida saudável e confortável – principalmente pelo fato de que necessidades básicas dele não são tão facilmente obtidas quanto para uma pessoa sem tais problemas. Mostra também o envolvimento pessoal de ambos, indo muito além do profissional. No entanto, o intuito não é gerar uma grande discussão sobre o tema.
      Outro ponto importante é a questão da religião com relação ao sexo – e o tabu aqui é trabalhado de maneira otimista, com um padre (Macy), amigo de Mark, muito progressista, que soube conciliar suas crenças e as de Mark (muito religioso) com o bem-estar do amigo. No entanto, infelizmente ele representa também uma minoria dentro da instituição religiosa, e o filme tampouco quer realmente levantar tal discussão. 
      Contamos com atuações sólidas de Hawkes, Hunt e Macy. As cenas que envolvem nudez e sexo não são exageradas ou apelativas, estando em sintonia com a sutileza do filme. Percebemos que partes das dificuldades, inseguranças e dúvidas enfrentadas por Mark não são uma peculiaridade sua, e sim do ser humano. Tal posição também é revelada nas conversas com que Mark tem com seus “ajudantes”, Bloodgood, Brown e Marks. Um bom filme, que mesmo lidando com um tema delicado, consegue nos divertir e nos fazer rir, além de contribuir para identificarmos como muitas vezes o preconceito com relação à pessoas em condições semelhantes as de Mark atrapalha sua socialização, mas assim que tal barreira é superada, a relação pode se desenvolver de maneira profunda e “normal” para todos.





Nota 80/100

domingo, 3 de março de 2013

Frankenweenie

Ficha Técnica: Frankenweenie, 2012.
Gênero: Animação, Comédia, Horror.
Direção: Tim Burton.
Elenco: Charlie Tahan, Martin Short, Catherine O'Hara, Winona Ryder, Martin Landau, Atticus Shaffer, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell.
País: Estados Unidos.
Tempo: 87 min. 
Idioma: Inglês.

    Tim Burton é muitas vezes um diretor superestimado; em tantas outras, subestimado. Ultimamente, não tem obtido muito sucesso com seus filmes – sucesso no que me refiro à qualidade. Sombras da Noite é terrível! Mas ao menos suas animações, escritas, dirigidas ou produzidas, vêm oscilando menos do que os demais filmes, em se tratando de qualidade. A estética utilizada por Burton nas animações é ótima, além de muito peculiar. A escolha do preto e branco para Frankenweenie é totalmente adequada.
     Esta nova animação é divertida e nos brinda com diversas referências a clássicos do horror e da ficção. Desde os mais óbvios como Frankenstein, A Noiva de Frankenstein, Drácula e Gremlins, até mesmo com Jurassic Park, King Kong, Lobisomen e Godzilla. E este talvez seja o aspecto mais interessante desta animação. No entanto, ao que não parece ser uma desenho voltado para criança, o final é meloso e decepcionante – talvez um reflexo (ou mesmo exigência) de sua parceria com a Disney; mas também pode ser o oposto, a parceria sendo apenas uma consequência desta nova fase de Burton.
     Ao iniciar o filme com o drama enfrentado por crianças ao enfrentar a morte pela primeira vez, ao se adequar à escola ou ser considerado um esquisito (quando toda escola é no mínimo tão estranha quanto o menino), temos um imenso potencial a ser desenvolvido no filme. No entanto, é inclusive preocupante o final, visto que realmente a criança não aceita a morte de seu animal de estimação – ainda que as consequências de não aceitá-las são mostradas de forma grave. O protagonista (além do cachorro) também é um personagem recorrente nos filmes do diretor – um esquisito introspectivo, mas bondoso e confuso.
    Um filme que vale o ingresso – e que acertadamente, Burton não o fez demasiadamente longo. As inúmeras referências aos filmes de horror são realmente ótimas; também contém cenas muito divertidas e personagens interessantes, ainda que os pais de Victor (Tahan) sejam mal trabalhados; ainda que não traga nada de original, é original por si só simplesmente por ser uma animação de Tim Burton, que geralmente difere muito do restante – e desta vez, com certa qualidade.





Nota 75/100

sábado, 2 de março de 2013

Lincoln

Ficha Técnica: Lincoln, 2012.
Gênero: Biografia, Drama, História.
Direção: Steven Spielberg.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Jared Harris, Joseph Cross, Bruce McGill, Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Glória Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, Boris McGiver, Walton Goggins.
País: Estados Unidos.
Tempo: 150 min. 
Idioma: Inglês.

     Lincoln é certamente umas das figuras políticas mais adoradas nos EUA. A seu favor contam inúmeros fatos, como ser o articular da 13ª Emenda à Constituição, que acabou com a escravidão no país, e infelizmente seu próprio assassinato, que o tornou um mártir. O fato de ele não estar mais presente na memória de seu povo, e somente nos livros de história, também contribui para tal adoração. Ainda que Spielberg tenha dito que um presidente que tinha seu rosto estampado na nota de cinco dólares não precisasse de mais enaltecimento, o filme contribuiu muito para isso – o que não precisa ser necessariamente algo negativo.
     A cena que abre o filme é uma batalha durante a Guerra da Secessão, o conflito que causou mais vítimas aos EUA, afinal, era uma guerra civil. Mas se o espectador espera uma cena de abertura meticulosamente trabalhada, como em O Resgate do Soldado Ryan ou Cavalo de Guerra, ele ficará desapontado – a cena é curta e ordinária, não sem do possível ter uma ideia de como foram as batalhas travadas neste conflito. O filme aborda apenas os quatro meses que precederam a morte de Abraham Lincoln, e mesmo assim, revela-se incompleto em determinados aspectos, enquanto com excessos em outros.
     Não faço ideia de como era a pessoa do 16° presidente dos EUA – o que nos é mostrado é um cara muito calmo, culto, inteligente, próximo do povo – somente qualidades. Até mesmo seus supostos defeitos (corrupção), são na verdade mostrados como astúcia. Suas inúmeras histórias chegam a cansar, mostrando um Lincoln com uma sabedoria digna de um Mestre Yoda ou o mago Gandalf – ainda que ele realmente tivesse uma excelente retórica, pois era advogado, letrado numa época em que poucos tinham tal privilégio, há certo exagero.
    O filme está visualmente perfeito – fotografia, figurino e maquiagem estão ótimas, a ponto de conseguirem muitas vezes mascarar alguns outros defeitos do filme. Daniel Day-Lewis faz novamente um papel fantástico – desde o trabalho de voz, trejeitos, aos diálogos. Incrível pensar que esse mesmo ator fez os violentos personagens de Gangues de Nova York ou Sangue Negro. Somente sua atuação já vale o tempo despendido para ver o filme. Jones está muito bem, variando um pouco de seus papéis habituais; Field faz um bom trabalho também, ainda que tanta badalação em torno de sua atuação na seja justificável. Strathairn também está excelente, ainda que tenha sido menos badalado. O elenco em si é muito bom, recheado de estrelas e bons atores (o que não significam a mesma coisa) – talvez uma demonstração de que Spielberg ainda conta com muito privilégio dentro de Hollywood. Cabe também destacar a personagem de Tommy Lee Jones - o deputado Thaddeus Stevens. Talvez não tenha sido a intenção do diretor ou do roteirista, mas a crítica ao esquerdismo radical está posta: o deputado teve uma atitude que seria muito criticado por seus grupos em qualquer momento da história - um traidor, se sujeito ao governo e ao sistema ao qual ele fazia oposição. Mas ele conseguiu aprovar a emenda que tanto desejava, um avanço na luta e no seu objetivo, e de maneira correta. E para findar qualquer dúvida sobre o caráter e o desejo de Stevens ver o fim da escravidão acima de tudo, nos brindam com um final muito interessante. 
    As acaloradas discussões no Câmara me deixaram inquieto – não tenho certeza se elas ocorriam da maneira posta com tanta frequência. Ironicamente, o aspecto mais fraco do filme é também seu ponto forte: ele mostra em partes, como foi a abolição da escravidão nos EUA – uma grande esquema de subornos, ameaças, compras de voto, etc., e não objeto de uma conscientização e nobre atitude humana de seus parlamentares. Não estou criticando as atitudes de Lincoln, aparentemente muito humano, e muito menos dizendo que todos parlamentares visavam apenas seus interesses. Apenas apontando que os estadunidenses devem se orgulhar mais da abolição em si do que do processo que levou ao tardio fim do sistema escravagista. Os argumentos absurdos que defendiam tal sistema podem nos mostrar um paralelo entre outros dilemas atuais, como casamento homossexual, machismo, racismo e xenofobia. E não vejo isso como propaganda barata, e sim uma virtude do filme.
      No entanto, o filme não desenvolve o aspecto da política democrática, capitalista, neoliberal e burguesa dominante no mundo (é claro que não podemos esperar isso de Spielberg, mas deve ser mencionado). A questão da governabilidade da democracia está posta em cheque, ainda que não seja essa a intenção do filme – afinal, se num tema crucial e absurdo como a escravidão, interesses egoístas dos representantes são colocados acima, o que ocorre com leis ordinárias? Ou teriam tais representantes mudado nos dia de hoje, realmente defendendo agora os interesses da população?
Tampouco é uma questão de “os fins justificam os meios”, como muitos estão afirmando. É o sistema que engessa avanços sociais para continuar obtendo o lucro e concentrando-o nas mãos de poucos. Afinal, a maneira que foi feita a escravidão, qual destino tiveram os negros no sul do país? A luta pelos direitos civis, Martin Luther King, Rosa Parks e Panteras Negras, somente para citar alguns, foram na década do 1960! Muito recente para uma terra que proclama a liberdade e igualdade desde o seu nascimento. Isso sem mencionar outros aspectos envolvidos na guerra de secessão – não era simplesmente uma luta do bem x mal, ainda que com relação à escravidão não podemos relativizar de modo algum. Havia outros pontos do conflito e das divergências entre Norte e Sul que foram sequer abordados.
Muita cena de políticos "fazendo política", de maneiras estereotipadas, foram mostradas; no entanto, pouco da verdadeira política e seu sistema estão presentes. Enfim, um filme razoável, e justifica sim ter sido um dos favoritos na corrida ao Oscar deste ano, afinal, a seleção de filmes é péssima. Até mesmo poderia ter recebido o prêmio de melhor direção para Spielberg, pois é evidentemente um trabalho superior ao de Ang Lee em As Aventuras de Pi. Mas não supera Argo, Django Livre e muito menos o melhor filme e a melhor direção da premiação, que infelizmente não foi reconhecido assim, Amor, de Michael Haneke.
Nota 87/100