segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Capitão Phillips

Ficha Técnica: Captain Phillips, 2013.
Gênero: Biografia, Drama, Suspense.
Direção: Paul Greengrass.
Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Michael Chernus, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Catherine Keener, David Warshofsky, Corey Johnson, Chris Mulkey.
País: Estados Unidos.
Tempo: 134 min. 
Idioma: Inglês, Somali.

     O roteiro de Capitão Phillips é uma clássica epopeia individual que tanto agrada ao público estadunidense e a Hollywood. O capitão representa o bom cidadão, trabalhador, correto e inteligente que se encontra em meio a uma situação desesperadora e perigosa, da qual ele não é culpado.
   O longa apresenta uma ideia geral da vida pregressa dos protagonistas, buscando uma contextualização mínima e tentando evitar, mas apenas com relativo sucesso, uma divisão maniqueísta dos dois lados. O filme cai de qualidade ao longo do tempo, com um final exageradamente patriótico e ufanista; a impressão que fica é que ele vai perdendo o pouco senso crítico que continha. A disparidade de forças entre os EUA e os piratas somalianos é absurda, e pensar em como eles são atualmente colocados como uma ameaça à economia mundial beira o ridículo.
        A atuação é realmente muito boa – Tom Hanks faz seu clássico papel carismático e cativante, de um homem tranquilo; o grande destaque vai para Barkhad Abdi no papel do líder somaliano, Muse. Ele consegue transmitir tanta coisa apenas com o olhar, além de seus momentos de explosão e ironia muito bem representados. A direção é interessante, e realmente consegue nos prender e trazer os requintes de tensão e dramaticidade, mesmo todos sabendo que o Capitão sobreviveria. As cenas de ação são muito bem executadas, e a característica física dos piratas é realmente um ponto forte e marcante do longa.
      Um filme que apenas resvala em aspectos críticos, que com uma visão mais aprofundada e conhecendo um pouco mais o trabalho do diretor, talvez até queira expor alguns aspectos desta relação dos EUA com a África e a parcela de culpa deles, mas apenas com muito esforço e força de vontade por parte do espectador.





Nota 74/100

domingo, 31 de agosto de 2014

Os Falsários

Ficha Técnica: Die Fälscher2007.
Gênero: Drama, Guerra.
Direção: Stefan Ruzowitzky.
Elenco: Karl Markovics, August Diehl, Devid Striesow, Martin Brambach, August Zirner, Veit Stübner, Sebastian Urzendowsky, Andreas Schmidt, Tilo Prückner, Lenn Kurdjawizki.
País: Áustria, Alemanha.
Tempo: 98 min. 
Idioma: Alemão, Russo, Inglês, Hebraico.

    A temática da Segunda Guerra e do Holocausto aparecem novamente no cinema, mas desta vez não em Hollywood, e sim na Alemanha. Mas claro que agradou à academia estadunidense, que lhe atribuíram o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ainda que seja um bom filme. Podemos dizer que a Academia Estadunidense de Cinema, talvez por conta de sua composição, tem uma certa queda por estes filmes, principalmente se falam do holocausto judeu.
            Há certa semelhança com o clássico de Spielberg, A Lista de Schindler, visto que apesar de se tratar de um campo de concentração, parte da história gira em torno daqueles que mesmo sendo contrários ao nazismo, acabaram por trabalhar em seu favor. Mas diferentemente de Schindler, neste caso estamos falando dos próprios judeus nos campos de concentração.
     O filme nos traz a história do artista que ganha a vida através da falsificação de dinheiro, o judeu Sorowitsch “Solly”, interpretado muito bem por Karl Markovics. Ao ser pego pela SS, é enviado a um campo de concentração. Seus dotes artísticos lhe garantem sua sobrevivência e inclusive um tratamento mais diferenciado, pois pintava retratos dos oficiais nazistas. Contudo, com a derrota alemã se aproximando, Solly é enviado para Sachsenhausen, um novo campo de concentração, onde irá coordenar uma equipe de judeus na falsificação de passaportes e de notas de libra e dólar para a Alemanha Nazista.
            Seu trabalho é comandado por Herzog, o mesmo oficial que o prendeu no passado, e por conta disso, havia sido promovido. Ele trata Solly e os demais especialistas judeus de forma distinta de como os demais prisioneiros (sobre o comando de outros oficiais) são tratados. Possuem aposentos e comida melhores, descanso e até mesmo lazer, além de não serem torturados fisicamente. O trabalho deles passa a ser cada vez mais importante para o Regime Nazista, visto que a Alemanha estava à beira da falência, perdendo a guerra, e ainda tinha o plano de quebrar a economia britânica e estadunidense através da falsificação, enchendo os mercados financeiros destes países de moedas falsas.
           Após o sucesso com a libra, a SS solicita a falsificação do dólar. No entanto, neste momento passam a surgir as divergências e questões morais e éticas entre os prisioneiros. Eles sabem que o trabalho dele está apoiando o regime alemão, que destrói o seu povo, e principalmente um deles, Burger (excelente atuação de August Diehl), começa a sabotar a fabricação dos dólares. Além disso, mesmo dentro do campo de concentração, eles eram os únicos judeus a serem tratados de forma diferenciada. Isto passa a gerar o dilema ético entre os prisioneiros e a aumentar as tensões entre eles. Ao mesmo tempo, passam a ser pressionados por Herzog (os demais guardas não compartilhavam da filosofia do comandante) e sofrem a ameaça final de serem executados. Muitos queriam entregar Burger aos nazistas, mas Solly os proíbe e falsifica sozinho o dólar, salvando a vida dos companheiros, a contragosto do próprio Burger, que diferentemente de Solly, preferia morrer.
            A tortura psicológica está presente o tempo inteiro – apoiar o nazismo, fingir que nada acontece enquanto ao lado seu povo é executado diariamente, não saber se aquela boa-vontade dos oficiais pode mudar de uma hora para a outra, etc. Mas somente Burger quer lutar e se rebelar. Solly gostava da vida boa, e quer apenas sobreviver, enquanto os demais ou pensam igual, ou apenas têm medo. A grande questão colocada por Burger, que o nazismo somente funcionava porque os prisioneiros cooperavam, tem sim seu fundo de verdade – da mesma forma que na escravidão, se os negros e índios se recusassem a trabalhar, seriam mortos, mas não produziriam nada. No entanto, estes sistemas funcionaram enquanto possível, mesmo com momentos de rebeliões e revoltas. É realmente justo exigir o heroísmo de um indivíduo? É correto condená-lo por apenas querer sobreviver? Eles não estavam assassinando ninguém, nem mesmo a mando de superiores (diferentemente de Herzog, que como muitos oficiais nazistas, afirmaram somente terem cumprido ordens). Apenas fabricavam o que lhe era solicitado.
     Esta foi a maior operação de falsificação da história, conhecida como “Operação Bernard”. Talvez o ponto mais fraco do filme seja tentar ser muito didático. Ao colocar a mesa de ping pong para seus prisioneiros, Herzog explica exatamente a razão (motivação, etc.). Melhor seria deixar a dúvida no ar sobre suas intenções, como no caso do banho (a suspeita de serem assassinados por gás era forte) ou do suicídio de um colega no final (talvez por não ter suportado ver a situação dos outros prisioneiros, quando tomaram o controle do campo). O excessivo didatismo realmente atrapalha um pouco, bem como a já quase exaurida temática do holocausto judeu – no entanto, com relação a isso, há sim inovações. O lado dos judeus que, obrigados ou não, cooperaram com o nazismo; o terror psicológico, de uma forma mais refinada do que geralmente se mostra. E a própria questão da falsificação, algo novo ao menos para mim.

Nota 83/100

sábado, 30 de agosto de 2014

O Lobo de Wall Street

Ficha Técnica: The Wolf of Wall Street2013.
Gênero: Biografia, Comédia, Crime.
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robie, Rob Reiner, Kyle Chandler, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Katarina Cas, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Matthew McConaughey, Brian Sacca, Henry Zebrowski, Jake Hoffman, Shea Whigham.
País: Estados Unidos.
Tempo: 180 min. 
Idioma: Inglês, Francês.

   Este novo filme do gênio Martin Scorsese nos traz um estilo de vida carregado de excessos, e o objetivo é mostrar, de forma excessiva, todos eles no cinema. Certamente, é um longa que constrange a muitos, mesmo aos mais “liberais”. As cenas de sexo e drogas, além de um humor negro em determinados momentos, são fortes. Mas o único excesso que me incomodou foi a duração do filme, demasiado longo e repetitivo, ainda que tenha sido baseado em dois livros que somados possuem mais de mil páginas.
      Este talvez seja o maior defeito do filme, pois em determinado momento o torna muito cansativo. Mas não deixa de ser realmente engraçado, ao menos para aqueles que não o consideram amoral. Houve momentos em que metade do cinema gargalhava, enquanto a outra metade se revoltava por dentro. A direção e a trilha sonora permitem que desfrutemos do aspecto cômico do filme, ainda que também seja feito para chocar a plateia.
            Entretanto, talvez ele acabe apenas por resvalar em qualquer crítica ao estilo de vida de Wall Street, com seus excessos e levando diversas vezes o mundo a crises econômicas – ainda que não se importem com isso. Para os mais críticos, podem perceber que este estilo de vida, através destes meios utilizados para alcançá-lo, talvez não devesse ser tão endeusado. Mas acredito que apenas se o espectador já apresentasse uma tendência em fazer esta análise, é que poderia ser percebido. Uma escolha legítima do diretor e do roteirista, mas uma posição mais contundente neste sentido me agradaria mais. E deixa claro também que este “Lobo” de Wall Street não é, na realidade, nem mesmo realmente parte do sério problema que representam as bolsas de valores e a especulação na economia capitalista internacional.
    As atuações são realmente muito boas. DiCaprio realmente está em seu auge, conseguindo agora circular entre estilos de filmes tão diferentes – dramas, comédias, romances – e entre personagens tão distintos. Hill realmente completa muito bem a dupla, colocando-se como uma das melhores revelações de Hollywood recentemente. Robie faz bem seu papel, Dujardin está excelente e roubando as cenas em que aparece; e cabe destacar também a ponta de McConaughey, que apesar de pequena, foi marcante.
            Apesar de longo, realmente um filme que vale muito ser visto. Possivelmente, se estivesse sido realizado por outro diretor, a crítica não seria tão forte. Mas de Scorsese devemos exigir sempre o melhor – e mesmo quando não obtemos, ainda assim podemos encontrar um bom filme.






Nota 85/100

domingo, 24 de agosto de 2014

Gênio Indomável

Ficha Técnica: Good Will Hunting, 1997.
Gênero: Drama.
Direção: Gus Van Sant.
Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgad, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser, John Mighton.
País: Estados Unidos.
Tempo: 126 min. 
Idioma: Inglês.

    Gênio Indomável é um dos clássicos dos anos 1990. Filme que colocou Matt Damon e Ben Affleck em Hollywood, além de render aos dois um Oscar por melhor roteiro original. Realmente, é um filme com uma história tocante e comovente, ainda que não tenha muita originalidade e continue com seu estilo sendo repetido até hoje. O jovem brilhante, porém rebelde, de infância difícil e tudo mais. É uma história comum, talvez não muito no mundo da matemática, mas temos também no esporte, música, etc. Mas é válido destacar as grandes atuações, a ótima direção e a excelente mensagem que transmite.
      A começar pela produção e direção, o filme consegue transmitir sua carga dramática e envolver o espectador de forma adequada, sem exageros, além de contar com ótimas cenas de humor para alternar com o drama. A trilha sonora é muito boa, além de uma ótima direção. As tomadas de câmera são excelentes, principalmente durante os encontros entre Will Hunting (Damon) e Sean (Williams).
           A atuação de Damon é realmente muito impressionante, dado que estava iniciando sua carreira. Ainda que não tenha sido nada de excepcional, realmente conseguiu fazer as diversas cenas cômicas e dramáticas de forma consistente. Affleck, que se revelou um melhor diretor (Argo) e ator, teve uma atuação adequada, bem como Skarsgard, que se encaixaou bem no papel. Minnie Driver, na pele da namorada Skylar, também faz um ótimo trabalho, conseguindo atuar nas diversas situações. Ela seria o grande destaque dentre os coadjuvantes, se não fosse o excelente trabalho de Robin Williams, no papel do psicanalista Sean. Realmente, uma pena que o falecimento do ator, que tinha um imenso potencial para filmes como este, e que ao meu ver são muito superiores às comédias clássicas. Todos os papeis dele em que é necessária uma pitada (ou mesmo muito) humor, mas sempre aliado a um fundo dramático, foi onde realizou seus melhores trabalhos.
        Com relação à mensagem, ao meu ver é o aspecto mais forte do filme. Não o aspecto do gênio (que é tão improvável que beira à insignificância em termos de uma identificação do espectador), e tampouco a questão da superação. O interessante realmente foi o aspecto do estilo de vida que todos querem: há um que está posto para todos nós (estudar, ganhar dinheiro, reconhecimento, etc.), e sem ele, não saberíamos o que seguir. Também temos o que valorizar: o conhecimento e a inteligência não são obtidos e aprimorados apenas através de livros e estudos – as experiência que temos, estas sim, refletem inclusive em como utilizaremos o que estudamos e aprendemos. A escolha e valor dos amigos e demais pessoas com as quais nos relacionamos também é algo considerado, além do próprio autoconhecimento, algo demonstrado pelas sessões de psicanálise.
       Um filme interessante, que tornou-se um clássico, talvez não pelos mesmos motivos pelos quais podemos considerar um ótimo filme, mas obrigatório para todos que gostam de cinema e apreciam seu aspecto artístico e de entretenimento.


Nota 93/100

segunda-feira, 21 de abril de 2014

300: A Ascensão do Império

Ficha Técnica300: Rise of an Empire, 2014.
Gênero: Ação, Drama, Fantasia.
Direção: Noam Murro.
Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Callan Mulvey, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Hans Matheson, David Wenham, Jack O'Connell, Igal Naor, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Ben Turner.
País: Estados Unidos.
Tempo: 102 min. 
Idioma: Inglês.

  Esta nova produção do filme 300 acaba por ter início antes da Batalha das Termópilas, retratada no primeiro filme, passar por ela e termina após a famosa batalha, nas Guerras Médicas. Zack Snyder, que dirigiu o primeiro, assina agora apenas como roteirista e produtor, deixando claro que a cadeira de diretor é mais adequada para ele do que os papéis assumidos aqui (não que O Homem de Aço seja razoável – pelo contrário, mas temos Watchmen para equilibrar um pouco). O novato Noam Murro imita o estilo do primeiro filme com razoável semelhança, mas sem o mesmo sucesso.
   O viés mercadológico e de busca pelo lucro no lançamento deste filme está mais evidente do que geralmente Hollywood demonstra. Os efeitos especiais, apesar de um certo exagero no uso do slow motion, me agradaram. Não assisti em 3D, mas a impressão é que deve ser ainda melhor. Para os muitos críticos, a proposta visual do filme era essa – e ele a alcança. Ótimas sequências de ação, com efeitos digitais excelentes. O sangue não parece real? Qual o problema? Este é o estilo do filme, assim como no primeiro. À sua maneira, saiu-se bem o diretor neste aspecto.
     Já a trama e o roteiro são terríveis. A história, além de superficial, com diálogos péssimos, discursos de auto-ajuda como preleções de batalhas, a insistência no “espírito grego” lembrado por Temístocles (Stapleton) o tempo inteiro beira um nacionalismo fanático, perigoso e que não existia desta forma na Grécia Antiga. Os guerreiros atenienses, todos eles, são tão bons quanto os espartanos (um grande furo no roteiro, visto como Esparta foi retratada no primeiro filme). Artemísia (Green) revela-se a personagem mais interessante, talvez por ser a menos superficial. E ainda que o destino da guerra tenha sido decidido basicamente por suas ações e pelas de outra mulher, a rainha Gorgo (Headey), a cena de sexo revela-se muito machista em alguns aspectos e beira o ridículo em tantos outros. Xerxes (Santoro) perde espaço ao longo da trama, apesar da tentativa de explicar o motivo de adquirir tal forma e natureza.
   As atuações são sofríveis – Stapleton carece de tudo que um líder e guerreiro precisa, principalmente carisma. Green, em sua atuação mais explosiva, nos traz um pouco mais de qualidade para o elenco, mas tampouco consegue suplantar os inúmeros defeitos do filme. Um filme que cumpre em partes a proposta do entretenimento (ou nem isso), e ao meu ver, plenamente a proposta estética – o que acaba por torná-lo muito pobre. A estética, produção, efeitos e direção não o complementam, como aconteceu com Gravidade, e sim o deixam ainda mais pobre.

Nota 51/100 

domingo, 20 de abril de 2014

Elysium

Ficha Técnica: Elysium, 2013.
Gênero: Ficção Científica, Ação, Drama.
Direção: Neill Blomkamp.
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, Wagner Moura, Diego Luna, William Fichtner, Emma Tremblay, Josh Blacker, Faran Tahir.
País: Estados Unidos.
Tempo: 109 min.
Idioma: Inglês.

    O novo filme do diretor sul-africano Neill Blomkamp segue a mesma linha de sua estréia (Distrito 9), mas não com a mesma qualidade. Enquanto naquele ele nos traz uma metáfora do apartheid através da ficção-científica, aqui a simbologia é sobre a exclusão e a desigualdade sociais.
    No entanto, mais do que no primeiro, o roteiro se perde no decorrer da história, com as cenas de ação tomando conta de tudo, ofuscando o bom início da trama. Esse viés hollywoodiano do diretor é importante, pois tem a capacidade de inseri-lo para um público muito maior, dada a visibilidade que seus filmes recebem. Contudo, ele carrega a mão ainda mais neste segundo filme exatamente neste aspecto, que é o calcanhar de Aquiles de seus filmes.
     Ao mostrar um futuro apocalíptico da Terra, em que uma minoria rica abandonou o planeta e vive com todos os benefícios que podem ser oferecidos pelo desenvolvimento tecnológico da humanidade (ainda que sob um regime com características nazi-fascistas, outra crítica importante), uma vasta maioria foi deixada para trás, vivendo sob condições inaceitáveis – e o mais interessante no filme é que boa parcela da população já vive sob estas condições, tornando a metáfora real e evidente. Entretanto, este cunho social é perdido com a segunda parte do filme – quanto o protagonista tenta alcançar Elysium (o satélite em que os ricos se isolaram), a crítica social desaparece, restando apenas ótimas cenas de ação, mas muitas sem sentido algum.
     Os atores estão muito bem no filme, revelando-se escolhas acertadas. Matt Damon como personagem principal – Max – está melhor na primeira metade, mais carismático. Muito em razão da mudança de roteiro do que de sua habilidade. Wagner Moura realmente rouba a cena em todo momento que aparece, como o hacker-coyote Spider, carregando contradições que o tornam o personagem mais interessante do filme. Jodie Foster e Alice Braga estão bem, mas com menos destaque que os demais. Luna e Fichtner fazem ótimas pontas, enquanto que Sharlto Copley, o mercenário que trabalha na Terra para Delacourt (Foster) está positivamente irreconhecível. 
     Um filme que, da mesma forma que a sequência Jogos Vorazes, apesar de trazer um potencial excelente, não somente de crítica político-social, mas também de suspense, drama e outros aspectos importantes para o cinema, acaba por revelar-se apenas como um bom entretenimento. O que para muitos pode ser algo ruim, e para tantos outros o que realmente buscam no cinema.


Nota 75/100

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Jogos Vorazes: Em Chamas

Ficha Técnica: The Hunger Games: Catching Fire, 2013.
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica, Romance.
Direção: Francis Lawrance.
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Willow Shields, Paula Malcomson, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Amanda Plummer, Sam Claflin, Lynn Cohen, Jena Malone, Bruno Gunn, Megan Hayes, Stef Dawson, Toby Jones, E. Roger Mitchell, Maria Howell, Patrick St. Esprit, Alan Ritchson, Stephanie Leigh Schlund, Meta Golding, Nelson Ascencio, Bruce Bundy.
País: Estados Unidos.
Tempo: 146 min. 
Idioma: Inglês.


    Outro blockbuster, só que desta vez, não estamos falando de uma grande obra literária. Muito pelo contrário: apesar do potencial da história ser imenso, tanto livro quanto filme se perdem no mesmo quesito, que é o triângulo amoroso hollywoodiano. Para aqueles que buscaram o livro pensando que esta questão do romance era apenas uma característica do filme, pois agora é moda esse tipo de enredo em Hollywood (seja com vampiros, lobisomens, ET’s ou comédias), ficarão desapontados.
       Este talvez seja o maior defeito da história, que acaba optando por clichês ao invés de explorar todo potencial sociológico e político do filme, que apesar disso, tem uma bela produção, com ótimos efeitos, maquiagem e fotografia. As atuações são interessantes e sólidas – e ao menos na escolha dos atores, tivemos grandes surpresas positivas com um elenco de estrelas que vão além dos já conhecidos do primeiro filme. Desta vez temos Hoffman e Wright que fazem excelente papel, mas outros menos gabaritados também merecem destaque, como Jena Malone.
        Já a adaptação é bem fiel ao livro, ainda que este, como quase sempre ocorre, seja muito mais rico em detalhes, alguns importante, mas que não afetam a trama. A mensagem principal é transcrita para as telas sem problemas. Talvez a maior diferença, que me incomodou, foi a personagem Mags (Cohen), que no livro, é apenas uma idosa, mas não quase senil, ou mesmo muda. Aliás, as conversas com ela são bem interessantes. Outro personagem que não teve uma adaptação tão boa quanto poderia foi Finnick Odair (Claflin), que acabou sendo construído de forma bem pobre e superficial, mesmo para os padrões do filme.
       Alguns outros detalhes se perdem, mas no geral, a história é bem conduzida. E dessa vez, sepultei de vez a esperança de que o filme se explorasse seu potencial ainda mais do que o livro e o superasse. O que nos restou foi um filme interessante de entretenimento e diversão, mas com pouca reflexão – uma opção legítima e mais rentável.









Nota 68/100

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Hobbit: A Desolação de Smaug

Ficha Técnica: The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013.
Gênero: Aventura, Fantasia.
Direção: Peter Jackson.
Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O'Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Sylvester McCoy, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Benedict Cumberbatch, Mikael Presbandt, Luke Evans, Stephen Fry, Ryan Gage, Manu Bennett.
País: Estados Unidos, Nova Zelândia.
Tempo: 161 min. 
Idioma: Inglês.

     Peter Jackson fez um fabuloso trabalho na adaptação da obra de Tolkien para o cinema. A trilogia do “Senhor dos Anéis” é realmente fantástica, com aventuras, fantasias, dramas, romances e comédia, todos estes aspectos em equilíbrio e mantendo o expectador ligado ao filme. Portanto, ao anunciar a filmagem de outra obra de Tolkien, desta vez “O Hobbit”, a expectativa era muito grande.
   Como ainda não pude ler os livros (nenhum deles), minha análise é baseada única e exclusivamente no filme, ainda que tenha lido ou conversado sobre os livros. E mesmo para quem não leu o livro “O Hobbit”, fica visível o exagero de três filmes tão longos, sendo este certamente o grande defeito do filme. Ainda que tenha feito enxertos de outros escritos do autor e conexões com a trilogia anterior (bem feitas, por sinal), muitas cenas são exageradamente longas e outras tantas desnecessárias. Tudo pelo maior lucro, pois independente da qualidade da história, o filme seria um blockbuster – e se mantém pela qualidade técnica, que é realmente excelente.
   Não pude ver o filme em 3D, mas como tenho ouvido muitas críticas para este caso específico, acredito que tenha sido melhor sem este efeito. A história conta com muitos personagens, e ainda que Jackson faça um bom trabalho, muitos deles tornam-se tediosos e pouco atrativos. O principal anão, Thorin (Armitage) está pouco carismático, enquanto que Thranduil (Lee Pace) está estereotipado ao extremo. Os demais atores fazem ótimo trabalho – com grande destaque para o protagonista Martin Freeman, o sempre excelente Ian McKellen e o ótimo trabalho de voz de Cumberbatch para Smaug. Interessante também rever Bloom na pele de Légolas e a estréia de Lilly como Tauriel.
    Outro aspecto muito positivo são as cenas de ação – as sequências são ótimas, sendo a melhor a fuga dos anões nos barris boiando no rio. Uma batalha entre elfos, orcs e anões de tirar o fôlego. Mais uma muito bem trabalhada foi a conversa entre Bilbo e Smaug, que apesar de longa, conta com uma excelente escalada na ação e tem ótimo trabalho de Freeman. Vale ressaltar também a cena entre Gandalf e o Necromancer.
     No entanto, o filme realmente perde muito em qualidade em razão do excesso de tempo. Três filmes já são muito; cada um deles com pelo menos 150 minutos então, acaba sim prejudicando a qualidade. Acredito que para aqueles que leram o livro, realmente tenha sido muita decepcionante, apesar da excelente qualidade técnica do filme e dedicação de todos envolvidos. Outro fator de decepção foi o final do filme – o último já nos deixa em meio a uma cena. Neste então, a impressão que fica é que acabou a energia antes do final do filme – temos que ver o dragão anunciar que vai atacar a cidade, deixando os anões para trás. Lamentável, ainda que seja ótimo entretenimento.
Nota 79/100

domingo, 12 de janeiro de 2014

O Homem de Aço

Ficha Técnica: Man of Steel, 2013.
Gênero: Ação, Fantasia.
Direção: Zack Snyder.
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Diane Lane, Kevin Costner, Antje Traue, Harry Lennix, Ayelet Zurer, Christopher Meloni, Richard Schiff, Laurence Fishburne, Michael Kelly, Rebecca Buller.
País: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido.
Tempo: 143 min.
Idioma: Inglês.


       Apesar de vários elogios que ouvi em relação ao filme, nada disso se confirmou. Muito pelo contrário, encontrei um filme demasiadamente longo, confuso muitas vezes (muito por causa da direção e edição), entediante e recheado de clichês. Inacreditável pensar que foi produzido por Nolan e mesmo dirigido por Snyder, do bom Watchmen.
      A característica que marca de Nolan no filme é a constante explicação e contextualização para aqueles que desconhecem os quadrinhos. A origem do Superman é interessante. Contudo, tratado de forma extremamente superficial, diferente da trilogia Batman. Alguns dilemas morais estão no panorama de fundo, mas sequer foram tratados de forma séria. Outro aspecto são os simbolismos, com a questão da religião ser o mais evidente (Superman com 33 anos, etc), mas que também é apenas uma nota de rodapé.
      O que temos é um filme muito longo e cansativo, que se perde nos inúmeros cortes. Os clichês estão por todos os lados, o romance infantil e momentos de causar a conhecida “vergonha alheia” não faltam. Mesmo os efeitos especiais deixam a desejar em relação a filmes da Marvel, por exemplo. E as piadinhas que eu tanto critico estão ausentes, mas não são substituídas por nada. Um roteiro previsível, com arquétipos do bem e do mal, e atores que apesar de serem reconhecidamente bons, fazem um trabalho apagado, em sua grande maioria.


Nota 53/100

sábado, 11 de janeiro de 2014

Ficha TécnicaNo, 2012.
Gênero: Drama, História.
Direção: Pablo Larraín.
Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Pascal Montero, Jaime Vadell, Elsa Poblete.
País: Chile, França, México, EUA.
Tempo: 118 min. 
Idioma: Espanhol.

            Ao descobrir que este filme é o final de uma trilogia de Larraín sobre a ditadura de Pinochet no Chile, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que preciso assistir aos outros dois – Tony Manero e Post Mortem. Este longa chileno nos conta de forma brilhante os bastidores da campanha publicitária referente ao plebiscito de 1988 no país, que decidiria sobre a continuidade (sim) ou não do governo ditatorial de Augusto Pinochet.
            Filmado de forma a aparentar um documentário da época das campanhas, No traz Bernal em excelente atuação como Rene Saavedra, um filho de uma família de militantes que foram exilados. Ao retornar para o país, o publicitário torna-se parte da minoria da elite econômica chilena que desfrutava do desenvolvimento do país, enquanto que mais de 40% vivia de forma miserável e a liberdade de expressão e direitos humanos eram violados diariamente.
            No início é difícil compreender as razões que levam ao publicitário – tão bem ajustado aos confortos que a elite do capitalismo chileno desfrutava – aceitar dirigir os 15 minutos da campanha do Não (No) na televisão. Contudo, aos poucos podemos compreendê-lo melhor, ainda que as razões não fiquem clara – o que somente torna o filme ainda melhor. Talvez nem ele mesmo soubesse. Mas surgem elementos que acrescentam muito ao personagem – o filho, a esposa militante, constantemente em problemas com a polícia chilena, a família já mencionada, a disputa com o sócio-chefe e diretor rival, o protagonismo e reconhecimento profissional, etc.
            O racha dentro da esquerda chilena, que após anos de repressão está parcialmente destruída e procura se reconstruir, também fica evidente. Os diferentes partidos nanicos querem a todo custo mostrar as crueldades e absurdos cometidos pelo ditador e seu governo, aproveitar o momento para denunciar tudo que não puderam durante os 15 anos, visto que não se iludem com a possibilidade de, se vencerem, terem sua vitória reconhecida. O general fazia o plebiscito apenas por pressão internacional, mas continuava tendo apoio de grandes potências e em nenhum momento cogitava deixar o poder.
            Desta forma, apesar das divergências na esquerda e insistência em mostrar as atrocidades cometidas pela ditadura, Saavedra consegue emplacar sua ideia da mensagem positiva – o arco-íris, a mudança, jingles. Enfim, ele tem sucesso em vender mais esta ideia. O filme também trabalha a questão moral que ele enfrenta, com o passado de sua família e o fato de ele agora não estar mais trabalhando naquele ideal. Este é um fator que o impele cada vez mais para dentro do trabalho, que o envolve, bem como as saudades da esposa, que no fim das contas, lhe foi “tirada” pela ditadura.
            Também podemos perceber a pressão psicológica exercida pelo regime ainda que os tempos estivessem menos violentos e truculentos. Mas acredito que para todos que se opuseram à ditadura, fica a sensação de que o plebiscito nada foi além de um grande golpe e inovação de marketing da esquerda, e talvez seja onde o filme perca alguns pontos. A mensagem positiva foi, sem dúvida alguma, essencial para a vitória. Mas a questão envolvendo a denúncia, o enfrentamento à opressão, todos estes aspectos poderiam ser ainda mais trabalhados. Certamente os artifícios comerciais foram fundamentais – e cada vez mais são parte da política. Mas também é inegável que a forma como foi vendida a ideia pode ter afetado a transição para a democracia.

Nota 92/100