terça-feira, 22 de maio de 2012

Doutor Jivago

Ficha técnica: Doctor Zhivago, 1965
Gênero: Drama, Romance, Guerra;
Direção: David Lean. 
Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Alec Guinness, Rod Steiger, Tom Courtenay, Jeffrey Rockland. 
País: Estados Unidos, Itália.
Tempo: 197 min.
Idioma: Inglês e Italiano.

      David Lean é daqueles diretores que produzem épicos do cinema – grandes orçamentos, produção luxuosa. Um precursor talvez de Spielberg ou Cameron. Este filme, que tem mais de três horas de duração, talvez seja sua maior produção. A fotografia do filme é fantástica, bem como as paisagens; a trilha sonora é linda, grandes atores – enfim, todos os elementos de uma grande produção tecnicamente perfeita de Hollywood.
       Já a história em si, nos lembra um pouco filmes como Casablanca e E o vento levou..., grandes histórias de amor em tempos de difíceis de guerra. Mas obviamente, tem sua originalidade, pois o pano de fundo da participação russa na I Guerra Mundial e a subseqüente revolução no país era um tema (e talvez ainda o seja) pouco retratado no cinema ocidental.
       A história, no entanto, toma um claro posicionamento político anti-bolchevique. Mostra muitas das atrocidades e violência do regime, mas tampouco é favorável ao czarismo, pois nos foi mostrado no início do filme a repressão sanguinolenta da polícia contra os pacíficos manifestantes. Apesar da impressão de que o regime bolchevique levou o país a miséria, não foi isso que ocorreu, e se for prestada a devida atenção ao filme, podemos perceber que a vida na Rússia já era muito difícil antes, e o próprio envolvimento na guerra com a Alemanha é questionável (envolvimento este que foi uma decisão do governo czarista).
       As críticas ao regime dos bolcheviques talvez estejam exageradas em alguns momentos, mas são válidas e não podem ser ignoradas. O que talvez tenha faltado foi uma discussão ou análise um pouco mais profunda do contexto histórico, visto que o filme teria condições de realizar isso nas mais de três horas de história. Mas independente da opinião política do diretor, o filme possui um roteiro bem amarrado, que lhe garante uma boa consistência.
       Omar Sharif está muito bem no filme, bem como Christie, Chaplin, Steiger, Guinness e os demais atores. A sua grande incerteza durante o filme é que o guia, além de suas convicções políticas e tentativas por parte do governo de suprimir a individualidade do país – talvez a crítica mais feroz do filme. E por isso é que ele sai retratado como heroi – afinal, manteve sua individualidade até o final. Essa posição agradaria inclusive aos espectadores mais conservadores, que poderão ignorar facilmente o fato de ele ter traído a esposa que estava grávida.
       Enfim, um filme que poderia ter seu tempo reduzido – mesmo com as maravilhosas paisagens e uma excelente história, as mais de três horas me pareceram um exagero. Não devemos encarar o filme como a pura verdade sobre o regime bolchevique, mas podemos observar a fragilidade do ser humano em grandes acontecimentos históricos – guerras, revoluções, etc. Acima de tudo, um clássico do cinema que deve ser visto, respeitado, ainda que possa e ao meu ver deva ser criticado.
Nota 84/100

segunda-feira, 21 de maio de 2012

50%

Ficha técnica: 50/50, 2011
Gênero: Drama, Comédia;
Direção: Jonathan Levine. 
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas-Howard, Anjelica Huston, Serge Houde, Matt Frewer, Philip Baker Hall. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 100 min.
Idioma: Inglês.

    Uma comédia sobre câncer sempre vai lidar com temas que estão extremamente distantes do que podemos considerar cômico, e por isso esse é um filme ousado. Apesar da ousadia, não é totalmente original – comédias sobre situações trágicas, como doenças, também são comuns.
      O filme traz muitos das dificuldades enfrentadas por pacientes que sofrem com câncer, principalmente os danos psicológicos causados pela doença. E mesmo assim, ele o faz rir em diversos momentos. Há um excelente equilíbrio entre os momentos de drama e comédia, e este talvez seja um dos dois pontos mais fortes do filme.
O outro aspecto positivo é a atuação de Joseph Gordon-Levitt. Apesar de um bom elenco de apoio, ele é o centro do filme, e que o carrega de maneira agradável para o espectador, mesmo um tema denso como o nele tratado. As dificuldades de aceitação da doença, de conviver com ela, e principalmente de seus parentes e amigos mais próximos lidarem com isso foram muito bem apresentadas. Não há formula para casos assim, cada pessoa lida de uma maneira, com um determinado contexto, e o filme não tenta apresentar qualquer forma fixa. E sob esta ótica, foi muito interessante o que nos mostrou – a maior dificuldade de lidar com a situação foram para os amigos e parentes. 
O fato de sua namorada o trair e o largar enquanto enfrentava a doença talvez seja mais comum em casos como este do que imaginamos, e nos faz criar uma simpatia ainda maior pelo personagem principal. A difícil relação com mãe também nos mostra que nem sempre, em casos graves como este, pequenas coisas sejam facilmente superadas. Já as conseqüências físicas do tratamento da doença, ao meu ver foram atenuadas, principalmente num caso tão grave como o dele. Mas isso não tira a qualidade do filme, e talvez até tenha sido necessária para manter o estilo cômico.
      Howard também está muito bem no filme, e na minha opinião, a melhor coadjuvante ao lado de Kendrick. Esta fez uma papel parecido com o seu em Amor sem Escalas – uma recém-formada promissora lidando com uma situação que ela deveria estar preparada para enfrentar, mas descobre não estar. Rogen e Huston estão um tanto caricatos ao meu ver, mas não comprometem o filme – e ele ainda nos faz rir bastante. Uma menção honrosa aos dois atores que fizeram os companheiros de quimioterapia, nos proporcionando excelentes momentos.
        Um tema delicado trazido pelo filme, e que ao meu ver lhe conta pontos positivos, foi a questão das drogas – mais especificamente a maconha. Na minha interpretação, o filme faz uma ligeira defesa da legalização da maconha, pois nos mostra como os doentes a utilizaram de maneira positiva e saudável, na medida do possível. Se ela realmente faz bem em alguns casos, é uma extensa discussão, com divergentes opiniões, mas é bom nos fazer pensar realmente sobre este fato.
       Outro aspecto que me agradou foi o fato de sua terapia ter sido um completo desastre – com exceção dos momentos em que, ao invés de agir como terapeuta, a personagem de Kendrick era uma amiga. Não sei se foi essa a intenção do diretor, mas me fez pensar em até que ponto essas ajudas distantes e sem ligação alguma podem realmente ajudar. Um bom filme, que apesar de simples, me agradou e me surpreendeu por me levar a alguns questionamentos.
Nota 81/100

domingo, 20 de maio de 2012

Cidade de Deus

Ficha técnica: Cidade de Deus, 2002
Gênero: Drama, Crime;
Direção: Fernando Meirelles. 
Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Alice Braga, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Michel de Souza, Roberta Rodrigues, Luiz Otávio, Darlan Cunha, Renato de Souza, Gero Camilo, Charles Paraventi. 
País: Brasil, França.
Tempo: 130 min.
Idioma: Português.

      É um filme de grande motivo de orgulho e decepção para nosso país. Orgulho para nosso cinema nacional, pois é um filme excelente, e muito próximo da realidade; a decepção também é pela história retratada ser tão próxima da realidade.
   Este é o melhor longa de Meirelles, e também o que o lançou ao cinema mundial como um dos melhores diretores da atualidade. Cidade de Deus nos mostra uma realidade muito violenta, e apesar das fortes cenas, elas não são de conteúdo apelativo, e há um enredo e contexto que envolvem essa violência retratada no filme.
  O início do filme, que marca também o “surgimento” do crime na Cidade de Deus, um bairro distante dos principais cartões postais do Rio de Janeiro, feito para a uma classe baixa, que revela uma certa ausência do Estado, com exceção de sua face violenta.
   O filme nos lembra em partes as produções norte-americanas sobre a máfia italiana, em razão da violência e das disputas entre as gangues. Com diversas cenas pesadas e chocantes, não somente pelos crimes ali apresentados, mas também em razão do fato de os criminosos não terem mais de 25 anos, sendo muitos deles ainda crianças. Esse fato se deve, em grande parte, ao nível da violência sobre o qual todos ali vivem, ou na verdade sobrevivem, que lhes dá uma baixíssima expectativa de vida.
   No entanto, este filme vai mais além da grande parte dos filmes de máfia. Ele nos mostra a origem de muitos dos problemas ali apontados, o descaso com que comunidades como a CDD são tratadas, desde os diversos problemas de infraestrutura (asfalto, eletricidade, escolas, desemprego) até a perversidade do sistema, preconceito e a falta de opções, não somente para as crianças.
   O ciclo de violência que marginaliza as crianças e as introduz ao mundo do crime é apresentado de maneira crua, brutal e muito real, mas também podemos observar a dificuldade enfrentada por aqueles que não desejam ser parte desse mundo, mas acabam arrastados para dentro ele (Mané Galinha) ou são afetados por ele (família de Buscapé). O desprezo com o qual a vida humana é tratada também é chocante.
As dificuldades enfrentadas pelo protagonista deixam patente a questão da desigualdade e perversidade do sistema em que vivemos; devemos pensar sim nele como um exemplo, mas ele é apenas a exceção que confirma a regra. Não vivemos numa sociedade em que as oportunidades estão postas de maneira igual para todos, nem mesmo semelhantes. Somos em grande parte, conseqüências dos contextos em que nascemos, com um reduzido número de escolhas, e por isso, somos todos responsáveis por seus diversos aspectos.
Os atores escolhidos para o filme estão excelentes. Selecionados por um projeto criado para o filme, são em sua grande maioria amadores e moradores das comunidades em que o longa foi filmado, e talvez por isso tenham dado tanta naturalidade e força aos personagens. Os poucos profissionais estão muito bem também – Nachtergaele, Braga, Seu Jorge.
A trilha sonora do filme é impecável – não somente pelas músicas escolhidas (Tim Maia Racional, Seu Jorge, Cartola, Raul Seixas, Simonal) mas também pelo fato de muitas delas terem origem e retratarem as comunidades carentes da cidade. Enfim, uma grande produção, brilhantemente dirigida e conduzida, que todos os brasileiros deveriam ter a obrigação de assistir, talvez o nosso melhor filme nacional.
Nota 100/100

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Closer - Perto Demais

Ficha técnica: Closer, 2004
Gênero: Drama, Romance;
Direção: Mike Nichols. 
Elenco: Jude Law, Julia Roberts, Clive Owen, Natalie Portman. 
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 104 min.
Idioma: Inglês.

    Este é mais um tiro certeiro de Mike Nichols. Um filme excelente, e o excelente e reduzido elenco é uma de suas melhores armas, pois há como trabalhar a profundidade dos quatro protagonistas da história e de como se relacionam.
    Os atores estão ótimos. Evidentemente, Natalie Portman rouba a cena, mas seu papel lhe possibilita esta atuação mais forte, assim como Clive Owen, que talvez tenha feito deste seu melhor trabalho até agora, mesmo não sendo seu melhor filme (Sin City torna a escolha difícil). Julia Roberts está muito bem no papel, totalmente adequada ao personagem. Law também faz um excelente trabalho. É também pela atuação destes quatro que o filme é tão bom, pois exige muito deles. Os diálogos são excelentes, com os tons de humor e agressividade exatos, talvez uma característica inerente de uma boa peça de teatro, que deve ser imprescindivelmente aproveitada quando adaptada ao cinema.
     O filme nos mostra os casais que se conheceram de forma inusitada, e têm muita intimidade na relação, ao falar abertamente de sexo e sentimentos. No entanto, ao longo do filme, vão aparecendo mentiras, traições, desinteresse, mágoas, desrespeito, entre outros problemas da vida conjugal. A visão de ser humano apresentada no filme é bem negativa, e o que talvez torne o filme um tanto perturbador é a aparente proximidade com a nossa realidade.
  Os personagens vão tendo seu caráter, moral e dignidade destruídos ao longo dos relacionamentos, ao menos para os padrões de nossa sociedade ocidental. Os aparentemente adultos e maduros casais agem de maneira cada vez mais imatura e hipócrita a cada ataque que sofrem em seus egos infantis. Ao final, os dois “largados” no meio da trama acabam saindo por cima, mas talvez a única pessoa que termina o filme com dignidade seja Alice (Portman) – ou Jane Jones – uma dignidade possível para quem passou por tantas mágoas e humilhações. Justamente aquela que tinha a profissão moralmente condenável pela nossa sociedade, aquela que não tinha estudo ou ambições profissionais.
     O desfecho do filme é realmente excelente, quando Dan (Law) descobre que nem o verdadeiro nome daquela que ele julgava amar e conhecer tão profundamente ele realmente sabia – não que isso tivesse a menor importância. Todos ali aparentemente buscavam a felicidade, mas não sabiam lidar com ela, ou mesmo a reconheciam quando estavam em sua presença. E nessa busca, ironicamente acabaram infelizes. Mas o filme também nos mostra que essa sensação não deve necessariamente durar para sempre, assim como qualquer outro sentimento.

Nota 89/100

terça-feira, 15 de maio de 2012

A Fita Branca

Ficha técnica: Das weiße Band, 2009
Gênero: Drama, Suspense;
Direção: Michael Haneke. 
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Michael Kranz, Burghart Klaußner, Maria-Victoria Dragus, Leonard Proxauf, Rainer Bock. 
País: Alemanha, Áustria, França, Itália.
Tempo: 144 min.
Idioma: Alemão.

       Esse não é um filme ao qual podemos assistir com a cabeça na lua, conversando com o colega. Para que possamos compreendê-lo da melhor maneira possível, devemos estar atentos a todos os detalhes e principalmente, a todas as falas. E mesmo assim, ao final do filme, temos que parar e refletir um pouco sobre o que nos foi mostrado, pois é um filme muito denso, com algumas afirmações muito fortes.
    A história se passa num pequeno vilarejo no norte da Alemanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Conforme o mencionado no início do filme pelo narrador, os eventos que ali ocorreram poderiam explicar o que ocorreu com o país no futuro. Ele também afirma que muitos desses eventos não foram esclarecidos.
      A referência óbvia que o narrador menciona é o advento do Nazismo na Alemanha e os horrores provocados pela II Guerra Mundial. Haneke nos mostra uma sociedade patriarcal e machista, que pune todo e qualquer deslize através da violência, principalmente as crianças. As pessoas que seriam as líderes da comunidade são as mais detestáveis dentro de casa: o médico abusa sexualmente de sua filha e humilha a mulher que tanto lhe ajudou; o pastor trata os filhos na base da violência; o barão é indiferente aos sentimentos da esposa e do filho.
     Muitos dos elementos do nazismo, como autoritarismo, violência, extermínio dos considerados fracos (o menino deficiente é um exemplo evidente), a complacência silenciosa para com as ordens, a exploração e dependência de todos de um empregador abastado (no caso, o barão), dentre outros fatores, são os elementos apresentados pelo autor. Mas para que se explique o nazismo, teríamos que aplicar esta situação em toda a Alemanha, pois apenas um pequeno vilarejo não basta. E mesmo assim, outros fatores talvez ainda mais importantes estariam sendo desconsiderados: contextos sociais, políticos e econômicos.
     Assim, encarar os eventos que ali ocorreram como uma metáfora ou um retrato fragmentado do futuro alemão seria mais indicado do que a explicação para os horrores do nazismo. Mas fugindo desta tentativa de se compreender o inexplicável, também temos a interessante análise psicossocial ali apresentada. Os crimes que acabam sem uma resolução dão a entender, através da interpretação do professor, que foram cometidos pelas crianças. Os pais que puniam as crianças pelos seus erros também cometiam seus abusos e crimes, todos muito maiores. Assim, as próprias crianças passaram a puni-los por isso. Essa é minha interpretação, e como os crimes não foram desvendados, talvez não fossem as crianças, mas com certeza, esse é um dos questionamentos colocados pelo diretor.
   O filme é muito bem amarrado em seu argumento, independente da tentativa de explicar o nazismo. Os atores estão todos excelentes, principalmente as crianças. A direção do filme também é ótima. A escolha pelo preto e branco foi muito acertada, e as tomadas, closes e momentos de escuridão são excelentes e perfeitos para o filme. A crítica neste aspecto fica com o fato de serem muitos personagens, e muitas vezes confundirem os espectadores, principalmente no início, tornando difícil identificar os personagens.
      Um filme excelente, mas que seu argumento não deve ser encarado como a única explicação para o que viria a acontecer na Alemanha no futuro. Entretanto, muitos dos elementos ali postos com certeza contribuíram para o desenrolar da história.
Nota 95/100

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Bastardos Inglórios

Ficha técnica: Inglourious Basterds, 2009
Gênero: Aventura, Drama, Guerra;
Direção: Quentin Tarantino. 
Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Watlz, Eli Roth, Diane Kruger, Michael Fassbender, Daniel Brühl, Til Schweiger, August Diehl, Jacky Ido, Sylvester Groth, Gedeon Burkhard, Martin Wuttke, Michael Bacall, Omar Doom
País: Estados Unidos, Alemanha.
Tempo: 153 min.
Idioma: Alemão, Francês, Inglês, Italiano.

       A grande diferença desse filme para outros que tratam da II Guerra Mundial e mais especificamente de Hitler, é que este nós não conhecíamos o final! Essa foi uma das grandes sacadas de Tarantino para Bastardos, e quando chegamos ao final, acredito que praticamente todos ficaram boquiabertos, ou ao menos surpreendidos.
       O elenco todo trabalhou muito bem. Pitt (um excelente sotaque), Laurent (em praticamente todas as cenas mais tensas do filme, sempre espetacular), Kruger, Roth, Fassbender e Brühl estavam todos muito bem, mas que realmente rouba a cena é Christoph Waltz. Ele realmente conseguia nos levar à beira do pânico, e ainda sim, nos fazia rir, um pouco pelo nervoso, mas também pela piada em si – com certeza ele facilitou muito o trabalho de todos que contracenaram com ele.
      A direção e produção do filme também está muito boa. Tarantino diminuiu um pouco as cenas de violência, que são umas de suas marcas, mas elas ainda estão presentes em diversos momentos do filme. Os diálogos são sempre interessantes e intensos, e algumas das comparações que ele faz são muito interessantes. Ao colocar um cinema cheio de nazistas rindo descaradamente em razão dos feitos do heroi nacional, interpretado por Brühl, Tarantino cria uma ironia que talvez não seja percebida por todos. Ao mesmo tempo em que achamos um absurdo os alemães rirem de uma matança como aquela, a maior parte da audiência provavelmente riu e se divertiu com as mortes provocadas pelas tropas de Aldo Raine (Pitt) e o grande desfecho do filme.
        Mas o filme também não é perfeito, afinal, a perfeição é algo muito particular. Ao comparar esquilos e ratos, Landa (Waltz) me parece afirmar que todos são capazes de cometer as atrocidades feitas pelos alemães. Eu acredito que sim, essa terrível característica dos seres humanos não é uma peculiaridade dos nazistas, muito menos dos alemães. É um traço que infelizmente está presente em toda a história humana, inclusive no caso dos judeus – é comprovado que Israel já matou inúmeros civis na Palestina (inclusive crianças). 
Assim, a menção de que todos podem cometer esses crimes talvez seja verdadeira, mas o contexto histórico não pode ser ignorado, pois ele é fundamental nessas situações. Não estou aqui defendendo nazistas, acusando alemães ou judeus – apenas apontando a complexidade dos assuntos, mas que não diminuem a grandeza do filme.
 Os momentos de tensão no filme são muito bem dirigidos, com atuações excelentes – a primeira cena em que Landa mata a família de Shosanna, o jantar em que ela reencontra o coronel, e mesmo a grande troca de tiros no bar. Todas as cenas, bem como o filme todo, formam com certeza um dos melhores filmes de Tarantino.
Nota 92/100

domingo, 13 de maio de 2012

Avatar

Ficha técnica: Avatar, 2009
Gênero: Aventura, Ação, Fantasia;
Direção: James Cameron. 
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Joel David Moore, Giovanni Ribisi, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao. 
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 162 min.
Idioma: Inglês, Espanhol.

      Se você tiver alguns bilhões sobrando, e deseja multiplicá-los, chame James Cameron. Ele sabe como fazer filmes com orçamentos gigantescos obterem bilheterias ainda maiores, mesmo que o filme não seja muito bom. Avatar é esteticamente perfeito – os efeitos especiais são maravilhosos, os cenários criados, cada detalhe minuciosamente pensado e colocado em prática.
     Já com a história e o elenco, a situação muda um pouco de figura. O protagonista não é nem um pouco carismático, não há química entre ele e a história, com os personagens, com nada. Deixou muito a desejar, e talvez sua salvação e a do filme também é que mais da metade do tempo ele estava numa fantasia azul, que talvez tenha atenuado sua inabilidade em produzir qualquer emoção nos espectadores. Já para Zoe Saldana, a situação talvez tenha sido inversa. Caso não passasse o filme inteiro sob os efeitos especiais e a fantasia azul, seus esforços seriam mais reconhecidos. Mas isso não é uma certeza tampouco.
       O elenco de apoio não fez nada por merecer um grande destaque. Weaver trabalhou bem, Michelle Rodriguez fez seu papel de sempre: de Michelle Rodriguez, uma sedutora e perigosa mulher com princípios inabaláveis e atitudes questionáveis. Lang como o coronel está caricato demais, totalmente superficial - mais do que o restante do elenco, que também está totalmente superficial, assim como o próprio filme. Já os que atuaram como conterrâneos da personagem de Saldana são difíceis de analisar.
       A história por sua vez, traz uma mensagem, ou até mais do que uma, que seriam importantes, não fosse o excesso de clichês. A questão do meio ambiente é patente, principalmente a crítica pela busca por petróleo por parte do governo dos EUA. Outra questão presente é a simbologia da colonização, sobre o que foi feito com a América e demais regiões do mundo colonizadas. No entanto, essas críticas são superficiais, e totalmente tomadas pelos clichês e previsibilidade do filme. Um heroi de guerra que chega para estudar o inimigo e acaba por se envolver com eles, apaixonar-se pela mocinha e líder do grupo, e trai seus "irmãos" já está mais do que batido no cinema: Dança com Lobos e O Último Samurai são apenas alguns dos exemplos de filmes melhores com a mesma situação.
      A questão de uma história de amor na guerra também é corriqueira, bem como todo seu desenrolar e a virada final obtida. A divisão maniqueísta entre bem e mal no filme, com o mal encarnado principalmente na pele do coronel, e os interesses do lucro no personagem de Ribisi são por demais exagerados.Militares e grandes corporações, que foram simplesmente vencidas pelos nativos - talvez uma utopia.
      Enfim, um filme com uma mensagem válida, mas que vale muito mais pelos seus efeitos especiais do que por seus questionamentos ou grandes atuações. Outro ponto positivo foi a estréia do 3D, que pelo jeito veio para ficar e engordar diversas bilheterias mundo a fora, algumas fazendo jus ao alarde sobre seus efeitos especiais, outras apenas para aumentar os preços das entradas e engordar a carteira dos produtores.
Nota 70/100

sábado, 12 de maio de 2012

Tão forte e Tão Perto

Ficha técnica: Extremely Loud & Incredibly Close, 2011
Gênero: Drama, Aventura;
Direção: Stephen Daldry.
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max von Sydow, Zoe Caldwell, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman. 
País: Estados Unidos.
Tempo: 129 min.
Idioma: Inglês.

    Os EUA têm uma vasta produção de determinados eventos históricos que marcaram tragicamente sua história: holocausto, Vietnã, Iraque, entre outros. O 11 de setembro é mais um desses eventos. No entanto, como também é uma marca desses eventos, pouquíssimas autocríticas sobre esses eventos são feitas pelos filmes.
      Um dos questionamentos do filme é o motivo do atentado, que não fazem sentido. É uma das questões levantadas pelo protagonista, que perdeu seu pai no terrível dia. Essas atrocidades não são justificáveis, não fazem sentido, mas ao longo da história, estão cada vez mais claras e ao mesmo tempo obscuras. Os autores dos atentados, a maneira como foram planejados, destroços de aviões não encontrados, entre outros pontos, tornam este atentado uma das coisas mais inexplicáveis da história. Mas tomando a história do governo como oficial, também não há este tipo de questionamento por parte do filme.
      As vítimas do atentado foram as pessoas que perderam suas vidas e seus entes queridos, como o filme mostra o sofrimento destes. Mas as instituições estadunidenses não estão isentas de culpa, muito pelo contrário. É isto que muito me incomoda no filme. A história poderia ser sobre qualquer criança que perde seu pai, mas o foco nos atentados enfraquece muito do filme, tentando mostrar a empatia do povo pelos que sofreram com isso.
  Os atores estão muito bem, principalmente os coadjuvantes. O jovem protagonista é sobrecarregado, e talvez por isso o filme não tenha me agradado muito neste aspecto de atuação. Max von Sydow está muito bem, mas seu papel é totalmente inútil. Ele entra e sai do filme, e é como se nada tivesse acontecido, além de sua misteriosa identidade ser totalmente previsível.  Bullock também está muito bem no filme, assim como Hanks. Viola Davis realmente trabalhou muito bem, mostrando a consistência de seus trabalhos recentes, ainda que tenha atuado por pouquíssimo tempo.
     Enfim, um filme sobre uma tragédia, tratada de maneira superficial e parcial, além de não fugir de qualquer lugar comum. Ao meu ver, outro erro foi deixar que o jovem ator Thomas Horn carregasse o filme todo. Mas este filme com certeza caiu no gosto dos estadunidenses, pois uma tragédia tão recente, tratada de maneira humana apesar dos inúmeros defeitos apontados por mim. Eles certamente são simpáticos ao sofrimento dos que perderam entes queridos, e deveriam ser. E isto irá emocioná-los, e o filme provavelmente irá reavivar o sentimento de vítimas e justificar tudo que ocorreu após os atentados. Mas não os levará a questionar que são os verdadeiros culpados por tudo isso.
Nota 48/100

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Invenção de Hugo Cabret

Ficha técnica: Hugo, 2011
Gênero: Drama, Aventura;
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloe Grace Mortez, Sacha Baron Cohen, Helen McCrory, Emily Mortimer, Jude Law, Christopher Lee, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour, Richard Griffiths, Ray Winstone.
País: Estados Unidos.
Tempo: 126 min.
Idioma: Inglês.

         Ao assistir esse filme em casa, eu tive uma grande decepção: não ter conseguido ir vê-lo no cinema, em 3D. O filme é esteticamente perfeito, com cenários de tirar o fôlego mesmo assistindo em casa numa televisão comum. O que dirá na grande tela, com todos os efeitos pensados pelo mestre Scorsese.
         Talvez o melhore filme para família, com um excelente apelo infantil, feito nos últimos anos, se não forem consideradas as animações. O cenário é ótimo, os atores estão excelentes. O protagonista, Asa Butterfield, está ainda melhor do que no Menino do Pijama Listrado; Sacha B. Cohen encontrou um equilíbrio perfeito entre o cômico e caricaturesco e ao mesmo tempo sério e comovente, dando uma paixão irretocável ao filme. Kingsley também está muito bem, e somente Moretz que deixou um pouco a desejar, soando artificial algumas vezes. Os demais coadjuvantes estão excelentes em suas pontas, mesmo que alguns com pouquíssimas falas.
          O roteiro do filme é fantástico, merecendo ainda mais destaque do que o elenco ou efeitos visuais e produção. Em primeiro lugar, a referência ao início do cinema, e principalmente pela homenagem à Georges Méliès, que apesar de quase ninguém conhecer, todos já ouviram falar ou ao menos conhecem sua famosa imagem da lua atingida no olho. A homenagem é linda, e feita de forma um tanto irônica: um filme com todos os recursos disponíveis atuais, utilizando 3D e tudo que tem direito, se referindo e homenageando o início do cinema, inclusive aos inventores que dão nome a este blog.
          Outro ponto apontado, mas pouco explorado pelo filme, são a vida de crianças de ruas, órfãos, e os horrores da guerra. Não acho que o viés do filme deveria abordar a fundo estes aspectos, e por isso apenas essa menção me agradou. Assuntos pesados, que apesar de Scorsese saber lidar com eles muito bem, acabariam mudando o público-alvo. Mas o fato de uma guerra ter acabado com uma arte, a forma como tratamos e enxergamos crianças de rua, além da dificuldade que um órfão enfrenta estão todos presentes de forma latente no filme. E nada no filme nos impede, na verdade me estimulou, a pensar profundamente sobre essas questões.  
Interessantes também foram as disputas na temporada de premiações do cinema, estadunidense principalmente, entre Hugo e O Artista. Hugo nos traz uma referência ao cinema em sua época que era talvez a mais pura no sentido de arte, em que a criatividade de todos envolvidos na produção de um filme deveria aflorar de maneira muito forte, nada parecido com o que temos hoje. A curiosidade de hoje é que os recursos hoje talvez limitem muitas de nossas possibilidades, também as expandem simultaneamente. Mas é uma forma diferente, talvez mais afastada de um conceito de arte do período moderno. E mesmo assim, Scorsese fez desse filme uma obra de arte.
Nota 91/100

domingo, 6 de maio de 2012

Os Vingadores

Ficha técnica: The Avengers, 2012
Gênero: Ação, Ficção Científica, Aventura;
Direção: Joss Whedon.
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Samuel L. Jackson, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Stellan Skarsgård, Paul Bettany.
País: Estados Unidos.
Tempo: 142 min.
Idioma: Inglês.

     Para os fãs dos filmes da Marvel, o filme com certeza agradou. Ao mesmo estilo do Homem de Ferro, Capitão América e Thor, o filme conta com excelentes efeitos especiais e muita ação. É muito dinâmico, em que tudo acontece muito rápido, e a única coisa que o filme tem mais do que cenas de ação são as piadas.
      Os atores são bem carismáticos, e essa megaprodução, apesar de provavelmente quebrar muitos recordes de bilheteria, não chegou perto de superar os filmes do Batman dirigidos por Christopher Nolan. As piadas constantes tiram muito da pouca seriedade que o filme possui, além de ser totalmente maniqueísta na divisão entre o bem e o mal, e recheado de clichês.
      Os efeitos em 3D realmente me agradaram, e apesar do roteiro fraco e previsível, o diretor encontrou um bom equilíbrio entre os heróis do filme, todos compartilhando o centro das ações. Para aqueles que já haviam assistido aos filmes anteriores dos super-heróis, acredito não haver grande surpresas, mas tampouco saíram decepcionados. As minhas expectativas foram atendidas, mas elas eram incrivelmente baixas. Ao menos o filme foi melhor do que as historias individuais de cada um, com exceção do Hulk.

Nota 56/100