segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Ficha Técnica: Les Misérables, 2012.
Gênero: Musical, Romance, Drama.
Direção: Tom Hooper.
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Amanda Seyfried, Aaron Tveit, Samantha Barks, Daniel Huttlestone, Isabelle Allen.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 158 min. 
Idioma: Inglês.

     Ao adaptar um dos maiores clássicos da literatura para o cinema, deve-se ter muito cuidado. Também um dos maiores clássicos da Broadway – que talvez apesar do sucesso, também não aparenta ter tanta semelhança com livro. O diretor confessou não ter lido o livro, o que já é um fator muito negativo, e por isso, como adaptava o musical, decidiu por fazer um filme musical também.
    A escolha talvez fosse para aumentar a carga dramática da obra, mas acabou saindo de maneira péssima. Eu tampouco li o livro, mas não creio que a proporção mostrada entre os triângulos amorosos previsíveis e o sofrimento amoroso dos personagens, em contraste com a miséria e sofrimento material/humano que enfrentam esteja assim representada no livro. E aparentemente, Hooper tampouco leu muitos livros de história. Os trechos em que os atores cantam individualmente são cansativos, com closes exagerados, e em sua maior parte dispensáveis – tornando o filme excessivamente longo e cansativo. É repetitivo, todos sofrendo pelo amor não correspondido – e talvez o sucesso de Hathaway seja explicado por cantar lindamente exatamente o aspecto central do livro – a miséria e sofrimento humano. Já as cenas cantadas coletivamente foram todas excelentes, com destaque para a cena de abertura, realmente impressionante.
    No entanto, em razão do excesso de melodrama e sofrimento amoroso, o início da história ficou corrido – toda a transformação de Valjean (Jackman), o sofrimento de Fantine (Hathaway) – talvez a parte mais pesada do filme, em que ela vende seus cabelos, dentes e corpo por dinheiro – enfim, toda a miséria acaba sendo retratada, ainda que de forma intensa, em pouco tempo, para depois tornar-se um drama amoroso. Mesmo o levante de Paris de 1832 acaba perdendo seu sentido, pois aparenta ser apenas alguns insatisfeitos um pouco sem motivo, dando lugar aos triângulos amorosos. Confesso que estou curioso para saber qual o espaço dedicado por Victor Hugo em seu livro a cada assunto. O final, com Marius (Redmayne) sobrevivendo ao enfrentamento com a polícia, abandonando a luta e os companheiros mortos, retornando a casa do tio, casando-se com Cosette (Seyfried) e deixando para trás todo seu discurso revolucionário e social é realmente um soco no estômago – um final que vai agradar aos conservadores da classe média – e talvez por isso Hooper tenha sido escolhido, após ter filmado O Discurso do Rei (filme superior a este), mostrou-se adequado para tais padrões. A revolução popular e legítima atrapalhando as instituições de exploração burguesas.
    O papel da Igreja também é apresentado de forma dúbia – não sei até que ponto ela poderia apoiar uma revolução de caráter social no moldes socialistas – é sabido que de forma geral, sempre tenha sido uma grande opositora. Mas a preocupação do sofrimento humano e da redenção do homem não está descolada da instituição. A produção técnica do filme é excelente, ainda que um cinema ruim tenha prejudicado minha percepção, as cenas são muito bem feitas – desde maquiagem, figurino e som.
    A escolha dos atores foi acertada – muitos com experiência musical. Jackman vem da Broadway, estando muito bem e adaptado a tais papéis, sendo ideal para o protagonista. Hathaway estava excelente, embora ela devesse ter mais tempo em cena. Crowe não compromete, embora não atinja o nível de Jackman. Seyfried, Carter e Cohen já participaram de musicais antes, mantendo um bom nível, assim como Redmayne e Barks. Aliás, as personagens de Helena B. Carter e Sacha B. Cohen, ainda que sirvam para aliviar a tensão do filme (sou contra tais alívios desnecessários – a história deveria ser tensa como a realidade), são mostrados como dois pilantras picaretas, e não da forma real como deveriam – exploravam a pobre menina e sua mãe. A falta de seriedade de seus personagens ficou um pouco descolada, ao meu ver, destoando da temática. Os dois atores mirins - Allen e Huttlestone - estão fantásticos, principalmente o menino, um dos poucos pontos altos do filme.
     Enfim, um filme que assassina história, sociologia e provavelmente a literatura. A escolha por um formato cantado do começo ao fim não me agrada – os monólogos cantados estão presentes em exagero. Uma grande decepção, com valores conservadores e mesmo reacionários constantemente apresentados, transformando uma tragédia social em drama pessoal.



Nota 67/100

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Argo

Ficha Técnica: Argo, 2012.
Gênero: Suspense, História, Drama.
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Titus Welliver, Sheila Vand.
País: Estados Unidos.
Tempo: 120 min. 
Idioma: Inglês, Persa.

  O Irã é hoje visto como um grande perigo pelos EUA e sua população, com a ideia de o país ser atrasado e governado por um ditador louco. Por isso, para uma produção hollywoodiana tratar da Crise dos Reféns em 1979, deflagrada no Irã após a Revolução Iraniana, o risco de se cair na armadilha do ufanismo patriótico era muito grande, e Affleck procurou evitar este exagero, com parcial sucesso.
   A tentativa mais evidente foi o início, em que uma sequência de desenhos acompanhada por uma narração nos apresenta um breve resumo sobre a história do Irã e as intervenções dos EUA através do regime do Xá, contra a vontade da maioria da população. Mas pouco se fala após isso, com o foco mudando para a retirada dos reféns do país, revelando um certo desequilíbrio nesta relação – uma curta introdução mostra a ingerência dos EUA buscando seus interesses de forma egoísta, e depois apenas a revolta da população “bárbara, exótica”, que penduram pessoas nos postes e executam estadunidenses. Durante o decorrer do filme há tentativas de minimizar esse desequilíbrio – principalmente ao reconhecerem o Xá como um aliado assassino dos EUA no país, e que agora eles teriam que suportar as consequências de se apoiar um líder tão sanguinário e impopular, mesmo que tal consequência seja deixar seus cidadãos no cativeiro iraniano. Também é comentado constantemente como os iranianos são muito mais inteligentes e preparados do que os estadunidenses julgam, além de momentos com papéis femininos de liderança na revolução. A realidade mostra que nenhum país pode interferir de maneira tão unilateral e egoísta pelo mundo.
   No entanto, diferente do filme de Bigelow, A Hora Mais Escura, neste longa de Affleck um lado mais “bonzinho” e menos bruto da CIA é mostrado. Independente da posição de Bigelow com relação a utilização da tortura, podemos observar pontos de vista totalmente opostos sobre a organização. Toda brutalidade do governo do Xá não é atribuída também às artimanhas da agência de inteligência dos EUA. Um momento sutil mas que me agradou muito no filme foi a saída da empregada (Vand) do embaixador canadense (Garber) em direção ao Iraque – outro país que sofre com as atuações dos EUA dentro de seu território, e que viria a ter desdobramentos ainda piores do que no Irã – ou seja, ela não terá paz por muito tempo, tendo que enfrentar os mesmos tipos de problemas causados pelos mesmos agentes. Ele nos mostra uma atuação brilhante da CIA, sem o uso da violência, e faz uma propaganda tardia (ou homenagem) para o presidente democrata Carter, que não pode nem ao menos se “vangloriar” de tal ação durante as eleições.
   A direção de Affleck é boa, tornando intrigante e criando um bom suspense mesmo para aqueles que já conhecem o final, visto que se baseia em fatos reais. Talvez um pouco de exagero na perseguição final no aeroporto – tenho minhas dúvidas se algo ao menos parecido ocorreu – mas serviu para mostrar como foi delicada a retirada dos reféns. Outro aspecto interessante que podemos notar é o fato de como em pouco tempo, a tecnologia transformou muita coisa – o plano seria inconcebível nos dias de hoje, principalmente se fosse descoberto, a rapidez que tal informação chegaria ao controle do aeroporto seria incomparável.
   O diretor-ator se saiu melhor na primeira função; ao atuar, conseguiu se encaixar num papel que lhe fosse ao menos confortável, e sua atuação contida não prejudicou o filme. Os coadjuvantes fazem excelentes pontas, com destaque para Arkin, Cranston e principalmente Goodman. A suposta aparição de Jack Nicholson foi interessante também, para os mais atentos.  Há uma crítica à Hollywood e seu circo, mídia e componentes, não tão sutil mas interessante. O que me incomodou foi a comparação entre Hollywood e política – ainda que em certa medida inteligente, também foi superficial e perigosa. Por mais que existam semelhanças (muitas vezes em excesso) entre os dois, a política é algo muito sério e de impacto gigante na vida de todos; e tampouco o cinema deve ser encarado de maneira ingênua ou subestimado.


Nota 90/100

sábado, 9 de fevereiro de 2013

As Aventuras de Pi

Ficha Técnica: Life of Pi, 2012.
Gênero: Drama, Aventura.
Direção: Ang Lee
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussein, Tabu, Vibish Sikavu, Ayush Tandon, Rafe Spall, Gérard Depardieu, Shravanthi, Sainath, James Saito, Jun Naito.
País: Estados Unidos, Taiwan.
Tempo: 127 min. 
Idioma: Inglês, Tamil, Francês.

    Ang Lee é um diretor que produz diversos tipos de filmes, e de forma muito inconstante. Chega a ser estranho pensar que a mesma pessoa que dirigiu o excelente O Segredo de Brockeback Mountain também dirigiu o terrível Hulk ou o superestimado O Tigre e o Dragão. Mas se tratando de As Aventuras de Pi, o filme pode ser encaixado em uma categoria mediana.
    Esteticamente, o longa beira a perfeição. Imagens maravilhosas, efeitos especiais fantásticos, fotografia excelente. Pensar que o tigre foi criado por computador é assustador, pois ele está muito real. A cena do naufrágio é excelente; a da baleia, linda; e a da ilha, surpreendente. Os atores estão bem no filme – não comprometem, ainda que ao meu ver uma atuação melhor poderia fortalecer o filme.
   No entanto, o filme revela-se muito longo, cansando em determinados momentos. O apelo para o espiritual e religioso é muito grande do filme, ainda que a mistura entre diferentes elementos de diversas religiões seja interessante, fica clara a posição favorável às religiões em geral que ele toma, como por exemplo a salvação. Mas o diretor consegue levar alguns bons momentos de tensão ao filme e nos envolve de certa maneira. O final, com a separação entre o tigre e Pi, foi muito decepcionante. Após desenvolver a relação entre os dois principais personagens, a despedida foi fraca.
     O filme termina também com a história alternativa, deixando no ar se tudo que foi mostrado anteriormente realmente aconteceu – uma história muito improvável, ainda que não possível. Aliás, tal história revela duplamente a dificuldade de se estar sozinho para o ser humano, principalmente em momentos difíceis – ou ele aceita um tigre como companheiro de bote, correndo o risco de ser devorado; ou ele cria toda uma história para superar as dificuldades momentâneas e também os terríveis acontecimentos que o levaram para aquele situação. Além da boa metáfora, mas trabalhada de maneira fraca, ao comprar humanos e animais.

Nota 67/100

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

Ficha Técnica: Zero Dark Thirty, 2012.
Gênero: Drama, Suspense, História.
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clark, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Reda Kateb, Harold Perrineau, Jeremy Strong, J.J. Kandel, Scott Adkins, David Menkin, Fares Fares, Frederic Lehne, Mark Strong, Daniel Lapaine, Mark Duplass, James Gandolfini, Stephen Dillane, Joel Edgerton, Jeff Mash, John Barrowman, Frank Grillo.
País: Estados Unidos.
Tempo: 157 min. 
Idioma: Inglês.

     O mais novo filme de Kathryn Bigelow está novamente muito badalado. Talvez mais polêmico que o anterior, que lhe valeu o Oscar de melhor diretora (primeira mulher a vencer na categoria) e de melhor filme, o péssimo Guerra ao Terror. Ainda não consegui entender aquele Oscar – tudo bem, não queriam premiar Avatar, tínhamos Bastardos Inglórios, Up – Altas Aventuras, ou mesmo Amor sem Escalas ou Educação. E tampouco consigo compreender o motivo para tanta euforia em torno deste novo longa.
      A história da “maior caçada humana na história”, a busca por Osama Bin Laden, é retratada desde os ataques terroristas ao World Trade Center, até sua captura e morte – que aliás não era parte da história, sendo responsável por uma grande mudança no roteiro de Boal, que iria retratar apenas os esforços e recursos despendidos em vão nesta busca.
       Jessica Chastain está muito bem no filme, ainda que já tenhamos visto atuações melhores (Histórias Cruzadas) dela. Mas carrega muito bem o filme, sendo a única personagem que leva a história do começo ao fim com destaque. O restante do elenco de apoio faz um bom trabalho. A personagem de Chastain – Maya – também recebe ainda mais destaque por se destacar num meio predominantemente masculino (para não dizer inteiramente), assim como a diretora do filme. No entanto, não considero que comandar torturas seja uma conquista da qual as mulheres possam se orgulhar. Maya traz um toque pessoal ao filme, de que foi apenas graças ao seu sacrifício pessoal e esforço que levou a captura do homem mais procurado do mundo. 
       A tortura é mostrada de forma clara e chocante no filme. Não sei até que ponto podemos considerar as cenas verídicas, mas é correto presumir que a CIA realmente utilizou-se de torturas em suas investigações. Uma organização que coordenou locais como a prisão de Abu Ghraib, e coordena ou coordenou golpes e governos ditatoriais e assassinos em diversas localidades do mundo (nós latino americanos infelizmente sabemos muito bem) ainda deve utilizar-se de métodos absurdos como a tortura para obter informação. A grande dúvida que fica no filme é que se, sem a tortura, os EUA teriam encontrado Bin Laden. E é isso que vai levar pessoas a afirmarem que Bigelow é pró-tortura, ainda que tal afirmação não esteja clara. Espero que ela tenha esta intenção – pois podemos observar muito bem a barbaridade que é torturar um ser humano. Observando também a quantidade de erros que a CIA comete, a tortura ainda torna-se mais absurda – não que torturar culpados seja justificável de qualquer forma.
            Outro pecado gigantesco do filme, mas ao meu uma constante da dulpa Bigelow-Boal, é a crítica rasa. Assim como em Guerra ao Terror, em momento algum há uma mínima visão dos paquistaneses, afegãos, sauditas, muçulmanos. O motivo pelo aparente ódio que eles têm dos americanos (ainda que para os mais atentos, a tortura, invasões militares e bombardeios possam ser algum indicativo), ou mesmo a brutalidade de suas forças armadas no Iraque e Afeganistão, não é abordado. Além do excesso de atentados mostrados durante o filme, buscando sempre justificar a caçada a Bin Laden, como se ele fosse o único responsável por todo o mal (a tentativa do atentado em Times Square foi além da conta).
            O filme é longo e cansativo em determinados momentos. Seu tom documental, característico de Bigelow, é interessante. No aspecto da tortura, fica a dúvida, ainda que uma dúvida em tal quesito não deveria existir. Mas um pouco de reflexão sobre a crueldade de tais técnicas já deveriam ser o suficiente para nos causar repugnância. Maya no início se mostra desconfortável com a situação; mas o espectador não deve seguir o mesmo caminho da protagonista, pois esta mostrou-se habituada ao procedimento no decorrer do filme, inclusive culpando o interrogado pelo sofrimento dele e comandando torturas. O sofrimento pelo qual passam os estadunidenses que estão envolvidos nestas operações também acaba por se equiparar pelo sofrimento causado nas populações atacadas por eles, o que beira o absurdo.



Nota 72/100

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dogville

Ficha Técnica: Dogville, 2003.
Gênero: Drama.
Direção: Lars von Trier.
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Stellan Skarsgard, Patricia Clarkson, Chloë Sevigny, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon, John Hurt, Lauren Bacall, Harriet Anderson, James Caan, Zeljko Ivanek, Bem Gazzara, Blair Brown, Cleo King, Bill Raymond, Miles Purinton.
País: Dinamarca, Suécia, Finlândia, Itália, França, Alemanha, Noruega, Reino Unido, Holanda.
Tempo: 178 min. 
Idioma: Inglês.

       Lars von Trier é um diretor polêmico e impactante – e sua polêmica vai além de seus filmes e mesmo de sua postura política. Ele se utiliza das suas polêmicas como marketing, atraindo mais atenção para seus filmes. Independentemente de aprovar ou não essa sua atitude (deixando claro que defendo e acho ótimo o envolvimento dele com questões políticas e sociais de forma geral), seu filme deve ser analisado para além disso. Provocante, certamente não conseguirei ser breve ao falar sobre ele.
      E Dogville é um excelente filme! As quase três horas de filme passam quase que sem perceber; é difícil argumentar que ele poderia ser muito mais curto. O filme é infinitamente melhor do que o bom Melancolia. Mas ao mesmo tempo, se não fosse pelo fato de estarmos vendo tudo que acontece através de uma câmera, que também produz cortes de cenas e imagens, poderíamos muito bem classificar Dogville como uma peça de teatro. Mas diferentemente de Carnage, que foi baseado em uma peça de teatro, o roteiro deste longa foi escrito diretamente para o cinema. Ainda que assim como o mencionado filme de Polanski, o cenário seja um só, naquele a sala de estar continha de fato as paredes e portas, era completo; em Dogville, o cenário consiste apenas em alguns objetos, e as paredes e portas são riscos no chão.
Essa atitude ousada deixa o filme ainda melhor, apesar de algumas críticas, e me chama a atenção por dois motivos. Além de ser algo muito bem feito, e os personagens agem como se todas as portas, janelas e paredes estivesse ali, inclusive com o barulho das portas e chaves; mas também há um outro detalhe: demonstra a falta de privacidade de uma vila tão pequena, em que todos sabem da vida de todos, evidenciado para o espectador também através da ausência de paredes. Podemos observar tudo que acontece na cidade com o mesmo plano de visão. Um paradoxo com a sociedade atual, cada vez mais individualista e ao mesmo tempo, com menor privacidade – talvez uma semelhança muito maior com o passado do que gostaríamos de acreditar. O jogo de luz para diferenciar dias e noites, momentos tensos ou alegres e estações do ano também foi utilizado de maneira inteligente. 
O elenco, reconhecidamente de peso, também é brilhante. A ausência destes efeitos especiais e cenários variados, mesmo paredes, acaba por exigir muito dos atores, sendo juntamente com o roteiro forte, o que sustenta o filme. Nicole Kidman está muito bem no papel. Paul Bettany, um ator ao meu ver subestimado, tendo em vista seu grande potencial, está excelente. E podemos contar com grandes nomes que fornecem atuações fortes como Lauren Bacall, Philip Baker Hall, Stellan Skarsgård, Jeremy Davies, Ben Gazzara e Patricia Clarkson. Além da poderosa narração de John Hurt. Talvez muitos considerem que parte deste grande elenco coadjuvante foi subaproveitado, com exceção de Bettany, Skarsgård e Clarkson, principalmente tendo em vista as quase três horas de filme. Mas há um equilíbrio razoável entre todos o destaque de todos, e o fato de a história não se fragmentar em várias tramas menores e paralelas dá ainda mais força e profundidade ao centro da história – a relação de Grace (Kidman) com a cidade de maneira geral.
O diretor e roteirista nos apresenta uma crítica à sociedade dos EUA, que fica um pouco explícita ao final do filme, com a música que toca juntamente com as impactantes fotos – o individualismo na sociedade estadunidense é evidentemente atacado. No entanto, este longa é muito mais uma crítica social geral do que a um país ou comunidade específico. Podemos observar claramente a visão negativa e pessimista do ser humano, e também a tentativa de desromantizar a visão do passado, de cidades pequenas e inocentes, em que a vida era melhor, sem violência ou mesmo a inocente visão de que era pura e sem maldade. Há muito mais semelhanças do que diferenças, em termos sociais, e também o forte argumento de que pouco evoluímos ou regredimos em relação ao passado. A humanidade de cada um é demonstrada através da desumanidade.
Ao final do filme, após Grace ter sido humilhada, injustiçada, escravizada e abusada de todas as formas possíveis e imagináveis pela cidade, surge um dilema moral e de consciência para a protagonista. Ela não perdoa o pai (Caan), uma das grandes revelações do filme, por agir da forma que age comandando um grupo gangster. No entanto, está aceitando todas as maldades e fraquezas daquela população, a qual ela apenas ajudou e que sabe da inocência dela. A discussão sobre o contexto e as condições que ela tem com o pai é excelente, mostrando realmente como é difícil estipular que somos todos apenas um produto do nosso meio. Mas talvez essa mudança de opinião de Grace, seja o ponto mais fraco do filme. A mudança é muito súbita, tendo em vista tudo que nos foi apresentado, mas é válida – e ela nos mostra o “rebaixamento” de Grace ao nível dos habitantes da cidade, julgando-os e exterminando-os como animais que são e supostamente merecem tal destino – uma poderosa metáfora do nome do filme, que também dá nome a cidade. Mas ao meu entender, em nenhum momento o filme defende o lado de Grace (somente alguém que não compreendeu a história pode acreditar que o diretor defenda aquele extermínio).
A presença de crianças e deficientes torna a carnificina ainda mais impactante, pois seriam supostamente mais inocentes e do que qualquer outro habitante. O envolvimento dela com Tom (Bettany) e seu aparentemente verdadeiro amor que eles sentem um pelo outro torna seu final ainda mais trágico. Sua incapacidade de manter seus princípios e honestidade com Grace quando a cidade começa a pressioná-lo, ele acaba por traí-la mais de uma vez (no caso do dinheiro, e depois no telefonema) tornam sua morte talvez a mais justificada para o espectador, ainda que ele tenha sido o único que genuinamente gostou dela e procurou ajudá-la. E em razão disso, esse seu voluntarismo verdadeiro começa a ser posto em xeque, visto apenas como uma forma de confirmar suas teorias e ter mais alguém sob sua influência intelectual.
Também percebemos que, na lógica do filme de uma visão negativa sobre o ser humano, os indivíduos evitam-se colocar em situações que possam prejudicá-los, ainda que por uma causa correta e contra algo que sabem estar totalmente errado. Há sempre uma balança que vai pesar as vantagens e riscos de todas as atitudes. E para manter esta linha de raciocínio, toda hipocrisia, formas de submissão e barbaridade pode não ser o suficiente.


Nota 99/100

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Indomável Sonhadora

Ficha Técnica: Beasts of the Southern Wild, 2012.
Gênero: Drama, Fantasia.
Direção: Benh Zeitlin.
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Gina Montana, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper.
País: Estados Unidos.
Tempo: 93 min. 
Idioma: Inglês. 

     Este filme é afortunado por ganhar (ainda que merecidamente, mas muitos com os mesmos méritos passam batidos) destaque da Academia de Cinema na premiação do Oscar e assim ganhar um impulso em sua divulgação. No entanto, no Brasil ele é um pouco prejudicado pela tradução terrível feita de seu título, subvertendo totalmente o significado original e a inteligentíssima metáfora que ele representa. 
    O filme conta com atuações surpreendentes e excelentes, com o grande destaque sendo Wallis no papel de Hushpuppy. Mas Henry, que faz seu pai Wink também fez um ótimo trabalho. Os dois protagonizam cenas fortes e emocionantes entre pai e filha, mostrando uma relação de afetividade profunda e conturbada pelos acontecimentos da vida. 
     A história se passa na Bathtub, supostamente numa ilha isolada do restante do estado da Louisiana após o furacão Katrina. Obviamente as pessoas que ali vivem são condenadas por continuarem ali, sendo constantemente arrastas de volta para a “civilização”. Mas a história poderia muito bem se passar em diversos lugares do mundo, incluindo o Brasil. Situações em que pessoas são obrigadas e forçadas a deixar suas casas, a contragosto, às vezes sendo uma decisão própria em razão das circunstâncias (nem sempre catástrofes naturais); outras tantas vezes sendo obrigadas pelo governo, que geralmente ignora as necessidades reais destas pessoas e os motivos por não desejarem abandonar o lugar. 
    O filme é claro em nos mostrar a pobreza e precariedade do lugar em que vive esta comunidade. A dureza imposta à sua população é muito bem retratada por Hushpuppy, que apesar de ter apenas seis anos, já está endurecida pela vida e pelo pai que busca prepará-la para continuar enfrentando as dificuldades quando ele partir. A temática é excelente, e a mistura que Zeitlin faz entre fantasia e realidade, muito em razão de ter como protagonista e narradora da trama a menina, encaixa perfeitamente. Entretanto, o filme mostra-se um pouco confuso em determinados momentos – o que chega a atrapalhar o andamento e a fluidez desta maravilhosa história, que em compensação é carregada de forma brilhante pelos seus atores.
No filme, a escola ensina às crianças sobre os animais, e inclui aí os seres humanos; no decorrer do filme, a forma como a comunidade vive, e é vista pela “civilização” também se encaixa nesta visão: quem são os animais, as bestas selvagens? Apenas aqueles da imaginação de Hushpuppy? Ela, seu pai e os outros habitantes de Bathtub? Os outros, que desejam levar uma suposta maneira melhor de se viver? Ou mesmo toda nossa sociedade, que não compreende o outro e tem dificuldade em se relacionar com o diferente?
 
Nota 85/100

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Biutiful

Ficha Técnica: Biutiful, 2010.
Gênero: Drama.
Direção: Alejandro González Iñárritu.
Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrela, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye, Diaryatou Daff, Taisheng Chen, Lang Sofia Lin.
País: Espanha, México.
Tempo: 148 min. 
Idioma: Espanhol, Chinês. 

        A Barcelona mostrada neste filme de Iñárritu é muito diferente do que estamos acostumados a ver nos filmes e do senso comum em geral. Basta compará-la com Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen e não será nem mesmo possível afirmar que se trata da mesma cidade. O pano de fundo da história de Uxbal (Bardem) é o “submundo” da cidade catalã, a exploração de imigrantes ilegais, corrupção e outros problemas. 
     Javier Bardem interpreta de forma brilhante o protagonista, pai de dois filhos que os sustenta agenciando (e explorando) imigrantes africanos e chineses em subempregos na cidade. Mas ele está longe de ser um grande explorador mafioso – também passa por dificuldades para criar os filhos, subornar a polícia corrupta e violenta, além de lidar com a ex-esposa problemática (Álvarez, excelente atuação), dependente química e bipolar, e um irmão que o trai. Ao descobrirmos que seu irmão estava dormindo com sua ex-esposa é talvez a maior surpresa do filme. 
      Uxbal, que também é médium, sofre uma reviravolta em sua vida ao ser diagnosticado com câncer, com poucos meses de vida. Uma abordagem interessante do diretor ao colocar uma pessoa tão próxima da morte (ao trazer mensagens daqueles que se foram) agora tendo que encarar sua própria morte. Ele se preocupa com o futuro dos filhos, mas também com a possibilidade de ser esquecido por eles após sua morte. Desde o começo fica claro que o protagonista não é um santo – explora os imigrantes de diversas formas, mas ao mesmo tempo se envolve com eles e procura lhes dar o mínimo de dignidade. O que torna a morte dos chineses e a deportação do senegalês ainda mais devastadora para ele. 
     Diferente de filmes anteriores de Iñárritu, este não possui diversas tramas paralelas que se cruzam, ainda que possamos observar tramas menores (algumas de pouca relevância para a história central) ocorrendo, buscando levar o filme além do aspecto introspectivo e individual da história de Uxbal. A denúncia da situação dos imigrantes é realmente de grande importância. Mas ao mesmo tempo, o filme não nos traz nada de inovador ou diferentes reflexões e grandes dilemas morais, ainda que seja um longa forte e impactante. Talvez algumas das histórias e personagens secundárias pudessem ser melhor desenvolvidos, em detrimento de outras de menor relevância. 
  O filme também procura demonstrar, através da fotografia e cenários, uma Barcelona escura e problemática. Demonstra a visão de mundo pessimista do diretor, mas de forma sólida. A atuação de Bardem realmente é espetacular, conseguindo carregar o filme praticamente sozinho, ainda que tenha recebido ótimas colaborações de alguns coadjuvantes, com destaque para as crianças e Álvarez. Ao final, mesmo que tenha se afeiçoado à Ige (Daff), torna a explorá-la – mas numa situação que provavelmente qualquer pai ou mãe faria o mesmo, para garantir o futuro dos filhos.

Nota 81/100

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Django Livre

Ficha Técnica: Django Unchained, 2012.
Gênero: Drama, Faroeste.
Direção: Quentin Tarantino.
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Remar, David Steen, Dana Michelle Gourrier, Zoë Bell, Quentin Tarantino, Michael Bacall.
País: Estados Unidos.
Tempo: 165 min. 
Idioma: Inglês, Alemão. 

    Tarantino é o diretor símbolo da cultura pop atual; ele se inseriu neste universo através de seus ótimos filmes do começo de carreira, na época ainda apenas do âmbito alternativo. No entanto, mesmo entrando para o mainstream hollywoodiano, o diretor conseguiu imprimir seu estilo em seus filmes, se mantendo fiel ao estilo que o consagrou, fazendo poucas ou mesmo nenhuma concessão a interesses diversos.
     Neste seu novo filme, ele novamente busca justificar a violência excessiva (uma de suas marcas) com uma causa “justa”, o socialmente aceita – como o fez em Bastardos Inglórios ou Kill Bill. O filme também trata de um tema recorrente seu – a vingança, ainda que este tenha como plano de fundo uma história de amor, algo raro na carreira do diretor.
      Outra marca sua é a qualidade que consegue extrair dos atores – sempre o melhor de cada um. Não sei até que ponto ele influencia, pois o elenco tem sido sempre bom “naturalmente”, mas é difícil vermos um grande ator com trabalhos abaixo de sua média em seus filmes, e no caso de Django, não é diferente. DiCaprio, Jackson e Waltz estão excelente. DiCaprio conseguiu fazer um ótimo almofadinha que ao mesmo tempo transmite sua crueldade apenas com o olhar; Jackson talvez esteja em seu melhor papel nos últimos 10 anos ou mais, mostrando o excelente ator que pode ser; e Waltz novamente nos brinda com uma atuação excelente, ainda que não tão brilhante quanto ao de seu anterior filme com Tarantino. Foxx está muito bem como Django, fazendo um ótimo contraste com os três companheiros mencionados acima.
     O roteiro é muito bom, nos traz excelentes diálogos (a cena da KKK é ótima) que nos fazem rir e aliviam a tensão e violência do filme na medida certa. No entanto, o filme se estende mais do que deveria – algumas cenas são demasiado longas, ainda que não nos canse, ao meu ver poderia ter sido um pouco mais enxuto. Podemos observar o quanto ele se inspira em clássicos westerns para fazer o seu próprio, com sua marca – e seria inútil ficar comparando, pois mesmo pertencendo ao mesmo gênero, são bem diferentes.
     Também podemos perceber que o diretor, agora que goza de prestígio no circuito de Hollywood, pode contar com um orçamento maior – podendo se dar ao luxo de efeitos visuais, cenários e figurinos grandiosos, demonstrando sua habilidade também em trabalhar estes aspectos do filme. Sua característica de violência e sangue espirrando na tela se acentuam ao final, num banho de sangue fortíssimo. Contudo, estas não são as cenas mais violentas – em determinados momentos eles até demonstram um humor negro (como a morte do próprio personagem de Tarantino). A cena dos cachorros e da luta dos escravos (uma certa provocação ao UFC) são muito mais chocantes e fortes.
    Ele também nos demonstra o dilema moral de um matador/caçador de recompensas ser um “herói civilizado” perante os senhores de escravos, ainda que não aborda profundamente o tema. Outro aspecto, talvez mais por atenuar a situação da Europa e principalmente dos alemães em Bastardos, temos o Dr. Schultz (Waltz) como o representante da civilidade e farol do mundo, que repudiam a escravidão. Sem mencionar o fato de que foram os próprios europeus que pilharam a África e escravizaram sua população por séculos (na verdade, não somente a África, mas a América e Ásia).
      As acusações de racismo sofrida por Tarantino são totalmente descabidas. O filme retrata o absurdo da escravidão e situações sofridas pelos negros na América. Ao mesmo passo que muitos considerem a violência excessiva, um exagero, ela talvez não represente o suficiente quão absurda foi a situação vivida por estes povos no passado que ainda afetam a todos. A trilha sonora, outra marca do diretor, é ótima, com uma variação de músicas muito interessantes. Um ótimo filme que mesmo não sendo o seu melhor, mantém a qualidade de produções do diretor e atores em seus filmes anteriores.

Nota 88/100