sábado, 31 de março de 2012

Carnage

Ficha técnica: Carnage, 2011
Gênero: Drama, Comédia;
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly, Christoph Waltz.
País: França, Alemanha, Polônia e Espanha.
Tempo: 80 min.
Idioma: Inglês. 
        Este é um filme curioso, que foge aos moldes tradicionais, como geralmente são os filmes de Polanski. O filme foi adaptado de uma peça de teatro, e ao meu ver, o diretor tentou ser o mais fiel possível ao cenário, fazendo com que a história se passe única e exclusivamente num apartamento. Esse fato já modifica o filme de maneira positiva.
      O casal dono do apartamento – Michael e Penelope – recebem outro casal, Alan e Nancy, para resolverem um problema de seus filhos de 11 anos. O filho dos anfitriões levou uma paulada de filho dos visitantes no rosto, perdendo dois dentes.
            O que a princípio caminhava para uma resolução tranqüila, de adultos civilizados da classe média alta estadunidense, acaba por tornar-se uma carnificina moral e verbal. As hipocrisias e ironias presentes no início tornam orgulhosas e pedantes, e os tons conciliadores passam para provocativos, até que os ataques verbais (alguns materiais e físicos) surgem.
      O filme mostra muitos aspectos da vida médio-classista de maneira escachada, e como muitas das pessoas estão na maior parte do tempo sustentando uma farsa, seja no casamento, trabalho, escola ou família. Os civilizados adultos do início, que discutiam uma adversidade do cotidiano, tornam-se crianças descontroladas e irresponsáveis, provocando, chorando e gritando. E não é apenas uma briga de casais, mas torna-se uma carnificina justamente por ser um “todos contra todos”.
     A direção está ótima, e dá uma dinâmica incrível a um filme que se passa quase que inteiramente num cômodo. Os quatro atores – John C. Reilly e Jodie Foster como pais da “vítima”; Christoph Waltz e Kate Winslet como pais do “agressor” – fazem um excelente trabalho, muito equilibrado em performance, todos com seu devido destaque, mas sem ofuscar um ao outro. As mulheres dão o toque mais dramático ao filme, enquanto os homens mais sarcástico e rude, mas todos se revezam com suas peculiaridades.
            Algumas críticas foram recebidas pelo filme quando comparado à peça, e apesar de não tê-la visto, vou aqui em defesa do longa: assim como um livro, mas em menor escala, uma peça de teatro tem uma possibilidade muito maior de nos envolver, e uma estrutura inerentemente menos limitada, se comparada ao cinema. Por isso, há comparação é necessária, mas com parcimônia. O filme pode não ser uma obra-prima, mas é bom.
Nota 82/100

sexta-feira, 30 de março de 2012

Tudo pelo Poder

Ficha técnica: The Ides of March, 2011
Gênero: Drama;
Direção: George Clooney
Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Jeffrey Wright, Marisa Tomei.
País: Estados Unidos.
Tempo: 101 min.
Idioma: Inglês.
           
  George Clooney é conhecido por seus filmes críticos, principalmente quando assume o lugar da direção, roteiro ou produção, e com esse filme a história não é diferente. Clooney, que além de tudo atuou no filme, adaptou para o cinema o livro de Beau Willimon, Farragut North. Se a expectativa for de um filme da mesma qualidade de Boa Noite, Boa Sorte, você irá se decepcionar. Entretanto, apesar de diversas críticas de clichês e estereótipos, o filme nos traz muitos elementos interessantes.
         A história se passa durante as primárias presidenciais do partido Democrata, em que restam dois candidatos, um senador mais conservador do Arkanas, que lidera a acirrada disputa, e o liberal e idealista governador da Pensilvânia, Mike Morris. Philip Seymour Hoffman é Paul Zara, chefe da campanha de Morris, e tem ao seu lado o jovem brilhante Stephen Meyers (Ryan Gosling), o segundo em comando na campanha.
            O filme realmente traz muitos estereótipos, de maneira maniqueísta muitas vezes, e com muitas contradições. Zara (Hoffman) é realmente um paranóico com a questão da lealdade, e seu opositor na campanha do senador, Tom Duffy (Paul Giamatti) soube muito bem usar esse seu “defeito”. Entretanto, apesar desse seu valor moral, não tem escrúpulos ao sugerir alianças para Morris (Clooney), sugerindo que cedesse o cargo desejado pelo senador da Carolina do Norte, Thompson (Jeffrey Wright), em troca de seu apoio essencial para as primárias. Morris o considera um lixo.
         O próprio Meyers (Gosling), apesar de brilhante, esperto, experiente na política apesar da pouca idade, é ainda um idealista, que terá suas expectativas destruídas e seu caráter arrasado, ao se vender ao sistema. E falo ainda não somente pelo fato de sua mudança de posição no filme, mas também por ser essa a ideia que o filme passa, de que todos se corrompem. Apesar disso, Morris mostra-se de reputação ilibada – e se a perspectiva do filme é outra, difícil compreender como chegou ao governo da Pensilvânia. Entretanto, Morris também tem seu passado negro, descoberto por Meyers ao se envolver com a estagiária (um tanto óbvio) Molly Stearns (Evan Rachel Wood).
        A moça acaba morrendo após abortar o filho de Morris, e Meyers é demitido após desconfianças de Zara. Marisa Tomei também está no filme como uma jornalista do NY Times (a única imprensa no filme inteiro), e também entra nos jogos políticos da chantagem, escândalos, etc. Há muitas semelhanças com o idealismo de Obama na campanha, apesar de eu acreditar que tanto Obama quanto o personagem de Clooney possuíam um idealismo que não passava do discurso; talvez até houvesse uma intenção real, mas o sistema democrático não permitiria a realização da maior parte das promessas, e os candidatos sabem muito bem disso.
       Enfim, todos os estereótipos são apresentados de maneira supérflua, como a mudança da ingenuidade para corrupção, idealismo estando fora, discursos, e alguns lugares-comuns. Outro ponto controverso é o machismo presente no filme, em que novamente traz a mulher como sendo sempre um objeto de escândalo sexual. Entretanto, o filme traz um pouco em como as estratégias são boladas, os escândalos criados, e como são feitas as campanhas, em que as discussões políticas não importam, principalmente se as substituirmos por escândalos, fofocas etc. As emoção das pessoas é na hora da eleição está acima da razão, e todas as estratégias de campanhas foram muito bem desenhadas no filme. A questão levantada pelo filme de que quando se joga sujo nas disputas eleitorais, eles estariam aproximando-se dos Republicanos tem seu fundamento. A criação dos think tanks pelos consevadores republicanos, e o seu perfil diferente em relação aos think tanks liberais é um ponto que fortalece esse argumento, mesmo tendo sido mostrado de maneira superficial e idealizada.
      Outro ponto positivo foram atuações excelentes de todos, um elenco muito forte, que soube imprimir uma maior qualidade ao filme, com excelentes atuações de todos e todas. Gosling está impecável, desde suas falas até seu penetrante e distante olhar; os mesmos elogios cabem para Wood, que foi muito bem. Clooney está ótimo, mantendo sua excelente regularidade; Hoffman e Giamatti, atores já consagrados, também estão excelentes, e todas as cenas de enfrentamento envolvendo Gosling, Hoffman, Clooney, Tomei e Giamatti são brilhantes. A ponta de Wright também foi muito bem executada. Clooney também tem um trabalho competente com a câmera, e deixou muito claro seus argumentos, ao deixar todas as cenas limpas para que possamos ouvir tudo que é dito no filme, e ainda nos deu tempo para processar e julgar tudo que foi dito e também o que não foi, diferentemente de Fincher, no filme a Rede Social, por exemplo.
Nota 88/100

sexta-feira, 23 de março de 2012

As Virgens Suicidas

Ficha técnica: The Virgin Suicides,1999
Gênero: Drama, Romance, Mistério;
Direção: Sofia Coppola
Elenco: James Woods, Kirsten Dunst, Kathleen Turner, Josh Hartnett, Michael Paré, Giovanni Ribisi, Hanna Hall, A. J. Cook, Danny DeVito, Leslie Hayman, Chelse Swain, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Anthony DeSimone. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 97 min.
Idioma: Inglês. 

         Esse é o filme de estréia de Sofia Coppola como diretora, e apesar de toda expectativa que se cria pelo fato de ela ser filha de um dos maiores diretores de cinema que Hollywood já produziu, ela se sai muito bem. Se ela recebeu alguma ajuda do pai ou não, é um fator irrelevante para quem deseja assistir o filme ou mesmo criticá-lo.
        A história, adaptada do romance de Jeffrey Eugenides, nos prende do início ao fim, mesmo com o final sendo revelado desde as primeiras cenas. Ele nos apresenta uma família tradicional e conservadora dos anos 1970 de Michigan (os Lisbons), com o pai professor de matemática na escola (James Woods), a mãe superprotetora e dona de casa (Kathleen Turner), e suas cinco belas e loiras filhas, com idade entre os 13 e 17 anos. O longa começa com a tentativa de suicídio da mais nova, Cecilia (Hanna Hall) que corta os pulsos.
            Após a frustrada tentativa, os pais são aconselhados por um médio (Danny DeVito) a serem menos protetores e não isolarem as meninas do mundo, principalmente do contato com meninos. Durante uma festa na casa, numa tentativa de modificar esse comportamento, a filha mais nova tenta mais uma vez o suicídio, e desta vez é bem sucedida.
Algum tempo após a tragédia, as meninas voltam para a escola, e tentam retomar suas vidas. A mais nova agora, Lux (Kirsten Dunst) começa a ser paquerada pelo playboy da escola, Trip Fontaine (Josh Hartnett), e os problemas voltam a surgir na casa dos Lisbons. Apesar de muito unidas, as irmãs não conseguem escapar da superproteção sufocante da mãe e da inação do pai, levando ao trágico final que dá nome ao filme.
A história é contada da perspectiva de meninos que eram colegas de escola das meninas, e eram apaixonados por elas. O filme tenta traz diversas metáforas e paralelos com nossa realidade. A maneira de tratar as pessoas é mostrada no filme, como no caso de Fontaine, que depois de abandonar Lux no campo após o baile, desencadeou toda a tragédia na família, e ele mesmo não se desculpa depois de anos. Mostra-nos um pouco da dimensão de nossas atitudes indiferentes em relação aos que nos cercam.
Mais explícitas são as questões do machismo da época e presentes ainda agora, além dos sentimentos e sensações enfrentados pela primeira vez por adolescentes. Outro fato interessante é a narração, feita sempre com o pronome “nós”, talvez englobando muito mais do apenas os meninos do filme, mas homens de maneira geral, que viam nas belas meninas sempre um objeto de desejo, identificando “sinais” enviados aos homens a todo tempo, e muitas vezes esquecendo que são apenas adolescentes.
Ainda que muitos desses aspectos poderiam ser explorados com mais profundidade, como no caso da visão machista da sociedade, e da criação superprotetora de filhos e a sistematização da vida social, o filme correria o risco de perder parte de sua leveza, apesar do mórbido tema, e talvez esse não fosse o objetivo da diretora.
As atuações do filmes estão excelentes, e apesar de um pouco estereotipada nos papeis de K. Turner, J. Woods e J. Hartnett, quem se sobressai é Kirsten Dunst, com o papel de mais destaque das irmãs Lisbon. A fotografia do filme é excelente, trazendo um ótimo jogo de cores.
Um filme muito interessante, que certamente foi um excelente cartão de entrada de Sofia Coppola, e que apesar de ter um final não resolvido, deixando muitas dúvidas e incertezas no ar, abre espaço para que tiremos nossas próprias conclusões e reflexões, de maneira inteligente, sem cair no senso comum.

Nota 81/100

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Artista

Ficha técnica: The Artist, 2011                                                
Gênero: Romance, Comédia, Drama;
Direção: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell.
 País: França, Estados Unidos e Bélgica.
Tempo: 100 min.
Idioma: Inglês

      O filme de Hazanavicius é muito bom, e apesar de superestimado pelas Academias de cinema, em tempos que filmes de puros efeitos especiais à la Michael Bay, nos chama a atenção o destaque que o filme recebeu. No mesmo momento em que o 3D produz seu melhor filme sob a direção de Scorsese, um filme em preto e branco mudo recebe os principais prêmios da academia. 
          As atuações de Dujardin e Bejo são impecáveis, bem como seus figurinos e maquiagem, que acrescentam muito ao filme. Os coadjuvantes também são importantes, mas o cachorro rouba a cena. A trilha sonora acompanha o filme muito bem, sendo extremamente, visto que é praticamente o único som do filme.
            Apesar de não ser um tema inovador no cinema, é um filme que resgata a origem do cinema, e nos traz alguns temas e argumentos que vão além inclusive da principal questão do filme, que é a mudança pela qual o artista enfrenta com o início dos filmes falados. Essa questão, subentendida no filme, é a recusa do ser humano, de maneira geral, em aceitar mudanças, e a maneira como lidamos com elas.
            Outro aspecto interessante do filme é a crise de 1929, que poderia ter sido mais explorado, apesar de não ser o foco principal do filme. O ponto mais forte do filme é, sem dúvidas, o fato de ele ser feito em uma época em que os efeitos especiais estão se sobrepondo, cada vez mais, sobre roteiros inteligentes e atuações impactantes. Esse filme nos mostra como é possível realizar um filme sem nenhum desses efeitos e ainda nos prender na tela, com uma abordagem inteligente, emocionante, atuações cativantes e que também nos faz rir.

Nota 91/100

quarta-feira, 21 de março de 2012

Toda Forma de Amor

Ficha técnica: Beginners, 2010
Gênero: Drama, Romance, Comédia;
Direção: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic.
País: Estados Unidos.
Tempo: 105 min.
 Idioma: Inglês, Francês.

            Este é um filme muito interessante, mas que não agradará boa parte de seus espectadores. Como seu título original aponta, os personagens são iniciantes, ou ao menos estão iniciando novas formas de encarar relacionamentos amorosos. Ele apresenta um pai de 75 anos que sai do armário, o filho de quase 40 que não consegue um relacionamento firme por um longo período e uma moça que possui um trabalho itinerante e, consequentemente, (seria isso mesmo, ou o inverso) não cria raízes e vínculos em lugar algum.
            A história, apesar de possuir um excelente potencial, não foi conduzida da melhor forma possível. A ideia de acontecimentos não serem exibidos cronologicamente lineares, além de não ser original, foi mal executada. Acabou por tornar o filme um pouco confuso, mas principalmente, nos deixa com aquele sentimento de que o filme vai engrenar a todo o momento, mas o mesmo não acontece.
       Já as atuações de Christopher Plummer e Melaine Laurent foram excelentes, mas nada espetacular. Plummer interpreta um senhor gay simpático, que nos causa inclusive certa simpatia, mas nada de extraordinário, ao contrário de suas infinitas premiações recebidas. Ao menos para mim, criei grande expectativa por sua atuação, e acabei decepcionado. Talvez suas premiações sejam para coroar sua excelente carreira, mais do que esta atuação específica. Já Ewan McGregor, não fez nada digno de destaque, mas tampouco compromete o filme. O cachorro até traz certo poder cômico para o longa, mas longe do impacto obtido, por exemplo, no filme OArtista.
            As histórias, apesar de apresentarem um certo drama familiar e pessoal ao longo do filme, não dão profundidade aos personagens, e nem mesmo contribuem para explorar a ideia de novas formas de amor que todos procuramos nas nossas vidas. Uma excelente ideia, mas mal executada, tornando um filme com grande potencial, algo normal e ordinário. 
Nota 73/100

sexta-feira, 9 de março de 2012

À Procura da Felicidade


Ficha técnica: The Pursuit of Happyness, 2006
Gênero: Biografia, Drama;
Direção: Gabriele Muccino
Elenco: Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton, Brian Howe, Kurt Fuller, James Karen.
 País: Estados Unidos.
Tempo: 117 min.
Idioma: Inglês


          Este é realmente um filme que vai nos emocionar, independente de você gostar dele ou não, pois a história pessoal em si é tocante e foi bem dirigida para este fim. Entretanto, é um filme carregado de clichês, e apesar de ser apresentada como baseada em fatos reais, algumas caracterizações são por demais exageradas, mas sem comprometer diretamente o filme.
            Ele trás Will Smith em sua melhor atuação até este ponto de sua carreira. Seu filho, Jaden Smith, também está muito bem, e a relação entre os dois é um dos pontos que carregam o filme de maneira muito positiva. Talvez a relação verdadeira de pai e filho tenha facilitado para os dois, pois o menino estava tendo sua estréia no cinema. A química entre os dois é excelente.
            Entretanto, o filme tem como pano de fundo a ideologia dos EUA como terra da oportunidade, em que todos, se desejarem e se esforçarem, conseguem ir atrás de seus sonhos (American Dream) e conquistar no mínimo um excelente padrão de vida. Essa é a ideologia neoliberal, tão forte no país, e causadora da crise econômica que sofreram os EUA durante a década de 1980, época em que se passa o filme.
        O filme ignora o fato de Chris Gardner (personagem de Will) ser negro, e apesar de ser algo importante. Talvez o fato de não ser mencionada a questão do racismo contribui para que o filme não tente abordar mais um aspecto que o deixaria muito mais longo, se o desejo fosse uma abordagem séria.
            Mas como já mencionei, não me agrada toda a ideia em torno da ideologia liberal. A suposição de que apenas precisamos nos dedicar muito ao trabalho para conseguir algo não condiz com a realidade. O protagonista é uma exceção, e não a regra. Todos os seus outros concorrentes não conseguiram o emprego, e se fosse esse o caso dele, teria afundado ainda mais a si mesmo e a família, em razão da busca por um sonho. Outro fato importante é que ele não foi remunerado pelo trabalho que fez, mostrando como as empresas se aproveitam da vulnerabilidade dos trabalhadores, se dando ao luxo de não pagar um centavo por um trabalho extremamente qualificado e importante que é feito por todos os concorrentes.
            Thandie Newton, que interpreta a mãe de Jaden Smith e ex-mulher de Will, desaparece no decorrer do filme, um ponto muito negativo. Procurou-se trazer uma imagem de pais binária, como se ele fosse o bom pai e preocupado com o filho, enquanto ela não se importava, mas esquecemos que ela trabalhava dois turnos e ainda cuidava do filho, enquanto Chris buscava o sonho. Um filme tocante, mas como mencionei, com clichês, e uma ideologia por trás no mínimo perigosa.

Nota 70/100

terça-feira, 6 de março de 2012

Histórias Cruzadas

Ficha técnica: The Help, 2011
Gênero: Drama;
Direção: Tate Taylor
Elenco: Viola Davies, Octavia Spencer, Emma Stone, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard, Sissy Spacek, Cicely Tyson, Ahna O'Reilly, Allison Janney, Mike Vogel, Chris Lowell;
País: EUA/Índia/EAU
Tempo: 146 min. 
Idioma: Inglês.

           É um filme muito ousado para a sociedade norte-americana, ainda que no século XXI e após elegerem um presidente afro-descendente. Ao tratar das condições em que viviam os negros no sul dos EUA, ele ataca diretamente o preconceito e racismo existente, implícito na educação da população caucasiana da região. As empregadas negras, que trabalhavam nas casas dos brancos, são o centro da história.
            Uma jornalista, Skeeter (Emma Stone), resolve contar suas histórias para publicar um livro, mas em segredo, para a segurança de todas (inclusive a dela). Obviamente ela estava visando também sua carreira, mas qual o problema de buscar uma ascensão profissional através de ações dignas de respeito e por causas justas? Cabe uma crítica (ainda que discutível) aqui pelo fato de as afro-americanas terem que ser “salvas” por uma branca, mas na realidade, foi um pacto de ajuda simultânea, pois Skeeter, bem como toda a comunidade caucasiana, também dependia dos serviços prestados pelos negros, mesmo que estes ainda não tivessem essa consciência coletiva.
            O filme demonstra bem como a questão das oportunidades não estão postas para todos de maneira igual, como tanto defendiam as mulheres brancas. Mostra como a situação dos afro-descendentes era cíclica, pois as mães, avós, bisavós, todas foram empregadas ou escravas, remontando à gravidade da escravidão e de como afetou de maneira negativa todos os afro-americanos, e afeta até hoje. Por isso, simplesmente sua abolição não foi e nunca será o suficiente; todas as sociedades em que tiveram a escravidão de algum povo por um período de tempo precisam de políticas assistenciais compensatórias, para tentar diminuir os irreparáveis danos feitos pela escravidão. E os EUA não são uma exceção.
            A obra de Tate Taylor também trás o preconceito em uma de suas formas mais fortes. Na cena em que a empregada de longos anos da família de Skeeter (interpretada de maneira comovente por Cicely Tyson) é expulsa da casa, sua mãe (Allison Janney, muito bem no filme), apesar de gostar dela e a tratar bem para os parâmetros da época e do local, demonstra vergonha em frente às amigas de não ter o preconceito que as demais tinham. A lógica que temos hoje é toda revertida, e as pessoas se envergonhavam de não demonstrar o nojento preconceito da época.
            As atuações são comoventes, todas excelentes. Stone surpreende, Jessica Chastain e Bryce Dallas Howard estão ótimas, Sissy Spacek faz uma ponta excelente, mas quem realmente rouba a cena são Viola Davis e Octavia Spencer. As duas demonstram uma excelente química, e carregam o filme com suas interpretações emocionantes e equilibradas, nos causando alegrias e tristezas. A personagem de Chastain é mais importante para a construção do filme do que aparenta. A princípio nos passa a impressão de ser uma pessoa superficial, que roubou o marido de uma amiga apenas por seus atributos “físicos”. Mas na realidade, se mostra uma excelente pessoa, não por ser ingênua (um pouco talvez), mas por ser livre dos preconceitos que toda as outras carregam. E isso, acima de tudo, deve ter lhe contado pontos para que o marido (Mike Vogel) tivesse trocado a intragável Hilly Holbrook (Howard) por ela. Um dos filmes mais impactantes do Oscar, e um dos melhores também, muito em razão da temática e do contexto estadunidense.

Nota 90/100

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Dama de Ferro

Ficha técnica: The Iron Lady, 2011
Gênero: Biografia, Drama;
Direção: Phyllida Lloyd
Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman, Harry Lloyd, Iain Glen, Alexandra Roach.
 País: Reino Unido, França.
Tempo: 105 min.
Idioma: Inglês


           O filme deve muito ao trabalho de Meryl Streep, que atuou como de costume, brilhantemente. Apesar disso, muitos criticaram sua atuação em razão da maquiagem pesada que esconde o ator (na minha opinião, um ponto forte do filme, pois a maquiagem está realmente excelente); também pelo fato de apenas ter imitado o sotaque e trejeitos de Thatcher, mas para mim isso também é importante, e parte de sua  excelente atuação. Digna de nota também foi a atuação de Jim Broadbent, veterano ator britânico que teve seus momentos no filme.
A película em si, apesar de uma excelente maquiagem e uma trilha sonora razoável, deixou a desejar. Seus cortes no tempo não foram bem colocados, deixando uma mistura de confusão com clichês. O fato do filme ser muito centrado na personagem principal e sua vida pessoal e luta pelo poder, lhe foi benéfico em partes, pois a atuação de Meryl foi ainda mais destacada. Entretanto, questões de como uma mulher chegou ao cargo político mais importante do Reino Unido (e como isso foi aproveitado pelas elites), dentro do partido conservador, foi apenas tangenciada; ou a dureza das políticas liberais e da Guerra das Malvinas – um palanque para reeleição e atitude imperialista, não foi tocada.
A impopularidade dela foi mostrada, mas como se fosse por estar fazendo a coisa certa; e sua queda foi mostrada apenas por perder apoio político (inclusive com ares conspiratórios no filme), mas não como fato de sua política econômica estar acabando com as vidas dos mais necessitados; o fato de ser inflexível, e a forma como nem seu próprio partido tolerou isso, foi retratado de maneira correta.
Tentou-se mostrar um lado humano da mulher que governou o país de maneira tão cruel, mas percebemos nas entrelinhas que nem seu próprio filho a apoiava, pois o fato de ter abandonado a família pelo trabalho tornou-a uma senhora solitária em sua velhice.Entretanto, este fato também pode ser usado para causar uma comoção com sua atual situação, além de ser retratada em uma casa de classe média.
Uma grande contradição foi apresentada para edificar o argumento do self-made man, pois ela tinha um pai que era pobre e conservador. Em torno de sua infância pobre ela justificava a teoria neoliberal, em que o capitalismo dava oportunidades para todos, com o terrível argumento de que só não cresce na vida quem não quer trabalhar, pois as oportunidades estariam postas igualmente para todos. Essas características atenuantes talvez se devam ao fato de fazer um filme sobre algo tão recente, de alguém que ainda está vivo.

Nota 71/100

Bonnie e Clyde - Uma rajada de balas

Ficha técnica: Bonnie and Clyde, 1967
Gênero: Biografia, Crime, Drama;
Direção: Arthur Penn
Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder
 País: Estados Unidos
Tempo: 112 min.
Idioma: Inglês

      Esta excelente obra de arte de Arthur Penn é inovadora em inúmeros aspectos. A violência, muito mais explícita nele do que em qualquer filme da época é uma de suas marcas, mas mesmo assim muitos classificam o filme como uma comédia. Na verdade, ele é sim uma comédia, mas no estilo humor negro que consagrou os Irmãos Coen (comédias de erros). Afirmo inclusive ser esse filme o precursor deste estilo no cinema hollywoodiano. E é este aspecto que torna um filme tão violento, extremamente interessante de se assistir e sem nos causar repugnância.
A mítica dupla de ladrões de banco no Texas durante os anos pós-crise nos EUA é retratada de uma forma que nos faz criar uma simpatia pelas personagens. Estão entre os primeiros anti-heróis do cinema norte-americano. Outra ideia por trás do filme, colocada de maneira sutil, um pouco ofuscada pelas fortes cenas e pela incomum relação amorosa dos protagonistas, é o fato de eles roubarem os bancos, seqüestrarem os agentes de segurança do Estado (Texas Rangers), mas não atacarem a população diretamente. Seriam esses atores sociais (grupos financeiros, bancos, o Estado), os culpados pela crise? Um questionamento que se mostra muito atual nos dias de hoje, principalmente nos EUA.
            As atuações são ótimas dos protagonistas aos coadjuvantes, todos estão impecáveis, e a química entre Warren Beatty e Faye Dunaway é ótima. Muito interessante também a questão da impotência de Clyde no início do filme, que vai contra todas as impressões iniciais causadas pelo galã, num estilo conquistador que esperávamos. Um dos melhores filmes que Hollywood já produziu, que todos deveriam ver.

Nota 98/100

domingo, 4 de março de 2012

A Árvore da Vida

Ficha Técnica: The Tree of Life, 2011
Gênero: Drama
Direção: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Hunter McCracken
País: Estados Unidos
Tempo: 139 min.
Idioma: Inglês


           Este filme de Malick pode ser considerado uma grande fusão de ideias, algumas bem executadas, outras nem tanto. Ele revela neste filme um lado religioso, talvez cristão, mas um pouco indefinido. Questionamentos clássicos como o porquê de estarmos aqui ou como chegamos estão presentes.
      Boa parte do filme mostra formações de cosmos, da vida, microorganismos e dinossauros. Parece-me mais uma mistura de Kubrick com documentários da BBC. De qualquer forma, são imagens impressionantes, diferente de efeitos especiais puros como Michael Bay ou Roland Emmerich. Neste filme, as imagens, acompanhadas de uma calma trilha sonora, dificultam inclusive acompanhar o monólogo que se passa. Ao mesmo tempo, ao meu ver, elas se estendem mais do que deveriam, fazendo-nos perder o raciocínio ou mesmo nos forçando a lembrar o porquê de estarmos vendo aquele “show” de imagens.
        A história nos confunde, mas percebemos que Sean Penn (em papel tímido) está num tempo presente, relembrando o passado, e percebemos que a pessoa que morre no início do filme, era um de seus irmãos. Ele sofre com o passado, e esse sofrimento é trazido para sua vida presente.
      Quando relembra o passado, o filme traz os conflitos familiares em que viveu. Brad Pitt, que está excelente no filme, é seu pai rígido e formal, que os educa tentando prepará-los para a vida. Mostra sua frustração por não ter seguido a carreira da música, e através da rígida disciplina, confunde os sentimentos dos filhos, entre o amor, medo, respeito e ódio. Já a mãe, Jessica Chastain, é o oposto; de uma leveza invejável, de muita fé, mas que se submete aos maneirismos do marido, que é o chefe da casa e da família.
         O filme, apesar de todas essas ideias, também recai em clichês, tédio e cenas desconexas, dificultando o entendimento. É necessário assisti-lo mais de uma vez, mas ao mesmo tempo, não é um filme tão agradável para ser ver mais de uma vez. O marido que perde o emprego e muda totalmente o futuro da família, adultos que tiveram problemas em razão da educação rígida na infância, sentimentos confusos dos adolescentes e suas rebeldias, todos esses fatos já foram retratados de diferentes e melhores maneiras no cinema. Um aspecto interessante do filme são as câmeras totalmente diferentes e inusitadas utilizadas por Malick. Ela parece nunca estar parada, e sempre com ângulos não-convencionais, mas excelentes.

Nota 72/100

sexta-feira, 2 de março de 2012

Meia-Noite em Paris

Ficha técnica: Midnight in Paris, 2011
Gênero: Comédia, Romance;
Direção: Woody Allen
Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Michael Sheen, Corey Stoll. 
País: EUA/Espanha
Tempo: 94 min. 
Idioma: Inglês, Francês e Espanhol. 

       O filme de Woody Allen tira bom proveito do lindo cenário que é a cidade de Paris, principalmente de noite. Causa uma surpresa agradável, para quem não estava inteirado dos encontros que o protagonista teria durante o período da noite. As conversas são agradáveis e divertidas, com algumas tiradas muito boas, principalmente para os grandes fãs dos escritores e artistas da época retratada. O tema da nostalgia (de algo que não vivemos), apesar de clichê, foi retratado de forma interessante e peculiar, e muito bem explorado ao longo do todo o filme. Esse sentimento de que o "antigamente" era mais agradável, de que a época de Ouro sempre já passou foi o que guiou muito bem a o filme. 
          A atuação de Owen Wilson foi boa, apesar de nada espetacular, não comprometeu. Marion Cotillard roubou a cena em todos os seus momentos, em que somente seu olhar já nos fazia grudas os olhos na tela. Rachel McAdams teve um papel por demais caricaturesco, carregado de estereótipos. Apesar de ser um contraponto importante para a história, seu noivado com a personagem de Wilson não fazia sentido algum, o que me causou estranheza, visto que estavam às vésperas do casamento.  Talvez esse fosse o objetivo, mas foi retratado de forma muito caricaturesca e até descontextualizada, sendo um ponto em que o filme realmente derrapa. 
          Já o aparecimento de grandes artistas da época retratada foi muito boa, causando inclusive risos e muita diversão, com um humor inteligente, e mostrando bem o estilo de Woody Allen.  A semelhança a Vicky Cristina Barcelona, em determinados aspectos, também chama a atenção - algumas críticas ao "modo de vida burguês", apresentado de maneira um tanto caricata pela família da personagem de McAdams.

Nota 79/100