sábado, 13 de setembro de 2014

Círculo de Fogo

Ficha TécnicaPacific Rim, 2013.
Gênero: Ação, Ficção-Científica.
Direção: Guillermo del Toro.
Elenco: Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Diego Klattenhoff, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky, Ron Perlman, Clifton Collins Jr..
País: Estados Unidos.
Tempo: 131 min. 
Idioma: Inglês, Japonês.

     Gostaria de saber onde este filme pode ser classificado por ter superado as expectativas. Não, isso ele não fez; tampouco não as alcançou. É um filme que atente à expectativa natural que ele gera. Monstros e robôs gigantes se digladiando, os monstros alienígenas que surgem de uma fenda no Pacífico e querem destruir a Terra, enquanto que os robôs são fabricados pela humanidade (que aparentemente está unindo esforços para enfrentar a ameaça, através de diversos países), e pilotados por dois indivíduos que fazem uma conexão mental (cerebral, tanto faz) e geralmente são parentes. Uma bela homenagem aos desenhos e seriados japoneses dos anos 1980 e 1990 (Power Rangers talvez o mais recente).
            O roteiro, apesar desse pano de fundo razoável de fim de mundo, peca principalmente na tentativa de criar o romance entre Raleigh (Hunnam) e Mako (Kikuchi), que não possuem química alguma e pouca empatia perante o público. A figura de liderança do comandante Pentecost (Elba) tampouco é tão convincente. Salvo a atuação razoável de Perlman, na pele de Hannibal Chau, os demais passam despercebidos, quando muito.
                     
Mas as cenas de ação são realmente impressionantes, não tão confusas – eu não assisti ao filme no cinema – e com um roteiro superior ao de Transformers, por exemplo, torna estas cenas ainda mais interessantes. Contudo, não podemos falar em grande filme de ação ou do gênero – é um filme que cumpre quase que inteiramente a sua proposta (além do romance fracassado e desnecessário, a construção das personagens é bem pobre e de clichês).







Nota 54/100

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Os 12 Macacos

Ficha Técnica: Twelve Monkeys, 1995.
Gênero: Ação, Suspense.
Direção: Terry Gilliam.
Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, Jon Seda, Christopher Meloni, David Morse, Frank Goshin, Vernon Campbell.
País: Estados Unidos.
Tempo: 129 min. 
Idioma: Inglês.

      Filme que se tornou uma referência da ficção científica dos anos 1990, Os 12 Macacos acabou me decepcionando um pouco, tendo em vista que esperava mais do trabalho de Terry Gilliam. Mas vale a pena dedicar o tempo para assistir a este trabalho, que consegue lidar bem com a questão da viagem no tempo – algo que considero extremamente difícil, e que sempre acaba deixando muitos furos ou apelando para absurdos (mesmo dentro do universo da ficção científica).
    Ao retratar o envio de um prisioneiro ao passado para descobrir a origem do vírus que dizimou cinco bilhões de pessoas e obrigou os sobreviventes a viverem debaixo da terra, a abordagem partilha da teoria de que é impossível de mudar o passado, visto que já ocorreu. Acaba por deixar um tom fatalista ao final, que além de apresentar o desfecho de um enredo interessante (o protagonista vê seu “EU” futuro sendo assassinado), demonstra que mesmo que ele Cole (Bruce Willis) esteja voltando no tempo, o que ele faz na verdade é o presente, e quando ele retorna, nada muda.
            Contudo, o aspecto mais interessante do filme para mim não é a teoria de viagem no tempo, e sim a da sanidade mental. Ao menos para mim, começa a gerar a dúvida do que realmente é verdade – a mesma dúvida que afeta o protagonista. A todo momento eu esperava a revelação de que tudo aquilo era parte de um tratamento (talvez causado pelos próprios traumas da infância). O filme prefere não firmar posição sobre isso. Ainda que a grande maioria dos espectadores e críticos esteja convicta de que é superada a questão do que é real ou alucinação, eu continuei na dúvida mesmo com o desfecho do filme. E essa dúvida que ficou pairando no ar é muito interessante e bem colocada.
     Todo o aspecto de ter sua realidade questionada também é interessante – e nos mostra novamente como podemos produzir os loucos da nossa sociedade, simplesmente por estarem divergindo da conduta considerada normal. Obviamente não é algo trabalhado como em Um Estranho no Ninho, mas está no pano de fundo.
     As atuações no filme foram adequadas, porém sem muitos destaques. Exceção seja feita ao trabalho de Brad Pitt, no papel do interno e ativista Jeffrey Goines. Sua atuação alucinada e acelerada realmente roubam toda a cena do filme. Madeleine Stowe é esforçada, mas talvez pela previsibilidade de sua personagem (o pequeno romance entre ela e Cole é clichê e desnecessário). Conforme mencionei, o roteiro é bem amarrado, com produção e direção interessantes.

Nota 73/100

domingo, 7 de setembro de 2014

À Prova de Morte

Ficha TécnicaDeath Proof, 2007.
Gênero: Ação, Suspense.
Direção: Quentin Tarantino.
Elenco: Kurt Russell, Zoë Bell, Rosario Dawnson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Jordan Ladd, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Marcy Harriell, Eli Roth, Omar Doom, Monica Staggs, Michael Bacall.
País: Estados Unidos.
Tempo: 113 min. 
Idioma: Inglês.

      Um filme de Tarantino que não ganhou a repercussão no cinema como Bastardos Inglórios, Django Livre ou os dois volumes de Kill Bill; tampouco ganhou o reconhecimento posterior de Pulp Fiction ou Cães de Aluguel. Mas é realmente um filme “bem” Tarantino, ainda que sem algo mais profundo ou uma trama mais elaborada, seu estilo está presente.
     Podemos perceber isso através dos ótimos diálogos do filme (a compra de maconha, o fato da jovem andar armada, o diálogo entre os policiais, etc.), as cenas de ação e violência (o exagero que lhe é peculiar, principalmente no acidente de automóvel), a metalinguagem (de seus filmes e do cinema), trilha sonora poderosa, homenagens (clássicos filmes de automóveis e dublês são a bola da vez), dentre outras de suas características.
       O filme consegue divertir e nos deixar tenso em vários momentos; traz um conjunto de atuações muito boas, com destaque para Kurt Russell (Stuntman Mike), que faz seu “vilão” na medida correta; as garotas todas fazem ótimos papéis, inclusive a dublê Zoë Bell, que interpreta a si mesma. Rosario Dawnson, Vanessa Ferlito (cena fantástica da dança), Rose McGowan e Tracie Thoms (conseguiu divertir naturalmente) foram talvez os destaques, mas todas atuam bem.
            Ao buscar imitar um filme B, realmente alcança-se a perfeição através das imperfeiçoes. Os defeitos propositais nos deixam pensando que realmente é uma produção B, mas de excelente qualidade. Não há uma grande história por trás, ainda que as personagens femininas sejam bem trabalhadas. Já Mike (Russell) não oferece muitas explicações, ainda que várias hipóteses por tentar assassinar as garotas com seu carro à prova de morte. Vale muito ser visto, realmente podendo divertir se estivermos preparados para o estilo “Tarantino”. Há o clássico twist na trama que parecia seguir um determinado rumo (principalmente se você não leu a sinopse), e um final ainda mais eletrizante e inesperado.







Nota 78/100

sábado, 6 de setembro de 2014

Blue Jasmine

Ficha Técnica: Blue Jasmine, 2013.
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Woody Allen.
Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Alec Balwdin, Michael Stuhlbarg, Max Casella, Alden Ehrenreich, Louis C.K., Peter Sarsgaard, Joy Carlin, Daniel Jenks.
País: Estados Unidos.
Tempo: 98 min. 
Idioma: Inglês.

    Considerado um clássico, ainda não pude assistir ao filme Um Bonde Chamado Desejo, que tanto foi comentado após muitos assistirem ao último longa de Woody Allen. Desta forma, minha análise será sem incluir esta perspectiva, que para alguns foi motivo de forte crítica, enquanto que outros consideraram um aspecto positivo do filme.
       Sou um fã de Woody Allen, acredito que ela seja um dos maiores cineastas que temos quando se trata do gênero da comédia. Não somente foge ao estilo de besteirol americano, que apesar de legítimo e agradar a boa parte do público, para mim beira ao ridículo muitas vezes. É claro que sou capaz de rir e de me divertir com muitos filmes que não são tão cultuados, mas em regra, não me agradam (Se Beber, não Case! foi um grande sucesso, e eu o considerei medíocre). A comédia talvez seja um dos gêneros mais difíceis para se fazer um bom filme, mas geralmente Woody Allen obtém sucesso.
     Neste longa, ele se recupera do último fracasso (Para Roma,com Amor), que foi realmente uma decepção, mas traz um tom muito mais dramático, superando o aspecto cômico do filme. É claro que ainda podemos perceber a influência de seu estilo de comédia-romântica, mas ele o utiliza bem para compor a dramaticidade – como a histeria de sua personagem principal, a antagonista Jasmine (Blanchett). Eu tendo a apreciar mais os filmes de Allen quando trazem este aspecto dramático, como o caso de Vicky, Cristina Barcelona. Apesar de não atingir o mesmo nível desse (o filme que se passa na Espanha é melhor e menos dramático), Blue Jasmine revela-se um bom filme.
    Apesar de não nos apresentar todo o panorama econômico da crise, a questão das diferenças de classes tão evidente no filme (Jasmine e sua irmã, Ginger), o filme acerta em carregar a questão dramática da personagem, criando uma profundidade sobre alguém tão superficial e fútil. O estio do diretor/roteirista não comportaria este aspecto socioeconômico, e talvez por isso eu nem esperasse muito do filme neste sentido. Mas foi muito bem conduzido ao analisar o caso de Jasmine, que antes rica e vivendo para se afirmar como tal perante à sociedade, vai a falência, perde tudo e vem morar com a irmã, que ela tanto desprezou enquanto desfrutava do bom e do melhor.
    Cate Blanchett realmente é brilhante no papel – o filme depende inteiramente dela. Se fracassasse, arruinaria o filme junto. Mas ela faz exatamente o oposto, elevando sua qualidade ainda mais. Hawkins, na pele de Ginger, somente não ganha mais destaque em razão da excelente atuação de Blanchett. Ainda assim, consegue se destacar em variados momentos. O restante do elenco também faz ótimo papel, com destaque para o irritadiço Cannavale, Baldwin (bem como sempre), Stuhlbarg, Louis C.K. (grata surpresa), dentre outros. 
    O título também é muito bom, em associando a flor jasmim com o nome da personagem, utilizando o duplo sentido da palavra azul em inglês. Ótima escolha não ter optado por uma tradução no português. Um trabalho que apesar de não figurar entre as obras primas de Woody Allen, recupera sua imagem desgastada em seu último trabalho e produz novamente algo de significativo para o cinemaA ausência de um final feliz, marcante nas obras de Allen, repete-se aqui – o que pode gerar um sentimento de dúvidas, visto que apesar de termos curiosidade para saber o que acontecerá com Jasmine, e apesar de gozar de um carisma perante o público, poucos deveriam estar torcendo para sua felicidade. Mas neste caso, não há diferenciação de classes (ou qualquer outra): o final feliz esperado por todos tampouco se aplica a sua irmã Ginger.
Nota 80/100

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Capitão Phillips

Ficha Técnica: Captain Phillips, 2013.
Gênero: Biografia, Drama, Suspense.
Direção: Paul Greengrass.
Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Michael Chernus, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Catherine Keener, David Warshofsky, Corey Johnson, Chris Mulkey.
País: Estados Unidos.
Tempo: 134 min. 
Idioma: Inglês, Somali.

     O roteiro de Capitão Phillips é uma clássica epopeia individual que tanto agrada ao público estadunidense e a Hollywood. O capitão representa o bom cidadão, trabalhador, correto e inteligente que se encontra em meio a uma situação desesperadora e perigosa, da qual ele não é culpado.
   O longa apresenta uma ideia geral da vida pregressa dos protagonistas, buscando uma contextualização mínima e tentando evitar, mas apenas com relativo sucesso, uma divisão maniqueísta dos dois lados. O filme cai de qualidade ao longo do tempo, com um final exageradamente patriótico e ufanista; a impressão que fica é que ele vai perdendo o pouco senso crítico que continha. A disparidade de forças entre os EUA e os piratas somalianos é absurda, e pensar em como eles são atualmente colocados como uma ameaça à economia mundial beira o ridículo.
        A atuação é realmente muito boa – Tom Hanks faz seu clássico papel carismático e cativante, de um homem tranquilo; o grande destaque vai para Barkhad Abdi no papel do líder somaliano, Muse. Ele consegue transmitir tanta coisa apenas com o olhar, além de seus momentos de explosão e ironia muito bem representados. A direção é interessante, e realmente consegue nos prender e trazer os requintes de tensão e dramaticidade, mesmo todos sabendo que o Capitão sobreviveria. As cenas de ação são muito bem executadas, e a característica física dos piratas é realmente um ponto forte e marcante do longa.
      Um filme que apenas resvala em aspectos críticos, que com uma visão mais aprofundada e conhecendo um pouco mais o trabalho do diretor, talvez até queira expor alguns aspectos desta relação dos EUA com a África e a parcela de culpa deles, mas apenas com muito esforço e força de vontade por parte do espectador.





Nota 74/100

domingo, 31 de agosto de 2014

Os Falsários

Ficha Técnica: Die Fälscher2007.
Gênero: Drama, Guerra.
Direção: Stefan Ruzowitzky.
Elenco: Karl Markovics, August Diehl, Devid Striesow, Martin Brambach, August Zirner, Veit Stübner, Sebastian Urzendowsky, Andreas Schmidt, Tilo Prückner, Lenn Kurdjawizki.
País: Áustria, Alemanha.
Tempo: 98 min. 
Idioma: Alemão, Russo, Inglês, Hebraico.

    A temática da Segunda Guerra e do Holocausto aparecem novamente no cinema, mas desta vez não em Hollywood, e sim na Alemanha. Mas claro que agradou à academia estadunidense, que lhe atribuíram o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ainda que seja um bom filme. Podemos dizer que a Academia Estadunidense de Cinema, talvez por conta de sua composição, tem uma certa queda por estes filmes, principalmente se falam do holocausto judeu.
            Há certa semelhança com o clássico de Spielberg, A Lista de Schindler, visto que apesar de se tratar de um campo de concentração, parte da história gira em torno daqueles que mesmo sendo contrários ao nazismo, acabaram por trabalhar em seu favor. Mas diferentemente de Schindler, neste caso estamos falando dos próprios judeus nos campos de concentração.
     O filme nos traz a história do artista que ganha a vida através da falsificação de dinheiro, o judeu Sorowitsch “Solly”, interpretado muito bem por Karl Markovics. Ao ser pego pela SS, é enviado a um campo de concentração. Seus dotes artísticos lhe garantem sua sobrevivência e inclusive um tratamento mais diferenciado, pois pintava retratos dos oficiais nazistas. Contudo, com a derrota alemã se aproximando, Solly é enviado para Sachsenhausen, um novo campo de concentração, onde irá coordenar uma equipe de judeus na falsificação de passaportes e de notas de libra e dólar para a Alemanha Nazista.
            Seu trabalho é comandado por Herzog, o mesmo oficial que o prendeu no passado, e por conta disso, havia sido promovido. Ele trata Solly e os demais especialistas judeus de forma distinta de como os demais prisioneiros (sobre o comando de outros oficiais) são tratados. Possuem aposentos e comida melhores, descanso e até mesmo lazer, além de não serem torturados fisicamente. O trabalho deles passa a ser cada vez mais importante para o Regime Nazista, visto que a Alemanha estava à beira da falência, perdendo a guerra, e ainda tinha o plano de quebrar a economia britânica e estadunidense através da falsificação, enchendo os mercados financeiros destes países de moedas falsas.
           Após o sucesso com a libra, a SS solicita a falsificação do dólar. No entanto, neste momento passam a surgir as divergências e questões morais e éticas entre os prisioneiros. Eles sabem que o trabalho dele está apoiando o regime alemão, que destrói o seu povo, e principalmente um deles, Burger (excelente atuação de August Diehl), começa a sabotar a fabricação dos dólares. Além disso, mesmo dentro do campo de concentração, eles eram os únicos judeus a serem tratados de forma diferenciada. Isto passa a gerar o dilema ético entre os prisioneiros e a aumentar as tensões entre eles. Ao mesmo tempo, passam a ser pressionados por Herzog (os demais guardas não compartilhavam da filosofia do comandante) e sofrem a ameaça final de serem executados. Muitos queriam entregar Burger aos nazistas, mas Solly os proíbe e falsifica sozinho o dólar, salvando a vida dos companheiros, a contragosto do próprio Burger, que diferentemente de Solly, preferia morrer.
            A tortura psicológica está presente o tempo inteiro – apoiar o nazismo, fingir que nada acontece enquanto ao lado seu povo é executado diariamente, não saber se aquela boa-vontade dos oficiais pode mudar de uma hora para a outra, etc. Mas somente Burger quer lutar e se rebelar. Solly gostava da vida boa, e quer apenas sobreviver, enquanto os demais ou pensam igual, ou apenas têm medo. A grande questão colocada por Burger, que o nazismo somente funcionava porque os prisioneiros cooperavam, tem sim seu fundo de verdade – da mesma forma que na escravidão, se os negros e índios se recusassem a trabalhar, seriam mortos, mas não produziriam nada. No entanto, estes sistemas funcionaram enquanto possível, mesmo com momentos de rebeliões e revoltas. É realmente justo exigir o heroísmo de um indivíduo? É correto condená-lo por apenas querer sobreviver? Eles não estavam assassinando ninguém, nem mesmo a mando de superiores (diferentemente de Herzog, que como muitos oficiais nazistas, afirmaram somente terem cumprido ordens). Apenas fabricavam o que lhe era solicitado.
     Esta foi a maior operação de falsificação da história, conhecida como “Operação Bernard”. Talvez o ponto mais fraco do filme seja tentar ser muito didático. Ao colocar a mesa de ping pong para seus prisioneiros, Herzog explica exatamente a razão (motivação, etc.). Melhor seria deixar a dúvida no ar sobre suas intenções, como no caso do banho (a suspeita de serem assassinados por gás era forte) ou do suicídio de um colega no final (talvez por não ter suportado ver a situação dos outros prisioneiros, quando tomaram o controle do campo). O excessivo didatismo realmente atrapalha um pouco, bem como a já quase exaurida temática do holocausto judeu – no entanto, com relação a isso, há sim inovações. O lado dos judeus que, obrigados ou não, cooperaram com o nazismo; o terror psicológico, de uma forma mais refinada do que geralmente se mostra. E a própria questão da falsificação, algo novo ao menos para mim.

Nota 83/100

sábado, 30 de agosto de 2014

O Lobo de Wall Street

Ficha Técnica: The Wolf of Wall Street2013.
Gênero: Biografia, Comédia, Crime.
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robie, Rob Reiner, Kyle Chandler, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Katarina Cas, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Matthew McConaughey, Brian Sacca, Henry Zebrowski, Jake Hoffman, Shea Whigham.
País: Estados Unidos.
Tempo: 180 min. 
Idioma: Inglês, Francês.

   Este novo filme do gênio Martin Scorsese nos traz um estilo de vida carregado de excessos, e o objetivo é mostrar, de forma excessiva, todos eles no cinema. Certamente, é um longa que constrange a muitos, mesmo aos mais “liberais”. As cenas de sexo e drogas, além de um humor negro em determinados momentos, são fortes. Mas o único excesso que me incomodou foi a duração do filme, demasiado longo e repetitivo, ainda que tenha sido baseado em dois livros que somados possuem mais de mil páginas.
      Este talvez seja o maior defeito do filme, pois em determinado momento o torna muito cansativo. Mas não deixa de ser realmente engraçado, ao menos para aqueles que não o consideram amoral. Houve momentos em que metade do cinema gargalhava, enquanto a outra metade se revoltava por dentro. A direção e a trilha sonora permitem que desfrutemos do aspecto cômico do filme, ainda que também seja feito para chocar a plateia.
            Entretanto, talvez ele acabe apenas por resvalar em qualquer crítica ao estilo de vida de Wall Street, com seus excessos e levando diversas vezes o mundo a crises econômicas – ainda que não se importem com isso. Para os mais críticos, podem perceber que este estilo de vida, através destes meios utilizados para alcançá-lo, talvez não devesse ser tão endeusado. Mas acredito que apenas se o espectador já apresentasse uma tendência em fazer esta análise, é que poderia ser percebido. Uma escolha legítima do diretor e do roteirista, mas uma posição mais contundente neste sentido me agradaria mais. E deixa claro também que este “Lobo” de Wall Street não é, na realidade, nem mesmo realmente parte do sério problema que representam as bolsas de valores e a especulação na economia capitalista internacional.
    As atuações são realmente muito boas. DiCaprio realmente está em seu auge, conseguindo agora circular entre estilos de filmes tão diferentes – dramas, comédias, romances – e entre personagens tão distintos. Hill realmente completa muito bem a dupla, colocando-se como uma das melhores revelações de Hollywood recentemente. Robie faz bem seu papel, Dujardin está excelente e roubando as cenas em que aparece; e cabe destacar também a ponta de McConaughey, que apesar de pequena, foi marcante.
            Apesar de longo, realmente um filme que vale muito ser visto. Possivelmente, se estivesse sido realizado por outro diretor, a crítica não seria tão forte. Mas de Scorsese devemos exigir sempre o melhor – e mesmo quando não obtemos, ainda assim podemos encontrar um bom filme.






Nota 85/100

domingo, 24 de agosto de 2014

Gênio Indomável

Ficha Técnica: Good Will Hunting, 1997.
Gênero: Drama.
Direção: Gus Van Sant.
Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgad, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser, John Mighton.
País: Estados Unidos.
Tempo: 126 min. 
Idioma: Inglês.

    Gênio Indomável é um dos clássicos dos anos 1990. Filme que colocou Matt Damon e Ben Affleck em Hollywood, além de render aos dois um Oscar por melhor roteiro original. Realmente, é um filme com uma história tocante e comovente, ainda que não tenha muita originalidade e continue com seu estilo sendo repetido até hoje. O jovem brilhante, porém rebelde, de infância difícil e tudo mais. É uma história comum, talvez não muito no mundo da matemática, mas temos também no esporte, música, etc. Mas é válido destacar as grandes atuações, a ótima direção e a excelente mensagem que transmite.
      A começar pela produção e direção, o filme consegue transmitir sua carga dramática e envolver o espectador de forma adequada, sem exageros, além de contar com ótimas cenas de humor para alternar com o drama. A trilha sonora é muito boa, além de uma ótima direção. As tomadas de câmera são excelentes, principalmente durante os encontros entre Will Hunting (Damon) e Sean (Williams).
           A atuação de Damon é realmente muito impressionante, dado que estava iniciando sua carreira. Ainda que não tenha sido nada de excepcional, realmente conseguiu fazer as diversas cenas cômicas e dramáticas de forma consistente. Affleck, que se revelou um melhor diretor (Argo) e ator, teve uma atuação adequada, bem como Skarsgard, que se encaixaou bem no papel. Minnie Driver, na pele da namorada Skylar, também faz um ótimo trabalho, conseguindo atuar nas diversas situações. Ela seria o grande destaque dentre os coadjuvantes, se não fosse o excelente trabalho de Robin Williams, no papel do psicanalista Sean. Realmente, uma pena que o falecimento do ator, que tinha um imenso potencial para filmes como este, e que ao meu ver são muito superiores às comédias clássicas. Todos os papeis dele em que é necessária uma pitada (ou mesmo muito) humor, mas sempre aliado a um fundo dramático, foi onde realizou seus melhores trabalhos.
        Com relação à mensagem, ao meu ver é o aspecto mais forte do filme. Não o aspecto do gênio (que é tão improvável que beira à insignificância em termos de uma identificação do espectador), e tampouco a questão da superação. O interessante realmente foi o aspecto do estilo de vida que todos querem: há um que está posto para todos nós (estudar, ganhar dinheiro, reconhecimento, etc.), e sem ele, não saberíamos o que seguir. Também temos o que valorizar: o conhecimento e a inteligência não são obtidos e aprimorados apenas através de livros e estudos – as experiência que temos, estas sim, refletem inclusive em como utilizaremos o que estudamos e aprendemos. A escolha e valor dos amigos e demais pessoas com as quais nos relacionamos também é algo considerado, além do próprio autoconhecimento, algo demonstrado pelas sessões de psicanálise.
       Um filme interessante, que tornou-se um clássico, talvez não pelos mesmos motivos pelos quais podemos considerar um ótimo filme, mas obrigatório para todos que gostam de cinema e apreciam seu aspecto artístico e de entretenimento.


Nota 93/100

segunda-feira, 21 de abril de 2014

300: A Ascensão do Império

Ficha Técnica300: Rise of an Empire, 2014.
Gênero: Ação, Drama, Fantasia.
Direção: Noam Murro.
Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Callan Mulvey, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Hans Matheson, David Wenham, Jack O'Connell, Igal Naor, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Ben Turner.
País: Estados Unidos.
Tempo: 102 min. 
Idioma: Inglês.

  Esta nova produção do filme 300 acaba por ter início antes da Batalha das Termópilas, retratada no primeiro filme, passar por ela e termina após a famosa batalha, nas Guerras Médicas. Zack Snyder, que dirigiu o primeiro, assina agora apenas como roteirista e produtor, deixando claro que a cadeira de diretor é mais adequada para ele do que os papéis assumidos aqui (não que O Homem de Aço seja razoável – pelo contrário, mas temos Watchmen para equilibrar um pouco). O novato Noam Murro imita o estilo do primeiro filme com razoável semelhança, mas sem o mesmo sucesso.
   O viés mercadológico e de busca pelo lucro no lançamento deste filme está mais evidente do que geralmente Hollywood demonstra. Os efeitos especiais, apesar de um certo exagero no uso do slow motion, me agradaram. Não assisti em 3D, mas a impressão é que deve ser ainda melhor. Para os muitos críticos, a proposta visual do filme era essa – e ele a alcança. Ótimas sequências de ação, com efeitos digitais excelentes. O sangue não parece real? Qual o problema? Este é o estilo do filme, assim como no primeiro. À sua maneira, saiu-se bem o diretor neste aspecto.
     Já a trama e o roteiro são terríveis. A história, além de superficial, com diálogos péssimos, discursos de auto-ajuda como preleções de batalhas, a insistência no “espírito grego” lembrado por Temístocles (Stapleton) o tempo inteiro beira um nacionalismo fanático, perigoso e que não existia desta forma na Grécia Antiga. Os guerreiros atenienses, todos eles, são tão bons quanto os espartanos (um grande furo no roteiro, visto como Esparta foi retratada no primeiro filme). Artemísia (Green) revela-se a personagem mais interessante, talvez por ser a menos superficial. E ainda que o destino da guerra tenha sido decidido basicamente por suas ações e pelas de outra mulher, a rainha Gorgo (Headey), a cena de sexo revela-se muito machista em alguns aspectos e beira o ridículo em tantos outros. Xerxes (Santoro) perde espaço ao longo da trama, apesar da tentativa de explicar o motivo de adquirir tal forma e natureza.
   As atuações são sofríveis – Stapleton carece de tudo que um líder e guerreiro precisa, principalmente carisma. Green, em sua atuação mais explosiva, nos traz um pouco mais de qualidade para o elenco, mas tampouco consegue suplantar os inúmeros defeitos do filme. Um filme que cumpre em partes a proposta do entretenimento (ou nem isso), e ao meu ver, plenamente a proposta estética – o que acaba por torná-lo muito pobre. A estética, produção, efeitos e direção não o complementam, como aconteceu com Gravidade, e sim o deixam ainda mais pobre.

Nota 51/100 

domingo, 20 de abril de 2014

Elysium

Ficha Técnica: Elysium, 2013.
Gênero: Ficção Científica, Ação, Drama.
Direção: Neill Blomkamp.
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, Wagner Moura, Diego Luna, William Fichtner, Emma Tremblay, Josh Blacker, Faran Tahir.
País: Estados Unidos.
Tempo: 109 min.
Idioma: Inglês.

    O novo filme do diretor sul-africano Neill Blomkamp segue a mesma linha de sua estréia (Distrito 9), mas não com a mesma qualidade. Enquanto naquele ele nos traz uma metáfora do apartheid através da ficção-científica, aqui a simbologia é sobre a exclusão e a desigualdade sociais.
    No entanto, mais do que no primeiro, o roteiro se perde no decorrer da história, com as cenas de ação tomando conta de tudo, ofuscando o bom início da trama. Esse viés hollywoodiano do diretor é importante, pois tem a capacidade de inseri-lo para um público muito maior, dada a visibilidade que seus filmes recebem. Contudo, ele carrega a mão ainda mais neste segundo filme exatamente neste aspecto, que é o calcanhar de Aquiles de seus filmes.
     Ao mostrar um futuro apocalíptico da Terra, em que uma minoria rica abandonou o planeta e vive com todos os benefícios que podem ser oferecidos pelo desenvolvimento tecnológico da humanidade (ainda que sob um regime com características nazi-fascistas, outra crítica importante), uma vasta maioria foi deixada para trás, vivendo sob condições inaceitáveis – e o mais interessante no filme é que boa parcela da população já vive sob estas condições, tornando a metáfora real e evidente. Entretanto, este cunho social é perdido com a segunda parte do filme – quanto o protagonista tenta alcançar Elysium (o satélite em que os ricos se isolaram), a crítica social desaparece, restando apenas ótimas cenas de ação, mas muitas sem sentido algum.
     Os atores estão muito bem no filme, revelando-se escolhas acertadas. Matt Damon como personagem principal – Max – está melhor na primeira metade, mais carismático. Muito em razão da mudança de roteiro do que de sua habilidade. Wagner Moura realmente rouba a cena em todo momento que aparece, como o hacker-coyote Spider, carregando contradições que o tornam o personagem mais interessante do filme. Jodie Foster e Alice Braga estão bem, mas com menos destaque que os demais. Luna e Fichtner fazem ótimas pontas, enquanto que Sharlto Copley, o mercenário que trabalha na Terra para Delacourt (Foster) está positivamente irreconhecível. 
     Um filme que, da mesma forma que a sequência Jogos Vorazes, apesar de trazer um potencial excelente, não somente de crítica político-social, mas também de suspense, drama e outros aspectos importantes para o cinema, acaba por revelar-se apenas como um bom entretenimento. O que para muitos pode ser algo ruim, e para tantos outros o que realmente buscam no cinema.


Nota 75/100