sábado, 30 de novembro de 2013

Bruna Surfistinha

Ficha TécnicaBruna Surfistinha, 2011.
Gênero: Biografia, Drama.
Direção: Henry Selick.
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Cristina Lago, Guta Ruiz, Fabiula Nascimento.
País: Brasil.
Tempo: 131 min. 
Idioma: Português.

     Um filme sobre uma menina que deixa a casa dos pais e sua vida de garota de classe média para entrar no mundo da prostituição, independentemente do livro em que se baseia, tem potencial para um bom filme. Uma pena que tenha ficado apenas no potencial, com pouca coisa interessante sendo incorporada.
      Contudo, o longa fica na “saga do indivíduo martirizado”, sem apontar questões estruturais e sociais que nos levam a tal caminho. Faz bem em, algum momento, principalmente no início, desconstruir aquela ideia romântica que muitos tem em relação à prostituição, mas no decorrer do filme, talvez isso não tenha ficado claro em razão de uma mudança de curso e postura da história, que pode inclusive prejudicar um dos poucos aspectos positivos deste trabalho.
    A atuação de Deborah Secco é mediana, sem nada de extraordinário – o que decepciona, tendo em vista que é a protagonista com cenas muito fortes. Drica Moraes faz um excelente trabalho, ainda que com pouco espaço. Os demais coadjuvantes não comprometem, ainda que não agreguem nada de novo.
   O filme explora bastante as cenas que envolvem sexo e drogas, mas ao tratar apenas como uma rebeldia de adolescente e depois consequências da “fama” e de uma vida de excessos, novamente fica raso. No entanto, não podemos afirmar que é decepcionante, tendo em vista que as intenções de realização do filme estavam claras, não criando grande expectativas neste sentido.

Nota 55/100

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Lado Bom da Vida

Ficha Técnica: Silver Linings Playbook, 2012.
Gênero: Comédia, Romance, Drama.
Direção: David O. Russell.
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles, Dash Mihok, Brea Bee, Paul Herman.
País: Estados Unidos.
Tempo: 122 min. 
Idioma: Inglês.


    Posso ter uma tendência em criticar essas comédias-românticas dramáticas, principalmente quando fazem tanto sucesso como este O Lado Bom da Vida. Apesar da minha amargura, o filme é bom, vai nos fazer rir – conta realmente com momentos hilários. Contudo, mantenho a posição de que as comédias, na forma com são feitas atualmente, em sua grande maioria, possuem uma limitação estrutural (de forma, conteúdo, polêmicas, público-alvo etc.) que dificilmente pode elevar tal filme a um outro patamar. Mas é possível, como mostrou o grande Kubrick em Dr. Fantástico.
Este filme foi um sucesso de público e nas cerimônias de premiação. Ainda que não tenha levado muitos prêmios, suas inúmeras indicações acabaram por contribuir ainda mais para seu sucesso nas bilheterias, e mesmo nas críticas realizadas, ninguém se atrevia a falar mal deste filme. Não que ele mereça tantas críticas, mas houve muito exagero. A constante nas premiações era Jennifer Lawrence, que no papel de Tiffany levou seu primeiro Oscar – e esta é a primeira prova de como o longa está superestimado. Ganhou de Emanuelle Riva (Amor), que teve de longe a melhor interpretação de todas as concorrentes. Talvez o fato de ser francesa tenha pesado contra.
As atuações são realmente muito boas – inclusive a de Lawrence, que está muito bem no papel. Mas não a ponto de ganhar tantos prêmios. Não foi algo soberbo, como vimos na própria Emanuelle Riva ou em sua conterrânea Marion Cotillard, por Piaf. Ganhou o Globo de Ouro de Meryl Streep, ainda que não seja um trabalho como A Escolha de Sofia ou A Dama de Ferro. Foi sim um trabalho excelente, que poderia ter sido utilizado para reparar algumas injustiças ou como reconhecimento de uma carreira sólida (o que ocorreu com Kate Winslet, ao vencer por O Leitor, que não está nem próximo de seus melhores trabalhos ou filmes). Mas uma atriz tão jovem, que tem uma boa atuação, é exagero. Melhor seria se tivesse ganho então por O Inverno da Alma – não que tenha sido uma atuação melhor do que a de Portman por O Cisne Negro.
Bradley Cooper realmente me surpreende, com excelente atuação. Jacki Weaver sólida novamente, bem como Robert De Niro. O quarteto dá grande força ao filme, sendo responsável em partes pelo grande alarde e atenção que recebe. A direção de David O. Russell está sólida novamente, mantendo o mesmo estilo que o tornou conhecido do grande público em O Vencedor. Trilha sonora sempre muito bem escolhida (Led Zeppelin sempre presente, ainda bem), mas ainda que tenha extraído novamente grandes atuações, em alguns momentos a troca de cenas e acontecimentos foi acelerada demais. Contudo, o fato de não ser um filme tão profundo acaba por não ser prejudicado por este tipo de situação.
Já o roteiro em si, é recheado de clichês, como toda comédia-romântica. Todos esperavam por um final feliz, que realmente ocorre, sem nenhuma grande surpresa. E ele consegue nos transmitir um pouco da dificuldade em lidar com doenças relacionadas a vícios, dependências e transtornos comportamentais. Logicamente, pelo fato de ser uma comédia, nem ao menos flerta com a realidade desta situação de fato, tratando tudo com muita leveza. Não é um erro ou defeito, apenas uma opção legítima dos produtores e diretores, mas que me conduz ao meu argumento original – estruturalmente, este gênero, neste formato pasteurizado hollywoodiano, acaba sendo limitado.
Apesar destas amargas críticas de minha parte, um filme que me divertiu muito, com uma das melhores cenas sendo a que surge a grande aposta final, em que Tiffany, perante a família, deixa de ser a louca viúva vadia que atrapalha a recuperação de Pat para se tornar a solução para todos os problemas, com base em “sólidos” argumentos sem lógica alguma. Algumas outras cenas, que em um drama tradicional seriam extremamente pesadas, também tornam-se hilárias, como o episódio do livro de Hemingway, as perseguições de Tiffany enquanto Pat tenta correr e os ensaios e danças de ambos, com participação especial de Tucker. O próprio Pat, ao falar constantemente e de forma quase doentia de sua esposa Nikki – uma das responsáveis pelo seu surto, juntamente com a preocupada porém perturbada família, ajuda a criar este clima cômico, visto que seus planos são cada vez mais mirabolantes.

Nota 81/100

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Se Beber, Não Case!

Ficha Técnica: The Hangover, 2009.
Gênero: Comédia.
Direção: Todd Phillips.
Elenco: Bradley Cooper, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Ed Helms, Heather Graham, Sasha Barresse, Ken Jeong, Rachel Harris, Mike Tyson, Mike Epps, Jeffrey Tambor.
País: Estados Unidos, Alemanha.
Tempo: 100 min. 
Idioma: Inglês.

    Acredito que após inúmeros posts e análises de filmes, minha posição com relação a este longa de Todd Phillips não seja uma surpresa. Afinal, já expressei minha opinião sobre comédias, política, preconceitos etc. Por isso, não me surpreendo ao assistir esse filme de estrondoso sucesso de bilheteria e críticas (as mais superficiais e comerciais) e considerá-lo terrível.
     O longa nos traz muitos clichês, humor questionável e pastelão, ainda que tenha alguns momentos que nos arranque alguns risos. Longe de ser uma comédia brilhante, nem mesmo me agrada como comédias mais inteligentes, mesmo as comédias-românticas (muitas vezes dramáticas) como 50% ou O Lado Bom da Vida, pois ela não trata de nada sério, e ao meu ver, tampouco nos traz alguma inovação, ainda que a questão de reconstrução do passado aos poucos seja relativamente nova no gênero.
   O elenco formado por atores desconhecidos do grande público é uma virtude, trazendo interpretações novas e trejeitos diferentes do que estamos acostumados, mas nada de grandes atuações, ainda que tenha servido para lançar todos à fama. A trilha sonora é interessante, mas a direção e muitos dos diálogos deixam a desejar. Mike Tyson foi uma grande sacada, de marketing principalmente.
    Talvez pelo fato de eu ter tido grande resistência para assistir o filme, e após a insistência de muitas pessoas, tenha criado alguma expectativa mínima, o filme revelou-se tudo que eu esperava antes de ser convencido do contrário: clichê, ruim e bem problemático em alguns aspectos.

            Nota 53/100

domingo, 10 de novembro de 2013

Um Dia de Cão

Ficha TécnicaDog Day Afternoon, 1975.
Gênero: Drama, Crime.
Direção: Sidney Lumet.
Elenco: Al Pacino, John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, Charles Durning, James Broderick, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Susan Peretz, Chris Sarandon, Judith Malina.
País: Estados Unidos.
Tempo: 125 min. 
Idioma: Inglês.

   Sidney Lumet fez uma das maiores estréias no cinema na cadeira de diretor com 12 Homens e uma Sentença. Quase 20 anos depois, ele demonstra que continua afiado, ao nos entregar Um Dia de Cão, filme baseado em fatos reais, contando a história de um assalto a banco e seus dois assaltantes.
    Como o filme é baseado em fatos reais, não podemos exigir que a história seria melhor se fosse alterada em seus acontecimentos. Lumet utiliza tal história para fazer diversas críticas à sociedade, por meio do protagonista Sonny Wortzik, interpretado de forma brilhante por Al Pacino. John Cazale também está excelente como o parceiro de Sonny no assalto, contrabalanceando o perfil expansivo e explosivo do amigo com seu tom introspectivo, tímido e ao mesmo tempo pouco menos preocupado com o bem-estar dos reféns.
   Dois aspectos do filme são mais claros, em termos de críticas: à mídia e à polícia. A televisão transforma este assalto em um reality show da vida real, enquanto que neste mesmo reality show, Wortzik critica a violência do Estado perante os cidadãos comuns, sob o preceito de garantir a lei e a ordem, combatendo o crime. Observamos também a busca por fama de muitos personagens que tentam aparecer, enquanto que a televisão julga e joga na tela toda a intimidade do assaltante, com revelações importantes como a questão do dinheiro para a mudança de sexo do namorado de Sonny.
   Podemos perceber também o despreparo dos dois perante toda a situação – desde a falta de sincronia (Sal – Cazale – é surpreendido tanto quanto qualquer outro com relação ao namorado de Sonny, o que o deixa ainda mais instável e inseguro). Algumas sutilezas também são utilizadas para criticar outros aspectos – como a declaração dos assaltantes de que eram veteranos do Vietnã e por isso matariam qualquer um sem problemas.
    Outro aspecto sutil é o valor do dinheiro e da propriedade mesmo perante a vida humana, e como a polícia, mesmo debaixo de uma chuva de críticas, mantém sua posição truculenta de criminalizar ao máximo os assaltantes, para se possível executá-los sem maiores problemas.
    O longa é muito bem dirigido e escrito, amarrado em todos os aspectos possíveis, além de nos manter atentos e sem definir de forma maniqueísta os personagens. Ainda que Wortzik esteja colocando a vida de muitos em risco, também podemos compreender seu lado, e inclusive torcemos para que ele e Sal resolvam da melhor maneira possível a situação que acabam por se meter.

Nota 91/100

sábado, 9 de novembro de 2013

Flores Raras

Ficha Técnica: Flores Raras, 2013.
Gênero: Biografia, Drama, Romance.
Direção: Bruno Barreto.
Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Marcio Ehrlich, Treat Williams.
País: Brasil.
Tempo: 118 min. 
Idioma: Inglês, Português.

     Somente o fato de o cinema retratar um triângulo amoroso lésbico de forma séria já representa um grande avanço e muita ousadia por parte de todos os envolvidos no projeto. E o fato de ele vir do cinema brasileiro me deixa ainda mais contente. Bruno Barreto faz um bom trabalho, e espero pelo fato de trazer atores estrangeiros para a produção, talvez ganhe ainda mais visibilidade, dentro e fora do Brasil.
      O filme que nos traz uma história de amor entre a arquiteta e paisagista Lota Soares (Glória Pires) e a poetisa estadunidense Elizabeth Bishop (Miranda Otto). As duas atrizes fazem excelentes interpretações e acrescentam muito à trama. Vale destacar também a atuação de Tracy Middendorf no papel de Mary, a companheira de Lota e amiga de Elizabeth, que é quem apresenta as duas e acaba sendo traída por ambas. Apesar do pouco espaço que ela tem no filme, nota-se que é importante história da vida de ambas, tomando parte deste relacionamento complicado que se desenha entre as três. Digna de nota também a semelhança entre o ator Marcello Airoldi e o ex-governador Carlos Lacerda. Foi interessante perceber somente após algumas aparições que era Lacerda um dos melhores amigos do casal.
       O longa tem a virtude de se utilizar de poucos clichês e não estereotipar muito as personagens. A forma superficial como é tratado o triângulo amoroso, como se o “término” do relacionamento entre Mary e Lota tivesse ocorrido de forma tão rápida e o início da história de amor com Elizabeth talvez esteja até amenizado, tendo em vista que deve ter sido muito pesado. E mesmo nos dois relacionamentos de Lota, podemos observar como uma opressão (que é muito semelhante à de gênero) está presente, geralmente tendo Lota como a opressora em quase todo o momento.
       O filme também não romantiza as personagens – mostra a dificuldade de Elizabeth em lidar com crianças (além da evidente traição da amizade com Mary, que buscava ajudá-la quando a convidou para vir ao Brasil); mostra como Lota apoiou o golpe militar no início (ainda que seja uma contradição tendo em vista sua orientação sexual) e ainda o fato de ter simplesmente comprado uma criança para manter Mary ao seu lado mesmo após o início do romance com Elizabeth. É também angustiante ver quanto Mary sofreu, vendo e convivendo com Lota e Elizabeth. Constrangimentos não faltaram.
       Com relação à questão política do filme, este talvez seja o seu maior defeito. A única crítica feita à Ditadura Militar e seu início foi a de Elizabeth no que tange à liberdade. Ou seja, uma estadunidense, cujo país foi o maior apoiador e entusiasta do golpe, veio dar uma lição de moral aos brasileiros com relação às liberdades. Um filme de posições tão vanguardistas em alguns aspectos acabou por ter uma posição conservadora neste caso.
      Apesar destes pontos fracos, é um bom filme, que possibilita ao público conhecer um pouco mais a história de ambas as personagens, que nos traz algumas reviravoltas de personalidade das protagonistas muito interessantes, mostrando uma intensidade constante por parte da arquiteta e muitas vezes alguma melancolia que era externalizada por meio da indiferença por parte da poetisa.



Nota 90/100

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Piaf - Um Hino ao Amor

Ficha Técnica: La môme, 2007.
Gênero: Biografia, Drama, Musical.
Direção: Olivier Dahan.
Elenco: Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Jean-Pierre Martins, Caroline Sihol, Marc Barbé, Pauline Burlet, Clotilde Courau.
País: França.
Tempo: 140 min. 
Idioma: Francês, Inglês.

   Mesmo que Edith Piaf não tivesse se tornado uma das maiores intérpretes francesas (e talvez do mundo) de todos os tempos, sua história de vida já seria digna de um filme. Tendo em vista que ela tornou-se o que tornou-se, merecia um filme ainda muito melhor do que este realizado por Olivier Dahan.
   O ponto alto do filme é Marion Cotillard – que revela-se uma das melhores atrizes de sua geração. Ela incorpora Piaf de uma tal forma que esquecemos que é uma atriz. Com sua atuação poderosa, realmente carrega o filme em seus momentos mais fracos, e evita que o mesmo torno-se um fracasso. O restante do elenco também está muito bem, mas chega a ser injusto para os demais ter que ser comparado com o trabalho de Cotillard neste longa.
   Somado a isso, a trilha sonora do filme tampouco poderia ser ruim. As belas músicas cantadas por Edith Piaf tornam-se ainda mais poderosas dentro do contexto em que nasceu e viveu. A maquiagem do filme também está impecável, enquanto que a fotografia, ainda que tenha tido a ótima ideia de vincular a pobreza às cores escuras, para contrastar com o auge da carreira dela, acabou se perdendo e muitas vezes dificultando a visualização do que se passava.
    O filme, apesar de longo, deixa de explorar muitas coisas da vida dela – utiliza a morte da filha como uma revelação final e surpreendente para os que não conheciam a história. E ainda que deixe subentendido, não aborda a questão da relação mãe e filha, da ausência da figura materna que Edith sofreu e replicou. Mas em geral, fica evidente o quão sofrida e difícil foi a vida da dela. Abandonada mais de uma vez enquanto criança, criada em ambientes não apropriados como as ruas, o abandono da avó materna, o circo e o pai bêbado (o que aqui deixo de fora o bordel em que a avó trabalhava, pois aparentemente foi amada e bem cuidada por lá, ainda que seja um ambiente tido como inapropriado).
   À dura infância, seguiu-se a carreira de cantora de ruas e cabarés, sendo sempre aliciada para que entrasse no mundo da prostituição. Até mesmo ao ser descoberta por Leplée, ainda enfrenta muitas dificuldades, e a situação somente piora após sua morte. Mesmo quando alcança seu auge profissional, com ótimos compositores lhe escrevendo músicas e com espaço na mídia, o filme transparece que a vida inteira ela sofreu. Muitas perdas de pessoas queridas, exposição extrema, saúde frágil, drogas e remédios demais – uma vida de excessos e ausências – extremos que a levam deste mundo ainda muito cedo.
   E talvez o grande paradoxo, a insistência dela, acima de tudo, em amar, bem como a paixão que tinha pela música. Contudo, a forma como nos foi contada tornou o filme confuso. O excesso de não linearidade da história, somado ao enredo confuso, dificulta ao telespectador compreender o que se passa. Até mesmo reconhecer alguns dos personagens torna-se uma tarefa difícil. Para mais de duas horas de filme, sentimos que muito do tempo não foi bem utilizado. E talvez esta direção e roteiros confusos venham a ter prejudicado o filme, que tinha tudo para ser um dos melhores do ano.

Nota 78/100

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Guerra Mundial Z

Ficha Técnica: World War Z, 2013.
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica.
Direção: Marc Forster.
Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Daniella Kertesz, James Badge Dale, Ludi Boeken, Matthew Fox, Fana Mokoena, David Morse, Elyes Gabel, Peter Capaldi, Ruth Negga, Sterling Jerins, Abigail Hargrove, Pierfrancesco Favino, Moritz Bleibtreu.
País: Estados Unidos, Malta.
Tempo: 116 min. 
Idioma: Inglês, Espanhol, Hebraico, Árabe.

   Após assistir à série The Walking Dead, que demonstrou como zumbis podem deixar filmes e séries interessantes e possibilitam realizar algo profundo, fica difícil não ser crítico a este filme de Marc Forster. Não me agradam zumbis tão ágeis como esses (afinal, são zumbis, lentos e incansáveis), ainda que não seja a primeira vez (em Eu Sou a Lenda temos a mesma situação), outros elementos pioram ainda mais a situação.
      O único personagem do filme é Brad Pitt. Não porque a Terra foi dizimada, e sim porque os demais não têm espaço, o foco é ele. Cenas violentas, qualquer tipo, foram cortadas, com pouco sangue, o que pouco condiz com uma situação apocalíptica de zumbis. Não nos envolvemos com a causa, com as pessoas, com nada.
    Talvez a grande expectativa que eu criei em relação ao filme tenha me deixado ainda mais crítico com o péssimo resultado obtido. Soluções sem pé nem cabeça são apresentadas, até que uma dá certo, e tudo será resolvido. Um final esperançoso para a humanidade, que foi destruída em 80%. As atuações são apagadas, inclusive a de Pitt e mesmo as cenas de ação, apesar de muitos efeitos especiais, mostram-se em alguns momentos sem propósito. Tentativas de se criar momentos de tensão são prejudicadas pela péssima qualidade do enredo.
   Um filme dispensável, entre os piores de 2013 – não acredito que a fórmula do apocalipse tenha se esgotado, mas nenhum destes filmes que foram feitos até agora com esta temática teve o mínimo de qualidade. Nem vou comentar sobre a questão dos muros em Israel, péssimo gosto, flertando com um tom preconceituoso.








Nota 50/100

domingo, 3 de novembro de 2013

Boogie Nights: Prazer Sem Limites

Ficha Técnica: Boogie Nights, 1997.
Gênero: Drama.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Don Cheadle, Heather Graham, Nicole Ari Parker, Luis Guzmán, William H. Macy, Joanna Gleason, Nina Hartley, Robert Ridgely, Philip Seymour Hoffman, Ricky Jay, Philip Baker Hall, Michael Jace, Thomas Jane, Alfred Molina.
País: Estados Unidos.
Tempo: 155 min. 
Idioma: Inglês.

     É inegável que Paul Thomas Anderson tenha uma característica própria de direção – dentre tomadas de câmeras longas e sem cortes, filmes longos, com diversas histórias paralelas (independente de serem todas conectadas ou não) e temas polêmicos. Além de utilizar de forma constante os mesmos atores e atrizes, o que para a sorte de todos, ele sempre escolhe bem.
     Boogie Nights é o filme que o lança em Hollywood, fazendo relativo sucesso. Isso de forma justa, tendo em vista que é um bom filme. É também um trabalho melhor do que o mais aclamado Magnolia, lançado dois anos depois. Contudo, continuo considerando que o diretor é superestimado. Não vejo nele a genialidade apontada por tantas pessoas, e sim a escolha de temas polêmicos com ótimo elenco (e bem dirigido, este crédito ele merece) e filmes muito longos.
     Neste aqui, ele retrata a ascensão, apogeu e queda de um ator no mundo pornô – Eddie Adams, ou depois, Dirk Diggler (Wahlberg). Um rapaz de 17 anos que em razão de seus atributos físicos e ótimas performances faz uma carreira meteórica na indústria pornográfica. Contudo, o envolvimento com drogas, o ego inflado, a imaturidade e a instabilidade emocional o fazem que também sua carreira entre em queda livre na mesma velocidade em que subiu.
     No início do filme me espantei com o glamour com que o cinema pornográfico é apresentado. Contudo, esta talvez fosse a forma com que Diggler via tudo isso. Após ser convidado pelo diretor Jack Horner (Burt Reynolds) para trabalhar em seus filmes, esse glamour vai se desconstruindo aos poucos. Temas como drogas, prostituição, violência, traições e ganância vão sendo inseridos no contexto, conforme os personagens que trabalham nesse meio vão sendo apresentados. Podemos observar a dificuldade de todos eles em se inserirem em outro meio que não o pornográfico, tendo em vista o preconceito que sofrem.
     Esta forma como é mostrada realmente é um dos pontos mais altos do filme, bem como as atuações. Wahlberg está realmente muito bem, e a transformação pela qual passa seu personagem é muito bem interpretada, sem exageros. Reynolds também faz um ótimo papel, que apesar de sempre tranquilo, revela seu lado descontrolado, quando sob pressão. Julianne Moore, na pele da atriz Amy Waves, também é um dos destaques – mostrando a dificuldade em exercer um papel de mãe em meio ao mundo caótico, e como isso vem a refletir de forma pesada em sua vida. Don Cheadle, Philip Seymour Hoffman, John C. Reilly, Heather Graham, Alfred Molina e William H. Macy também fazem excelente trabalho, todos com suas tramas paralelas e individuais, sem vínculo necessário ao protagonista, demonstrando todas as dificuldades que as pessoas que vivem nesse meio enfrentam.
    O diretor dosa bem a quantidade de violência e pornografia demonstrada, sem ser comedido demais, mas tampouco sem abusar destas cenas. Inclusive, nas mais violentas, em muitas delas consegue lidar com certo humor negro que atenua a situação, e deixa o telespectador surpreso por estar rindo em um momento tão tenso e pesado. Também nos brinda com alguns absurdos e cenas soltas que são divertidas e integram muito bem o panorama geral.
   Contudo, o filme revela-se muito longo, em alguns momentos intermináveis. Muitos personagens acabam se perdendo, entrando e saindo de cena sem qualquer explicação. Esse dois defeitos talvez sejam oriundos da mesma coisa: muitas histórias e muitos argumentos querem ser expostos, e para isso, muitos personagens, tornando difícil controlar todos de forma razoável. Isso também leva a uma incompletude de muitas histórias, que ficam sem desfechos, o que talvez proporcionasse um final mais profundo para a trama, é onde ela acaba por pecar mais.

Nota 86/100

sábado, 2 de novembro de 2013

Donnie Darko

Ficha Técnica: Donnie Darko, 2001.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Richard Kelly.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Mary McDonnell, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Berrymore, Holmes Osborne, Daveigh Chase, Patrick Swayze, Jolene Purdy, Stuart Stone, Beth Grant, Seth Rogen, Noah Wyle, Patience Cleveland.
País: Estados Unidos.
Tempo: 113 min. 
Idioma: Inglês.

     O filme tornou-se um clássico do universo cult e alternativo. Com excelentes atuações, principalmente para Jake Gyllenhaal, em início de carreira, Donnie Darko nos traz um menino com indícios de esquizofrenia, porém muito inteligente, que além de estar entupido de psicotrópicos, aparentemente é sonâmbulo.
    Dentro deste cenário, em que muitas coisas não fazem sentido, e ao final do filme você não vai entender, Donnie Darko revela-se um rapaz gentil e que questiona os absurdos impostos por normas sociais conservadores em sua pequena e pacata cidade. Ao mesmo tempo, discussões sobre viagem no tempo, somadas a um coelho gigante e assustador chamado Frank, que dá ordens a Donnie, acabamos encontrando elementos de ficção e suspense no longa.
   Há uma possível interpretação em que toda história direciona para que Donnie aceite a sua morte de forma autêntica, que seja uma escolha sua, para evitar tudo que ele presenciou em sua “viagem ao futuro”, caso não tivesse morrido com a queda da turbina em seu quarto. Mas em meio a tudo isso, temos diálogos interessantes, como com as professoras de literatura (Berrymore) e de Educação Física (Grant) e com o professor de física (Wyle). Outro papel importante é o de Patrick Swayze, que faz Jim Cunningham, pedófilo desmascarado por Donnie, com a “ajuda” de Frank.
    Desta forma, um filme propositalmente confuso, mas ao mesmo tempo intrigante, como deveria ser a mente de Donnie Darko e que nos apresenta algo original, ainda que não tão profundo, mas com mensagens diferentes, e questionando alguns aspectos das normas sociais. Não vou me estender muito, afinal, como posso divagar tanto sobre um filme que não é possível entender prontamente, mas que nos deixa reflexivos por um tempo, mesmo sem que possamos identificar o porquê.



Nota 76/100


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Ficha TécnicaWe Need to Talk About Kevin, 2011.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Lynne Ramsay.
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Ashley Gerasimovich, Jasper Newell, Alex Manette.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 112 min. 
Idioma: Inglês.

   Massacres em escolas, universidades e outros espaços de convívio público têm sido uma triste constante na história dos Estados Unidos. E a cada novo episódio desse, as mesmas questões são levadas ao debate: porte armas, música e filmes de interesse dos assassinos, bullying, o papel dos pais etc.
      Neste filme, a diretora Lynne Ramsay utiliza como base o livro de Lionel Shriver, o qual por sua vez se baseia em diferentes episódios de massacres executados por crianças e adolescentes. Contudo, o foco do filme é a vida da mãe do assassino Kevin (Ezra Miller), Eva (Tilda Swinton).
     As cenas a princípio desconexas deixam o filme um tanto quanto confuso, demorando para engrenar, o que acaba por prejudicar o envolvimento e a compreensão do telespectador. Achei oportuno a utilização deste recurso sem ordem cronológica, deixando um suspense sobre o que de fato ocorreu, ainda que já saibamos desde o início que algo grave ocorre. No entanto, a falta de linearidade não foi tão bem trabalhada, tornando as coisas muito confusas e desconexas por um tempo maior do que o adequado.
    As atuações são excelentes. Ezra e John C. Reilly (Franklin, pai de Kevin) estão ótimos. Fazem um trabalho fantástico dosando muito bem onde atuarem de forma mais incisiva ou não. Mas a grande estrela é Swinton, como a mãe que teve problemas com o primeiro filho desde que ele nasceu. Em nenhum momento ela exagera, mas percebemos sua aflição e sua angústia constantes. Uma das melhores atuações de sua carreira, sem sombra de dúvidas.
     Já o roteiro demonstra a responsabilidade dos pais sobre o assassino que criaram, mas ao mesmo tempo não os demoniza. Muito pelo contrário, mostra a dificuldade de se criar os filhos nesta sociedade doente que é a nossa, e que muitas coisas estão fora de controle deles. A permissividade do pai e o difícil relacionamento com a mãe são aspectos apresentados pelo filme como formadores desta catástrofe, mas deixando subentendido que muitas outras coisas integram esse panorama, muitas delas que ainda não entendemos. Talvez o fato de não deixar isso um pouco mais claro possa prejudicar o entendimento do filme, levando o telespectador a culpar a mãe de Kevin pelo ocorrido.
     Enfim, título mais adequado não poderia existir para o filme, com cenas muito fortes e angustiantes, em que percebemos que a relação entre mãe e filho está muito aquém do que a sociedade impõe e espera que seja, dentro de suas expectativas e seus padrões. E talvez o fato de deixar tão explícito para o telespectador, mas somente a mãe perceber isso, seja um ponto fraco do filme, mas que não o prejudica como um todo.

Nota 89/100