sábado, 9 de novembro de 2013

Flores Raras

Ficha Técnica: Flores Raras, 2013.
Gênero: Biografia, Drama, Romance.
Direção: Bruno Barreto.
Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Marcio Ehrlich, Treat Williams.
País: Brasil.
Tempo: 118 min. 
Idioma: Inglês, Português.

     Somente o fato de o cinema retratar um triângulo amoroso lésbico de forma séria já representa um grande avanço e muita ousadia por parte de todos os envolvidos no projeto. E o fato de ele vir do cinema brasileiro me deixa ainda mais contente. Bruno Barreto faz um bom trabalho, e espero pelo fato de trazer atores estrangeiros para a produção, talvez ganhe ainda mais visibilidade, dentro e fora do Brasil.
      O filme que nos traz uma história de amor entre a arquiteta e paisagista Lota Soares (Glória Pires) e a poetisa estadunidense Elizabeth Bishop (Miranda Otto). As duas atrizes fazem excelentes interpretações e acrescentam muito à trama. Vale destacar também a atuação de Tracy Middendorf no papel de Mary, a companheira de Lota e amiga de Elizabeth, que é quem apresenta as duas e acaba sendo traída por ambas. Apesar do pouco espaço que ela tem no filme, nota-se que é importante história da vida de ambas, tomando parte deste relacionamento complicado que se desenha entre as três. Digna de nota também a semelhança entre o ator Marcello Airoldi e o ex-governador Carlos Lacerda. Foi interessante perceber somente após algumas aparições que era Lacerda um dos melhores amigos do casal.
       O longa tem a virtude de se utilizar de poucos clichês e não estereotipar muito as personagens. A forma superficial como é tratado o triângulo amoroso, como se o “término” do relacionamento entre Mary e Lota tivesse ocorrido de forma tão rápida e o início da história de amor com Elizabeth talvez esteja até amenizado, tendo em vista que deve ter sido muito pesado. E mesmo nos dois relacionamentos de Lota, podemos observar como uma opressão (que é muito semelhante à de gênero) está presente, geralmente tendo Lota como a opressora em quase todo o momento.
       O filme também não romantiza as personagens – mostra a dificuldade de Elizabeth em lidar com crianças (além da evidente traição da amizade com Mary, que buscava ajudá-la quando a convidou para vir ao Brasil); mostra como Lota apoiou o golpe militar no início (ainda que seja uma contradição tendo em vista sua orientação sexual) e ainda o fato de ter simplesmente comprado uma criança para manter Mary ao seu lado mesmo após o início do romance com Elizabeth. É também angustiante ver quanto Mary sofreu, vendo e convivendo com Lota e Elizabeth. Constrangimentos não faltaram.
       Com relação à questão política do filme, este talvez seja o seu maior defeito. A única crítica feita à Ditadura Militar e seu início foi a de Elizabeth no que tange à liberdade. Ou seja, uma estadunidense, cujo país foi o maior apoiador e entusiasta do golpe, veio dar uma lição de moral aos brasileiros com relação às liberdades. Um filme de posições tão vanguardistas em alguns aspectos acabou por ter uma posição conservadora neste caso.
      Apesar destes pontos fracos, é um bom filme, que possibilita ao público conhecer um pouco mais a história de ambas as personagens, que nos traz algumas reviravoltas de personalidade das protagonistas muito interessantes, mostrando uma intensidade constante por parte da arquiteta e muitas vezes alguma melancolia que era externalizada por meio da indiferença por parte da poetisa.



Nota 90/100

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Piaf - Um Hino ao Amor

Ficha Técnica: La môme, 2007.
Gênero: Biografia, Drama, Musical.
Direção: Olivier Dahan.
Elenco: Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Jean-Pierre Martins, Caroline Sihol, Marc Barbé, Pauline Burlet, Clotilde Courau.
País: França.
Tempo: 140 min. 
Idioma: Francês, Inglês.

   Mesmo que Edith Piaf não tivesse se tornado uma das maiores intérpretes francesas (e talvez do mundo) de todos os tempos, sua história de vida já seria digna de um filme. Tendo em vista que ela tornou-se o que tornou-se, merecia um filme ainda muito melhor do que este realizado por Olivier Dahan.
   O ponto alto do filme é Marion Cotillard – que revela-se uma das melhores atrizes de sua geração. Ela incorpora Piaf de uma tal forma que esquecemos que é uma atriz. Com sua atuação poderosa, realmente carrega o filme em seus momentos mais fracos, e evita que o mesmo torno-se um fracasso. O restante do elenco também está muito bem, mas chega a ser injusto para os demais ter que ser comparado com o trabalho de Cotillard neste longa.
   Somado a isso, a trilha sonora do filme tampouco poderia ser ruim. As belas músicas cantadas por Edith Piaf tornam-se ainda mais poderosas dentro do contexto em que nasceu e viveu. A maquiagem do filme também está impecável, enquanto que a fotografia, ainda que tenha tido a ótima ideia de vincular a pobreza às cores escuras, para contrastar com o auge da carreira dela, acabou se perdendo e muitas vezes dificultando a visualização do que se passava.
    O filme, apesar de longo, deixa de explorar muitas coisas da vida dela – utiliza a morte da filha como uma revelação final e surpreendente para os que não conheciam a história. E ainda que deixe subentendido, não aborda a questão da relação mãe e filha, da ausência da figura materna que Edith sofreu e replicou. Mas em geral, fica evidente o quão sofrida e difícil foi a vida da dela. Abandonada mais de uma vez enquanto criança, criada em ambientes não apropriados como as ruas, o abandono da avó materna, o circo e o pai bêbado (o que aqui deixo de fora o bordel em que a avó trabalhava, pois aparentemente foi amada e bem cuidada por lá, ainda que seja um ambiente tido como inapropriado).
   À dura infância, seguiu-se a carreira de cantora de ruas e cabarés, sendo sempre aliciada para que entrasse no mundo da prostituição. Até mesmo ao ser descoberta por Leplée, ainda enfrenta muitas dificuldades, e a situação somente piora após sua morte. Mesmo quando alcança seu auge profissional, com ótimos compositores lhe escrevendo músicas e com espaço na mídia, o filme transparece que a vida inteira ela sofreu. Muitas perdas de pessoas queridas, exposição extrema, saúde frágil, drogas e remédios demais – uma vida de excessos e ausências – extremos que a levam deste mundo ainda muito cedo.
   E talvez o grande paradoxo, a insistência dela, acima de tudo, em amar, bem como a paixão que tinha pela música. Contudo, a forma como nos foi contada tornou o filme confuso. O excesso de não linearidade da história, somado ao enredo confuso, dificulta ao telespectador compreender o que se passa. Até mesmo reconhecer alguns dos personagens torna-se uma tarefa difícil. Para mais de duas horas de filme, sentimos que muito do tempo não foi bem utilizado. E talvez esta direção e roteiros confusos venham a ter prejudicado o filme, que tinha tudo para ser um dos melhores do ano.

Nota 78/100

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Guerra Mundial Z

Ficha Técnica: World War Z, 2013.
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica.
Direção: Marc Forster.
Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Daniella Kertesz, James Badge Dale, Ludi Boeken, Matthew Fox, Fana Mokoena, David Morse, Elyes Gabel, Peter Capaldi, Ruth Negga, Sterling Jerins, Abigail Hargrove, Pierfrancesco Favino, Moritz Bleibtreu.
País: Estados Unidos, Malta.
Tempo: 116 min. 
Idioma: Inglês, Espanhol, Hebraico, Árabe.

   Após assistir à série The Walking Dead, que demonstrou como zumbis podem deixar filmes e séries interessantes e possibilitam realizar algo profundo, fica difícil não ser crítico a este filme de Marc Forster. Não me agradam zumbis tão ágeis como esses (afinal, são zumbis, lentos e incansáveis), ainda que não seja a primeira vez (em Eu Sou a Lenda temos a mesma situação), outros elementos pioram ainda mais a situação.
      O único personagem do filme é Brad Pitt. Não porque a Terra foi dizimada, e sim porque os demais não têm espaço, o foco é ele. Cenas violentas, qualquer tipo, foram cortadas, com pouco sangue, o que pouco condiz com uma situação apocalíptica de zumbis. Não nos envolvemos com a causa, com as pessoas, com nada.
    Talvez a grande expectativa que eu criei em relação ao filme tenha me deixado ainda mais crítico com o péssimo resultado obtido. Soluções sem pé nem cabeça são apresentadas, até que uma dá certo, e tudo será resolvido. Um final esperançoso para a humanidade, que foi destruída em 80%. As atuações são apagadas, inclusive a de Pitt e mesmo as cenas de ação, apesar de muitos efeitos especiais, mostram-se em alguns momentos sem propósito. Tentativas de se criar momentos de tensão são prejudicadas pela péssima qualidade do enredo.
   Um filme dispensável, entre os piores de 2013 – não acredito que a fórmula do apocalipse tenha se esgotado, mas nenhum destes filmes que foram feitos até agora com esta temática teve o mínimo de qualidade. Nem vou comentar sobre a questão dos muros em Israel, péssimo gosto, flertando com um tom preconceituoso.








Nota 50/100

domingo, 3 de novembro de 2013

Boogie Nights: Prazer Sem Limites

Ficha Técnica: Boogie Nights, 1997.
Gênero: Drama.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Don Cheadle, Heather Graham, Nicole Ari Parker, Luis Guzmán, William H. Macy, Joanna Gleason, Nina Hartley, Robert Ridgely, Philip Seymour Hoffman, Ricky Jay, Philip Baker Hall, Michael Jace, Thomas Jane, Alfred Molina.
País: Estados Unidos.
Tempo: 155 min. 
Idioma: Inglês.

     É inegável que Paul Thomas Anderson tenha uma característica própria de direção – dentre tomadas de câmeras longas e sem cortes, filmes longos, com diversas histórias paralelas (independente de serem todas conectadas ou não) e temas polêmicos. Além de utilizar de forma constante os mesmos atores e atrizes, o que para a sorte de todos, ele sempre escolhe bem.
     Boogie Nights é o filme que o lança em Hollywood, fazendo relativo sucesso. Isso de forma justa, tendo em vista que é um bom filme. É também um trabalho melhor do que o mais aclamado Magnolia, lançado dois anos depois. Contudo, continuo considerando que o diretor é superestimado. Não vejo nele a genialidade apontada por tantas pessoas, e sim a escolha de temas polêmicos com ótimo elenco (e bem dirigido, este crédito ele merece) e filmes muito longos.
     Neste aqui, ele retrata a ascensão, apogeu e queda de um ator no mundo pornô – Eddie Adams, ou depois, Dirk Diggler (Wahlberg). Um rapaz de 17 anos que em razão de seus atributos físicos e ótimas performances faz uma carreira meteórica na indústria pornográfica. Contudo, o envolvimento com drogas, o ego inflado, a imaturidade e a instabilidade emocional o fazem que também sua carreira entre em queda livre na mesma velocidade em que subiu.
     No início do filme me espantei com o glamour com que o cinema pornográfico é apresentado. Contudo, esta talvez fosse a forma com que Diggler via tudo isso. Após ser convidado pelo diretor Jack Horner (Burt Reynolds) para trabalhar em seus filmes, esse glamour vai se desconstruindo aos poucos. Temas como drogas, prostituição, violência, traições e ganância vão sendo inseridos no contexto, conforme os personagens que trabalham nesse meio vão sendo apresentados. Podemos observar a dificuldade de todos eles em se inserirem em outro meio que não o pornográfico, tendo em vista o preconceito que sofrem.
     Esta forma como é mostrada realmente é um dos pontos mais altos do filme, bem como as atuações. Wahlberg está realmente muito bem, e a transformação pela qual passa seu personagem é muito bem interpretada, sem exageros. Reynolds também faz um ótimo papel, que apesar de sempre tranquilo, revela seu lado descontrolado, quando sob pressão. Julianne Moore, na pele da atriz Amy Waves, também é um dos destaques – mostrando a dificuldade em exercer um papel de mãe em meio ao mundo caótico, e como isso vem a refletir de forma pesada em sua vida. Don Cheadle, Philip Seymour Hoffman, John C. Reilly, Heather Graham, Alfred Molina e William H. Macy também fazem excelente trabalho, todos com suas tramas paralelas e individuais, sem vínculo necessário ao protagonista, demonstrando todas as dificuldades que as pessoas que vivem nesse meio enfrentam.
    O diretor dosa bem a quantidade de violência e pornografia demonstrada, sem ser comedido demais, mas tampouco sem abusar destas cenas. Inclusive, nas mais violentas, em muitas delas consegue lidar com certo humor negro que atenua a situação, e deixa o telespectador surpreso por estar rindo em um momento tão tenso e pesado. Também nos brinda com alguns absurdos e cenas soltas que são divertidas e integram muito bem o panorama geral.
   Contudo, o filme revela-se muito longo, em alguns momentos intermináveis. Muitos personagens acabam se perdendo, entrando e saindo de cena sem qualquer explicação. Esse dois defeitos talvez sejam oriundos da mesma coisa: muitas histórias e muitos argumentos querem ser expostos, e para isso, muitos personagens, tornando difícil controlar todos de forma razoável. Isso também leva a uma incompletude de muitas histórias, que ficam sem desfechos, o que talvez proporcionasse um final mais profundo para a trama, é onde ela acaba por pecar mais.

Nota 86/100

sábado, 2 de novembro de 2013

Donnie Darko

Ficha Técnica: Donnie Darko, 2001.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Richard Kelly.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Mary McDonnell, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Berrymore, Holmes Osborne, Daveigh Chase, Patrick Swayze, Jolene Purdy, Stuart Stone, Beth Grant, Seth Rogen, Noah Wyle, Patience Cleveland.
País: Estados Unidos.
Tempo: 113 min. 
Idioma: Inglês.

     O filme tornou-se um clássico do universo cult e alternativo. Com excelentes atuações, principalmente para Jake Gyllenhaal, em início de carreira, Donnie Darko nos traz um menino com indícios de esquizofrenia, porém muito inteligente, que além de estar entupido de psicotrópicos, aparentemente é sonâmbulo.
    Dentro deste cenário, em que muitas coisas não fazem sentido, e ao final do filme você não vai entender, Donnie Darko revela-se um rapaz gentil e que questiona os absurdos impostos por normas sociais conservadores em sua pequena e pacata cidade. Ao mesmo tempo, discussões sobre viagem no tempo, somadas a um coelho gigante e assustador chamado Frank, que dá ordens a Donnie, acabamos encontrando elementos de ficção e suspense no longa.
   Há uma possível interpretação em que toda história direciona para que Donnie aceite a sua morte de forma autêntica, que seja uma escolha sua, para evitar tudo que ele presenciou em sua “viagem ao futuro”, caso não tivesse morrido com a queda da turbina em seu quarto. Mas em meio a tudo isso, temos diálogos interessantes, como com as professoras de literatura (Berrymore) e de Educação Física (Grant) e com o professor de física (Wyle). Outro papel importante é o de Patrick Swayze, que faz Jim Cunningham, pedófilo desmascarado por Donnie, com a “ajuda” de Frank.
    Desta forma, um filme propositalmente confuso, mas ao mesmo tempo intrigante, como deveria ser a mente de Donnie Darko e que nos apresenta algo original, ainda que não tão profundo, mas com mensagens diferentes, e questionando alguns aspectos das normas sociais. Não vou me estender muito, afinal, como posso divagar tanto sobre um filme que não é possível entender prontamente, mas que nos deixa reflexivos por um tempo, mesmo sem que possamos identificar o porquê.



Nota 76/100


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Ficha TécnicaWe Need to Talk About Kevin, 2011.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Lynne Ramsay.
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Ashley Gerasimovich, Jasper Newell, Alex Manette.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 112 min. 
Idioma: Inglês.

   Massacres em escolas, universidades e outros espaços de convívio público têm sido uma triste constante na história dos Estados Unidos. E a cada novo episódio desse, as mesmas questões são levadas ao debate: porte armas, música e filmes de interesse dos assassinos, bullying, o papel dos pais etc.
      Neste filme, a diretora Lynne Ramsay utiliza como base o livro de Lionel Shriver, o qual por sua vez se baseia em diferentes episódios de massacres executados por crianças e adolescentes. Contudo, o foco do filme é a vida da mãe do assassino Kevin (Ezra Miller), Eva (Tilda Swinton).
     As cenas a princípio desconexas deixam o filme um tanto quanto confuso, demorando para engrenar, o que acaba por prejudicar o envolvimento e a compreensão do telespectador. Achei oportuno a utilização deste recurso sem ordem cronológica, deixando um suspense sobre o que de fato ocorreu, ainda que já saibamos desde o início que algo grave ocorre. No entanto, a falta de linearidade não foi tão bem trabalhada, tornando as coisas muito confusas e desconexas por um tempo maior do que o adequado.
    As atuações são excelentes. Ezra e John C. Reilly (Franklin, pai de Kevin) estão ótimos. Fazem um trabalho fantástico dosando muito bem onde atuarem de forma mais incisiva ou não. Mas a grande estrela é Swinton, como a mãe que teve problemas com o primeiro filho desde que ele nasceu. Em nenhum momento ela exagera, mas percebemos sua aflição e sua angústia constantes. Uma das melhores atuações de sua carreira, sem sombra de dúvidas.
     Já o roteiro demonstra a responsabilidade dos pais sobre o assassino que criaram, mas ao mesmo tempo não os demoniza. Muito pelo contrário, mostra a dificuldade de se criar os filhos nesta sociedade doente que é a nossa, e que muitas coisas estão fora de controle deles. A permissividade do pai e o difícil relacionamento com a mãe são aspectos apresentados pelo filme como formadores desta catástrofe, mas deixando subentendido que muitas outras coisas integram esse panorama, muitas delas que ainda não entendemos. Talvez o fato de não deixar isso um pouco mais claro possa prejudicar o entendimento do filme, levando o telespectador a culpar a mãe de Kevin pelo ocorrido.
     Enfim, título mais adequado não poderia existir para o filme, com cenas muito fortes e angustiantes, em que percebemos que a relação entre mãe e filho está muito aquém do que a sociedade impõe e espera que seja, dentro de suas expectativas e seus padrões. E talvez o fato de deixar tão explícito para o telespectador, mas somente a mãe perceber isso, seja um ponto fraco do filme, mas que não o prejudica como um todo.

Nota 89/100

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

X-Men: Primeira Classe

Ficha TécnicaX-Men: First Class, 2011.
Gênero: Ação, Ficção Científica, Aventura.
Direção: Matthew Vaughn.
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, Rose Byrne, Álex González, Jason Flemyng, Zoe Kravitz, January Jones, Nicholas Hoult, Caleb Landry Jones, Edi Gathegi, Lucas Till, Oliver Platt, Bill Milner, Glenn Morshower.
País: Estados Unidos.
Tempo: 132 min. 
Idioma: Inglês, Alemão, Russo, Francês, Espanhol.


   É realmente interessante observar esse movimento dos quadrinhos para as telas de cinema, o qual eu já mencionei. As adaptações tornaram-se um imenso sucesso e uma grande fonte de dinheiro para a indústria cinematográfica – a ponto de se passarem a adaptar qualquer história de qualquer forma. E isso nos brindou com a trilogia do Batman, de Christopher Nolan, mas também nos trouxe filmes como O Lanterna Verde. Mas tudo começou com a franquia dos X-Men.
    A primeira trilogia realmente é muito interessante, com algum grau de profundidade, além das ótimas cenas de ação e personagens cativantes. Sempre deixei claro que o meu favorito é o Batman – não o super-herói em si, mas toda a história, que é muito mais madura e com algum grau de profundidade.
    E o panorama dos x-men sempre esteve marcado por este algo a mais – talvez não como no caso do Batman, mas a questão do preconceito, do diferente, do perigo e do que é considerado “humano” perante outras criaturas está ali, evidente. E a maneira como os mutantes lidam com isso também é uma analogia à forma como outros preconceitos foram combatidos, o mais claro deles na questão do racismo, em posições divergentes entre Martin Luther King, Malcom X e os Panteras Negras. Todos lutam com um mesmo objetivo, ou ao menos causas semelhantes, ainda que com táticas totalmente diversas. O mesmo temos entre Magneto e Charles Xavier.
     Longe de colocar os dois em posições opostas de arquétipos do bem e do mal, podemos observar a causa justa das lutas de ambos, e ainda que o filme sempre tome partido de um lado, o dos X-Men, não deslegitima totalmente a posição de Magneto. Os filmes anteriores também trabalhavam isso, mas acredito que neste a divisão ficou menos maniqueísta ainda. Talvez pela existência do terceiro vilão – o maior defeito do filme. Após todo esse trabalho de desenvolver os dois personagens principais de forma profunda, nos apresentam um gênio egocêntrico, torturador e desumano que deseja dominar o mundo. E ainda o vinculam ao nazismo. O puro arquétipo do mal, sem propósito algum.
     Gostei muito do vínculo que fizeram com a história – Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria, Crise dos Mísseis. Todas estes links, ao meu ver, acrescentam um pouco mais de realidade à trama, fortalecendo as metáforas trabalhadas no filme. Os efeitos especiais estão novamente excelentes, com algumas impossibilidades físicas tornando-se totalmente verossímil, não somente nos poderes de Magneto e Summers, mas também no vôo de Banshee e nas desaparições de Azazel.
     Os atores também foram muito bem escolhidos. Os protagonistas são excelentes, McAvoy faz um ótimo Xavier, mas o destaque vai para Fassbender, que faz Magneto. Ainda que ele tenha o personagem mais interessante, também é o melhor ator e se destaca diante dos demais. Kevin Bacon, em razão principalmente de seu papel, está subaproveitado, enquanto que Lawrence faz um ótimo misto de inocência e amadurecimento. Os demais coadjuvantes fazem todo um bom trabalho, e todos têm seu espaço em determinado momento.
    Apesar de não ser um grande filme profundo, cumpre o propósito básico de sua categoria, que é entreter o público, e acrescenta um algo a mais, ainda que não desenvolva nada muito profundamente. Talvez nos próximos filmes, o antagonismo entre Magneto e Xavier seja ainda mais aprofundado, de forma mais elaborada. É o que espero.



Nota 82/100

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Estranho Mundo de Jack

Ficha Técnica: Nightmare Before Christmas, 1993.
Gênero: Animação, Fantasia, Musical.
Direção: Henry Selick.
Elenco: Chris Sarandon, Danny Elfman, Catherine O'Hara, William Hickey, Glenn Shadix, Paul Reubens, Ken Page, Edward Ivory.
País: Estados Unidos.
Tempo: 76 min. 
Idioma: Inglês.

   O filme larga na frente no sentido de que contraria todas as “mesmices” de filmes natalinos. E o que o é melhor, ainda em uma animação. Este filme, que conta com roteiro de Tim Burton, realmente é um dos melhores da categoria “natalinos”.
    Muito divertido, não somente para crianças, mas também adultos, conta com uma trilha sonora excelente e personagens engraçados e diferentes do que estamos acostumados. Além disso, nos traz mensagens positivas, como o fato da aparência não ter relevância alguma com relação ao que somos. No caso, os seres assustadores da Cidade Halloween eram tão amáveis quanto os da Cidade Natal.

      As músicas são realmente muito divertidas e se adéquam perfeitamente ao enredo. A estética do filme é fantástica, e as cores escuras utilizadas para caracterizar o Halloween, bem como alguns detalhes que merecem destaque: a lua cheia, todos os personagens, o prefeito de duas caras, etc. O contraste com a Cidade do Natal é realmente impactante. As expressões utilizadas no filme também são ótimas (no caso em inglês, Claus por Claws ou em português, Papai Noel por Cruel).
  Apesar das mensagens simples e clichês, o filme é direcionado especialmente para crianças, então tal perspectiva está de acordo com a proposta do filme. Além da questão das aparências, já mencionadas, temos também o aspecto do egoísmo e insatisfação crônica de Jack Skellington, que não percebe a sua volta todo carinho que tem. Um filme que além de tudo, nos apresenta uma proposta inovadora e algo totalmente original.

Nota 84/100

domingo, 27 de outubro de 2013

Na Estrada

Ficha Técnica: On the Road, 2012.
Gênero: Drama.
Direção: Walter Salles.
Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Amy Adams, Tom Sturridge, Alice Braga, Elisabeth Moss, Danny Morgan, Viggo Mortensen.
País: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Brasil, França.
Tempo: 124 min. 
Idioma: Inglês.

   A expectativa para um filme de Walter Salles com elenco internacional é sempre grande, principalmente no Brasil. Neste caso, o diretor conseguiu reunir um conjunto de estrelas para seu filme que visa adaptar o livro de Kerouac (o qual eu não li) para o cinema.         O filme retrata de forma interessante a época e os momentos vividos pelos personagens, que buscavam contrariar as regras e enfrentar alguns preconceitos da sociedade com relação a este tipo de postura. Sem laços e vínculos, ou mesmo normas sociais, o filme é carregado de sexo e drogas para retratar o movimento beat.
    Ao buscar demonstrar todo caos na vida dos personagens, em relação principalmente ao que todos estão habituados – o maior exemplo é o personagem de Moriarty (Hedlund), o filme também acaba por adquirir esta característica. Torna-se confuso, bem como a vida de seus protagonistas, com cenas soltas e desconexas – me agrada este aspecto, em que a forma como o filme é feito condiz com o período que tenta retratar. Contudo, o filme acaba se revelando muito longo e cansativo.
    As atuações foram muito boas. Stewart me surpreendeu, com muita sensualidade em diversas cenas, ainda que não possamos considerar que foi uma atuação primorosa da moça. Simplesmente porque nos acostumamos a vê-la em filmes péssimos, não quer dizer que ela teve um grande salto. Os demais protagonistas também foram bem, mas ao meu ver, apesar do grande elenco, nada que mereça muito destaque.
     Com uma trilha sonora interessante, o filme revela-se apenas razoável, nem de perto dos melhores de Walter Salles. A duração talvez prejudique ainda mais o filme, que torna-se dispensável, mas acerta na intenção de tentar demonstrar o espírito destas pessoas e do momento que viviam, além da quebra de normas e regras sociais que se revelam antiquadas e conservadoras com o passar do tempo.

Nota 74/100

sábado, 26 de outubro de 2013

Gravidade

Ficha TécnicaGravity, 2013.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Alfonso Cuarón.
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Phaldut Sharma.
País: Estados Unidos.
Tempo: 91 min. 
Idioma: Inglês.

   Havia uma grande expectativa criada em torno deste filme. No entanto, eu não compartilhava deste sentimento. Um filme de ficção científica, no espaço, com a Sandra Bullock? Onde muitos viam um imenso potencial de sucesso, eu via um grande potencial para o fracasso. E talvez exatamente por isso que minha análise possa ser ainda mais questionável, pois o filme realmente me surpreendeu de maneira positiva.
   Tecnicamente, o filme é impecável. Uma experiência extremamente sensorial em que Cuarón nos faz sentir como se estivéssemos no espaço, ou ao menos nos transmite o que é realmente (claro que dentro dos limites estruturais) uma experiência no espaço sem gravidade, oxigênio, som, dentre outros aspectos que tornam o espaço uma região extremamente perigosa. Os efeitos especiais (e espaciais) são fantásticos – o 3D é muito bem utilizado, as tomadas de câmeras com vistas para terra, em primeira pessoas, o fogo e as lágrimas e as cenas de explosões e colisões são realmente maravilhosas.
    A trilha sonora está em perfeita consonância com o restante do filme, sendo um excelente acréscimo. E as metáforas são ótimas – com destaque para as mais do que comentadas cenas da posição fetal e a cena final, desde a queda da espaçonave e todo o drama na água, até ela se levantar, como se estivéssemos presenciando o processo evolutivo da humanidade de milhões de anos em apenas alguns segundos.
    Com relação às atuações, Sandra Bullock realmente surpreendeu. Ela é responsável pela maior parte do filme, tendo conduzido muito bem todo o longa. As cenas de perigo mortal foram muito bem trabalhadas, com sua respiração e desespero parecendo bem reais e acrescentando muito ao filme. George Clooney usa de todo seu carisma e charme para acrescentar um pouco de leveza à trama, tendo em vista que era o astronauta mais experiente e o comandante da equipe. E mesmo suas conversas aparentemente despropositais em momentos de tensão atendem a duas propostas: a da realidade do filme, de ajudar a Dra. Stone (Bullock) a manter a calma; e a de apresentar a personagem aos telespectadores, sendo responsável por uma das grandes revelações do filme, quando ela menciona da morte prematura de sua filha.
    O diretor acertou em focar em apenas um personagem e meio (Clooney tem uma importante porém breve participação). Apesar de não ser um grande tratado sobre o indivíduo ou sociedade, também apresenta sua profundidade ao lidar com a personagem de Bullock. Um filme que mantém a tensão por todos os seus 90 minutos – duração esta acertada pelos produtores e diretor. Muito mais do que isso poderia prejudicar o filme, que foi executado de forma excelente.

Nota 94/100