Gênero: Biografia, Drama, Romance.
Direção: Bruno Barreto.
Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Marcio Ehrlich, Treat Williams.
País: Brasil.
Tempo: 118 min.
Idioma: Inglês, Português.
O longa tem a virtude
de se utilizar de poucos clichês e não estereotipar muito as personagens. A forma
superficial como é tratado o triângulo amoroso, como se o “término” do
relacionamento entre Mary e Lota tivesse ocorrido de forma tão rápida e o
início da história de amor com Elizabeth talvez esteja até amenizado, tendo em
vista que deve ter sido muito pesado. E mesmo nos dois relacionamentos de Lota,
podemos observar como uma opressão (que é muito semelhante à de gênero) está
presente, geralmente tendo Lota como a opressora em quase todo o momento.
Apesar destes pontos
fracos, é um bom filme, que possibilita ao público conhecer um pouco mais a história
de ambas as personagens, que nos traz algumas reviravoltas de personalidade das
protagonistas muito interessantes, mostrando uma intensidade constante por
parte da arquiteta e muitas vezes alguma melancolia que era externalizada por
meio da indiferença por parte da poetisa.
Somente o fato de o cinema retratar um triângulo amoroso lésbico de
forma séria já representa um grande avanço e muita ousadia por parte de todos
os envolvidos no projeto. E o fato de ele vir do cinema brasileiro me deixa
ainda mais contente. Bruno Barreto faz um bom trabalho, e espero pelo fato de trazer
atores estrangeiros para a produção, talvez ganhe ainda mais visibilidade,
dentro e fora do Brasil.
O filme que nos traz
uma história de amor entre a arquiteta e paisagista Lota Soares (Glória Pires) e
a poetisa estadunidense Elizabeth Bishop (Miranda Otto). As duas atrizes fazem
excelentes interpretações e acrescentam muito à trama. Vale destacar também a atuação
de Tracy Middendorf no papel de Mary, a companheira de Lota e amiga de
Elizabeth, que é quem apresenta as duas e acaba sendo traída por ambas. Apesar do
pouco espaço que ela tem no filme, nota-se que é importante história da vida de
ambas, tomando parte deste relacionamento complicado que se desenha entre as três.
Digna de nota também a semelhança entre o ator Marcello Airoldi e o
ex-governador Carlos Lacerda. Foi interessante perceber somente após algumas aparições
que era Lacerda um dos melhores amigos do casal.

O filme também não romantiza
as personagens – mostra a dificuldade de Elizabeth em lidar com crianças (além da
evidente traição da amizade com Mary, que buscava ajudá-la quando a convidou
para vir ao Brasil); mostra como Lota apoiou o golpe militar no início (ainda
que seja uma contradição tendo em vista sua orientação sexual) e ainda o fato
de ter simplesmente comprado uma criança para manter Mary ao seu lado mesmo após
o início do romance com Elizabeth. É também angustiante ver quanto Mary sofreu,
vendo e convivendo com Lota e Elizabeth. Constrangimentos não faltaram.
Com relação à questão
política do filme, este talvez seja o seu maior defeito. A única crítica feita
à Ditadura Militar e seu início foi a de Elizabeth no que tange à liberdade. Ou
seja, uma estadunidense, cujo país foi o maior apoiador e entusiasta do golpe,
veio dar uma lição de moral aos brasileiros com relação às liberdades. Um filme
de posições tão vanguardistas em alguns aspectos acabou por ter uma posição conservadora
neste caso.

Nota 90/100