sábado, 26 de outubro de 2013

Gravidade

Ficha Técnica: Gravity, 2013.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Alfonso Cuarón.
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Phaldut Sharma.
País: Estados Unidos.
Tempo: 91 min. 
Idioma: Inglês.

   Havia uma grande expectativa criada em torno deste filme. No entanto, eu não compartilhava deste sentimento. Um filme de ficção científica, no espaço, com a Sandra Bullock? Onde muitos viam um imenso potencial de sucesso, eu via um grande potencial para o fracasso. E talvez exatamente por isso que minha análise possa ser ainda mais questionável, pois o filme realmente me surpreendeu de maneira positiva.
   Tecnicamente, o filme é impecável. Uma experiência extremamente sensorial em que Cuarón nos faz sentir como se estivéssemos no espaço, ou ao menos nos transmite o que é realmente (claro que dentro dos limites estruturais) uma experiência no espaço sem gravidade, oxigênio, som, dentre outros aspectos que tornam o espaço uma região extremamente perigosa. Os efeitos especiais (e espaciais) são fantásticos – o 3D é muito bem utilizado, as tomadas de câmeras com vistas para terra, em primeira pessoas, o fogo e as lágrimas e as cenas de explosões e colisões são realmente maravilhosas.
    A trilha sonora está em perfeita consonância com o restante do filme, sendo um excelente acréscimo. E as metáforas são ótimas – com destaque para as mais do que comentadas cenas da posição fetal e a cena final, desde a queda da espaçonave e todo o drama na água, até ela se levantar, como se estivéssemos presenciando o processo evolutivo da humanidade de milhões de anos em apenas alguns segundos.
    Com relação às atuações, Sandra Bullock realmente surpreendeu. Ela é responsável pela maior parte do filme, tendo conduzido muito bem todo o longa. As cenas de perigo mortal foram muito bem trabalhadas, com sua respiração e desespero parecendo bem reais e acrescentando muito ao filme. George Clooney usa de todo seu carisma e charme para acrescentar um pouco de leveza à trama, tendo em vista que era o astronauta mais experiente e o comandante da equipe. E mesmo suas conversas aparentemente despropositais em momentos de tensão atendem a duas propostas: a da realidade do filme, de ajudar a Dra. Stone (Bullock) a manter a calma; e a de apresentar a personagem aos telespectadores, sendo responsável por uma das grandes revelações do filme, quando ela menciona da morte prematura de sua filha.
    O diretor acertou em focar em apenas um personagem e meio (Clooney tem uma importante porém breve participação). Apesar de não ser um grande tratado sobre o indivíduo ou sociedade, também apresenta sua profundidade ao lidar com a personagem de Bullock. Um filme que mantém a tensão por todos os seus 90 minutos – duração esta acertada pelos produtores e diretor. Muito mais do que isso poderia prejudicar o filme, que foi executado de forma excelente.

Nota 94/100

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Curtindo a Vida Adoidado

Ficha Técnica: Ferris Bueller's Day Off, 1986.
Gênero: Comédia.
Direção: John Hughes.
Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Edie McClurg, Charlie Sheen.
País: Estados Unidos.
Tempo: 103 min. 
Idioma: Inglês.


   Curtindo a Vida Adoidado pode ser considerado um marco do cinema nos anos 1980. E mesmo não sendo um grande filme, acabou tornando-se um clássico e uma referência. Uma comédia que realmente nos faz rir e nos diverte. Que traz cenas inusitadas, quase impossíveis, e não se pretende sério em nenhum momento. E talvez essa seja sua maior qualidade.
      Com atuações memoráveis, cenas hilárias e ótima trilha sonora, o filme mostra como o aluno de colegial Ferris Bueller se dedica com afinco para poder matar aula, se divertir e não dedicar na escola durante aquele dia. As cenas clássicas da Ferrari, dos cachorros e do Desfile são conhecidas por praticamente toda uma geração.
    Ao mesmo estilo de Quero ser Grande, este longa torna-se ainda mais engraçado e melhor, ainda que, ironicamente, talvez seja menos profundo. Mas também possui diálogos inteligentes e engraçados, como o momento em que o diretor fala ao telefone pensando ser Ferris. O recurso de ter o personagem conversando com a câmera também é muito bem utilizado.
     Broderick atua com excelência no papel que iria marcá-lo por toda sua vida. Alan Ruck (Cameron), Mia Sara (Sloane) e Jennifer Grey (Jeanie) também estão excelentes, sendo essenciais para a qualidade do filme; mas o meu destaque como coadjuvante vai para o diretor Ed Rooney (Jones), que junto com Broderick e Ruck é responsável pelas cenas mais engraçadas do filme. A ponta de Charlie Sheen também é engraçada.
     Um clássico da Sessão da Tarde, como dizemos, que é sempre bom para ver e rever, pois nos diverte com sua principal qualidade: ser simples e divertido, mas sem exagerar em algum humor pastelão, ainda que o utilize. E que ao meu ver, agrada não somente aos adolescentes pelo fato de Ferris estar matando aula, mas também aos adultos, que sempre sentirão uma eventual necessidade jogar tudo para o alto e apenas se divertir de forma irresponsável. E talvez seja esta a insatisfação do diretor com Ferris, pois certamente o aluno precisa muito menos desses momentos do que um diretor de escola.

 
 


Nota 83/100

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Depois da Terra

Ficha Técnica: After Earth, 2013.
Gênero: Ação, Ficção Científica, Aventura.
Direção: M. Night Shyamalan.
Elenco: Jaden Smith, Will Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz, Glenn Morshower, Kristofer Hivju, Sacha Dhawan.
País: Estados Unidos.
Tempo: 100 min. 
Idioma: Inglês.

    Um filme como este não merece que nos prolonguemos demais. Pelo visto, M. Night Shyamalan ainda não retomou sua boa e velha forma que encontramos em filmes como O Sexto Sentido ou A Vila. Quando fui assistir a este filme, o objetivo era: quero ver um filme ruim, apenas para me distrair. Mas eis que fui surpreendido – o longa era ainda pior do que eu esperava.
      A começar pelas cenas de ações, que são patéticas. Apesar de reconhecer a falta de qualidade em filmes de franquias como Homem de Ferro ou Transformers, ao menos as cenas de ação são interessantes (e no caso do Homem de Ferro, os atores também). Como gosto de filmes apocalípticos, extra-terrestres e outros assuntos semelhantes, pensei que fosse me divertir com este. Mas o filme é péssimo; nem mesmo o monstro farejador de medo (“a ursa”) salva o filme.
   Além dos absurdos e clichês de pai e filho que assistimos, tivemos que contar com um protagonista sem qualquer carisma. O rapaz (Jaden Smith) é responsável por carregar o filme inteiro com sua atuação, mas tem poucos momentos que atinge o nível do aceitável. Até mesmo Will Smith, que costuma me agradar, optou por uma atuação que ao meu ver parecia um robô. Acredito que tenha sido a escolha para construir o personagem, mas realmente ficou ruim. Já vimos o potencial em outros filmes, e por isso a situação é ainda mais decepcionante.
    E o roteiro então, sem comentários. Para além da relação mais do que batida de pai e filho, tivemos que observar apenas os dois sobrevivendo à queda da nave, o pai com a perna quebrada e depois amputada repetindo uma cena inicial, o menino que não estava preparado de repente tornar-se o melhor soldado e um pássaro predador gigante salvá-lo por puro amor! Acredito que esses elementos sejam o suficiente para classificar o filme, no mínimo, como dispensável.

Nota 35/100

domingo, 20 de outubro de 2013

Advogado do Diabo

Ficha Técnica: The Devil's Advocate, 1997.
Gênero: Drama, Suspense.
Direção: Taylor Hackford.
Elenco: Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron, Jeffrey Jones, Judith Ivey, Connie Nielsen, Craig T. Nelson, Tamara Tunie, Ruben Santiago-Hudson, Debra Monk, Chris Bauer, Laura Harrington.
País: Estados Unidos, Alemanha.
Tempo: 144 min. 
Idioma: Inglês.

      Este filme é apontado por muitos como um clássico, outros como uma obra-prima, ou mesmo como inovador. Ao meu ver,a pesar de ser um bom filme, é superestimado ao ser avaliado de tal forma. Ele peca em muitos aspectos, alguns deles essenciais, para receber tantos adjetivos positivos.
     Começando pelas atuações, temos dois opostos: um dos maiores atores de Hollywood, Pacino, espetacular como sempre. Ele está incrível, com uma atuação forte, de acordo com seu papel. A evolução de seu personagem é muito bem trabalhada por ele, com o início mais comedido e sua revelação final. Na outra ponta, temos Keanu Reeves. Realmente gostaria de saber como ele consegue, há tanto tempo, continuar a ser escalado com elencos de ponta. E este é o primeiro ponto que enfraquece o filme. Como podemos ter um protagonista tão fraco – ele chega a ser ofuscado por Al Pacino. Se você saiu com a sensação que eles dividem o protagonismo do filme, é muito mais pela atuação de ambos do que pelo espaço e tempo de tela ou pelo personagem. Não se engane, há somente um protagonista – Kevin Lomax, interpretado por Reeves.
     Charlize Theron também faz um ótimo trabalho, sendo responsável por cenas marcantes e pesadas, principalmente o momento de sua morte, que nos causa grande desespero. O restante do elenco faz ótimo trabalho, com destaque para Jones e Ivey, a mãe do protagonista. O filme também é bem dirigido, ainda que seja um pouco longo. Talvez algumas cenas desnecessárias, mas que poderiam ser substituídas, pois mesmo sendo longo, nos prende.  
    A produção é muito boa, contando com excelente trilha sonora, bons efeitos especiais e ótima maquiagem. Hackford acerta ao evitar dar muito espaço para os efeitos especiais, deixando a tensão e emoção muito mais por conta dos diálogos e do suspense criado. O sucesso do jovem advogado que nunca perdeu um caso segue uma crescente, juntamente com a tensão do filme.
     O longa nos apresenta cenas fortes, com argumentação e questionamentos pesados inclusive sobre a religião. A cena em que Milton (Pacino) questiona a posição direta de Deus, como um sádico e piadista que se diverte ao ver o homem lutar contra seus instintos que ele mesmo criou é muito interessante, além da interpretação magistral do ator.
      Contudo, o filme também é recheado de clichês, e o final acaba por decepcionar. Busca transmitir não somente o clássico julgamento moral de evitar a ganância e prepotência, saber quando perder. Tais dilemas, ainda que presentes não somente na vida do advogado, mas de todos, são lugares-comuns no cinema. Muito mais interessante seria a discussão sobre como defender de fato o professor pedófilo, visto que todos têm direito à ampla defesa e que mesmo que culpado, ele receba uma pena justa, e não seja julgado pelo clamor popular. Um maniqueísmo prejudicial para o roteiro.
    Outra mensagem moralista é a questão da tentação constante. Ao aparecer no final do filme para conversar com o Lomax novamente, agora como outra pessoa, o filme cai na questão da moral religiosa de estarmos sempre atentos para evitar a tentação constante do mal. Algo válido, mas pouco inovador para o cinema. Essa segunda chance dada ao advogado (toda a história foi apenas “um possível” futuro), me incomoda, pois nem sempre é possível voltar atrás em nossas escolhas. O final feliz garantido continua sendo uma característica exclusiva do cinema e uma constante em Hollywood.
   Portanto, apesar de um filme interessante, nunca será um clássico. O pouco reconhecimento das premiações é uma indicação boa, ainda que os festivais também esqueçam muitas vezes dos grandes filmes. Mas este não emplacou em nenhum dos estilos, o mainstream ou o alternativo.

Nota 79/100

sábado, 19 de outubro de 2013

Dr. Fantástico

Ficha Técnica: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964.
Gênero: Comédia, Ficção Científica, Guerra.
Direção: Stanley Kubrick.
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Peter Bull, Slim Pickens, James Earl Jones, Tracy Reed.
País: Estados Unidos, Reino Unido.
Tempo: 95 min. 
Idioma: Inglês.

     Uma das melhores comédias de todos os tempos, Dr. Fantástico trata com excelente humor negro a questão do apocalipse nuclear e a Guerra Fria, durante seu auge (após a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962). A direção primorosa de Kubrick e sua excelente escolha pela trilha sonora, somado à grande atuação e roteiro fazem esse um dos melhores filmes de todos os tempos.
    Começando pelas atuações, Peter Sellers está fantástico, quase irreconhecível em seus inúmeros papéis. Obviamente, o mais interessante deles seria o Dr. Strangelove, que protagoniza algumas das melhores cenas do filme. Além disso, nos traz a ironia maior de termos, em plena Guerra Fria, após a derrotar a Alemanha Nazista, tenhamos vários de seus ex-oficiais trabalhando no governo estadunidense. Na realidade, revela-se uma crítica ao próprio posicionamento dos EUA perante o mundo no pós-guerra. Destaque também para George C. Scott, em grande atuação, bem como o restante do elenco.
   As ironias e críticas estão por toda parte: a ordem para encerrar uma briga na sala de guerra, o absurdo de não se conseguir impedir um próprio avião e a paranoia de ambos os lados com relação às táticas utilizadas pelos inimigos (como a questão da água) formam um conjunto mirabolante e inusitado de ações, mas também que nos deixa incomodados por não parecer tão impossível, ao menos para a lógica da guerra (sem entrar no mérito tecno-científico).
   As ironias com os nomes também são muito boas, bem como cenas excelentes – a do cowboy caindo montado na bomba talvez seja a mais famosa do filme. Como já mencionei aqui sobre o filme Bonnie e Clyde, que influenciaram os Irmãos Coen em seu cinema, este talvez venha a ser o melhor e primeiro filme que une humor negro e uma comédia de erros, em que absurdos possíveis determinam situações ainda mais absurdas, porém também possíveis e muitas vezes prováveis.
    Engraçado o diálogo entre o presidente dos EUA e Dmitri, em que mesmo sem ouvir o outro lado, entendemos perfeitamente o que está ocorrendo. Um questionamento importante apontado também é o poder dos militares, de ambos os lados, principalmente pelo fato de controlarem todo arsenal nuclear. Ainda que o presidente seria o único a dar a ordem, eles de fato é que executariam – e como demonstrou o filme, uma atitude individual levou ao conflito nuclear global. Essa talvez seja a crítica mais sutil implícita no filme, na relação entre as armas de destruição em massa e o real controle que temos sobre ela. Incrível que um filme tão antigo esteja tão atual, principalmente pela situação que vivemos hoje com relação à Síria.

Nota 100/100

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Grande Gatsby

Ficha Técnica: The Great Gatsby, 2013.
Gênero: Romance, Drama.
Direção: Baz Luhrmann.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Isla Fisher, Amitabh Bachchan, Elizabeth Debicki, Jason Clarke, Adelaide Clemens.
País: Estados Unidos, Austrália.
Tempo: 143 min. 
Idioma: Inglês.

     Este clássico da literatura estadunidense já foi adaptado para o cinema diversas vezes. Esta adaptação de Baz Luhrmann é a primeira que eu vejo; eu tampouco li o livro, portanto, vou analisar apenas os aspectos do filme, sem compará-lo à obra original ou aos outros filmes realizados no passado.
     O longa tem uma das características marcantes do diretor australiano – as cores vibrantes, cenas estonteantes e altamente produzidas. As festas são o melhor reflexo dessa sua característica, e se encaixam bem na trama. Nos demais momentos, são apenas distrações. Chama-se muita atenção para todo o cenário, gerando certa distração em relação aos diálogos. Tampouco foi utilizado para demonstrar o contraste entre a pobreza e a riqueza em determinadas situações. 
     O filme é longo demais, com a narrativa, feita por Nick Carraway (Tobey Maguire), dizendo exatamente o que víamos, o que no meu entendimento é desnecessário. A história demora demais a envolver o telespectador, além de não apresentar nada de original. Talvez a trama do livro de 1925 tenha sido realmente original, mas aqui, toda a agonia e o vazio das pessoas, que poderiam ser trabalhadas de forma excelente, revelam-se simples e sem interesse.

     Os atores fazem um bom trabalho – mas talvez o enredo e a direção tenham limitado algo que poderia ter sido muito maior. Mesmo DiCaprio e Mulligan, excelentes atores, não desenvolvem todo o potencial que têm. O destaque talvez tenha sido Edgerton, que tem ótima atuação.
   A trilha sonora do filme não me agradou. Muitas vezes essa combinação de músicas atuais com contextos do passado é boa, como ocorreu em Moulin Rouge, do mesmo Baz Luhrmann. Entretanto, aqui fica totalmente fora de contexto, sem deixar clara qual a intenção em se fazer isso. Um filme dispensável e demasiadamente longo. Uma decepção, principalmente em razão das grandes expectativas que se criaram em relação a ele.




Nota 76/100

domingo, 8 de setembro de 2013

Hitchcock

Ficha Técnica: Hitchcock, 2012.
Gênero: Biografia, Drama.
Direção: Sacha Gervasi.
Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Toni Collette, Michael Stuhlbarg, Michael Wincott, Jessica Biel, James D'Arcy, Richard Portnow, Kurtwood Smith, Ralph Macchio.
País: Estados Unidos.
Tempo: 98 min. 
Idioma: Inglês.

      O título do filme pode nos levar a um engano: não se trata de uma cinebiografia do famoso Alfred Hitchcock (Anthony Hopkins). Na realidade, o filme busca mostrar apenas uma parte da vida do diretor – a filmagem de Psicose, um dos maiores clássicos do mestre do suspense e do cinema como um todo. No entanto, já começa errando – com o título.
     O filme baseia-se no livro que conta os bastidores deste clássico do terror, mas acaba divergindo bastante. Ainda que nos traga alguns elementos importantes e interessantes sobre a filmagem (a compra dos livros de Psicose, a hipoteca da casa, a relação do diretor com as protagonistas etc.), ele também inventa muitas partes que não ocorreram ou que não temos registro algum. Por isso, quando não podemos acreditar totalmente no que o filme diz, acaba perdendo sua força biográfica.
      Ele aparenta trazer um maior reconhecimento para Alma Reville (Helen Mirren), esposa do diretor, demonstrando que ela teve fundamental participação em seus filmes – não apenas dando o suporte que espera-se de um cônjuge, mas também trabalhando diretamente em todos os seus filmes. Comentou-se que no livro, o papel de Alma é limitado, e que o suposto affair dela com Whitfield Cook (Danny Huston) inexiste, bem como o próprio personagem do roteirista. A relação do casal é o centro da trama, com Mirren sendo tão protagonista quanto Hopkins, mas ao fim do filme, pouco ficamos sabendo sobre eles – com algumas sugestões não trabalhadas, como o fato de não dividirem a mesma cama.
          Contudo, todas estas dúvidas levantadas e desconstruções feitas sobre o filme acabam por deixar ele pouco crível. Foi muito interessante ver os obstáculos enfrentados pelo diretor, como a censura, a empresa Paramount, a falta de recursos – todos estes elementos os quais os espectadores nunca têm acesso. E a maneira como Hitchcock estava determinado a rodar o filme, sabendo que seria um sucesso (com base principalmente no fato de matar a mocinha do filme – Janet Leigh (Scarlett Johansson) nos primeiros 40 minutos), nos mostra um pouco da genialidade do diretor. Foi curioso perceber como ele pensou o filme do começo ao fim, inclusive como deveria ser exibido, com o manual para os cinemas. E também percebemos como mesmo com tudo isso, muitas vezes o reconhecimento demora a vir – no caso de Psicose, foi instantâneo; para Um Corpo que Cai, demorou demais – no longa ainda é comentado como um fracasso.
    Entretanto, os bastidores não vão muito além do que o mencionado – mesmo a cena do chuveiro foi mostrada apenas uma vez. Gervasi fez a péssima escolha por tentar trabalhar mais o lado psicológico de Hitchcock durante as filmagens, o que sem base nenhuma sugere um certo sadismo e senilidade como características do diretor.
     As atuações estão satisfatórias: Hopkins sempre gera grandes expectativas, mas desta vez não passou do mediano, talvez pelo fato do personagem não ser tão bem trabalhado no roteiro. Mirren realmente é o grande destaque, tendo mais espaço para criar. Johansson, Stuhlbarg, Collette, Biel e outros têm pouco espaço, não podendo se extrair nada muito profundo de qualquer um deles. Ficam apenas sugestões no ar sobre como foram os bastidores do filme e o real papel de cada um deles.
     Apesar de apresentarem aspectos importantes já mencionados, ou mesmo a escolha da trilha sonora, na qual Hitchcock estava relutante em aceitá-la, e o juramento feito por toda equipe antes do início das filmagens, o filme mostra-se raso, com aquela sensação de grande oportunidade perdida.

Nota 75/100

segunda-feira, 29 de abril de 2013

12 Homens e uma Sentença

Ficha Técnica: 12 Angry Men, 1957.
Gênero: Drama.
Direção: Sidney Lumet.
Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Joseph Sweeney, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber.
País: Estados Unidos.
Tempo: 96 min. 
Idioma: Inglês.
            
      Sidney Lumet tem uma estréia fantástica no cinema. Logo em seu primeiro filme ele nos brinda com uma obra prima da sétima arte. Em 12 Homens e uma Sentença o diretor filma em preto e branco, quase inteiramente em um único cenário e praticamente sem qualquer trilha sonora. E todos esses elementos, que poderiam levar a um filme tedioso, dão mais tensão e profundidade ao roteiro, que já é excelente.

       Após um julgamento, os 12 jurados se reúnem nesta sala pequena, apertada e quente para decidirem se o rapaz acusado de matar o pai a facadas é culpado ou inocente. Caso seja considerado culpado, será sentenciado a morte. Dos 12, 11 o consideraram culpado; apenas o jurado #8 (Henry Fonda) questiona se o julgamento realmente provou de forma irrefutável que o rapaz é o assassino, ainda que não afirme que ele seja inocente.
      Partindo deste cenário, surgem inúmeras discussões que envolvem preconceito, inocência, dever cívico, dentre outros aspectos abordados. Diversos argumentos da sociedade em relação ao tema que envolve um tribunal do júri são apresentados, como a presunção da inocência, ônus da prova, dentre outros. Arquétipos de indivíduos são apresentados em cada jurado, mas sem exagerar ou caricaturizar cada um.
       A direção é fantástica – as tomadas de câmeras são ótimas, em diversos momentos no nível do rosto dos personagens, nos trazendo para dentro da sala. A ausência de trilha sonora também contribui para a imersão no assunto. As atuações estão ótimas, cada um tendo o devido tempo de tela para se posicionar; o próprio figurino ajudou a nos envolver na história – conforme eles tiravam o paletó e se envolviam, parece que sentimos o mesmo. O preto e branco também serviu para não distrair o telespectador do que realmente importava – o diálogo e as discussões.
     Outro ponto forte do filme é não termos acesso ao julgamento, nem mesmo com flashbacks. Apenas as impressões e relatos dos jurados, que vão construindo a história nas nossas mentes e nos auxiliam a formar as opiniões. Fonda também tem uma excelente atuação, equilibrando seu protagonismo, além da excelente interação com Cobb. Realmente, uma obra prima do cinema. 





Nota 97/100

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Questão de Honra

Ficha Técnica: A Few Good Men, 1992.
Gênero: Crime, Drama.
Direção: Rob Reiner.
Elenco: Tom Cruise, Demi Moore, Jack Nicholson, Kevin Pollack, Kevin Bacon, James Marshall, Wolfgang Bodison, J.T. Walsh, Kiefer Sutherland, J.A. Preston, .
País: Estados Unidos.
Tempo: 138 min. 
Idioma: Inglês.

     Nos EUA, a questão da dedicação dos militares é muito forte, e a propaganda envolvida para o apoio ao “trabalho” deles é muito grande. Basta lembrar que o exército deles é formando inteiramente por pessoas que escolhem esta carreira livremente, sem haver recrutamento. Este filme nos mostra um pouco alguns aspectos deste exército, e talvez o mais respeitado e fanático deles – os fuzileiros navais.
     Eles vivem sob alguns códigos, como o mencionado “Unit, Corps, God, country” – toda a dedicação deles é mostrada, e como são ótimos soldados que cumprem ordens. Há também um questionamento sobre esta extrema rigidez da corporação, se ela é realmente necessária, se o excesso de violência pode levar a casos como a morte de William Santiago. No entanto, quando se referem à base naval de Guantánamo e aos soldados que a guardam – estes são heróis! Cubanos estão treinados para matá-los, e eles devem proteger o muro, e por aí vai. Estes mesmos militares que mataram seu próprio integrante, mas certamente devem respeitar os cubanos que habitam o território que os EUA imoral e ilegalmente ocupam na ilha caribenha.     
     Procura-se questionar, em partes, a ideologia por trás do exército estadunidense. Na verdade, não tanto a ideologia e o patriotismo deles, apenas suas distorções – que acabam por prejudicar alguns homens de honra. E esta é uma contradição do filme: poucos homens de honra – então a base é uma instituição corrompida. Mas ela é também formada por heróis que realmente a fazem imprescindível?

     O filme conta com excelentes atuações – Cruise, Moore, Sutherland, Walsh, Pollak, Bacon. Todos estão muito bem no longa, ainda que o destaque seja Jack Nicholson, mesmo com pouco tempo em tela. Tom Cruise faz uma boa atuação, fazendo ótimo contraponto com a atuação mais “robótica” de Demi Moore. Apenas os dois réus nos trazem uma atuação mais discreta e de menos destaque. O julgamento realmente é muito interessante, ainda que se tenha em mente todas as críticas feitas acima. Ele é envolvente e bem dirigido, com excelentes momentos e que certamente enchem os olhos (e iludem) daqueles que pensam em estudar direito. 
     O fato de o julgamento também incluir uma certa investigação deixa o procedimento mais interessante. Entretanto também há um aspecto negativo no caso do tribunal – toda a preparação envolvida que nos é mostrada acaba por tirar qualquer surpresa. Eles buscam explicar, didaticamente inclusive, todos os passos que vão tomar, reduzindo o impacto de muitos momentos. O que demonstra grande habilidade de ainda envolver o espectador sem o fator surpresa. Enfim, um filme interessante, mas prejudicado pelo alto teor patriótico fanático.

Nota 79/100

sábado, 6 de abril de 2013

A Origem dos Guardiões

Ficha Técnica: Rise of the Guardians, 2012.
Gênero: Animação, Aventura, Fantasia.
Direção: Peter Ramsey.
Elenco: Chris Pine, Alec Baldwin, Hugh Jackman, Isla Fisher, Jude Law, Dakota Goyo.
País: Estados Unidos.
Tempo: 97 min. 
Idioma: Inglês.

      A ideia de reunir os principais personagens das mitologias infantis num filme de animação é ótima. A caracterização moderna atribuída aos personagens – Coelhinho da Páscoa (Hugh Jackman), Papai Noel (Alec Baldwin), Fada dos Dentes (Isla Fisher), Sandman, Jack Frost (Chris Pine) e Bixo-Papão (Jude Law) – foi muito interessante e divertida. Os efeitos especiais estão ótimos, os personagens estão engraçados e a história cheia de ação – perfeito para entreter a família.
     No entanto, ao invés de resgatar algo importante da infância e valores que teoricamente originaram estes personagens, como a praticar boas ações, a preocupação e respeito para com o outro, tais valores também foram “modernizados”. O foco nos presentes, ovos e dinheiro é muito grande – e a recompensa torna-se fruto de apenas acreditar e enfrentar os pesadelos. Há um mérito em resgatar o fato da “inocência” perdida muito cedo por parte das crianças, mas o fato do foco ser este produto capitalista gera uma contradição muito grande que enfraquece este argumento.
     Um filme direcionado para família que ocupa o final do ano com o espírito natalino – aquele das compras e do consumismo – que dificilmente passará despercebido pelas crianças, e ainda possa influenciar os pais. Ao mesmo tempo, há personagens divertidos e também algum argumento que se possa aproveitar, apesar do clichê – toda construção e transformação de Jack Frost é rápida e carregada de clichês, mas não tão danosa quanto o argumento geral.
     Os efeitos estão realmente fantásticos, com destaque para as animações e poderes de Frost, Sandman e Beau (Law). Também detalhes como as tatuagens do Papai Noel, seu trenó, duendes e ietes foram divertidíssimos. Sandman, apesar de pouco conhecido aqui no Brasil, é carismático e conquista rapidamente seus espectadores; e a personalidade do Coelho, apesar de clichê, lhe caiu muito bem. Formam um ótimo grupo - muitos consideraram um filme infantil de Os Vingadores, o que para a maioria pode ser um elogio, é na realidade lamentável, apesar de fazer muito sentido. 






Nota 67/100